N.º 10 Revista Triplov de Artes, Religiões e Ciências

Já está online o novo número da Revista Triplov de Artes, Religiões e Ciências. O n.º 10, primeiro da série de 2011, é inteiramente dedicado ao Brasil. Conta com a participação de Annabela Rita, Nicolau Saião, Floriano Martins, Madu Dumont, Maria Estela Guedes, Adílio Jorge Marques, Carlos A. I. Filgueiras, entre outros. 

N.º 10 Triplov

Floriano Martins entrevista um poeta chamado Lêdo Ivo

De regresso ao Brasil, Lêdo me enviou seus livros e avançamos em nosso diálogo, sempre me inquietando o fato de que sendo autor tão reconhecido nos países vizinhos não gozasse do mesmo prestígio no Brasil. Em 2009 recebi convite da Casa das Américas, para ir a Cuba integrar o júri de seu famoso prêmio literário. Ao encontrar entre os livros inscritos a poesia de Lêdo Ivo, percebi a oportunidade que se abria, espécie de acaso objetivo que nos daria então a honra de premiá-lo através de um livro seu inscrito, Réquiem, livro este que inclusive vinha de duas belas edições no exterior, precisamente no México e na Itália.

Posteriormente o poeta ganharia também o Prêmio de Poesia do Mundo Latino Victor Sandoval (México, 2008) e Prêmio Rosalía de Castro (Espanha, 2010). Publicado em países como Espanha, Dinamarca, Itália e Estados Unidos, assim como, em países hispano-americanos, Chile, Venezuela, Peru e México. A seguir, uma breve conversa nossa sobre alguns aspectos de sua vida e da literatura brasileira.

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FM Há uma observação que fazes a respeito de tua avó materna, no sentido de que ela “era uma católica praticante: um catolicismo ortodoxo, jamais baianizado”. Sempre me pareceu que a literatura no Brasil foi profundamente prejudicada pela interferência católica. Bem entendido: do catolicismo adotado por nossos escritores e intelectuais. Figuras determinantes como Alceu Amoroso Lima e Mario de Andrade quando menos propiciaram um fio de alta tensão entre o que chamas de catolicismo ortodoxo e baianizado, reorientando a vocação poética de muitos de nossos escritores, interferindo na própria configuração cultural do país. Qual a extensão de um prejuízo dessa natureza, em teu entendimento?

LI Não creio que “a literatura no Brasil foi profundamente prejudicada pela interferência católica”. Como todos os países do Ocidente, o Brasil, como civilização, é uma criação do Cristianismo, cuja maior obra é a própria Europa. Foi o Cristianismo que colonizou a América, deixando marcas imperecíveis em sua educação, arquitetura, música, pintura, modo de viver e de morrer etc. Esse impacto civilizatório, destruindo em muitos casos civilizações milenares, como as maia, asteca, inca, modelou o sistema de educação e de produção literária e artística. O Brasil, desde o dia de sua “descoberta”, com a Primeira Missa, seguiu e segue esse caminho.

Cabe destacar que, no século xix, a inteligência brasileira em sua maioria seguiu o caminho do Positivismo, e recebeu influências de Darwin e Spencer, neutralizando poderosamente o selo católico da nossa civilização, a qual se caracterizava pelo fato de o catolicismo ser a religião oficial do país. Além do mais, cumpre sublinhar que essa nova direção literária e artística se disseminou no século xx. O grupo católico (Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Otávio de Faria, Tasso da Silveira e tantos outros) representa essa projeção de espiritualidade, numa literatura de forte conteúdo regionalista, paisagístico e de escassa interrogação existencial. Hoje, com a expansão dos evangélicos e das religiões e seitas africanas, a influência católica, quer a temporal, quer a espiritual, diminuiu sensivelmente, e são raros os escritores brasileiros aos quais se poderia considerar “católicos fervorosos” ou atuantes. Na imensa maioria, eles, como os pintores e músicos, são católicos históricos e tradicionais (herdeiros de tradições domésticas) “livres-pensadores” ou declaradamente ateus.

Deve ainda ser acentuado que a literatura não é um caminho único, e a comunidade literária se irradia em várias e numerosas famílias espirituais, tanto no plano estético como nos planos político e moral.

FM Bem, não podemos esquecer que o projeto modernista de nacionalizar o Brasil tinha forte conotação católica, cujos desdobramentos conduziram ao integralismo. Benjamin Moser, na biografia de Clarice Lispector, por exemplo, ao referir-se a Plínio Salgado, observa que “como muitos integralistas, Salgado era fortemente influenciado pelos escritores católicos que emergiram nos anos 1920, com suas sugestões de nacionalismo místico”. Havia então a presença da revista A Ordem, dirigida por Augusto Frederico Schmidt, em um ambiente onde se confundiam aspectos como a chamada escola introspectiva, nacionalismo místico, integralismo, em uma mesma sala frequentada por Tristão de Athayde, Mário de Andrade, o próprio Schmidt, Plínio Salgado, ambiente que em dado momento chegou a estar sob a coordenação impositiva da Agência Nacional e Lourival Fontes, o super-homem de Getúlio Vargas no comando do Departamento de Imprensa e Propaganda. Ainda me refiro ao Benjamin Moser, ao dizer que “a fé católica de muitos desses escritores levou alguns deles a se associar, em geral temporariamente, ao integralismo, e a defender certas propostas reacionárias, como a militância de Vinicius de Moraes em favor do cinema mudo”. Quando passamos à Geração de 45, o que muda nessa relação com o catolicismo?

LI Não creio que o projeto modernista de nacionalização do Brasil tenha tido “forte conotação católica” como você afirma. Esse projeto se inspirou em elementos indígenas e folclóricos, como o comprova o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade e a redescoberta do barroco mineiro por Mario de Andrade, o qual era, aliás, um católico tradicional. E a esses elementos de ancestralidade se acrescentou um tempero de vanguardismo europeu, especialmente o sentimento da velocidade haurido no futurismo de Marinetti. Observe-se que os modernistas de São Paulo ignoravam o Nordeste brasileiro e o viam de longe com olhos turísticos. E de “turistas aprendizes”, para usar aqui uma expressão afortunada de Mario de Andrade. Plínio Salgado, com os romances em que se utiliza de um processo de fragmentação da narrativa, e uso imoderado da elipse e do laconismo, é um seguidor e discípulo de Oswald. Como é um discípulo incômodo, dada a sua condição de criador do Integralismo (o chamado “fascismo caboclo”), a crítica e os estudiosos do Modernismo sempre esconderam essa evidência, omitindo seu nome ou menosprezando-o, com a exceção notável de Wilson Martins que, em sua monumental História da Inteligência Brasileira, chama a atenção para a importância seminal de O Estrangeiro no cenário da nossa ficção. Quanto a Vinicius de Moraes, ele foi uma descoberta de Otávio de Faria, que lhe dedicou parte do livro Dois Poetas (o outro é Augusto Frederico Schmidt). Otávio de Faria, autor de um incômodo e instigante ensaio Machiavel e o Brasil, em que denuncia as nossa misérias políticas, influenciou profundamente Vinicius de Moraes em sua primeira formação marcada pela sua simpatia pelo fascismo. Eram amigos íntimos e ocorreu entre ambos uma relação homossexual que foi apagada quando Vinicius se tornou um dos expoentes da esquerda e do comunismo de salão. O seu interesse pelo cinema mudo veio de Otávio de Faria, criador do Clube Chaplin, quando estudante da Faculdade Nacional de Direito. Nada teve a ver com o catolicismo. E há uma retificação que deve ser feita: Otávio de Faria nunca foi integralista. Ele foi fascista, assim como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade foram comunistas, e Rachel de Queiroz foi comunista e depois trotskista num tempo em que a intelectualidade em sua maior parte não acreditava na Democracia, considerando-a o regime da burguesia conservadora e infensa às grandes reformas políticas sociais e econômicas. E além do mais, o Brasil de 1930 até 1945 foi governado pelo estadista autoritário, centralizador e ditatorial Getúlio Vargas, e na Europa imperavam o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini, o franquismo do generalíssimo Franco e várias ditaduras sul-americanas dominavam a América.

Evidentemente que a inclinação dos escritores católicos ou de famílias tradicionalmente católicas era pelo fascismo e o integralismo. (“Deus, Pátria, Família”, era o lema do integralismo. Os integralistas envergavam uma camisa verde com um sigma que os distinguia, como os nazistas e fascistas).

Quando a Geração de 45 emerge, finda a Segunda Grande Guerra com a derrocada do nazismo e do fascismo, o debate político passa a um segundo plano. Pelo menos no seu início, essa geração será formalista e esteticista, preocupada com a “reconstrução” da poesia e da literatura brasileira. O nacionalismo modernista será substituído por um subjetivismo crescente e por um cosmopolitismo de natureza atualizadora. É o tempo da descoberta de Rilke, T. S. Eliot, Paul Valery, Mallarmé, Ezra Pound, Saint-John Perse, Ungaretti e outros, que substituíram as devoções modernistas. E estas eram Apollinaire, o futurista Marinetti e o Blaise Ceadrars que Oswald de Andrade praticamente depenou em seu Pau- Brasil. Uma coisa singular é que o Modernismo, teoricamente programado para proceder a uma atualização da literatura brasileira, foi um dos movimentos mais desatualizados e desinformados em relação às revoluções estéticas que então se operavam na Europa e nos Estados Unidos. No grande banquete dos ismos do século XX, alimentou-se de migalhas.

FM Estamos de acordo que “uma luz impostora ilumina todas as vidas”. Evidente que não significa com isto falsear a realidade de forma canalha, mas antes reconhecê-la como uma mescla de razões e desrazões, anseios e decepções, impulsos e repetições, essências e trivialidades. Como a poesia te descobre? O que sabias de ti quando começaste a escrever?

LI Ao longo de minha trajetória literária, tenho me manifestado talvez exaustivamente sobre a criação poética e a poesia. E decerto essas manifestações haverão de ser sempre fragmentárias e incompletas. Para mim, a poesia é uma manifestação da criatividade humana; uma arte – a arte de fazer versos; o uso supremo da linguagem, já que ela é uma magia verbal, um “idioma” específico dentro da linguagem não só a comum como também da linguagem literária da prosa; um testemunho da condição humana; uma celebração do Universo pelo homem. Dentro desse quadro imemorial, que proclama a necessidade humana de exprimir-se (inventando e documentando a passagem do tempo e a sua experiência pessoal), cumpre sublinhar, com a necessária ênfase, que a Poesia resulta de uma vocação individual e intransferível, que se realiza e se aprimora através do trabalho, da pesquisa, da experimentação e da capacidade de renovação diante da tradição. O poeta nasce poeta e se faz e é feito pela cultura que consegue incorporar ao seu ofício. E ele é apenas um elo no grande sistema poético do mundo, um grão de poeira numa tradição que vem do início do mundo e haverá de continuar enquanto este nosso planeta existir. Isto porque há algo, no mundo e sobre o mundo, que só a linguagem poética tem condições de exprimir. Há algo, no homem, do homem e para o homem, que só o poeta tem condições de dizer, através de e com a sua linguagem.

Quando comecei a escrever na adolescência, nada sabia de mim, a não ser que desejava ser um poeta e escritor, e colocar a minha poesia e a minha prosa a serviço dos homens, o que significa colocá-la a serviço da vida e até da mudança do mundo, já que a mim me doíam e me doem a miséria e a injustiça, a desesperança e a morte.

O importante é que o escritor ou poeta projete em sua obra a sua experiência, aquilo que Rubén Darío chama de “o tesouro pessoal”. E converta essa experiência numa linguagem inconfundível.

FM Quais, aos olhos de um poeta brasileiro, seriam as verdadeiras provas da realidade?

LI A realidade é sempre uma visão pessoal da realidade. Cada um de nós tem a sua, e trabalha com ela ou para ela. É, assim, uma representação, um modo de ver. Entendo que cada poeta, desde os mais exponenciais aos mais modestos e obscuros, projeta em seus poemas uma determinada visão da realidade, do mundo em que respiram, da vida que levam. Para mim, até o sonho e a “alienação poética” são realidades, pois se integram na vida pessoal do poeta e em sua produção. Direi que a visão que tenho do mundo é a minha realidade. É talvez ou decerto uma realidade pessoal, intransferível, mas nela cabem ou devem caber as realidades dos outros. Goethe diz que os homens são seres coletivos. Isto significa que não somos sozinhos nem estamos sós. Somos nós e os outros. Os outros de hoje e os outros de ontem.

FM Entendes que o cosmopolitismo da literatura brasileira é uma farsa? Como nos relacionamos com grandes centros canônicos e não com a grandeza natural da cultura em cada país, que outro Brasil tens descoberto à sombra dessa máscara?

LI Partamos do princípio e da evidência de que nós, escritores latino-americanos, somos seres divididos entre o nosso indigenismo e a nossa ibericidade. Como todos os países periféricos que constituem a América Ibérica (à qual o Brasil pertence), temos uma língua e uma etnia europeias (o espanhol, o português) e somos os herdeiros ou usufrutuários de uma cultura transplantada e da cultura autóctone. E a essas culturas se soma a cultura milenar que nos veio da África À cultura transplantada – literatura, música, arquitetura, educação, culinária, modo de viver e de morrer etc. – conferimos um selo nacional que é a nossa diferença decorrente do nosso indigenismo. O chamado “cosmopolitismo” de parte da literatura brasileira – como de resto a dos outros países como Cuba ou México, Chile ou Argentina – testemunha a nossa ligação transatlântica com a Europa, que, como centro inarredável de tradição e laboratório de experimentação e invenção, atrai a nossa atenção, nos abastece com o seu saber e a sua criatividade e contribui para o nosso aprimoramento. E se funde com o que temos de telúrico e nativo, do nosso chão. Atualmente, podemos vangloriar-nos de que a produção literária e artística na América Ibérica já atingiu um ostensivo grau de autonomia e independência, não pelo que recebemos ou imitamos, mas pelo que criamos e inventamos. A América Latina se tornou a pátria da imaginação e da criatividade, cada vez mais apreciada pelos estudiosos, críticos e leitores de uma Europa que atravessa um período da ostensiva exaustão, após tantos movimentos renovadores como o simbolismo, o surrealismo, o cubismo, o futurismo, o expressionismo e outros. A presença de escritores latino-americanos no fluxo editorial europeu, e ainda a sua presença nos festivais e congressos realizados na Europa, indica que cada vez mais estamos sendo reconhecidos pela nossa diferença e originalidade. Com a sua explosão imaginativa, a diversidade artística, o seu ímpeto testemunhal e documental, a sua diversidade artística e a sua originalidade manifesta, a literatura, hispano-americana é cada vez mais apreciada e aplaudida na Europa. Ostentamos, ainda, uma “irracionalidade” e uma “magicidade” que, pela sua dimensão onírica, primitiva e arcaica, é outra fonte de atração.

FM O tempo envelhece o criador ou a criatura?

LI Há poetas e escritores que dão o melhor de si mesmos na juventude ou na maturidade, e decaem ou se tornam repetitivos à medida que envelhecem. Outros há que se inovam e dão o melhor de si mesmos na idade madura e na velhice. É um quadro variado. O importante é que o poeta ou escritor descubra o momento em que deve silenciar, se é que ele deve silenciar em algum instante de sua vida.

FM Na pg. 132 do teu livro de ensaios O Ajudante de Mentiroso mencionas a tua insularidade como elemento responsável pelo que chamas de “talvez incômodo ar de estrangeiro no cenário das letras brasileiras”. Restringes a uma inveja crônica a relutância do meio literário em relação à tua obra e até mesmo à tua pessoa. O caso se explica assim mesmo, de maneira tão provinciana?

LI No meu caso pessoal, a minha “insularidade” decorre da circunstância de ser originário de Alagoas, no Nordeste brasileiro – uma região que se caracteriza pela sua beleza oceânica e litorânea, pela miséria clamorosa da maior parte de sua população. Acrescente-se a essas evidências a minha solidão, já que, antes de mim, minha terra natal só produziu dois escritores de projeção nacional, Graciliano Ramos e Jorge de Lima. A esses elementos, acresce o fato de ter seguido, no meu ofício literário e poético, um caminho que atesta irrefutavelmente a minha diferença em relação à minha geração e talvez ao próprio legado cultural do Brasil. Costumo dizer que os escritores são constituídos pelo talento (quando o têm) e pela inveja (sempre). Mas esta minha frase deve ser acolhida mais como uma boutade. Embora a vida literária seja um ostensivo domínio de competição e conflitos, e espelhe as virtudes e vícios da condição humana, é também o território de uma convivência harmoniosa. Ao longo do meu trajeto de escritor, muitas mãos, algumas gloriosas, se têm estendido para mim, apoiando-me e abrindo-me caminho. E, de minha parte, tenho procurado proceder da mesma maneira. Minha vida tem sido um estuário de amizades. E também de admiração. Sei admirar.

De qualquer modo, sinto-me um sobrevivente, já que atravessei vários movimentos poéticos sem aderir a eles – o que não foi o caso de grandes poetas empenhados em obter o aplauso ou a cumplicidade dos jovens – e assisti ao sumiço e naufrágio desses movimentos. Confesso que sou muito cioso de minha diferença, a qual se projeta no meu trabalho e na minha maneira de conceber a literatura e a poesia, e deve constituir o meu selo pessoal de poeta e escritor, o que me distingue dos meus queridos confrades.

FM Outro dilema curioso que encontramos na literatura brasileira diz respeito a este seu aspecto livresco – uma literatura “que só sabe respirar o ar abafado dos livros” –, como tão bem mencionas. O escritor brasileiro, em geral, rejeita a si mesmo como elemento constitutivo da relação – que só se realiza, por sinal, de maneira visceral – entre realidade e literatura. Há o prejuízo imediato da superficialidade e um outro, por efeito de decorrência, de ausência de diálogo com as grandes correntes internacionais. Apontamos aqui as resultantes – teu diagnóstico é perfeito, ao dizer que esta literatura “não pode fazer a leitura do mundo” –, porém, qual é a matriz em que se origina este desvio?

LI Um escritor deve ser livresco e antilivresco. Deve ser guiado pela evidência de que a literatura e a poesia são problemas de cultura e não de mera sensibilidade. Um poeta, a meu ver, deve ser o protagonista mais culto da comunidade literária, devendo conhecer um legado que vem de Homero a Dante, de Virgilio a Camões, de Quevedo a Shakespeare e se estende até os nossos dias. O conhecimento de outras línguas é para mim fundamental, já que a tradição cultural da língua portuguesa era insuficiente para as minhas necessidades de expressão e educação cultural. Já o espectro da língua espanhola é diferente. Você pode ser um grande poeta ou romancista em língua espanhola sem necessitar conhecer outras línguas, já que no passado hispânico há Cervantes e Quevedo, Lope de Vega e Garcilano de la Vega, Fray Luis de Leon e Rubén Dario, Góngora e Antonio Machado, e centenas de outras referências basilares.

Por outro lado, o escritor deve respirar o ar da vida, da convivência, o mundo dos outros, pois nele é que se abastece para a sua criação poética e literária. E cada poeta ou prosador faz a sua leitura do mundo – não uma leitura global e total do mundo, que é muito vasto e inapreensível. Lembro o verso magistral de José Martí: “Dos patrias tengo yo: Cuba y la noche”. Nós, poetas, temos sempre a nossa Cuba (o nosso Brasil, o nosso México, o nosso Chile) encravada em nossos corações. E temos a noite: o território das escuridões e constelações, dos sonhos e pesadelos, da interrogação existencial, da indagação cosmológica, da fusão amorosa, do amor e do ódio, de nossa condição humana.

FM Em 2002, quando Walter Galvani recebeu o Prêmio Casa das Américas, em entrevista concedida a Fabrício Carpinejar (Rascunho, junho de 2002), o romancista comentou haver sentido restrição da parte da mídia brasileira, que ele supõe tenha sido em relação ao regime cubano, observando que “a divulgação em si não foi à altura do prêmio, que tem prestígio e significado internacional”. Mais recentemente ganhaste o mesmo prêmio. Como há reagido à premiação a imprensa brasileira? Acreditas que este prêmio tenha perdido prestígio internacional?

LI O Brasil é um grande gueto literário e lingüístico. A literatura brasileira é completamente desconhecida no Exterior. Alguns poetas e novelistas são editados e apreciados, individualmente, na América Hispânica e em alguns países da Europa, mas esse conhecimento de criações artísticas individuais não chega a se configurar na presença de um país (ainda exótico) e de uma literatura. No plano interno o desconhecimento é ainda mais pungente. As tiragens dos nossos livros literários são quase sempre exíguas. Predomina no mercado o livro estrangeiro, especialmente o best-seller planetário, sinal inequívoco da colonização cultural e da dominação comercial por editores multinacionais. A atividade literária no Brasil é cosmética, decorativa, ornamental. Ser escritor no Brasil é uma coisa muito melancólica.

FM És um dos poucos autores brasileiros com trânsito livre nos países hispano-americanos. Transfiro para ti a pergunta que quase sempre me fazem, acerca do indigesto silêncio que marca as relações culturais do Brasil com esses países. Quais os motivos da pouca (ou nenhuma) atenção que nossos intelectuais, sobretudo eles, dão à poesia hispano-americana?

LI Não posso nem devo esconder que a minha condição de “poeta ibero-americano”, decorrente de minha presença em numerosos festivais de poesia e também de sucessivas traduções de minha poesia, em antologias poéticas ou em livros autônomos, muito me alegra. Esse trânsito, iniciado em 1980, quando Carlos Montemayor fez editar no México a antologia La Imaginária Ventana Abierta, e que hoje alcança a Espanha, onde a minha obra poética começou a ser traduzida de maneira intensiva, é realmente um trânsito pessoal. Várias causas podem ser atribuídas ao silêncio do Brasil. Menciono a circunstância de que a língua espanhola só agora, no governo Lula, começou a ser ensinada nas escolas. Até antes da Segunda Grande Guerra, os escritores brasileiros, quando sabiam francês, ensinada nos colégios, se voltavam para França. E quando só conheciam o português, contentavam-se com as traduções estrangeiras e as produções existentes no idioma nativo. O exílio de incontáveis professores e escritores brasileiros nos países da América Hispânica, durante a ditadura, instaurada em 1964, estimulou a curiosidade em torno das literaturas desses países. Mas o caminho da descoberta haverá de ser longo e demorado, e literaturas ricas e vigorosas de uma América que é hoje a pátria da imaginação e da poesia haverão de ser consumidas pelos escritores e leitores brasileiros. Cabe ainda sublinhar a inoperância dos mecanismos culturais destinados a promover a nossa literatura no Exterior, o que estabeleceria uma contrapartida proveitosa com as demais nações hispano-americanas.

É notório que a poesia produzida em grandes países do Ocidente está hoje esgotada e necessita de uma transfusão que a América ibero-americana tem condição de oferecer.

A repercussão escassa do Prêmio da Casa das Américas a um escritor brasileiro deve ser atribuída à visão provinciana que o Brasil tem do próprio Brasil, e que se irradia por todos os setores. O prestígio dos prêmios da Casa das Américas nos países hispano-americanos e na Espanha e em outros países da Europa é incontestável.

Quando fui distinguido com o Prêmio Literatura Brasileira da Casa das Américas, a repercussão nos países hispano-americanos e na Espanha foi confortadora. No Brasil, foi irrisória.

O insulamento cultural do Brasil é uma realidade incontestável. E precisamos de pontes, neste mundo cercado de outros lados.



[Fortaleza, Rio de Janeiro – Julho de 2010]

Por Floriano Martins

Cortesia de TRIPLOV

Metamorfose e jogo da linguagem na Poética de Zambrano

Incorpórea, a claridade da manhã dança. Quem não terá visto na claridade da manhã, na dança perfeita que é a metamorfose, uma pluralidade de figuras que, desenhadas e desdenhadas, não se corporizam, transformando-se infatigavelmente? Nascem e desfazem-se, enlaçam-se e retiram-se; escondem-se para reaparecer como faz o homem a jogar quando é criança, ou quando joga com esses jogos em que a infância se eterniza.

María Zambrano, O Homem e o Divino, p. 41.



Hamann diz: «Tudo o que o homem ouviu no começo, viu com os olhos [...] tocou com as suas mãos, era [...] palavra viva; pois Deus era a palavra. Com esta palavra na boca e no coração, a origem da linguagem foi tão natural, tão próxima e tão fácil como um jogo infantil.

Walter Benjamin, G.S., II, 1, "Sobre a Linguagem em geral e sobre a linguagem humana", p. 151.



O que pode ligar Hamann a María Zambrano? Que elos misteriosos são esses que iluminam a compreensão da poética de Zambrano e aproximam a concepção de Hamann a Zambrano? Se o jogo infantil se desenha no círculo mágico que ele próprio cria, revelando uma leveza e uma liberdade inéditas, a passagem citada alude precisamente a esse "espaço mágico" que a linguagem configura como um jogo de passagens e metamorfoses inesgotáveis. Só a linguagem entendida como Revelação, no sentido hamanniano[1], nos transporta para o espaço "irrespirável" do jogo. Esse é o lugar "estranho" - e quase inabitável - onde se dá o encontro com o pensamento de María Zambrano. Sem dúvida inquietante e perturbadora, a escrita da autora entranha-se na pele, arrasta o leitor, seduzindo-o, também, pela intensa carga poética da sua linguagem. Nela, as imagens convocam a clareza do pensamento, desafiando ao diálogo permanente. O pensamento de María Zambrano é, também e como Hamann, profundamente imagético e eivado do seu poder potenciador. Desta forma se fundam os lugares da linguagem, irrompendo como o fluxo da razão poética na sua escrita, imagens e conceitos entrelaçados que possibilitam a criação de novas topologias. A linguagem aparece como "desvendamento" ou desvelamento[2] do mundo, sinal e abertura, urgência do sentido. Neste umbral do pensamento e da poesia encontramo-nos suportados e, ao mesmo tempo, suspensos, adiados pela linguagem, pelo seu poder metamórfico. Vivificadora do pensamento filosófico, a poesia é a voz matricial que cava o seu sulco na sua linguagem. E, mais do que uma apresentação do mundo, a sua filosofia constitui-se como uma visão da linguagem, ou seja, o fio condutor que percorre toda a sua obra.

Posicionando-se de forma crítica face ao pensamento moderno e ao naufrágio da esperança moderna, o que ressalta é o profundo amor que María Zambrano devota às coisas, numa tarefa de devolver à matéria e a tudo o que nos rodeia a sua voz, a sua fala íntima, num recuo até ao contacto primitivo, arcaico. Trata-se, como compreenderemos ao longo desta comunicação, de habitar a linguagem, de construir nela a morada do pensamento e da vida, em simultâneo, distanciando-se de um ponto de vista estritamente objectivo e redutor do pensamento, para volver a um estado originário da palavra e do pensamento, em que a violência do gesto filosófico ainda não escavara a sua fractura. Porém, se habitar a linguagem ou procurar a clareira do bosque[3] é, sem dúvida, a vocação primordial do escritor, à qual ele não pode escapar, sabe, no entanto, que se submete ao perigo, abandonando-se às suas flutuações e detendo-se no limiar na escuridão, onde apenas tem acesso a fugidias sombras, questionando-se permanentemente sobre o que o espera. Nesse arrebatamento que lhe é próprio, assume a sua força, assim como as suas contradições e os limites. Ele conhece profundamente o modo como lhe resistem essas potências e tensões não domesticadas da linguagem, sabe que pode sucumbir à vertigem da luta com o anjo e arriscar-se à perda de si e ao embate com as resistências do pensamento e da linguagem. Como Zambrano o afirma[4], “a clareira do bosque é um centro onde nem sempre é possível entrar; da extrema, olha-se para ela e o aparecimento de algumas pegadas de animais não ajuda a dar esse passo. É outro reino que uma alma habita e guarda.” Tem-se dela um conjunto de indícios: pegadas de animais, o grito de um pássaro, um segredo que o bosque guarda, no seu silêncio. Todas as perguntas que se fazem, na veloz perseguição desse centro, se quedam inúteis. A procura revela-se, também ela, sem efeito. É preciso estar atento, aberto à escuta, suspender o conhecimento objectivo, suspender as imagens, os conceitos, para que a voz, a voz descontínua, sem tempo, o leve a um tal lugar sagrado. Onde a respiração leve da luz o conduza e lhe dê guarida, perto do coração animal.

Da mesma forma, escrever é, como o diz a autora, “descobrir um segredo e comunicá-lo”. E este segredo revela-se ao escritor visitando-o, na sua solidão incomensurável. Porém, “o segredo revelado” permanece no seu enigma, não se torna mais explícito[5], pelo facto de ser revelado. É, todavia, o destino do escritor, “aquele que tropeça primeiro na verdade”, mostrar aos outros, para que a decifração possa nascer desse enigma. Trata-se, assim, de um puro acto de fé e de fidelidade, nascido da solidão daquele que escreve.[6] Deste modo, é necessário percorrer um trilho oculto no corpo da linguagem e, ao mesmo tempo, necessário perceber o modo como a voz visita inesperadamente o pensamento. Aquele que escreve é, também, o que escuta a voz que o visita. Dá-lhe forma, configura-a. É, ainda, preciso acreditar que, um dia, a escrita há de encontrar a justeza da palavra, do modo de dizer, resgatando as coisas ao silêncio da matéria. E essa fidelidade, a mais elevada capacidade de resgatar o traço ou vestígio mínimo, reclama a purificação das paixões e da vaidade, desfiguradora da verdade[7]. Reclama uma pobreza essencial que convém às coisas, na sua autenticidade, um olhar que se pretende límpido e cristalino. E que é convocado pelas próprias coisas.

Profundamente alicerçada no pensamento de Ortega Y Gasset, de quem foi dedicada discípula, e admiradora do pensamento de Unamuno, Zambrano deve-lhes a sua ampla compreensão da modernidade filosófica. Já Ortega Y Gasset denunciava a arrogância do racionalismo: “Em lugar de situar-se perante o mundo e recebê-lo na mente tal como ele é, com as suas luzes e as suas sombras, suas serras e os seus vales, o espírito impõe-lhe um certo modo de ser, o que faz imperar e violenta, projectando sobre ele a sua subjectiva estrutura racional”[8]. Assim, o racionalismo, ao formar ideias das coisas, constrói ideais a que estas se devem ajustar, pela legislação do pensamento. Esta crítica de Ortega ao racionalismo marcou, desde cedo, o pensamento da jovem filósofa, pelo facto de o pensamento ter perdido de vista a unidade última do universo. Para María Zambrano, a realidade não era só o que o pensamento conseguira captar e definir, mas também essa outra coisa que escapa ao conhecimento, a inserção do homem no universo. O racionalismo nada pode contra as forças indomesticáveis da natureza, regidas pelas misteriosas leis da metamorfose e do devir, irredutíveis, como se sabe, à lógica.

Nómada incansável, na sua condição de exilada durante 45 anos, María Zambrano transcendeu o olhar próprio da mulher da sua época, confinada ao país conservador e profundamente católico que era a Espanha. Arte, literatura e poesia constituíram os seus grandes alimentos espirituais, desde a mais tenra idade, contribuindo para uma visão universal da cultura e do pensamento. Por outro lado, o contacto com a obra de Zubiri[9] e com a sua “penumbra tocada de alegria” (que dá título a um ensaio notável de María Fernanda Henriques), ensinou-lhe que o pensamento não pode existir desligado das coisas e fez com que a autora perseguisse a sua própria voz, reclamando a descoberta da unidade do mundo e da pertença recíproca das coisas entre si. De acordo com María Zambrano, com respeito à actividade filosófica propriamente dita, esta culmina numa contradição que faz perigar a coerência. Se, de facto, o filósofo é aquele que sente uma urgência de verdade, todavia essa urgência não parece habitar a vida. A verdade, tal como o racionalismo a defendeu, sustenta-se, sobretudo, num acto de ascese e de renúncia da vida. Nesta compreensão das formas íntimas da vida, Zambrano aproxima-se bastante da posição nietszcheana, defendendo a aceitação da vida em toda a sua contradição e da existência como padecimento, em lugar da ascese racionalista.

Esta redução (antes uma erosão) racionalista atinge o seu clímax com o cogito cartesiano, em que Descartes faz equivaler o sentir ao pensar. Uma irredutível estranheza entre a poesia e a filosofia parece estar no cerne da modernidade, como um abismo impossível de transpor. Inconciliáveis são a razão, capacidade lógica e objectiva de pensar, com o universo das emoções e do sonho, da poesia e da arte, ainda que Zambrano reconheça nestas últimas uma visão mais abrangente do mundo. A ligação primordial do homem com os deuses, esse trato arcaico e que garantia ao homem a possibilidade de ser olhado e reconhecido, aparece desfeita à luz da crueza do olhar da modernidade, como aparecem abalados, também, todos os pressupostos que permitiam a integração do homem na unidade cósmica. O desespero da condição moderna, na mais absoluta ausência do sagrado, mostra-nos que o homem moderno não sabe viver sem os deuses e essa é a sua grande tragédia. No mundo moderno não há lugar para a fé, mas o homem também ainda não aprendeu a viver sem ela, o que o atira para uma solidão irremediável.

O que pretendo é, precisamente, averiguar a razão de ser dessa intransponibilidade, da estranheza entre poesia e filosofia, por um lado e, por outro, "descobrir" a proposta zambraniana para a regeneração do pensamento, enquanto integrador da poesia, da emoção e da musicalidade da linguagem. Proposta que se encontrava, de resto, em Hamann e que está bem patente na sua crítica a Kant. A proposta de Zambrano é a de, precisamente, não rejeitar a poesia, para que todas as realidades se acolham, numa nova unidade. O caminho percorrido pelo poeta passa, não só por “sentir a ferida de cada amanhecer”[10], mas por ser ele próprio, poeta, uma ferida aberta ou uma fenda, o que significa também constituir-se como abertura para “a entrada da luz como uma ferida”[11] da linguagem e do real. Para Zambrano, esta abertura só é possível graças a um movimento de concentração do espírito, de atenção, como ela própria o defina, na sua obra De La Aurora: “a atenção é uma ferida sempre aberta. E da ferida tem a passividade, o ser chaga(…) o estar como uma cavidade vivente conformada para receber a realidade”. Mas esta capacidade de visão e de escuta do mais íntimo rumorejar da criatura só pode ter lugar pela abertura do coração, enquanto órgão capaz de (re)ligar a emoção e o espírito. Entranha entre as entranhas, ela ocupa um lugar privilegiado no reconhecimento, tanto da interioridade do corpo, como da exterioridade e relação com o mundo. O coração é o centro, tanto do animal, como do homem e, embora o homem não se detenha para o ouvir, é o incessante soar do seu coração que o sustenta e o mantém vivo, que suporta a unidade de ser existente que ele é. Porém, é a escuta silenciosa que o dá a ver na sua pulsação, como centro activo, submetido ao curso contínuo do tempo e da vida. Como o salienta Maria João Neves, a influência do sufismo e da teoria mística de Ibn Arabi[12] teve imensa importância na obra de Zambrano. A sua concepção de amor como a teoria do papel preponderante do coração, enquanto lugar primeiro do conhecimento, constituíram-se como dois eixos fundamentais da sua obra. Superando a aridez da consciência, o coração é capaz de submergir nas profundezas do humano e das criaturas, escutando-lhe o canto primordial. Trata-se de um nível de realidade a que a consciência não tem acesso, como ao sonho e ao verdadeiro conhecimento da luz[13], da música e do tempo.

Mais do que a visão, é a escuta e a sensibilidade que determinam os lugares do conhecimento. Metáfora que convoca o vitalismo e a organicidade do conhecimento, o coração remete para um conhecimento interiorizado da realidade, que lhe advém de um saber do tempo, onde ocorre a sua desformalização. A sucessão, enquanto critério, e suspende-se para dar lugar à dimensão da eternidade do instante[14]. Aí, nesse “lugar” ou “clareira do bosque” dá-se o encontro, unindo o conhecimento e a vida. O acontecimento da passagem, limiar onde se fundem a vida e o conhecimento, só pode ser compreendido a partir dessa unidade onde se enlaçam a carne e o espírito, na sua imanência. Ao privilegiar a via do coração, María Zambrano anuncia, desde logo, a primazia do pensamento poético ou aquilo a que ela chama a razão poética[15]. Aquilo a que María Zambrano aspira é a um saber que conjugue poesia, filosofia e a história. Maria Fernanda Henriques, no seu ensaio “A penumbra tocada de Alegria”[16], define o campo hermenêutico em que se inscreve o conceito de razão poética, subjacente à obra da autora como “o elemento sustentador dos escritos de María Zambrano”. O que importa, então, referir aqui, é precisamente, o lugar privilegiado que a poesia ocupa, para María Zambrano. O valor ontológico e existencial da poesia como um lugar de eleição para exprimir a relação entre ser e existir, é inestimável para a filósofa. Como o nota Maria Fernanda Henriques, a partir da leitura de Sentiers, “é a poesia que traz ao sentido e à linguagem o seu substrato originário e fundante”.[17] Esta protecção da poesia, relacionada com a figura paternal da língua, constitui-se como um “enraizamento estruturante”[18], no sentido em que descobre a pertença da linguagem e do sentido à cultura e tradição, às formas íntimas da linguagem.

Apenas o poeta detém o saber imoderado das coisas, pois só a ele lhe é dado um olhar encantado sobre o real. A sua lucidez (que tão paradoxalmente nasce do delírio) alcança a musicalidade que vibra no coração do mundo, desde a mais ínfima criatura ao mais elevado ser. Perseguido pelos deuses, mensageiro do divino, ele é tomado pelo arroubo e pelo delírio[19], que pode ser, também, a mais elevada forma de conhecimento. Do fundo do olhar dos deuses espreita a desmesura. Por isso, como nos diz a filósofa[20], “mergulhar no sonho é a origem da música e da poesia. Mergulhar no sonho é delirar. Há uma sabedoria do sonho, não reconhecida pela razão do homem acordado, adivinhação.” Longe do ruído e da fala, a linguagem poética nasce do silêncio e do sonho, desse trilho onírico que o homem percorre sem freio, na procura da voz genuína, nascida do segredo divino. E, ao invés da violência com que se instaura a questão filosófica, rasgando o coração das coisas, a poesia é um acto de amor, de escuta silenciosa. Porém, como ela própria o afirma, em “Pensamento e Poesia”[21], “Não se encontra o homem inteiramente na filosofia nem na poesia. Não se encontra a totalidade do humano em nenhuma dessas duas formas que inteiramente o reclamam. Este lamento percorre a maior parte da obra de Zambrano, que luta por religar essas duas formas de logos ou de pensamento. Enquanto que na poesia encontramos o homem concreto na sua individualidade, na filosofia, o homem na sua história universal, no seu querer ser. A poesia é encontro, dádiva, achado pela graça, resposta, embora se apresente como pergunta. A filosofia é busca, pergunta guiada por um método (…)”. María Zambrano pretende mostrar, nos textos que dedica a essa separação dicotómica, que não tem de resolver-se exactamente assim, mas que é possível e louvável encontrar uma forma mediadora que entrelace novamente filosofia e poesia. Nem sempre essa separação ocorreu, como há-de ver-se ao longo deste texto. A sua reconciliação é desejável por ser a única forma capaz de apaziguar o coração e acolher o homem na unidade originária.

Condenada pelas acusações de Platão, a poesia permaneceu, durante muito tempo, nos arrabaldes do pensamento. Na verdade, o que temiam os filósofos? A inquietação e o arroubo da linguagem, a sedução do efémero e a falsificação da realidade. O embate contra a sedução da poesia, enquanto intensificação da experiência, procura a solidificação do conhecimento, a sistematização e a ordem da cidade, que tão ciosamente procura Platão na República. O inquieto dorso da linguagem poética, prometendo na sua cavalgada o êxtase e a desmedida, perturbava os que apenas discerniam na ascese e na purificação das paixões a via de acesso à verdade. O ilusório canto da poesia desfazia a ordem vigente, pondo em causa a objectividade disciplinada dos que defendiam a polis. Perante a justiça, a poesia representa o engano, no sentido em que é mito, relegada para a categoria de “sombra de uma sombra”. Adormece e amolece a razão. Além disso, a entrega ao hedonismo e ao excesso dionisíaco, a transgressão poética, fazem perigar o bem comum, afirmando a liberdade individual e ilimitada. O que se estranha é o facto de Platão, que tão veementemente condenava a poesia, tenha recorrido frequentemente ao mito e à linguagem poética e metafórica para explicar o seu racionalismo.

Mendigo e amante da multiplicidade e da aparência, o poeta persegue a miragem, o fulgor do efémero. Isto é o que afirma Platão. Porém, com outra questão interpela-nos Zambrano, “acaso ao poeta não importa a unidade das coisas, a identidade da essência?”[22] Que fidelidade importa a cada um deles, filósofo e poeta? Parece que a poesia parece incorporar, por excelência, a abertura ao todo, à totalidade do real, preservando-lhe, no entanto, o mistério, enquanto que a filosofia luta e enfrenta essa totalidade como um problema a desvendar. Ao poeta o que importa é dar voz ao seu enamoramento pelas coisas e pelas criaturas. Afeiçoando-se às coisas e ao detalhe, seguindo os seus vestígios no labirinto do tempo, ele sente que lhe é impossível renunciar ao mundo e à sua multiplicidade, à modulação do canto. Colhendo o derradeiro fulgor do instante, o seu olhar melancólico luta por devolver a esperança ao mundo, revesti-lo de encanto. Pela fidelidade ao que já tem, pelo amor à matéria, ele não se lança na busca do invisível e das ideias, mas vive na espera da restituição originária, suspenso da linguagem e do rumor do mundo.

Este amor pela matéria esconde a mais dolorosa ferida na carne[23], a percepção agónica de que tudo se encontra votado à morte[24]. Por isso, ele é escravo, refém das coisas, não se encontrando em défice, como o filósofo. A sua alma vive prisioneira do delírio, pois é através dele que alcança a sua vida e a lucidez[25]. Ele consome-se, ardendo na chama da sua própria paixão, inebriado e escravo dela, quer delirar porque sabe que é nesse delírio que se encontra a pureza originária da palavra. Imerso no fluxo desse canto único e irrepetível, sabe que é “na música onde mais suavemente resplandece a unidade”[26], pois ela é o resultado de uma harmonia, composta pelos instantes fugazes. Esta unidade da música, ela própria efémera na sua natureza, é uma unidade de criação, atravessada pelo sonho. Com os sons dispersos e passageiros, tão voláteis quanto o vento que passa, constrói-se a unidade. O poeta, como o músico, dança com a metamorfose, capta o mais volátil instante, percorre o íntimo voo do tempo, tanto quanto humanamente lhe é possível. Esse tempo é o tempo nascente, “que brota sem figura nem aviso”, que “não alberga nenhum acontecimento”, mas que é um “tempo único, nascente em sua pureza fragante como um ser que nunca se converterá em objecto; divino”[27]. Entre a fantasmagoria e o sonho, a unidade criadora é-lhe dada, como um dom ou uma dádiva. Pois aquele que sonha mantém-se na periferia de todo o universo[28], imerge na vida e entra em consonância com o ritmo cósmico, passando a fazer parte de uma unidade verdadeira e longe das armadilhas do tempo contínuo.

A criação e o sonho enlaçam-se na poesia insinuando-se como a mais absoluta via de acesso ao conhecimento do eu, em María Zambrano. Se a vigília nos transporta à realidade e à dimensão da temporalidade contínua, assim que se entra no sonho e no seu espaço vazio, entra-se no absoluto[29], na total insubmissão às leis da temporalidade contínua. O que se verifica é a suspensão, a epoché do tempo sucessivo. Abolido o fluxo da continuidade, são também banidas as habituais correlações estabelecidas pela sucessividade. A vida dá-se, então, como abertura à dimensão mais autêntica do tempo e à criação, padecendo o homem da sua própria transcendência.

Vimos, assim, como a relação da linguagem com a música é fundamental, na concepção zambraniana. Não menos importante é a relação daquela com o tempo, especialmente no caso da poesia. Tal como aquele que dorme e sonha, o poeta acolhe-se numa unidade que é de outra ordem, visceral e autêntica. E nessa visceralidade palpita a vida verdadeira, no seu retorno às forças da criação. O poeta abandona-se ao fluxo da multiplicidade, fez-se abertura, fenda, nesse espaço aberto que rodeia toda a poesia e onde o poema lhe é ofertado como um dom. Por isso, pelo facto de não ser perseguida, a unidade do poema revela-se mais imediatamente. E o poema funde-se com a vida, com o quotidiano. A unidade desejada pelo filósofo nasce da violência, da ruptura com a origem, com a inocência. Ainda que em ambas, poesia e filosofia seja a admiração a origem do questionamento, a filosofia cedo segue um caminho bem diferente da poesia. O filósofo concebe a vida como uma perpétua vigilância[30], como uma suspeita, face ao poder da metáfora. Ele nunca abranda a sua vigília. Contrariamente à paixão e ao delírio do poeta, ele afasta de si o canto sedutor, quer escravizar e domesticar a palavra, tomar a decisão e responsabilizar-se por isso. Trata-se, assim, de uma abertura ética, face à responsabilidade humana. Daí também a acusação platónica da irresponsabilidade do poeta. A vigilância da razão e a lucidez são estranhas ao poeta. A luta com a razão e a linguagem, a exigência da luz do conhecimento são-lhe alheias. E, contrariamente ao poeta, o filósofo desdenha as aparências, o logro e as sombras, porque as sabe perecedouras. Desta melancolia escapa o filósofo pelo caminho seguro e sereno da razão. Esta, acerada como uma lâmina, repõe a ordem e a clareza do raciocínio, no mundo onde a esperança é ilusória. As palavras de Platão são de uma clareza inexcedível. Existe uma profunda contradição entre o homem que segue, na sua alma, a razão e aquele que segue a paixão. E aquilo que é mais irrenunciável à poesia é precisamente o aguilhão da dor, o sofrimento. Por isso, a poesia quer perpetuar a sua memória, que nutre a sua melancolia.

Para o filósofo, a paixão e o sofrimento são banidos do seu horizonte, dando lugar à tranquilidade da razão. Ora, a poesia ameaça a conquista da filosofia, esse trato fundamental com a esperança. Ameaça a pureza do logos e da justiça com o frenesim das paixões e o excesso imoral da carne. Pior do que isso, a poesia, tendo sido essa experiência intensificadora da carne, eternizou-a e fixou-a numa unidade. Esse foi o atrevimento maior do poeta, para o qual o filósofo olhou com horror. Não apenas uma perigosa irracionalidade, como a expressão da contestação do logos, a rebeldia da palavra afirmando-se como verdade.

No diálogo Fédon, Platão levou ao extremo a recusa do corpo e a afirmação da sabedoria como um combate implacável contra a tentação da carne. A alma vive prisioneira desse cárcere que é o corpo. Para se manter fiel à razão, o prisioneiro deve fazer-se inimigo da sedução da paixão e dos sentidos. A alma deve sofrer a renúncia ascética, num esforço sobre-humano. Eternidade, imortalidade e unidade são os fios da entretecedura em toda a busca filosófica, desenhando o mapa da apresentação platónica. A ideia da existência e da vida como naufrágio, porém, não é platónica, mas tem uma origem órfica. Platão não faz mais do que aquiescer, procurando-lhe o fundamento que a legitime.

A esperança já não se encontra neste mundo das aparências e da multiplicidade, no sulco da beleza que exalta o poeta, mas num mundo invisível que aparece como uma promessa para além da vida. Por um paradoxo, cujas terríveis consequências se irão arrastar até aos dias de hoje, devorando toda a tradição do pensamento, a filosofia apenas reconhecerá na razão o seu arquétipo. O homem é arrancado a si mesmo e à natureza, para conhecer a irreversível solidão do pensamento. E esta, nascida da rarefacção do pensamento, é alvo de uma reconquista, de uma luta árdua que ele trava contra o aguilhão da carne. A alegoria da Caverna, que justamente procura na força da metáfora a intensificação da escrita, assinala a despedida, o adeus do prisioneiro, forçado a libertar-se das cadeias que o retêm contra as sombras. A dialéctica platónica é a virtude suprema, e o homem é colocado no mais doloroso embaraço: o de não saber como andar ou o de ter de prosseguir contra todo o consolo, caminhando em terra de ninguém. Irredutivelmente estranho face a tudo, cego perante a luz que o fere de conhecimento abrupto, cego também para o mundo das sombras que lhe era familiar. O irreconhecimento dos seus iguais é tal que estão a ponto de matá-lo. Violência e aspereza, eis os acicates que movem o filósofo, uma hostilidade inóspita, já que a esperança está morta para ele. Já não depende dos deuses, mas vê-se inteiramente só.

Platão sabe que é impossível aniquilar a força mais pujante da poesia lírica grega: o amor. A par da catharsis e da destruição das paixões, pela criação de uma mística da razão reforçada na República, em prol da ordem e da justiça, e no Fédon, em nome da imortalidade da alma e do conhecimento, sabe, no entanto, que o amor é a questão verdadeira[31]. E que o amor “é coisa da carne; é ela a que deseja e agoniza no amor, a que por ele quer afirmar-se perante a morte.” Por si mesma, ela vive imersa, mergulhada na dispersão e na multiplicidade, mendiga da beleza sensível. Porém, a carne redime-se através do amor, o que a eleva à unidade. Platão não o nega e, por isso, consagrará ao tema do amor dois diálogos que são, eles próprios dois caminhos apontados; um, o da beleza; o outro, o da criação. O primeiro é objecto do diálogo Fedro, o segundo do Banquete. Só esses caminhos possibilitam à carne a sua redenção. Mais uma vez, a filosofia insinua-se como esperança salvadora, oferecendo alternativa à poesia. O desejo carnal será, assim, salvo pela filosofia. A poesia escrava da carne, submetida à paixão, não é capaz de, por ela própria, alcançar a unidade. Perder-se-ia, algures, nos meandros da dispersão. Pura contradição, ela atormenta o poeta, leva-o à irremediável aniquilação, pelo excesso que comporta, num processo autofágico.

Sabemos, nós, que a poesia se sustenta nesse convénio com a carne, que vai entrando no seu interior, apoderando-se dos seus segredos e tornando-a diáfana, espiritualizando-a. Essa é a redenção do poeta, cujo olhar se enamora perdidamente da beleza sensível e a faz esplendorosa. Desse saber das entranhas, errante, estranho à filosofia, ele é capaz de lhe alcançar o canto, a música e a imagem poética, numa unidade tecida pela lentidão do sonho. Não há falta no poeta, no seu coração, pois ele é servo humilde da multiplicidade esparsa, que lhe cai em sorte. Porém, nunca pode salvar o amor da dispersão.

Contrariamente procede o filósofo, angustiado, incompleto na sua natureza. Toda a teoria do amor platónico assenta na irremediável separação do corpo, no seu exílio. E se, por momentos, o clarão da beleza visível lhe acena, esse rasgão mais não faz do que apontar para a unidade da beleza, ideal. Para a filosofia, o amor só pode ser salvo desta forma da sua dispersão. Isso, a unidade do amor e a sua indestrutibilidade, o cristianismo há-de agradecer-lhe, de forma gloriosa. O rastro do platonismo na poesia mística é, sem dúvida, incomensurável. Mesmo no amor profano, a expressão do mesmo era platónica. Graças a Platão e ao platonismo, “o amor teve categoria intelectual e social e pôde amar-se sem ter sido um facto escandaloso”[32].

O amor exige a distância, a renúncia. A ausência é o sulco secreto da poesia mística, a verdadeira razão para que ele possa ser cantado. O perfume imaginado dos cabelos da amada, uma certa forma de sorrir e olhar, todos esses detalhes que movem o amante e o arrastam no desamparo, face à sua ausência, eis o que alimenta o poeta, o que o faz sonhar e o deixa escravo do desejo. Ao poeta não lhe são concedidos senão os traços fugidios e esquivos da amada, o indício da sua presença. Tudo aquilo que a rodeia se transforma, adquirindo a aura da sua presença: árvores, rios, flores, lugar. Tudo é metamorfoseado pela luz secreta do amor e do desejo. A distância agudiza-o e, mais do que isso, nutre-o. O objecto inalcançável nunca deixa o desejo consumir-se, mantém-no vivo.

A época em que a filosofia e a poesia mais se enlaçam é, sem dúvida, durante o Romantismo. Igualmente excessivas e velozes, tomadas pelo êxtase e pelo delírio, “não aspiram ao absoluto porque se crêem já dentro dele. Ambas se sentem como uma revelação transcendente”[33]. Ambas comungam da crença de que tocam o divino. Vista essa relação apaixonada com suspeita, hoje, no entanto, há que reconhecer-lhes a grandiosidade da criação. Victor Hugo, em França, mas também a incontornável geração alemã composta por Novalis e Hölderlin, onde a expressão dessa reconciliação alcançou o seu clímax.

Mas não é, ainda, a poesia, por si mesma, que pode servir de modelo ao pensamento de Zambrano, mas um cruzamento ou uma síntese entre o logos filosófico e o logos poético. Essa síntese resolve-se na palavra, sulcando os veios e as raízes mais fundas da tradição, nesse lugar do subsolo do pensamento e da linguagem onde todas as raízes se cruzam e se agarram à terra. Num texto sibilino, de Clareiras do Bosque, Zambrano fala da palavra, no seu modo mais fecundo, ligado ao saber da terra: “À maneira da semente esconde-se a palavra. Como uma raiz quando germina que, no máximo, levanta a terra levemente, mas revelando-a como casca. A raiz escondida, e até a semente perdida, fazem sentir o que as cobre como uma casca que há-de ser atravessada.”[34] Essa palavra que há-de germinar, desprender-se da sua casca e brotar do solo, nasce profundamente enraizada no solo da tradição, constitui-se como anúncio, tem uma natureza profética, que antecipa a aurora da linguagem. Nesse belíssimo texto, Zambrano fala da linguagem liberta como voo pleno, o voo que há também na dança e no canto, na descoberta da partilha entre os homens, a “festa da linguagem”. “O conhecimento puro, aquele que nasce da pura intimidade do ser, que, ao mesmo tempo o abre e o transcende, o “diálogo silencioso da alma consigo mesma” nasce, precisamente, da palavra única e indizível, a palavra liberta da linguagem”[35]. Escuta e diálogo entrelaçam-se, assim, para dar lugar ao regresso às coisas mesmas, o modelo que servirá de mote ao pensamento de María Zambrano, sem dúvida, um regresso pelos atalhos mais ocultos do bosque, onde a luz da aurora entra de mansinho, nas veias da escuridão, suspendendo a inexorável passagem do tempo, para aceder ao instante da eternidade, na clareira do bosque. Nela tudo se acolhe, tudo se reconhece, na claridade e no silêncio da alba que desponta.

Por Maria João Cantinho

Cortesia de PNETLiteratura

Feliz Natal! Vivo 2011!!

Os autores do blog Poetícia desejam a todos os leitores e amigos um Feliz Natal 2010 e um Poeticamente Vivo 2011.

Falaram-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia

Poema Last Letter de Ted Hughes revisita os últimos momentos de Plath

Poema inacabado e inédito do marido da poetisa, Ted Hughes, revelado recentemente, revisita os últimos momentos de Plath e os acontecimentos dos dias anteriores, quando ele recebeu, antes do tempo, uma nota de suicídio. Last Letter é uma espécie de epílogo perfeito para uma tragédia de contornos shakespearianos: uma confissão.

"O que aconteceu naquela noite? Na tua definitiva noite?" A pergunta é de Ted Hughes, o poeta inglês que morreu em 1998, e abre a última mensagem que escreveu à mulher, a poetisa norte-americana Sylvia Plath. Last Letter é um longo poema de 150 linhas, reescrito, reescrito, reescrito e sempre inacabado, que Sylvia já não pôde ler - suicidou-se em Fevereiro de 1963, aos 30 anos, alguns meses depois de ele a ter abandonado para ir viver com outra mulher.

Escrito provavelmente durante a década de 1970 (Ted refere-o numa carta que, em 1998, escreveu ao Nobel Seamus Heaney), Last Letter foi publicado em Outubro pela revista New Statesman. Existem pelo menos três rascunhos diferentes do poema, todos semeados de inúmeras rasuras e emendas. Em Inglaterra, a revelação do documento causou comoção e teve honras televisivas, tendo uma parte de Last Letter sido lida pelo actor Jonathan Pryce, num programa que o Channel 4 dedicou ao achado.

Cortesia de O Público


O sol baixo de estio longe repousando ia

O sol baixo de estio longe repousando ia
Para lá do mar vítreo aos poucos fugia
Afivelando ao dia o seu último raiar
Entre a rua estreita tomando o seu lugar.

O Forte de Santiago guardava-nos o beijo
Que o nosso amor se fundou em Sesimbra
O tempo corria na melodia desse desejo
À frente das muralhas que o mar timbra.

O teu garço olhar vislumbrava o meu
Cegando meus olhos feitos condenados
A serem só teus no mais triste dos fados
Como o terrível de Eurídice e Orfeu.

Do cálido silêncio das altas ruas desertas
Vinha o rumor esbatido da nossa presença
Onde ecoavas palavras de coisas tão certas
Iguais às que eu sentia na alma suspensa.

Ninguém deu pelo nosso amor clandestino
Vagueando pelos segredos de cada esquina
Só atento se mantinha impassível o destino
Vigiando a hora da partida do alto da colina.

Que o tempo chegue quando tiver que chegar
Assim dizia tomando-te nos meus braços
Como se fosse o farol fixo dos teus passos
Que um rumor deixou isto algures no ar.

Mas o ponteiro grave do relógio ameaçava
Chegar ao derradeiro tempo da despedida
E fazia-o no deleite de apontar a dor brava
Que há entre dois amantes ávidos de vida.

Tic-Tac!

O céu gritou por gaivotas de um coro triste
Era tempo de recolher onde só a noite principia.
O mar recolheu da costa como tu própria viste.
E a lua subiu insegura sabendo que nos traía.

Incandescências de breves lâmpadas intrusas
Que se irrompiam pela noite fora aqui e ali
No sinal último da metamorfose que eu vi
Apartar-se o dia de nós entre lágrimas difusas.

Mas não choremos que só o dia acaba nesta linha.
O amor, esse, repousa e cresce em cima da saudade
E com o seu peso desperta uma terrível moinha:
A real prova quando o amor é grande de verdade.

Ricardo Pereira Dias

Abaixo-assinado a favor da poeta e jornalista são-tomense Conceição Lima

Foi colocado a circular em Lisboa um abaixo-assinado a favor da poeta são-tomense Conceição Lima, cujo programa na televisão foi mandado silenciar pelo primeiro-ministro Patrice Trovoada.

A ideia de que a visada teria “uma atitude prejudicial para a imagem do Estado são-tomense” foi contestada pela professora universitária da mesma nacionalidade Inocência Mata, uma das pessoas que se sentiu chocada com o facto de Maria da Conceição de Deus Lima, antiga correspondente do PÚBLICO, estar a ser vítima de silenciamento no seu país natal, onde é o mais destacado elemento da comunicação social, para além de poeta inserida em antologias de várias nacionalidades.

“O primeiro-ministro, incomodado com a sua frontalidade, deu ordens para que o contrato de São Lima com a televisão não fosse renovado, de maneira a silenciar o programa que ela assina”, "Em Directo" . que era o de maior audiência, refere-se no abaixo-assinado actualmente a circular em Portugal.

“Desde quando é que a função de um jornalista deve depender da ‘imagem’ do Estado?!! A função do jornalista é informar e não informar de acordo com o ‘patriotismo’. Este é, aliás, um equívoco em que incorrem políticos de cultura e mentalidade muito pouco democráticas, que pensam que um jornalista deve seleccionar informação de acordo com a imagem que vai dar do país”, escreveu Inocência Mata, estudiosa das literaturas africanas de língua portuguesa.

“São Lima, com uma experiência de mais de 20 anos na BBC, especialista em Estudos Africanos, com mestrado no King’s College, é a maior poeta viva de São Tomé e uma das maiores da poesia contemporânea em língua portuguesa e de África. É demasiado grande para as mentalidades atrofiadas das elites no poder em São Tomé”, lê-se no abaixo-assinado colocado a circular no mundo lusófono contra este atropelo à liberdade de informação.

“O desemprego atira-a de novo para os camihos da diáspora. Vamos deixar que a devorem, sem pelo menos mostrar a nossa solidariedade? Creio que é o momento de mostrarmos que ela não está sozinha a lutar pela liberdade de imprensa e informação, pela nossa liberdade. Subscrevam o abaixo-assinado, por favor!”, diz o texto transmitido ao jornal PÚBLICO (http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7729).

O programa “Em Directo” era o único da Televisão São-tomense a promover o contraditório e alimentava assim o sistema democrático. O caso da entrevista que ia ser feita ao antigo primeiro-ministro Carlos Veiga, de Cabo Verde, e que o Governo de Trovoada vetou, atitude que São Lima denunciou no jornal “Téla Nón”, precipitou os acontecimentos. No dia seguinte à publicação da sua crónica, a jornalista foi informada pelo director da TVS, Óscar Medeiros, que por ordem governamental o contrato que expirava a 31 de Dezembro não iria ser renovado. E logo a seguir o chefe de programas, Edson Carvalho, anunciou a São Lima a suspensão da rubrica em causa.

Conceição Lima fundou em 1993 o semanário independente “O País Hoje”, cuja direcção exerceu até ao fim do mesmo. Em 2004 publicou em Portugal o livro de poesia “O Útero da Casa” e em 2006 “A Dolorosa Raiz do Micondó”, ambos na Editorial Caminho.

Cortesia de O Público

BIO - Ingeborg Bachmann

Primeira filha do professor de escola Mathias Bachmann, que se juntou ao Partido Nazista em 1932, e da dona de casa Olga Bachmann, Ingeborg Bachmann nasceu em 1926, em Klagenfurt, na Áustria, e foi um dos maiores talentos dos nossos dias.

Em Viena, no ano de 1948, conhece e se apaixona pelo poeta surrealista e refugiado judeu Paul Celan, que estava de passagem por aquela cidade, passando ambos cerca de dois meses juntos. Continuam, à distância, um complexo relacionamento amoroso que muito influenciará a produção poética de ambos.

Em 1950, doutorou-se em Filosofia com uma tese sobre o existencialismo de Heidegger. Como muitos dos escritores de língua germânica do pós-guerra, começou a sua carreira de poeta no "Grupo 47", movimento poético de vanguarda na Rública Federal Alemã, que revelaria nomes como o de Günter Grass e que dominaria as letras germânicas desde sua fundação em 1947, até sua dissolução em 1966.

Tendo trabalhado na rádio austríaca, abandonou tudo para se dedicar exclusivamente à literatura. Faleceu em 17 de Outubro de 1973, em Roma, devido a queimaduras sofridas num incêndio no seu quarto de hotel. A real causa de tal incêndio, que chegou a ser apontada como sendo um cigarro ainda aceso, permanece desconhecida.

Bachmann começou a destacar-se como poetisa após ter estudado filosofia. Em O Tempo Adiado (1953), poemas de grande conteúdo metafórico e de certo hermetismo, Bachmann faz do amor a única via de salvação para o homem perdido de saudade. O seu romance inacabado Malina (1971, adaptado para o cinema em 1990) permaneceu como o único elemento representativo de um ciclo narrativo que se intitularia Formas de Morrer. Escreveu operetas para Hans Werner Henze, bem como algumas peças radiofónicas.

Em 1964 recebeu, em reconhecimento da sua obra, o Prémio Georg-Büchner, o mais prestigiado prémio das letras alemãs. Desde 1977, realiza-se na sua cidade natal um concurso literário que recebeu o seu nome.

Pintor Jacob Porat expõe «Homenagem a Fernando Pessoa»

«Homenagem a Fernando Pessoa» é o nome de uma exposição de pinturas, da autoria do pintor israelita Jacob Porat, que estará patente na Sala de Exposições do Instituto Camões em Lisboa (Avenida da Liberdade, 270), de 9 de Dezembro até 23 de Dezembro de 2010. Esta mesma exposição já esteve em Israel em Novembro, por ocasião de uma conferência e edição da obra de Ricardo Reis em Hebraico.

Cortesia de IC

Flores

Elas cresceram dentro de uma casa quente,
sob a orientação de uma célula,
as suas raízes foram afundadas em gordura e nutrição,
e pétalas - sempre magras e boas.

Quente era a casa que elas fizeram sentar-se dentro
Deram-lhes água, solo e luz:
não pela razão de pena
ou pelo desejo de uma longa vida.

Elas são os alegres presentes - de lembrar.
Mas um mau destino espera-as,
porque elas nunca serão capazes
de cheirar como os seus parentes jardins.

Elas não iriam ficar meio lábios vermelhos,
não iriam influenciar a abelha de ouro,
que não iria nunca resolver o enigma
qualquer que fosse a terra molhada.

Bella Akhmadulina

Acordo ortográfico aplicado no ensino no ano lectivo de 2011/2012

O Governo aprovou, na última quinta-feira, uma resolução que determina a aplicação do acordo ortográfico da língua portuguesa no sistema educativo no ano letivo de 2011/2012 e na administração pública a partir de 01 janeiro de 2012.

Esta resolução, que também adota o vocabulário ortográfico do português – disponível no site www.portaldalinguaportuguesa.org - foi apresentada em Conselho de Ministros pelo titular da pasta da Presidência, Pedro Silva Pereira.

“Está a decorrer um período de transição de seis anos para a plena aplicação do acordo ortográfico. Hoje, importantes órgãos de comunicação social já operaram a sua adaptação ao acordo ortográfico”, começou por salientar o ministro da Presidência.

Na resolução agora aprovada, fica previsto que o acordo ortográfico se aplicará “a partir do ano letivo de 2011/2012”.

“A partir de 01 de janeiro de 2012, o acordo ortográfico será aplicado no próprio Diário da República eletrónico e em toda a actividade do Governo e dos serviços dependentes da administração pública”, acrescentou Pedro Silva Pereira

Cortesia de IC

Poetas do Mundo - Ivan Laučik

POEMAS

A QUEM PERGUNTAS?

A vós a quem a luz aquece,
na abertura da luz,
inteiramente resguardados,
não é possível tocar-vos as entranhas e perguntar:
Onde apanhastes isso?

À beira do mar que contém as visões dos outros
e os rostos a quem já não é possível molestar -
a quem perguntas?

Quando se abre uma cratera
a fronteira renova-se, o fogo sossega.

Quando te cobres de flores,
quem sabe se é para adormeceres ou para acordares
para os actos mais puros?





ANOTAÇÃO DE FIM DE TARDE



Nada importa, dizem-te pela manhã:
E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

Resiste, entretém os peixes,
canta-lhes em voz alta sobre a ponte...
Os momentos de alegria quase te envergonham:
As distâncias convenientes, relações de altura e profundidade,
os invernos curtos, vento em conta para os moínhos -
e um tempo longo coberto
de ornamentos de ferro!
(Os livros de Lógica estão gastos
pelas mãos e pelo suor!)

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:
o futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,
capazes de aterrar na palma da mão.
(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos
a separar-se o comestível do que não presta.

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.
Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

Assim os incrédulos valorizam a fé.
Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.
Os vivos sabem
que tudo importa
desde manhã.



NO LIMIAR

Chuvas
silenciosas verdes desabaram
nas cinzas e nas frágeis construções das Tuas criaturas
e inundaram-nas com alimentos.

O eco da primeira explosão está presente
no brilho,
na angústia das grutas,
e ressoa nas nossas memórias.

Interior revelado do dilúvio:
os olhos abertos
para a fragilidade
das formações de neve!

Plantas glaciares que vivem
no vento.
Trazemo-las dentro de nós à noite, no inverno.

A visão
das formosas colunas, da luz vertiginosa
nos cumes rochosos
no interior das cavernas.
Foi apenas tremor?
Vidro tocando o olho:
limpando o olhar.

E sempre em frente
da crina nevada das montanhas.
Cabelos esvoaçantes (incendiados da nuca
até ao rosto)
como um pólen selvagem
na memória do fogo.

Oh, fulgor das plantas distantes,
captado por uma película interior!

A erva acesa nas colinas,
os que atearam o fogo fugiram pelos jardins.

Quem conta isto segreda-nos de perto:
O que é aqui alimento?

tradução colectiva da série Poetas em Mateus

de Mobilis in Mobile, Quetzal Editores, 1999



PEQUENA BIOGRAFIA

Ivan Laučik, poeta eslovaco, nasceu em Liptov, em 1944. Foi professor de literatura na sua terra natal. A publicação da sua obra poética esteve proibida durante os dezoito anos de regime comunista Checoslovaco. Com a fundação do Grupo literário Solitary Runners (Os corredores solitários), em 1964, a sua poesia foi finalmente divulgada. Este movimento adoptou um programa «anti-literário» e «anti-poesia», imprimindo aos textos um forte conteúdo ético.Em Portugal, a editora Livros Quetzal, publicou em 1999 Mobilis in Mobile

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Prémio Literário Maria Ondina Braga 2011

Este prémio, de periodicidade bienal, é consagrado alternadamente às modalidades de ficção e poesia, sendo a edição do ano de 2011 destinada à ficção literária nas suas variedades de conto ou romance. São admitidos a concurso trabalhos inéditos e não publicados, escritos em português. Candidaturas até 31 de Dezembro de 2010.

Regulamento

Poetícia no Facebook

Os autores do blog Poetícia decidiram criar uma página da comunidade de leitores, visitantes e fãs do blog com o objectivo de divulgar na comunidade do Facebook todos os conteúdos existentes e futuros de Poetícia.

Poetícia

Antologia Poética Ilustrada de Florbela Espanca

Da união entre a poesia de Florbela Espanca e as ilustrações de Joana Rêgo nasceu 'Florbela Espanca - Antologia Poética', livro que será apresentado esta quinta feira, e que representou um «desafio» para a artista.

«Foi um desafio, além de ser uma oportunidade para conhecer melhor a obra de Florbela», reconheceu a ilustradora e editora do livro, função que desempenhou conjuntamente com Margarida Noronha.

Joana Rêgo teve «o privilégio» de participar no processo de selecção dos poemas. Embrenhado na obra poética de Florbela Espanca durante todo o verão, descobriu aqueles que mais se adequavam ao traço do seu pincel.

A tarefa de escolher um punhado de versos, confessou a ilustradora, foi bem mais complicada do que a de ilustrar as palavras da poetisa portuguesa, que morreu em 1930.

«Depois de muito pensarmos, optámos por escolher 13 poemas, seguindo alguns critérios: eleger um autobiográfico e dividir os outros em estações, optando pela sequência primavera, Outono, inverno e verão», explicou à Lusa.

Os textos «bastante femininos» adaptaram-se à sua linguagem, algo que facilitou a construção do seu primeiro livro integral.

«Estou contente com o resultado final», admitiu Joana Rêgo, que encontrou nas suas ilustrações um «certo romantismo e tom feminino», equivalente ao que se pode encontrar na obra de Florbela Espanca.

No entanto, antes de encarar o desafio de dar cor às palavras, o conhecimento que Joana Rêgo tinha da escrita da poetisa era limitado: «Comecei a interessar-me pela poesia de uma maneira mais profunda desde há cinco anos, mas a Florbela não era, de todo, a minha poeta preferida».

Para a ilustradora, licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), mestre em Pintura pelo San Francisco Art Institut, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, há um certo «preconceito» relativo à autora de Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923).

«As pessoas acham que ela era muito dramática e derrotista. Penso que era uma pessoa muito sensível, com poemas muito confessionais, muito sensuais», concretizou.

Mas o preconceito parece desmoronar em Florbela Espanca - Antologia Poética que, de acordo com Joana Rêgo, tem tido uma boa recepção por parte do público.

«O feedback que tenho tido é de que a obra é bastante interessante», revelou, acrescentando que quem conhece o seu trabalho como ilustradora não encontra diferenças entre as suas ilustrações de sempre e aquelas que surgem no livro.

Cortesia de SOL

Projecto Letras Eternas - O intransmissível da alma

Será que é possível materializar poeticamente o intrasmissível da alma? Para Olinda de Freitas, mentora do projecto Letras Eternas, sim.

«A paixão de ter, sempre perto, algo de único, algo de intransmissível: criações e recriações que dão, ao seu quotidiano, tantas vezes esquecida, alma.Abraçamos a arte com uma enorme abrangência criativa: reinventamos a sua vida e não esquecemos aquela frase, aquele poema, que define tudo o que, com alma nas mãos, fazemos.» é como a mentora define o Letras Eternas, projecto inovador e pioneiro que vai de encontro ao mais íntimo e intramissível de cada pessoa.

No sítio do Letras Eternas encontram-se vários exemplos como é o caso dos Livros de Parede.

Visite Letras Eternas para mais informação.

Primeiro Amor

Ó Mãe... de minha mãe!
Explica-me o segredo
Que eu mesmo a Deus sem medo
Não ia confessar:
Aquele seu olhar
Persegue-me, e receio,
Pressinto no meu seio
Ergue-se-me outro altar!

Eu em o vendo aspiro
Um ar mais puro, e tremo...
Não sei que abismo temo
Ou que inefável bem...
Oh! e como eu suspiro
Em êxtase o seu nome!...
Que enigma me consome,
Ó Mãe de minha mãe!

João de Deus

Casa da Escrita em antigo palacete do poeta Cochofel

Em Casa da Escrita foi convertido o palacete de família de João José Cochofel, adquirido pela Câmara Municipal de Coimbra aos herdeiros.

José Carlos Seabra Pereira será o respectivo curador que, segundo notícia no JL (nº1048, 1-14 Dezembro), «aposta num serviço à comunidade e numa atenção à escrita», para além de uma intensa programação cultural que incluirá, «entre outras actividades, comunidades de leitura».
Inaugurado no passado dia 28 de Novembro, foi na mesma ocasião lançada uma antologia de poemas de João José Cochofel.

JJC foi, ainda, o responsável pela organização do Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, interrompido pela sua prematura morte, e ainda hoje referência insubstituível para os estudiosos da literatura portuguesa. (cf. Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea).

Cortesia de DGLB

CITAÇÃO - Aleksandr Pushkin

A palavra de um poeta é a essência do seu ser

O common ground e a literatura

Organizado pelo British Council, teve lugar em Berlim, entre os dias 11 e 14 deste mês, um seminário literário designado “Our Shared Europe”. O propósito do encontro foi particularmente interessante e visou problematizar e reflectir sobre a relação entre a expressão literária e o vaivém identitário que a Europa hoje em dia respira.

Os escritores convidados corresponderam a esta topografia imaginária que pressupõe o convívio entre heranças tão ricas quanto diversas. A começar pela “chair”, a escritora Ahdar Soueif, que partilha a literatura inglesa e egípcia, escrevendo em ambas as línguas - o Inglês e o Árabe - como quem partilha vários oceanos no mesmo mar. O mesmo se passou com os restantes escritores do painel principal. Foi o caso de Robin Yassin-Kassab, meio inglês meio sírio, e de Jamal Mahjoub, meio sudanês meio inglês. Já Inaam Kachachi, uma iraquiana que veio viver para Paris em 1979, deu a ver, ao longo das suas apaixonadas intervenções, como divide o seu mundo literário entre a imagem de um país que já não existe (o seu dos tempos pré-Saddam) e uma mundivivência cosmopolita e memorial.

A proposta “Our Shared Europe” do British Council está enraizada num conceito estimulante, o de ‘common ground’. Nas discussões de Berlim, este conceito surgiu como um espaço dissociado de alguns dos actuais estigmas ‘multicult’. Ao fim e ao cabo, o ‘common ground’ é um espaço aberto que escapa a origens e devires fixos e que tenderá a revelar cada vez mais uma Europa em que as identidades fechadas deram lugar a um novo tipo de uma mobilidade (no seu sentido mais lato: física, experimental, imaginária). O ‘common ground’ é uma espécie de ‘espaço público mediatizado’, na acepção de Dominique Wolton*, onde os mais diversos tipos expressivos, estéticos ou não, deverão ser enunciados com idênticas oportunidades e sem quaisquer constrangimentos.

Há década e meia, mais concretamente em 1996, o semiótico australiano A. Mchoul** caracterizou a noção de comunidade – ou de ‘being-in-common’ como então lhe chamou – de acordo com a ideia de uma história policentrada, livre de estruturas fixas e aliada a uma espacialidade dispersa e não centrada territorialmente. Dissociando-se de uma ideia de cultura baseada apenas na linearidade da história e na pertença geográfica, McHoul não estaria longe deste “common ground”. Afinal, o que se pretendeu no debate de Berlim foi confrontar novos tipos de literatura e de fusão criativa com um ‘being-in-common’ europeu necessariamente aberto e sobretudo vocacionado para fazer corresponder a diferença à normalidade mais evidente e rica do nosso tempo.

O benefício da diferença e a incorporação do ‘outro’ no ‘mesmo’, ao nível literário e do vivido, constituem os nortes da desafiadora proposta do British Council que, em breve, promoverá em Portugal uma iniciativa deste seu projecto “Our Shared Europe”.

**Dominique Wolton, As contradições do espaço público mediatizado em Revista de Comunicação e Linguagens, Nºs 21/22 (Org. Mário Mesquita), Edições Cosmos, Lisboa, pp. 167-188.

**A.McHoul, Semiotic Investigations -Towards na Effective Semiotics,Un.of Nebraska Press, Lincoln & London, 1996, pp. 47-53 e 57-64.


Por Luis Carmelo

Cortesia de PNETLiteratura

Versos a um cão

Que força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vemiformes.

Cão! -- Alma do inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...

E irás assim, pelos séculos adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos teus pais!

Augusto dos Anjos

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