Adeus
Que seja para nunca mais:
Sei teu rancor - mas contra ti
Não me rebelarei jamais.
Visses nu meu peito, onde a fronte
Tu descansavas mansamente
E te tomava um calmo sono
Que perderás completamente:
Que cada fundo pensamento
No coração pudesses ver!
Que estava mal deixá-lo assim
Por fim virias a saber.
Louve-te o mundo por teu acto,
Sorria ele ante a acção feia:
Esse louvor deve ofender-te,
Pois funda-se na dor alheia.
Desfigurassem-me defeitos:
Mão não havia menos dura
Que a de quem antes me abraçava
Que me ferisse assim sem cura?
Não te iludas contudo: o amor
Pode afundar-se devagar;
Porém não pode corações
Um golpe súbito apartar.
O teu retém a sua vida,
E o meu, também, bata sangrando;
E a eterna ideia que me aflige
É que nos vermos não tem quando.
Digo palavras de tristeza
Maior que os mortos lastimar;
Hão de as manhãs, pois viveremos,
De um leito viúvo despertar.
E ao achares consolo, quando
A nossa filha balbuciar,
Ensina-la-ás a dizer "Pai",
Se o meu desvelo vai faltar?
Quando as mãozinhas te apertarem
E ela teu lábio -houver beijado,
Pensa em mim, que te bendirei
Teu amor ter-me-ia abençoado.
Se parecerem os seus traços
Com os de quem podes não mais ver,
Teu coração pulsará suave,
E fiel a mim há de tremer.
Talvez conheças minhas faltas,
Minha loucura ninguém sabe;
Minha esperança, aonde tu vás,
Murcha, mas vai, que ela em ti cabe.
Abalou-se o que sinto; o orgulho,
Que o mundo não pôde curvar,
Curvou-se a ti: se a abandonaste,
Minha alma vejo-a a me deixar.
Tudo acabou - é vão falar -,
Mais vão ainda o que eu disser;
Mas forçam rumo os pensamentos
Que não podemos empecer.
Adeus! assim de ti afastado,
Cada laço estreito a perder,
O coração só e murcho e seco,
Mais que isto mal posso morrer.
George Gordon Byron (6º Lord de Londres)
Poética do rock português em debate
Músicos, sociólogos, jornalistas e musicólogos vão debater a poética do rock em Portugal, num colóquio que decorrerá em Abril na Universidade de Lisboa (UL) e que integrará ainda filmes na Cinemateca e concertos no Maxime.
Fonte da organização disse à agência Lusa que o colóquio decorrerá de 06 a 08 de Abril na Faculdade de Letras da UL e contará com a participação de vários músicos portugueses e estudiosos estrangeiros.
Em discussão estarão, por exemplo, o lugar da poesia na música, a relação entre literatura e música, a evolução da cultura popular, a censura, a escrita em língua portuguesa.
No colóquio, que propõe "perspectivas críticas de uma literatura menor", serão tidas como exemplo as canções de António Variações, Xutos & Pontapés, Sétima Legião, Jorge Palma, José Cid e Mão Morta.
Entre os convidados contam-se o jornalista francês Mischka Assayas, autor do livro "Bono por Bono", o crítico norte-americano Greil Marcus, que escreveu "Like a Rolling Stone", sobre Bob Dylan, e o jornalista Nuno Galopim.
Os investigadores João Carlos Callixto, Pedro Félix e António Tilly, os críticos Rui Pina Coelho e Mário Jorge Torres, o editor Luís Filipe Cristóvão e os escritores Fernando Pinto do Amaral e valter hugo mãe também marcarão presença.
Entre os músicos convidados figuram Rui Reininho, JP Simões, Paulo Furtado, Tiago Guillul e Fernando Ribeiro.
A par dos debates, está prevista uma exposição de capas de vinis portugueses na Faculdade de Letras, um ciclo de cinema sobre rock na Cinemateca Portuguesa e concertos no cabaret Maxime com Tiago Guillul (07 de Abril), Rui Reininho, Ana Deus e Regina Guimarães (08 de Abril).
"Poéticas do rock em Portugal" está a ser organizado pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Cortesia de JN
Milionésima edição do Jornal de Letras
O Jornal de Letras (JL), que saiu à rua pela primeira vez a 3 de Março de 1981, publicou hoje a sua 1000ª edição.
À Agência Lusa, o director do Jornal de Letras, Artes e Ideias desde o seu início, José Carlos Vasconcelos, declarou que o título continua activo na valorização da cultura e da língua portuguesas, mas considerou que o futuro tem de passar pela comunidade lusófona.
Hoje em dia «o papel do JL mantém-se quer pelo acervo moral e material, quer por não ter paralelo ao procurar sempre valorizar a cultura, a língua e os autores portugueses», disse José Carlos Vasconcelos.
Embora tenha nascido para «preencher uma lacuna», já que na altura «não havia revistas nem suplementos ligados à área da cultura», o JL continua a ter uma média de 12 a 13 mil compradores por edição.
«Não há paralelo ao JL, porque o jornal procura sempre valorizar a efectiva novidade e os autores que aparecem pouco nos outros meios», explicou o director.
No entanto, e numa época em que todos os grupos de media sofrem dificuldades financeiras, o JLreconhece ser necessário ganhar outra importância.
«As ameaças económicas não estão afastadas, mas espero que seja reconhecida a importância do jornal», nomeadamente «ao nível da lusofonia e do que deve ser a comunidade lusófona», disse José Carlos Vasconcelos.
Com quase 29 anos de existência, o JL teve vários momentos marcantes, mas apenas uma vez publicou uma edição extra. «Dos momentos mais relevantes faz parte o dia em que José Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura», sublinha o director, lembrando que o escritor defendeu que fosse dado estatuto de utilidade pública à publicação.
A 1000ª edição, especial, conta com textos e colaborações de figuras que foram (ou são) colunistas e colaboradores do título.
Entre os colaboradores desta edição contam-se Agustina Bessa-Luís, Alexandre O'Neill, António José Saraiva, António Mega Ferreira, David Mourão-Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Fernando Assis Pacheco, Francisco José Viegas, Guilherme d'Oliveira Martins, Inês Pedrosa, José Cardoso Pires, José Saramago, Júlio Pomar, Lídia Jorge, Manuel Maria Carrilho, Mário de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura e Vergílio Ferreira, entre outros.
O JL é detido pelo grupo de media Impresa e publica quinzenalmente informação especializada nas diversas áreas da cultura como literatura, teatro, cinema e música.
Cortesia de Lusa
BIO - Alexandre O'Neill

“Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar, aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros. É pouco como projecto? Em todo o caso, é o meu. O que vou deixando escrito, ora me desgosta, enjoa até, ora me encanta. Acontece certamente o mesmo aos outros poetas, tenham estatuto ou não. Mas comigo, talvez essa oscilação se dê com mais frequência. É que a invenção atroz a que se chama o dia-a-dia, este nosso dia-a-dia, espreita de perto tudo o que faço. É o preço que tenho pago para o esconjurar, pelo menos nas suas formas mais gordas e flácidas.”
Estas palavras ditas pelo autor na abertura do disco gravado em 1972, que acompanhava a edição do livro de poemas Entre a Cortina e a Vidraça, definem bem a atitude literária de Alexandre O’Neill – um poeta a quem repugnavam palavras como carreira, ou poses de “empolamento” características do meio literário, “certa importanticidade sumamente ridícula” de muitos escritores. A postura de desdém irónico perante a instituição literária não é senão a outra face da moeda de uma escrita poética fundamentada na recusa de qualquer misticismo, transcendência ou hermetismo tradicional, todo ocupado no tricot das palavras ou no fazer “bonito”. As palavras são “animais doentes”: a consciência trágica do desgaste da linguagem, do peso que o tempo veio acumulando sobre as palavras, transforma-a O’Neill ironicamente em jogo – tudo é reconstruído, parodiado e reaproveitado: calão, idiotismos, entoações. A representação exemplar do peso histórico da linguagem é, sem dúvida, o lugar-comum – a sua fonte predilecta de desconstrução. Neste sentido, é uma poesia do quotidiano, o que não equivale a dizer que é uma poesia realista strictu sensu. Talvez se lhe possa pôr o rótulo de realismo subversivo, um realismo transtornado por um olhar alucinado simultaneamente por Cesário Verde e pela breve mas fortíssima experiência surrealista.
“Sou parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho. Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética não há distância. A diferença será de intensidade, ou ao que se pode chamar intensidade.” O que O’Neill não revela, nesta entrevista ao jornal A Capital (2/5/1968), é qual das duas considera mais intensa: se a poesia, se a vida.
A sua vida, escreveu ele em 1983 (A Capital), “lisa, aplastada, chata como tem transcorrido, só pode ser inventada. E, seguramente, foi assim que eu passei a vida: a inventá-la.” Como era seu costume e gosto, desconversava. A vida de Alexandre O’Neill, se não profusa em bizarrias ou reviravoltas extravagantes, não foi lisa e chata quando a olhamos de fora. Utilizando uma figura de estilo que parece corresponder à sua forma mental, o oximoro – atentem-se em vários títulos da sua obra poética –, foi uma espécie de vidinha muitíssimo intensa, de tal forma que acabou cedo: aos sessenta e um anos, Alexandre O’Neill morreu na sequência de um acidente vascular cerebral. “Fiz do corpo alavanca sem pensar no futuro”, admitiu cerca de um ano antes de morrer.
Assinava O’Neill, o apelido que já seu pai usara, herdado de um antepassado irlandês fugido para Lisboa na década de 40 do século XVIII. O nome completo era Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões. Nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924.
Da infância, conservou Alexandre breves recordações: um menino triste e fechado, a espreitar a Rua da Alegria dum quarto andar; as visitas breves e marcantes da avó Maria O’Neill, escritora, sufragista, feminista, vegetariana e dedicada à causa espírita. Nas férias, a família mudava-se para Amarante, terra natal da mãe, Maria da Glória, onde o jovem Alexandre conheceu Teixeira de Pascoaes.
Na adolescência começou a ler: além da avó escritora, a família era tradicionalmente bibliófila. O pai tinha uma vasta biblioteca – antes de enveredar pela profissão de bancário, José António O’Neill frequentara o curso de Belas Artes. Ainda estudante do Liceu, Alexandre iniciou-se na escrita. Em 1942, com dezassete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Esta actividade não foi grandemente incentivada pela família. Apesar de ter recebido prémios literários no Colégio Valsassina, no final da adolescência Alexandre falhava nos estudos. Acabou por abandonar o Curso Geral dos Liceus: queria dedicar-se à vida marítima. Fez exames para a Escola Náutica, mas não prosseguiu estudos que, de resto, lhe eram impossibilitados pela miopia.
Em 1946, tornou-se escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Permaneceu neste emprego até 1952. Na verdade, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua escrita ou de trabalhos relacionados com livros – viria a ser copy de publicidade, cronista de jornal, encarregado de uma Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, tradutor e assessor literário.
Data de 1947 o seu ardente envolvimento com o Surrealismo. Depois de um verão de activas experiências e leituras, o Grupo Surrealista de Lisboa nasce de um encontro na pastelaria Mexicana, em Outubro. Será constituído por Alexandre O’Neill, António Domingues, Fernando Azevedo, Vespeira, José-Augusto França, Mário Cesariny, Moniz Pereira e António Pedro.
Entre a casa deste último e o atelier na Avenida da Liberdade de que o Grupo dispunha decorrerão as actividades e reuniões durante o ano de 1948. As posições anti-neo-realistas eram frontais e provocatórias, tal como as atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo Surrealista de Lisboa retira a sua colaboração da III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a comissão organizadora decidira aceitar.
Em Janeiro de 1949 realiza-se a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa, do qual, entretanto já se tinham afastado Mário Cesariny e António Domingues. O'Neill expôs O Sr. e a Srª Mills em 1894, Instrução Primária, De Terça a Domingo, Looping-the-loop e A Linguagem. Na mesma altura, sai nos Cadernos Surrealistas o primeiro livro de Alexandre O'Neill, A Ampola Miraculosa, com o subtítulo “romance”.
Acompanhando o seu progressivo afastamento do Grupo Surrealista de Lisboa, o poeta publica em 1951 Tempo de Fantasmas, em cujo prefácio se demarca claramente do Surrealismo. Neste primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, “Um Adeus Português”, originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar, muitos anos mais tarde. No início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani, enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência.
Conheceu O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris, O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria a ver Nora Mitrani.
Não foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE. No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece-se-lhe uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de grupos ou tertúlias, demasiado irónico e cioso do seu individualismo para se envolver seriamente em qualquer militância partidária. O seu empenho era sobretudo cultural: apreciou o trabalho nas Bibliotecas Itinerantes porque ia “distribuir livros ao povo”; gostava de traduzir poetas nas suas crónicas jornalísticas, para os mostrar ao público em geral.
De facto, a partir de 1957, começou a escrever para os jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando colunas regulares no Diário de Lisboa, n’ A Capital e, nos anos 80, no JL, escrevendo indiferentemente prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas do século XIX. Fez ainda parte da redacção da revista Almanaque (1959-61), publicação arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.
Mas foi em 1958, com a edição de No Reino da Dinamarca, que Alexandre O’Neill se viu reconhecido como poeta. Tinha entretanto abandonado definitivamente a casa dos pais, casando com Noémia Delgado, de quem teve um filho em 1959, Alexandre. Nesta época, instalou-se no Príncipe Real, bairro lisboeta onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma relação amorosa durante a década de 60. Mais tarde, em 1971, casará com Teresa Gouveia, mãe do seu segundo filho, Afonso, nascido em 1976.
Na década de 60, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções. Iniciou-se como copy de publicidade, actividade que se tornaria definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slogans publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: “Há mar e mar, há ir e voltar”.
Da sua atracção por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é testemunho a letra do fado Gaivota destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 70, em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudónimo de A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro.
Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que, apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 80, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de Constância, frequentemente com Laurinda Bom, sua companhia mais constante nos últimos anos. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital. Morreu em Lisboa a 21 de Agosto desse ano.
Quanto puderes
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.
Não a desbarates arrastando‑a,
e mudando‑a e expondo‑a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.
Constantine P. Cavafy
Ciclo de Conferências: O Fulgor da Grécia
Nas quartas-feiras dias 4, 11, 18 e 25 de Fevereiro de 2009 realiza-se o ciclo de conferências O Fulgor da Grécia: o olhar, a palavra, o gesto, sempre às 18h30 na Sala 2 da Culturgest. A entrada é gratuita. O levantamento de senha de acesso é feito 30 minutos antes do início da sessão, no limite dos lugares disponíveis, com um máximo de 2 senhas por pessoa. Mais informações contacte através do número 217905155 ou o e-mail culturgest.bilheteira@cgd.pt.
Mais do que fórmula literária, a “Aurora de dedos róseos” é verdade poética no seio da qual está uma intensa experiência de luz, ou do desejo dela. O surgimento dos seres, emergindo do fundo caótico da noite indistinta e revelando-se à luz da “Filha da manhã”, constitui radical momento de espanto por alguma coisa ‘ser’. Este desejo de luz e de ‘ser’, pela madrugada anunciado, manifesta-se no vocabulário onde a clareza da apreensão intelectual é entendida como o prolongamento inteligível da clara percepção sensível.
Nessa espantada visão colhe-se, gloriosa e inquietante, a heróica vocação do homem, frágil sopro à morte destinado, mas nobre e grande na palavra desenhada. A epopeia grega marca um ritmo primeiro do humano habitar a terra, canto de que nunca nos afastámos inteiramente.
O gesto épico, porém, torna-se sobressaltado espectador de si próprio, e a total coincidência do herói com o acto realizado acrescenta-se em distância crítica, ‘re-flexão’. A epopeia floresce em tragédia. Constrangido pela Necessidade, enredado em conflitos, culpado e inocente, assim se interroga o homem sobre si, sobre ‘quem’ é, voz da Esfinge que não deixa de nos ferir. E essa demanda não pode esquecer Dioniso, a luz sombria do ‘delírio’.
E se estes são fios com que vamos tecendo o nosso histórico caminho, oportuno é questionarmo-nos sobre o modo como os gregos viviam o tempo e percebiam a história. José Pedro Serra
José Pedro Serra é Doutor em Cultura Clássica pela Universidade de Lisboa e docente do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Lisboa, onde tem leccionado disciplinas na área do Grego, da Literatura Grega, do Teatro Antigo e da Cultura Clássica. Integra o Centro de Estudos Clássicos, onde coordena a linha de investigação sobre literatura e cultura gregas. Autor de várias conferências e artigos no âmbito da Filosofia, da Literatura e da Cultura Clássica, publicou Pensar o trágico, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian (Prémio PEN Clube e Prémio Jacinto do Prado Coelho).
11 de Fevereiro No espelho da tragédia
18 de Fevereiro Dioniso: Sol negro entre os olímpicos
25 de Fevereiro Ao tear do tempo: Atenas e Jerusalém
Terapia de escrever
De simples curiosidade a fenómeno de dimensões assinaláveis, os cursos e ateliês de escrita criativa transformaram-se, nos últimos anos, numa área em expansão crescente, com uma oferta ampla que não se esgota no Porto e em Lisboa.
"Mais baratos do que o psicanalista, embora não sejam comparticipados pela Caixa", como graceja Rui Zink, os cursos de escrita criativa ganharam uma expressão inimaginável até há poucos anos. A popularidade pode ser medida pela participação de escritores renomados, lançamento de vários livros - como os de Pedro Sena-Lino e Luís Carmelo - ou até a organização do primeiro campeonato nacional.
Motivos para tamanha pujança não faltam. Conceição Garcia, directora do ateliê Escrever Escrever, acredita que "o uso do correio electrónico, dos blogs e das mensagens por telemóvel" despertou o interesse pela escrita num número crescente de pessoas, mas destaca também "a abertura do mercado a novos escritores e a necessidade actual de formação contínua" como factores decisivos para o interesse.
Precursor, ao lado de Ana Hatherly, dos cursos de escrita criativa em Portugal, Rui Zink atribui esta necessidade "a uma sociedade fria e desalmada que faz com que as pessoas busquem cada vez mais alma". É por isso que a dimensão terapêutica da escrita surge destacada como uma das principais motivações dos cursos, à frente mesmo das ambições literárias dos participantes.
Conceição Garcia não concorda totalmente com esta ideia ("a terapia tem um lugar muito próprio que deve ser entregue a profissionais competentes"), mas admite que "escrever leva-nos a ter um novo olhar sobre o próprio e sobre os outros, o que é enriquecedor na autodescoberta e nas emoções".
"Operário da escrita", o autor vimaranense Pedro Chagas Freitas destaca também a importância da literatura (seja através da escrita ou da leitura) nesse "processo de auto-reconhecimento", gerador de "novas descobertas". No ateliê Fábrica de Escrita, dinamiza cursos que procuram ir além da vertente criativa, detendo-se também na engenharia do texto. "A grande dificuldade dos participantes é a de se encontrarem, de repente, perante aquilo que são - perante aquilo que podem, através do acto criativo, encontrar em si mesmos", defende o autor de "Mata-me", convicto de que "todos possuímos uma alma de escritores".
O crescimento da procura foi acompanhado pelo alargamento da oferta. A escrita criativa é apenas uma das largas dezenas de propostas existentes, que abrangem os argumentos para cinema, televisão, BD e teatro, as aulas de Português ou até, para os mais românticos, as fórmulas exactas para as cartas de amor.
Mesmo com os progressos registados nos últimos anos, Pedro Sena-Lino, escritor e director da Companhia do Eu, considera que o essencial continua por fazer. "Ainda temos escrita criativa como cátedra ou como mero curso de 'vamos partilhar coisas lindas'. Deveríamos criar uma escola própria, que resolvesse alguns dos problemas frequentes da nossa literatura, que são a falta de enredo ou o excesso de uma construção frásica com uma herança barroca reumática", critica.
Cortesia de JN
CITAÇÃO - John Keats
Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.
Dúvida
com quem vai dormir o moço garboso;
mas sei muito bem, de mui certa ciência,
que não é sozinho que à noite se deita.
Autor Desconhecido
Poe nasceu há 200 anos
A 19 de Janeiro de 1808, nascia em Boston Edgar Allan Poe. Poe. O escritor americano ficou conhecido pelos seus contos góticos e negros. Para além da escrita, foi também crítico literário e editor.
Autor do famoso poema “O corvo”, Poe notabilizou-se com contos e poemas de mistério como “A queda da casa de Usher”, “Os assassinatos da rua morgue” ou "O gato preto", entre outros.
Foi também pioneiro em vários géneros literários, como a ficção científico ou literatura policial.
Edgar Allan Poe foi apenas reconhecido postumamente, muito por causa de escritores europeus, como Baudelaire ou Pessoa, que traduziram as suas obras.
Para celebrar o bicentenário do nascimento do autor, o Edgar Allan Poe Museum, em Richmond, Virgínia, iniciou uma jornada de 24 horas, que terá uma vigília com velas, leitura de poemas e também uma visita ao museu.
Cortesia de O Público
LIVRO RARO - Os escravos
ALVES, António de Castro. Os escravos. Poesias. Lisboa: Tavares Cardoso e Irmão, 1884. 8°.
Este volume inclui dois dos mais incríveis poemas de Castro Alves, "Vozes d'Africa" e "O navio negreiro,". O trabalho agora conhecido e publicado como Os escravos foi editado depois da morte de Castro Alves, originalmente em dois poemas separados. Vozes d'Africa e O navio negreiro sairam no Rio de Janeiro em 1880. Vários poemas de menor importância surgiram em edições posteriores a estes trabalhos.
Castro Alves (1847-1871), nascido no Curalinho, Bahia, é inquestionavelmente o maior poeta romântico brasileiro e o líder do expoente dos temas sociais do Brasil Romântico. Ele tem sido classificado como o melhor poeta lírico que o Brasil alguma vez produzira, e as suas obras têm sido publicados mais do que qualquer outro poeta brasileiro.
Esta noite a tua boca é a mais bela rosa do universo
Bebo para afogar este pesadelo
Que o vinho seja rubro como as maçãs do teu rosto
E os meus versos tão leves como os anéis dos teus cabelos
Omar Khayyam
Jen Hadfield ganha Prémio T.S. Eliot
Cortesia de Diário Digital
III Edição do Prémio Jovem Literário Luiz Teixeira
Com o objectivo de promover e estimular a criação literária, a autarquia das Caldas da Rainha lançou a III edição do Prémio Jovem Literário Luiz Teixeira que este ano surge com algumas inovações.
Este prémio passa a integrar-se numa iniciativa mais abrangente de promoção criativa, denominada “Prémios Rainha”, numa alusão à fundadora das Caldas, Rainha D. Leonor, e igualmente promotora das artes.
É a primeira vez que o concurso é de âmbito nacional, sendo que os vencedores das categorias verão as suas obras publicadas e no circuito de venda, uma vez que pela primeira vez existe uma editora associada, a Livrododia. Assim sendo, nas categorias de Poesia e Prosa podem concorrer, a nível nacional, pessoas até aos 30 anos de idade.
As obras terão de ser apresentadas em língua portuguesa, originais e inéditas, não podendo ter sido premiadas noutros certames. O tema é livre, não se permitindo traduções nem adaptações. Os concorrentes têm três meses, desde a publicação do regulamento, para entregar as obras que podem ser entregues ou enviadas pelo correio para Câmara Municipal das Caldas da Rainha Praça 25 Abril 2500-110 Caldas da Rainha, contendo os dados essenciais para identificação do autor, incluindo um breve curriculum. Cada autor poderá apresentar só um trabalho por categoria.É estabelecido um prémio a cada categoria, sendo 300 euros para Poesia e 300 euros para Prosa. O júri nomeado pela entidade organizadora será constituído por um elemento da Câmara Municipal, por dois escritores de reconhecido mérito do Concelho das Caldas da Rainha, um elemento da Universidade Autónoma de Lisboa, um membro da livraria Livrododia, um elemento de uma livraria das Caldas da Rainha, um elemento da Associação Portuguesa de Escritores.
A criação dos Prémios Rainha visa também criar um conjunto de actividades sob forma de “workshops” e oficinas com objectivo de fornecer ferramentas indispensáveis para o acto de criação em diversas áreas, tais como a escrita, escultura, pintura, entre outras. A próxima actividade agendada é uma oficina de escrita criativa.
Normas de Participação
1º O prémio literário pretende estimular o aparecimento de novos valores, homenageando, simultaneamente, o grande jornalista e escritor que foi Luiz Teixeira.
2º a) Podem concorrer a este prémio todas as pessoas, até aos 30 anos de idade que pretenderem, desde que o texto esteja escrito em português;b) Os vencedores do “I e II Prémio Literário Luíz Teixeira”, não poderão concorrer nas mesmas categorias em que foram vencedores.)
3º Os premiados na edição anterior, não poderão concorrer na categoria em que foram distinguidos.Categorias
4º No prémio literário serão distinguidas as categorias de “poesia”, “prosa”
5º Na categoria de “conto”, o texto poderá ser entregue isolado, ou ainda como colectânea, valendo assim como um todo. Este deverá ter no mínimo vinte páginas e no máximo quarenta páginas.
6º Na categoria de “poesia”, o texto deverá ter em conta o termo “obra”, sendo esta composta por diversos poemas. Este deverá ser composto no mínimo por cinquenta versos e no máximo por cem versos. Este deverá ter entre trinta a cem páginas.
7º Na categoria de “prosa”que poderá ser aberto a conto ou romance o texto deverá ter apenas um título, não se podendo incluir várias obras no mesmo texto. Este deverá ser composto no mínimo por quarenta páginas e no máximo duzentas páginas.Forma
8º As obras apresentadas terão que ser originais e inéditas, não tendo sido premiadas noutros certames. O tema será livre, não se permitindo traduções nem adaptações.
9º As obras concorrentes deverão respeitar as seguintes práticas gerais:1. Virem dactilografadas a dois espaços, ou em computador, em folhas de formato A4, letra 12, em envelope lacrado;2. Virem devidamente agrafadas e encadernadas, trazendo na capa o título da obra e pseudónimo do autor;3. Serem enviadas em triplicado;4. Ser entregue em formato digital (CD – Ficheiro PDF)5. Serem entregues ou enviadas pelo correio para Câmara Municipal das Caldas da Rainha Praça 25 Abril 2500-110 Caldas da Rainha, contendo os dados essenciais para identificação do autor, incluindo um breve curriculum.
10º Cada autor poderá apresentar só um trabalho por categoria.
11º Por autor entende-se quem assina em nome próprio, ou quem assine com pseudónimo, sendo, neste caso, apenas aceite um pseudónimo por categoria.Prémios
12º É estabelecido um prémio a cada categoria, sendo 300 euros para Poesia e 300 euros para Prosa. As obrigações fiscais que derivam do prémio serão, única e exclusivamente, da responsabilidade do autor. Este prémio será indivisível;
13º Se o júri considerar que nenhuma das obras tem qualidade suficiente para receber o prémio, este não será atribuído.
14º A entrega do prémio será efectuada em local público com prévia notificação do mesmo.
15º Nada impede, a que a um autor sejam atribuídos vários prémios, tendo estes que ser em categorias diferentes.
16º Aos autores vencedores, por categoria receberão o valor determinado do prémio mais 25 exemplares do livro como Direitos de Autor Referentes à Primeira Edição do Mesmo.Em todas as edições que se realizarem da obra vencedora deverá aparecer obrigatoriamente em lugar destacado no interior a seguinte legenda: “Obra vencedora do prémio Jovem literário “Luiz Teixeira” edição 2009, atribuído pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha”.
17º Os originais das obras premiadas serão propriedade do Município.
18º As obras não premiadas poderão ser levantadas pelos autores na Câmara Municipal até dois meses após divulgação da deliberação do júri, prazo no fim do qual passarão a ser propriedade do Município.Admissão de Trabalhos
19º a)O prazo de admissão das obras será o nonagésimo dia (90 dias) (inclusive) desde da publicação do presente regulamento. b)Não se aceitam as que forem apresentadas fora deste prazo. c)As que forem enviadas pelo correio entende-se como data de entrega a que figurar no carimbo do correio. d) Caso o dia de limite de entrega seja um domingo ou feriado, a data será o dia posterior à data limite de entrega.Júri
20º O júri nomeado pela entidade organizadora será constituído por um elemento da Câmara Municipal, por dois escritores de reconhecido mérito do Concelho das Caldas da Rainha, um elemento da Universidade Autónoma de Lisboa, um membro da livraria Livrododia, um elemento de uma livraria das Caldas da Rainha, um elemento da Associação Portuguesa de Escritores
21º As deliberações do júri serão tomadas por maioria.
22º O prémio não deverá ser atribuído exaequo, nem serão atribuídas menções honrosas.
23º O júri poderá não atribuir o prémio, se entender que as produções não possuam o nível exigido.Disposições finais
24º O não cumprimento do enunciado nestas Normas de participação levará à exclusão da participação neste prémio literário.
25º Os casos omissos nestas normas de participação serão resolvidos pela entidade organizadora. Das decisões do júri não haverá recurso, uma vez que este se rege pelo princípio da boa-fé.
Como tu...
pedra,
como tu. Como tu,
pedra pequena;
como tu,
pedra leve;
como tu,
canto que rodas
nas calçadas
e nas veredas;
como tu,
calhau humilde dos caminhos;
como tu,
que em dias de tormenta
te afundas
no lodaçal da terra
e depois
feres lume
sob os cascos
e os rodados;
como tu, que não serviste
para seres pedra
de um palácio de bolsa,
nem pedra de um tribunal,
nem pedra de um solar,
nem pedra de uma igreja;
como tu,
pedra acentureira;
como tu,
que talvez sirvas
só para uma funda,
pedra pequena
e
leve...
León Felipe
Encontro de Lusitanistas
Numa iniciativa do Instituto de Românicas da Universidade de Viena e do Centro de Língua Portuguesa / Instituto Camões, terá lugar no dia 23 de Janeiro de 2009 na universidade da capital austríaca um encontro de lusitanistas em que se abordarão diversos aspectos ligados à lusofonia.
Participarão docentes das universidades de Viena, Salzburgo, Bratislava e Santiago do Chile, que farão alocuções sobre comunicação social, literatura, lexicografia e sociedade.
Cortesia de IC
Exposição Internacional: Iluminações Descontínuas

A luz irrompe onde nenhum Sol brilha
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as sas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno:
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
Dylan Thomas
Poeta Hikmet de regresso à cidadania Turca
A Turquia anunciou esta segunda-feira que vai devolver a cidadania ao poeta turco Nazim Hikmet, que foi processado por ter posições de esquerda e que morreu no exílio em Moscovo, em 1963, depois de ter sido declarado traidor.
Hikmet, cujos versos revolucionaram a poesia turca nos anos 30, é considerado o maior poeta turco do século XX. Artistas turcos, incluindo o Prémio Nobel de Literatura Orhan Pamuk, dizem há muito tempo que o caso dele é exemplo da repressão movida pela Turquia contra os intelectuais.
O poeta, cuja obra chegou a ser proibida no seu país e que foi traduzida para 50 línguas, passou anos na prisão na Turquia e, em 1959, foi destituído da sua cidadania turca por ser comunista.
Cortesia de Agência Reuters
5 séculos de cultura em digital
Cerca de 1200 documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos vão estar disponíveis a partir de quinta-feira, na Biblioteca Digital Camões, anunciou o Instituto Camões. A Biblioteca albergava já importantes documentos históricos, mas de acesso condicionado.
A partir de depois de amanhã, passarão a estar acessíveis, sem restrições, cerca de 1200 testemunhos culturais, incluindo textos literários, pautas musicais, ensaios, poemas e estudos científicos.
Estarão igualmente disponíveis para consulta textos de grandes autores portugueses falecidos há mais de 70 anos (autores no domínio público). Na óptica do Instituto, "esta nova ferramenta em linha revela-se de importância decisiva para uma comunidade linguística com mais de 220 milhões de falantes".
Cortesia de JN
Faleceu Inger Christensen
A poetisa dinamarquesa Inger Christensen, frequentemente citada entre os escritores candidatos ao Prémio Nobel da Literatura, morreu, aos 73 anos, anunciou nesta segunda-feira a editora responsável pela publicação de seus livros em seu país natal, Gyldendal.
"Morreu na sexta-feira, 2 de janeiro", anunciou uma porta-voz da editora, Gitte Larsen, sem especificar a causa e o local do falecimento.
Nascida em 16 de janeiro de 1935, em Vejle (oeste da Dinamarca), professora de Literatura, Inger publicou seus primeiros livros de poemas em 1962, intitulado "Lys" ("Luz"), e 1963, sob o título "Graes" ("Grama"), para depois se dedicar a ensaios, romances e livros infantis.
Era uma das figuras literárias da Dinamarca mais conhecidas no exterior, e sua obra recebeu vários prêmios internacionais. Uma de suas antologias poéticas, "Sommerfugledalen" ("Vale das borboletas"), de 1991, é considerada pela crítica como sua obra-prima.
"Tirou do mundo estéril e, com frequência, monótono da poesia sistemática uma riqueza de entonação única, utilizando um sistema impessoal para formular uma poesia muito pessoal", comentou o professor Erik Nielsen, da Universidade de Copenhague.
Membro da Academia Dinamarquesa desde 1978, da Academia Européia de Poesia (1996) e da Academia der Künste, de Berlim (2001), conquistou o prêmio nórdico da Academia Sueca (1994) - também conhecido como "o pequeno Prêmio Nobel" - e o Grande Prêmio das Bienais Internacionais de Poesia (1995).
Quem deixará, do verde prado umbroso
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?
Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,
por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?
Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.
Miguel de Cervantes
(Tradução de Anderson Braga Horta)