O livro inédito de Rachel de Queiroz

“Mandacaru”, livro de poemas inéditos, foi encontrado no espólio de Rachel de Queiroz. No ano do centenário do nascimento da escritora brasileira, o Instituto Moreira Salles lança a edição fac-similada deste manuscrito, escrito aos 17 anos.

Mesmo antes de começar a ser feita a purga dos papéis do Fundo Rachel de Queiroz, que pertence aos arquivos literários do Instituto Moreira Salles (IMS), Brasil, Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura deste instituto, e o consultor literário, poeta e professor universitário Eucanaã Ferraz começaram a abrir as caixas com o espólio da escritora brasileira e a “pinçar textos”.

Descobriram então -entre os cinco mil livros e documentos -uma colectânea de poemas manuscritos intitulada “Mandacaru”. São dez poemas de juventude da primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras, em 1977, e também a primeira a receber, em 1993, o Prémio Camões.

Nessa obra inédita, Rachel de Queiroz (que nasceu a 17 de Novembro de 1910, em Fortaleza, no Ceará, e morreu no dia 4 de Novembro de 2003, no Rio) já abordava temas e personagens (algumas da mitologia cearense) que apareceram posteriormente nos seus romances, crónicas e peças de teatro: a seca, o êxodo, a fome, o sol escaldante, e também “a cabocla que faz renda no alpendre sentada no chão”, o Lampião, líder de cangaço, “que cabra valente que ele é”, ou D. Bárbara de Alencar, que lutou ao lado dos filhos na Confederação do Equador, em 1824.

Na sequência dessa descoberta, “Mandacaru” foi publicado pelo IMS em Novembro, numa edição fac-similada que reproduz os manuscritos e tem organização de Elvia Bezerra, para comemorar os 100 anos do nascimento da autora de “Memorial de Maria Moura”. Ao lado de outras iniciativas, como a exposição “Rachel de Queiroz Centenária”, que pode ser vista na sede do Instituto, no Rio, até 16 de Janeiro. Ali se mostram alguns dos originais que pertencem ao acervo da escritora: fotografias, projectos de capas, programas de peças de teatro, caricaturas, manuscritos e objectos nunca antes expostos, como as ilustrações originais que abriam cada capítulo do romance “O Galo de Ouro”, datadas de 1951.

Uma garota assim…

Os poemas de “Mandacaru” foram escritos em 1928, quando a autora tinha 17 anos, dois anos antes da publicação de “O Quinze”, o romance de estreia (em Portugal foi editado pela Difel) que levou o escritor Graciliano Ramos a achar que Rachel de Queiroz devia ser um pseudónimo de “sujeito barbado”: “‘Uma garota assim fazer romance!’, duvidou, e concluiu por conta própria: ‘É homem.’”, como explica Elvia Bezerra na apresentação que faz da obra no “site” do IMS.

Mário de Andrade, na crítica a “O Quinze” (1930), que retratava a seca que devastou o Nordeste em 1915, dizia mal do prefácio onde estranhava a versalhada. “Prefácio e verso são literatice mas da gorda. (…) O que surpreende mais é justamente isso: tanta literatice inicial se soverter de repente, e a moça vir saindo com um livro humano, uma seca de verdade, sem exagero, sem sonoridade, uma seca seca, pura, detestável, medonha (…)”, escrevia o autor de “Macunaíma”. Nesse prefácio, Rachel de Queiroz citava alguns dos versos de “Mandacaru” e tentava aproximar-se dos modernistas: “Mandacaru é um dos balbucios com que nós, os do Nordeste, tentamos colaborar na grande harmonia nacional que vocês executam”.

No texto introdutório que abre esta edição, “Nata e Flor do Nosso Povo”, a organizadora afirma: “Mais de uma vez, Rachel de Queiroz mostrou desprezo pela preservação de seus originais ou de inéditos. Não fosse a dedicação da amiga Alba Frota, que inspirou a personagem Maria José no romance ‘As Três Marias’, seria bem minguado o arquivo da escritora”. Foi a Alba que a escritora doou, em 1928, os originais manuscritos de “Mandacaru”.

A amiga de Rachel de Queiroz era chefe do Serviço de Documentação da Universidade Federal do Ceará e queria escrever uma biobibliografia comentada da escritora, por isso guardou a produção literária da amiga durante anos. Mas viria a morrer num acidente de avião, em 1967, quando voltava de Não Me Deixes, a fazenda de Rachel em Quixadá, no sertão, e não pôde concretizar o projecto.

Dos dez poemas -”Nheengarêçaua”, “D. Bárbara de Alencar”, “O êxodo”, “O acre”, “Nascimento”, “Cedro”, “Orós”, “Meu Padrinho”, “Lampião” e “Renda da terra” -agora editados, quatro já tinham sido publicados em jornais e revistas. No espólio depositado no IMS existe ainda um recorte do jornal “O Ceará”, de 5 de Setembro de 1928, onde se dava a notícia de que “a jovem e brilhante poetisa” tinha lido poemas de “Mandacaru”, livro que tinha intenção de publicar proximamente. Do Fundo Rachel de Queiroz fazem também parte recortes que a mãe, Clotilde de Queiroz, fez dos primeiros artigos da filha e uma versão dactilografada dos poemas, datada de 1958, que leva a pensar que nesse ano se terá voltado a tentar publicar estes inéditos.

“Mandacaru” pode ser comprado em http://ims.uol.com.br/Mandacaru/ D534) e custa 16 euros.

Por Isabel Coutinho

Cortesia de O Público

Derek Walcott vence prémio de poesia T. S. Eliot

O Nobel da Literatura Derek Walcott venceu o prémio de poesia T. S. Eliot.

Valerie Eliot, viúva de T. S. Eliot, autor de “A Terra Baldia”, entregou ao galardoado um cheque de 17.500 euros (15.000 libras) numa cerimónia realizada no passado dia 25 de Janeiro no museu Wallace, de Londres.

Nascido em 1930 na ilha caribenha de Santa Lucía, Derek Walcott competia com o também prémio Nobel irlandês Seamus Heaney, o veterano da guerra do Iraque Brian Turner e Sam Willets, um poeta que ultrapassou uma adição à heroína de mais de 10 anos.

Walcott foi premiado pela coleção de poemas “White Egret”, uma profunda meditação sobre a morte e o passar do tempo, que a presidente do júri, a poeta Anne Stevenson, considerou “emocionante e tecnicamente impecável".

“É um livro completo do começo até ao final, cada poema pertence inteiramente ao mesmo. (Walcott) é um enorme poeta, um dos melhores poetas de língua inglesa”, disse Anne Stevenson.

Derek Walcott protagonizou um escândalo em 2009 quando retirou a sua candidatura ao cargo de professor de poesia de Oxford depois de uma rival ter divulgado documentos segundo os quais o poeta tinha assediado sexualmente antigas alunas.

Cortesia de Diário Digital

CITAÇÃO - Antonin Artaud

Sendo a literatura o produto variável e flutuante de cada sociedade, está por isso sujeita às mudanças sociais e às revoluções do espírito humano, cujas evoluções segue, reflectindo as ideias e paixões que agitam os homens, e quinhoando das suas preocupações.

Escreve!

Não sei o que supor
Do teu silêncio. Escreve!
Quem é amado deve
Ser grato ao menos, flor!

Se eu fosse tão feliz
Que te falasse um dia,
De viva voz diria
Mais do que a carta diz.

Mas olha, tal qual é,
Não rias desse escrito,
Que pouco ou muito é dito
Tudo de boa-fé.

Há nesse teu olhar
A doce luz da Lua,
Mas luz que se insinua
A ponto de abrasar...

Pareça nele, sim,
Que há só doçura, embora,
Há fogo que devora...
Que me devora a mim!

Que mata, mas que dá
Uma suave morte;
Mata da mesma sorte
Que uma árvore que há;

Que ao pé se lhe ficou
Acaso alguém dormindo
Adormeceu sorrindo...
Porém não acordou!

Esse teu seio então...
Que encantadora curva!
Como de o ver se turva
A vista e a razão!

Como até mesmo o ar
Suspende a gente logo,
Pregando olhos de fogo
Em tão formoso par!

Ó seio encantador,
Delicioso seio!
Que júbilo, que enleio,
Libar-lhe o néctar, flor!

Eu tenho muita vez
Já visto a borboleta
Na casta violeta
Pousar os leves pés;

E num enlevo tal,
Numa avidez tamanha,
Que a gente a não apanha
Com dó de fazer mal!

Pegada à flor então
No pé curvinho e mole,
As asas nem as bole
Toda sofreguidão!

Pousou... adormeceu!
Só vê, só ouve e sente
O cálix rescendente
Daquele mel do céu!

Pois vê com que prazer
E com que ardente sede
Te havia... que não hei-de!...
Também beijar, sorver!

Mas eu só peço dó,
Só peço piedade!
Mata-me a saudade
Com duas Unhas só!

Eu, a não ser em ti,
Achar alívios onde?
Escreve-me! responde
A carta que escrevi!

Cansado de esperar
Às vezes quando saio,
Pensas que me distraio?
Pois volto com pesar!

Concentra-se-me em ti
A alma de tal modo,
Que esse bulício todo
Nem o ouvi, nem vi!

Ninguém te substitui
Porque só tu és bela!
Que estrela a minha estrela,
E que infeliz que eu fui!

Mas devo-te supor
Sempre indulgente e boa:
Escreve-me e perdoa
Meu violento amor!

Respeita uma afeição
Inútil mas sincera!
Tu és mulher, pondera
O que é uma paixão.

Com sangue era eu capaz
De te escrever; portanto,
Tinta não custa tanto,
E não me escreverás?

Uma palavra, sim,
Que me não amas... queres?
Enquanto me escreveres,
Tu pensarás em mim!

Só essa ideia, crê,
Encerra mais doçura
Que as provas de ternura
Que outra qualquer me dê!

João de Deus

União Árabe de Cuba recorda o pintor e poeta Fayad Jamís

No passado mês de Dezembro, a União Árabe de Cuba (UAC) recordou ao pintor e poeta Fayad Jamís, ao proclamar os prêmios do concurso bianual que auspicia a organização em homenagem a esse insigne intelectual, já desaparecido.

O presidente da UAC, Alfredo Deriche, o embaixador do Estado de Qatar, Alí Bin Saad A o-Kharji, e outros membros do corpo árabe acreditado nesta ilha, entregaram o galardão aos concursantes vencedores.

A presidenta do Comitê Organizador, María Derich, significou que o certamen constitui um médio para expressar o mais sentido tributo a homenagem ao pintor e poeta, e sua visão humanista.

Informou-se que a faz Fragmento de Muro, de Alfredo Otero, resultou a ganhadora do prêmio outorgado pela UAC, enquanto o auspiciado por Qatar o obteve Jorge Díaz, com a peça Me concede Luz.

Por sua vez, Juan J. Blanco foi proclamado o merecedor de similar galardão concedido pela sede diplomática da República Argelina Democrática, ao apresentar Sonho, pintura feita em acrílico.

Elemento dois, obra realizada em técnica mista por Francisco Fernandez, foi a seleção da representação da embaixada de Líbia.

Assim mesmo, Síria outorgou prêmio a Cándido Cuenca, autor de Trilogía, homenagem dos povos árabes.

Mais de 40 trabalhos apresentaram-se neste XI Salão de Artes Visuais Fayad Jamís, que se levou a cabo no ano do 80 aniversário do destacado artista de origem libanês.

Este tipo de concurso, criado faz 20 anos, de alcance nacional, fomenta o estudo das artes visuais desde uma perspectiva que aprofunde na cultura árabe e sua manifestação na de Cuba e suas tradições.

Em declarações a Imprensa Latina, o presidente da UAC destacou que tanto neste prêmio como o de Abdala, de literatura, também organizado pela entidade, participam dezenas de artistas com obras que calam no árabe, seus valores e sua cultura.

Cortesia de Prensa Latina

Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen

Assinalando a entrega do Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen à Biblioteca Nacional de Portugal, terá lugar, no edifício desta instituição, no dia 26 de Janeiro de 2011, uma sessão com o programa seguinte:

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16H
Cerimónia de assinatura do termo de doação do espólio de SMBA
pelo Director da BPN, Jorge Couto, e pelos filhos da Autora.

16H15
Usarão da palavra alguns membros da Comissão de Honra,
amigos da Autora.

18H
Leitura de Poemas por Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra.

18H30
Inauguração da exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen
– Uma vida de poeta”, que será apresentada pelas Comissárias,
Paula Morão e Teresa Amado.


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Nos dias 27 e 28 de Janeiro terá lugar nas instalações da Fundação Gulbenkian o COLÓQUIO INTERNACIONAL SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, promovido por Maria Andresen de Sousa Tavares e realizado com a colaboração do Centro Nacional de Cultura.

A confluência nestes três dias da cerimónia de entrega do Espólio, da abertura da Exposição e da realização do Colóquio visa sublinhar a importância da obra da Autora, ao mesmo tempo que se proporciona a investigadores portugueses e estrangeiros o acesso a documentos (autógrafos e outros) que possibilitarão novas perspectivas de estudo.

Para levar a cabo estes projectos foi determinante a cooperação do Centro Nacional de Cultura através do empenho do seu presidente, Guilherme d'Oliveira Martins, assim como de Teresa Tamen e Conceição Reis Gomes.

As iniciativas referidas assinalam a conclusão da primeira fase de trabalho sobre este Espólio, que consistiu na inventariação - organização, classificação e identificação - dos documentos. Estas tarefas foram realizadas entre Setembro de 2008 e Setembro de 2010, por Manuela Vasconcelos (técnica da BNP) e por Maria Andresen de Sousa Tavares, com a participação temporária de Luísa Sarsfield Cabral. O trabalho decorreu nas instalações do Centro Nacional de Cultura, que disponibilizou para esse efeito todo o apoio logístico necessário. A equipa contou com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian e do Banco Português de Investimento.

Cortesia de FCG

Matsuo Bashô: poeta japonês

O ritmo na poesia tradicional portuguesa é marcado, geralmente, por versos de cinco e de sete sílabas métricas. Na poesia tradicional japonesa também assim é. As origens da poesia japonesa perdem-se na noite dos tempos, mas desde épocas remotas que os ritmos preferidos pelos poetas japoneses se concretizam em versos de cinco e de sete sílabas, como se pode ver em antologias organizadas a partir do século VIII.

Na Arte Breve da Lingoa Japoa, obra do Padre Jesuíta João Rodrigues publicada em Macau, em 1620, faz-se referência ao estilo poético japonês que se caracteriza pelo uso de versos " de sinco & sete syllabas, que nesta lingoa fazen muito boa cadencia". Esta Arte Breve da Lingoa Japoa é a primeira Gramática alguma vez elaborada sobre a língua japonesa. Foi feita por um português, João Rodrigues, apelidado Tçuzu (o Intérprete), missionário jesuíta que viveu largos anos no Japão e se debruçou sobre o funcionamento daquela língua oriental. Mas não é sobre esta obra que quero falar agora. Apenas me lembrei dela porque penso que é a primeira obra escrita em português em que há referência à poesia japonesa.

Um grande poeta do Japão, tão famoso naquele país como Camões o é em Portugal. Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena cidade de Ueno, na província de Iga e faleceu em Osaka, em 1694. O seu nome de nascimento era Matsuo Kinsaku, mas, muitos anos depois, quando já era um conhecido poeta, mestre na sua arte, adoptou o pseudónimo de Bashô, agradecido aos seus discípulos que tinham plantado uma bananeira de jardim (bashô) junto da sua modesta habitação. A vida de Bashô foi uma permanente caminhada em busca do conhecimento e do contacto com a Natureza, procurando atingir a perfeição na expressão poética, tendo conferido grande beleza e dignidade literária ao género poético designado haiku ou haikai. Este género poético continua na linha da poesia tradicional japonesa. É um dos mais notáveis géneros poéticos da literatura universal e, possivelmente, aquele que apresenta a forma de expressão mais breve e concisa. Cada poema é constituído por dezassete sílabas métricas distribuídas por versos ou segmentos de 5-7-5 sílabas. Teve origem numa forma poética mais antiga, o tanka, que é constituído por trinta e uma sílabas distribuídas por cinco versos de 5-7-5-7-7 sílabas métricas.

No haiku, encontramos a simplicidade, a concisão, o sentimento da Natureza. Pressupõe, no poeta, uma atitude de contemplação e de despojamento e o sentido da permanência e da mudança. Para se alcançar a beleza subtil desta forma de poesia é necessário aprender a respirar em uníssono com a Natureza. O haiku nasce de um acontecimento vivenciado, surge a partir de um momento concreto que se viveu e que impressionou os nossos sentidos e o nosso espírito. Em poucas palavras, o poeta tenta transmitir, ou melhor, sugerir a essência do acontecimento breve que o impressionou.

Muitos dos haiku de Bashô estão incluídos nos diários que escreveu durante as várias viagens ou peregrinações que realizou através do Japão. Assim, pode considerar-se Bashô não só como um poeta mas também como um prosador de apurado sentido estético, criador de um estilo que será modelo para muitos escritores em sucessivas gerações. A sua obra mais conhecida, Oku no Hosomichi, (traduzida para português com o título O Caminho Estreito para o Longínquo Norte), conta-nos, em forma de diário, intercalando poemas em pequenos textos em prosa, a sua longa viagem por diversas regiões do Japão.

Muito haveria a dizer sobre este poeta considerado um dos grandes mestres da poesia japonesa, mas o melhor é dar a ler alguns dos seus haiku (escolhemos a tradução de Luísa Freire, em Imagens Orientais).

Crisântemo branco -
nem um só grão de poeira
a vista descobre

Outono já frio;
eu penso no meu vizinho -
como viverá?

No meio da planície
uma cotovia canta,
liberta de tudo.

A primeira neve:
tal basta para dobrar
as folhas dos lírios.

Cortesia de Expresso

Trovas à morte de Inês de Castro

Qual será o coração
tão cru e sem piedade
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!

A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’ altura,

para d’alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.

Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era Dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim

Começou-m’a desejar,
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o:
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.

Dei-lhe a minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.
Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.

Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.

Como as cousas qu’hão de ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.

E quando vi que descia,
saí à porta da sala,
devinhando o que queria:
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: — “Havei, senhor,
desta triste piedade!

“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
qu’ante vós estão presentes
os quais vossos netos são.

“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim só, com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’ Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.

“Lembre-vos o grand’amor
que me vosso filho tem,
e que sentir grã dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, s’algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu’estes filhos ficaram
órfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;

“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”

El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;


Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;
mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca nisso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora,

Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
mui triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de atrás dele, mui irado,
estas palavras dizia:

“— Senhor, vossa piedade
é digna de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas duma mulher.
E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
este, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.

“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.

“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado;
qu’agora seja anojado,
amanhã lhe esquecerá.”

E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por se em tais extremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.

E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“—Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”

Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh’ouviram,
mui crus e não piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mão
m’atravessam o coração,
a confissão me tolheram:
este é o galardão
que meus amores me deram

Garcia de Resende

O Pai do Cordelismo

A história de um poeta descrito por Carlos Drummond de Andrade como o rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro. Leandro Gomes de Barros é considerado o pai do cordel no Brasil. Paraibano da zona rural, ele escreveu histórias lidas até hoje, quase um século depois da sua morte.

“Foi no autódromo de Ímola
Grande Prêmio italiano
Dia primeiro de maio
De noventa e quatro o ano
Que trouxe tristeza e pena
Acabando Ayrton Senna
Neste desastre tirano”

Homenageado neste cordel, Ayrton Senna é até hoje para muitos brasileiros o número um do automobilismo. Na literatura de cordel, o poeta também considerado número um, começou a arriscar suas rimas na paisagem do sertão paraibano.

Da Serra do Teixeira saíram muitos cantadores e poetas. Segundo alguns pesquisadores, a região é o berço da literatura de cordel. Se lá é o berço, o pai é Leandro Gomes de Barros.

Leandro é descrito pelo folclorista Câmara Cascudo de um jeito carinhoso: "Baixo, grosso, de olhos claros, bigodão espesso, cabeça redonda, meio corcovado, risonho contador de anedotas, tendo a fala cantada e lenta do nortista, parecia mais um fazendeiro que um poeta. Pleno de alegria, de graça e de oportunidade".

Em Pombal, cidade paraibana onde nasceu, Leandro virou nome de rua. Virou também a cabeça da professora de literatura Ione Severo, que fez uma tese sobre o primeiro poeta do cordel. “Começou daqui. É uma honra para mim, mas me acho também na obrigação de fazer quase um resgate aqui em Pombal da história de Leandro”, disse a professora.

Leandro Gomes de Barros nasceu no Sítio Melancia. Da casa onde ele morou, não sobraram apenas tijolos e entulho. “Conseguimos um desenho de como era esta casa. Estamos tentando que o atual dono faça um monumento aproveitando esse material e tijolos antigos, para valorizar a memória de Leandro”, comentou Ione.

Hoje, quem toma conta do sítio é Francisco Sá Linhares. Ele contou o pouco que sabe sobre Leandro: “Ele nasceu em 1865, saiu daqui em 80. Aí pronto. É só o que eu sei contar. Diz que ele era escritor, mas não li nenhum folheto de cordel, não”.

Em outro sítio, moram alguns parentes de Leandro. Genival Formiga de Souza é o sobrinho-bisneto do poeta. O pai dele, Manoel Pedro de Souza, falecido em 2002, contava histórias sobre o antepassado ilustre. “Seu Manoel contava que todo mês de dezembro o Leandro Gomes de Barros mandava de Recife, num jumento, duas cargas de folhetos para família dele vender aqui. Ele costumava dizer que não dava para nada, que no final do dia não tinha mais um folheto. Assim eles se sustentavam”, explicou a professora Ione.

Para Genival, o dom da poesia parou em Leandro Gomes de Barros, por mais que a família quisesse criar outros ‘Leandros’. “Meu pai botou o nome no meu irmão de Leandro pra ver se saia poeta. Saiu que nem sabia assobiar”, brincou seu Genival.

Mas como será que Leandro Gomes de Barros, de família iletrada, virou o grande poeta popular? Ione resume um pouco da história: “Ele saiu do Sítio Melancia acompanhado de um padre da época que o levou para Teixeira, aos 12 anos. A gente sabe que os padres são eruditos, têm muitas leituras, têm uma biblioteca. Imagina-se que Leandro se apropriou dessas leituras, mesmo que poucas, para se escolarizar. Lá ele encontrou cantadores e poetas da época. Eles se juntavam para cantar. Ele foi o primeiro a imprimir na sua própria casa, a vender na sua própria casa e a divulgar pra todo o Nordeste, para todo o Brasil”.

Quando começou a imprimir seus poemas, a publicação se chamava simplesmente folheto. O nome cordel veio depois, como conta Gonçalo Ferreira da Silva: “O verbete surgiu em 1881, por ocasião da publicação do dicionário contemporâneo de Caldas Valente em Portugal”.

No dicionário, cordel aparece como “cordão, guita, barbante”. Literatura de cordel: “conjunto de publicações de pouco ou nenhum valor”. Na época, os próprios poetas não aceitavam essa denominação. Aos poucos foram se acostumando. Hoje, quase não se vê mais o folheto à venda pendurado em barbante, mas o nome cordel pegou.

Os folhetos de Leandro viraram clássicos. Além de O Cachorro dos Mortos, Vida de Canção de Fogo e seu Testamento, História da Donzela Theodora, Vida de Pedro Cem. Alguns deles temperaram a obra de um morador de Recife: o dramaturgo e romancista Ariano Suassuna.

“A minha peça mais conhecida, o Auto da Compadecida, é fundamentado em três folhetos da literatura de cordel. O primeiro ato é baseado em um folheto chamado O Enterro do Cachorro, que depois se descobriu que era de autoria de Leandro de Barros e era um pedaço de um folheto chamado O Dinheiro”, explicou Suassuna.

O Testamento do Cachorro conta a história de um padre, subornado para fazer o enterro de um cachorro. Veja no vídeo como ficam os versos originais que inspiraram Suassuna com as cenas do filme o Auto da Compadecida.

“O segundo é um folheto chamado O Cavalo que Defecava Dinheiro, que também é de Leandro Gomes de Barros. O terceiro é baseado em um folheto chamado O Castigo da Soberba, que é de um grande poeta chamado Silvino Pirauá.

Leandro Gomes de Barros morreu em 1918, deixando centenas de títulos de cordel. A história dos direitos autorais de sua obra mostra que pirataria é problema antigo. É o que contou em São Paulo o doutor em literatura Aderaldo Luciano:

“A viúva acabou vendendo os direitos da obra de Leandro para o João Martins de Athayde. Costumo dizer que o João Martins de Athayde queria ser Leandro Gomes de Barros. E realmente conseguiu ser, porque ao comprar a obra de Leandro, ele começou a publicar como editor-proprietário, depois ele tira o título de proprietário, fica só editor. Depois ele tira o título de editor e fica apenas João Martins de Athayde.”

Em Pombal, a terra de Leandro, encontramos Ione vendendo os livretos na feira. Seu cunhado, Francisco de Oliveira, imita os poetas antigos, declamando versos para atrair comprador.

“Eu que nunca fui medroso
Apenas muito assombrado
Quis correr, porém não pude
Porque estava entrevado
Depois subiu a caatinga
Baixou dez urubus tinga
E eu vi que estava cagado”

“Meu objetivo não é ganhar dinheiro. Mas é fazer com que esses poetas não sejam esquecidos. Que eles sejam lidos, relidos, recontados por aí afora”, concluiu a professora Ione.

Cortesia de Globo Rural

VIP Art é a primeira feira de arte contemporânea online

E se pudesse frequentar uma feira de arte, comprar obras, ter uma visita guiada com direito aos comentários da curadora da Tate e contactar artistas e galerias, tudo isto sem sair de casa? Isso seria a VIP Fair (Viewing in Private), o evento online que vai reunir 140 galerias, incluindo algumas das mais prestigiadas internacionalmente - como a Gagosian, a White Cube e a Hauser & Wirth -, que irão apresentar 1928 obras de arte. A primeira feira de arte contemporânea online estará disponível em www.vipartfair.com, entre os dias 22 e 30 de Janeiro.

Uma vez registados, os frequentadores da feira poderão clicar nas imagens e ver as obras de arte contrastadas com o tamanho de uma pessoa, poderão fazer zoom para ver os detalhes de uma pintura e as esculturas e as instalações poderão ser vistas de diferentes pontos de vista. A acompanhar as obras serão fornecidos dados biográficos dos autores, documentários em vídeo, informação de background e campos de pesquisa por artista e cidades onde estão instaladas as diferentes galerias.

Os interessados em receber informações detalhadas terão de pedir um passe VIP que custará 100 dólares durante os primeiros dois dias e 20 dólares durante o resto da semana. Com este passe, o visitante pode ter acesso a colecções privadas e, entre outras vantagens, a uma visita virtual comentada pela curadora da Tate Gallery, Jessica Morgan.

Os potenciais compradores poderão igualmente ter acesso ao ranking dos preços - que variam entre os 5 mil dólares e o milhão de dólares - e os contactos para a compra de obras começam com um sistema de mensagens instantâneas e poderão continuar via Skype. Para manter a segurança do negócio, porém, o processo final de venda terá de ser completado offline. Este sistema estará disponível e operacional 18 horas por dia.

O “The Telegraph” questiona-se se este sistema funcionará, se as feiras virtuais poderão vir a substituir as feiras reais, e chega à conclusão que há algumas coisas que se perdem neste processo, nomeadamente a “electricidade do contacto social” que sempre acontece em eventos desta categoria.

Porém, uma coisa é certa: esta feira de arte tem o potencial de vir a acolher pessoas que provavelmente não estariam presentes numa feira real. Alison Jacques, uma negociante de arte com base em Londres, diz ao jornal: “[Esta feira] tem o potencial de nos fazer chegar a clientes na Ásia e noutros locais onde nós normalmente não chegaríamos”.

Se isto acontecer, mais feiras VIP poderão vir a acontecer ainda este ano, indica. E, mesmo que isso não aconteça, esta feira poderá mudar a forma como as feiras de arte operam em todo o mundo.

A ideia desta feira online nasceu há três anos, da cabeça do negociador de arte nova-iorquino James Cohan. A mulher de Cohan, Jane, - directora da galeria de ambos -, explica que a ideia demorou muito até ser posta em prática porque a situação económica era favorável. Mas agora, com a grave crise financeira internacional, chegou a altura de rever esta ideia e de a pôr em prática. “Durante a crise começámos a olhar para a Internet como forma de expandirmos o negócio. Estivemos igualmente a ver como as feiras usam a Internet para fazer negócio. É interessante vermos que 16 por cento das vendas da [leiloeira] Christie’s durante o ano passado tenham sido arrematadas por compradores online e que metade dessas eram de novos clientes”.

Finalmente, na Primavera passada, a galeria Cohan recrutou o prestigiado negociante David Zwirner, seguido de um grupo coeso de dealers de primeira linha - de Los Angeles a Xangai - que se decidiram a integrar o grupo de galerias presentes nesta primeira feira de arte contemporânea online.

Cortesia de O Público


Dez poetas concorrem na Póvoa

O júri do prémio literário Casino da Póvoa/Correntes d'Escritas seleccionou dez das 150 obras a concurso, e o vencedor será conhecido a 23 de Fevereiro, na sessão pública de abertura do encontro. Este prémio, que tem um valor de 20 mil euros, distingue este ano a poesia.

O júri seleccionou os livros Inexistência de Eva (de Filipa Leal), Deriva Anthero, Areia & Água (Armando da Silva Carvalho), Arado (A. M. Pires Cabral), Curso Intensivo de Jardinagem (Margarida Ferra), Guia de Conceitos Básicos (Nuno Júdice), Mais Espesso Que a Água (Luís Quintais), ecrophilia (Jaime Rocha), O Anel do Poço (Paulo Teixeira), O Livro do Sapateiro (Pedro Tamen) e O Viajante sem Sono (José Tolentino Mendonça).

Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa e castelhana, editadas em Portugal, entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as obras póstumas, as obras completas e compilações e as obras de literatura infanto-juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. O prémio é entregue no dia 26 de Fevereiro, na sessão de encerramento.

A próxima edição do Correntes d'Escritas - Encontro de Escritores de Expressão Ibérica conta com a participação de cerca de 60 escritores e inclui uma série de outras iniciativas, como espectáculos de teatro e de cinema e exposições. Será também apresentado o n.º 10 da revista Correntes d'Escritas, cujo dossiê é dedicado à escritora Luísa Dacosta, que em 2004 foi distinguida com a Medalha de Mérito pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

Cortesia de DN

Poetas do Mundo - Sebastião Alba

POEMAS

A pomba para o cheina

Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.


Trecho da Praia

Como por um ralo atrás da pupila,
vêem-me agir:
nada divide o caranguejo, dividindo
os lodos em seu sulco,
e também suas pinças se amotinam
à passagem, com sombra,
duma ave marinha…

E antes da chegada ascendente do mar,
ou que alguém module a voz
pela que da nuvem soou
no paraíso, amam-se na areia.
Enquanto do largo
o halo dum navio nocturno
se expande e irisa em seu redor.


Na sua primordial existência…


Na sua primordial existência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável

e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou

apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie

já não buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou
que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária

e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.


A Guerrilheira

Eis a ocasião em forma de mulher
com a ponte do lábio galgando
a voz Seus cabelos ondulam
por dentro das estrofes

Na mesma noite dividida ao meio
como se um lado reflectisse no outro
a sombra que na folha me adelgaça os dedos
verte ainda alguns versos e pára

Para quê

Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados
pelo volteio das luzes contrárias
E desatam-se das luzes os seus reflexos
a noite desdobra-se em metades imperfeitas.



não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde

Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável

atento à efusão
da névoa na sala.



há poetas com musa. Muitos.

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.

Preciso de Qualquer Objecto

Preciso de qualquer objecto dos teus, uma coisa de que possas já desfazer-te, mas tenha sido tua, para trazer comigo, nestes dias.
Não me lembro se já te disse que o escritor norte-americano Ernest Hemingway andava com uma pata de coelho na algibeira. Os antepassados de teu pai, os meus, eram mágicos, bruxos, fetichistas.
Deixa-o à porta, eu hei-de vê-lo, querida.
Virei sempre com uma carta para ti. Quando não vier, é porque os sinos de Braga me estavam a ensurdecer, e fui dar uma volta.
Toma lá o orvalho e a rosa, meu amor.

Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

PEQUENA BIOGRAFIA

Dinis Albano Carneiro Gonçalves (Sebastião Alba), poeta Moçambicano, nasceu no dia 11 de Março de 1940, na freguesia da Cividade, Braga. Em 1949 partiu com a família para Moçambique, onde viveu e escreveu durante muitos anos. Em 1965 publica o seu primeiro livro, Poesias. Exerce jornalismo. Em Outubro de 1974 dá à estampa O Ritmo do Presságio, na colecção O Som e o Sentido, da Livraria Académica de Lourenço Marques. Em 1978, publica A Noite Dividida. Cinco anos depois, abandona Moçambique, passando a viver em Braga. Em 1987, muda-se para Miratejo. Publica poemas na revista Colóquio/Letras. Em 1988 regressa a Braga, passando a viver só em quartos de aluguer. Torna-se andarilho e alcoólico. A 14 de Outubro de 1994, dá a sua mais longa entrevista a Michel Laban, professor universitário francês, que a inclui no volume: Moçambique - Encontros com Escritores (Edição da Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 1998). Durante este período, vai dando forma definitiva aos poemas que virão a constituir a sequência inédita O Limite Diáfano. Em 1996, reúne num só volume, A Noite Dividida, o que considera ter ficado da sua poesia e que graças à iniciativa de Herberto Helder, foi posteriormente publicado pela Assírio & Alvim. A 14 de Outubro de 2000 morre, vítima de atropelamento; permanece sem ser identificado na morgue do Hospital de São Marcos durante três dias. Postumamente foi publicado Uma Pedra ao lado da Evidência.(Campo das Letras, 2000)

Cortesia de Um Buraco na Sombra

we are more – campanha europeia pelas artes

We are more ... MARVELLOUS ! ;) from Culture Action Europe on Vimeo.

Seja a nível local, regional, nacional ou europeu, as políticas culturais e o financiamento à cultura têm de reflectir as necessidades de todos aqueles que desfrutam e produzem a cultura e hoje e de amanhã. Nós acreditamos que é necessário reimaginar o investimento público para contribuir para o desenvolvimento humano, cultural e social - o bem europeu mais precioso. Os objectivos concretos da campanha são aumentar o apoio às actividades culturais que benificiem todos os cidadãos europeus e estimulem o seu desfrute das artes.

We are more

BIO - Florbela Espanca

Nascida em 1894, escreve os primeiros poemas por volta de 1915. A sua poesia por um lado liga-se a ambivalências finisseculares, por outro dramatiza a problemática do eu de um modo muito particular.

O Livro das Mágoas abre com um soneto decadentista por excelência, onde a mágoa, a dor e a saudade participam no mesmo universo convivencial de tortura e decadentismo. A tónica finissecular é-nos conferida pela propensão para o choro:


Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!


No entanto, não menos importância do que a assumpção de uma tristeza intrínseca, é a definição de um espaço poético original e único, um espaço de eleição diríamos melhor. Esse espaço é definido pela própria poetisa:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,


E neste entrecho surge-nos uma primeira contradição. A poesia recém-eleita a uma área de primazia é também e sobretudo a poesia do nada:

Acordo do meu sonho… E não sou nada!…


A relação do poeta com a sua escrita é dolorida, chorada:

Calaram-se os poetas, tristemente…
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!…


Aliás, é porque se é poeta que se alcança a Dor. A poesia é base de definição de uma atitude de sofrimento.

Há um certo deslumbramento por uma sorte não alcançada que é ainda e sobretudo a sugestão de um local de eleição:

Eu sou a que no mundo anda perdida,
sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…


Um pessimismo tão fundo enleia-se na capacidade de sofrimento único, desde a alusão à vivência sozinha no “Castelo da Dor”, até à categoria de Castelã da tristeza a que se alcandora.

Problematizemos a relação que existe entre a poetisa e a escrita. Por um lado, existe a noção de que o Poeta é um sonhador, um criador de ilusões. Por outro, a de que poesia é a palavra iniciática, mas inaudível para a maior parte das pessoas. O poeta é um ser solitário por excelência. É aquele que fala da sua Dor e a transporta para um infinito. Quanto maior é o génio, mais pode transportá-lo a uma outra cultura, a uma maior capacidade de divinização. A vida é uma desgraça que se assume com imensa dor, uma infinita capacidade de a chorar. Há uma tomada de consciência de carácter trágico:

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou como tu, um riso desgraçado!


Um constante conceber da vida como uma antecâmara da morte: esta não escolhe idades. Preexiste a um estádio de vida. Encontra-se sempre latente. A morte é a permanente temática em Florbela Espanca:

É tão triste morrer na minha idade!


E aqui remetemo-nos para a poesia finissecular de um António Nobre, cujos constantes apelos à morte produzem uma espécie de elegia dos comportamentos, suicídio antecipado, morte desejada. Penitência que se arranja na soturnidade das ambiências:

E os meus vinte e três anos… (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!…
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!


Morte física ou onde se quebra o elo com a morte religiosa. Em Florbela, se existem laivos de religiosidade é mais num sentido místico, na procura de uma infinitude, de algo que escape a uma visão perplexa e inquieta.

Mas descodifiquemos o carácter profundamente sensual desta poesia, onde as mãos e os beijos adquirem uma forte conotação erótica. É uma sensualidade que tanto pode tocar as raias de uma entronização de eros, como pode diluir-se numa tristeza de um amor perdido ou não correspondido:

Beija-me bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prà minha boca!…


Os estados excessivos de aniquilamento que caracterizam a sua poesia são eles próprios denunciadores de uma vida tumultuosa. Assim as paixões e o modo como são vividas.

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!


A paixão é um estádio que tem de ser vivido num arrebatamento místico, mesmo que não haja qualquer correspondência com o real. De pathos se trata na ânsia de se chegar a uma perfeição, limbo existencial que toca um lirismo profundo.

Mas como é vivido o quotidiano? Sob o tédio que remete não ocasionalmente para um “lago plácido dormente”.

Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!
E é tudo sempre o mesmo, eternamente:
o mesmo lago plácido dormente…
E os dias, sempre os mesmos, a correr…


Daí se nota a mesma imperiosa atitude de radicalismo. Entre a morte que se projecta num elanguescimento dos sentidos, num torpor algo mediúnico e a vida do eros, enlouquecimento do ser.

Gosto da noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…


O pendor nocturno revela-se nas tonalidades escolhidas, desde os tons de roxos até aos soturnos negros. A propensão para a morte, a noite, o negrume, a tristeza relva desse desequilíbrio entre os thanatos e o eros.

No Livro de Soror Saudade prolongam-se as grandes temáticas que entrevíramos no Livro de Mágoas.

O eros é mais forte que o thanatos, porventura:

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E, nesse beijo, Amor, que eu não te dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


E é em torno do eros que se encontra no labirinto das palavras uma chave para esse eu tão problemático. Talvez um dos sonetos mais labirínticos se condense em a noite que desce sobre os olhos cansados, adormecendo o ser. Para além desta ideia encontra-se um poema de grande sensualidade:

A noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca


Neste poema encontram-se alguns dos traços mais interessantes da poesia de Florbela. Por um lado, o pendor radical e afectivo pela noite, pelo crepúsculo. Por outro, a noite, triste e pessimista que se avizinha, transforma-se em embriaguez e loucura, em algo que se plasma no genesíaco, na embriaguez dos sentidos. A noite hcalma pressente o enlace dos amantes. Este poema radicaliza de um modo muito original a simbólica da noite, na sua proximidade da morte, abeirando-se calma e dramaticamente e transmudando-se numa apoteose de corpos que se amam.

Em “O Nosso Mundo”, Florbela erege um autêntico hino à vida e ao eros, original na sua poesia, tendo em conta o pessimismo que a caracteriza vulgarmente:

A vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…


A Vida é uma taça que se deve beber com sofreguidão. De tal modo que em “Prince Charmant” são já os velhos fantasmas que retornam, desde as tardes que se morrem voluptuosas até à procura do ser eleito que se não encontra nunca. Essa procura do príncipe encantado dilui-se na “Charneca Alentejana” e a poetisa é a esfinge que olha “a planície enorme”.

Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!


Os amantes fundem-se na paisagem, fazem parte intrínseca dela, ou então, como no poema “Tarde Demais”, quando finalmente o ser adorado regressa, já a poetisa se encontra morta:

E há cem anos que eu fui nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
“Porque chegaste tarde, ó meu Amor?…


Mas este Livro de Soror Saudade apresenta outros traços igualmente interessantes. Imagens de um Alentejo que se prende à voz dos “sinos e das noras”. As “verbenas” que se morrem silenciosamente e um franciscanismo muito angélico desde o simples apelo aos poetas e aos irmãos até ao chamamento mais forte da vida, do vento e do sol:

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas,
Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!


Charneca em Flor é o livro publicado postumamente onde se concentram os poemas mais complexos de Florbela. Iniciemos um percurso por “Versos de Orgulho”:

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!
Porque o meu reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou alguém!


Neste entrecho o eu é um território inexpugnável, imenso, mediúnico, solitário porque único. Voltamos ao ego como centro de todas as problemáticas, de todos os dilemas. A insistência no Infinito, num horizonte sem fim, é o rasgar de limites para um eu que se pretende ilimitado.

Também a interrogação sobre a morte é de uma grande lucidez:

O que há depois? Depois?… O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?


A resposta é de um pessimismo muito florbeliano: tudo será melhor para além da morte.

Mas o erotismo é outro dos traços permanentes da poesia de Florbela. Charneca em Flor representa a consagração do eros subtil e suave, onde as mãos, a boca e o estreitar dos corpos se arriscam e se ousam:

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!


Ou então de um modo mais incisivo:

As tuas mãos tacteiam-se a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço
É como um jasmineiro em alvoroço
É o brio de sol, de aroma, de prazer!


Em Florbela a marca do amor é também a de um donjuanismo onde a influência de um Mário de Sá-Carneiro se faz sentir, um pouco na ambiência do poeta de Orpheu:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... Além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente?...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!


Neste entrecho o amor torna-se ele próprio subversor. Não interessa o objecto amado, mas o acto de amar. De um franciscanismo ingénuo passa-se a uma atitude radical onde se torna indiferente quem se ama, mas o acto de amar. Num outro poema, “Ambiciosa”, reverte-se para o homem/ Deus:

O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem! - Quando eu sonho o amor dum deus!


Se era indiferente o objecto amado num soneto anterior, neste excerto o amor não pode ser mais humano, mais divino. Esta divinização prende-se com o enaltecimento do próprio eu. O ego é uma entidade complexa que tanto se deixa envolver, segundo a expressão de José Régio, num donjuanismo psicológico – amar este, aquele ou aqueloutro – num cortejar sem fim, como passa por uma sensualidade muito à flor da pele.

Se em Livro de Mágoas ainda se notava a nítida filiação em António Nobre, num apelo à Mágoa, à Dor, à atitude chorada, à medida que caminhamos na sua poesia, esta torna-se mais natural e pessoal, com uma carga erótica impressiva, num paganismo onde se mistura religiosismo e amor eterno. Como por exemplo:

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gosto das minhas mãos tontas de amor!


Sensualidade que é o grande traço desta poesia. Se não observemos ainda este excerto:

Ah, fixar o efémero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro


A poesia de Florbela é de uma grande expressividade dramática, possui uma carga emocional que a torna diferente da poesia sua contemporânea.

Daí que tenhamos escolhido esta poesia como paradigma de um tempo e de uma ambiência mental feminina, embora perdêssemos de vista porventura outras expressões literárias não tão perfeitas, mas mais triviais na sua resolução.

Contudo, as linhas gerais estão traçadas. Os anos 30 e 40 seriam anos mais frutuosos: Maria Archer, Irene Lisboa, Maria Lamas na prosa. E outros tantos nomes na poesia. Mas dificilmente com a qualidade de Florbela.

Por Cecília Barreira

Vinham rosas na bruma florescidas

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

Fernando Echevarría

Publicadas «Memórias» do poeta Rómulo de Carvalho

As «Memórias» de Rómulo de Carvalho, recentemente publicadas, foram escritas pelo professor/poeta «às escondidas» ao longo de 12 anos em mais de mil folhas manuscritas só descobertas após a sua morte, contou à Lusa o filho.


O autor do famoso poema «Pedra Filosofal», com o pseudónimo António Gedeão, deitou mãos à obra em junho de 1985, quando já tinha 79 anos, e decidiu dedicá-la aos futuros «tetranetos».

«Gostaria imenso (adoraria, como se diz hoje) que algum dos meus trinta e dois tetravôs se tivesse lembrado de mim e se dispusesse a deixar-me um maço de folhas bolorentas e amareladas onde me descrevesse a sua vida», escreve o pedagogo na introdução à obra coordenada pelo seu filho Frederico Carvalho e editada pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de Diário Digital / Lusa

Herberto Hélder: entre Deus e o Diabo

Conversas Cruzadas. Ciclo de Conferências. 15 de Janeiro de 2011, Herberto Helder: entre Deus e o Diabo, por Estela Guedes.

Paul Celan: no Rastro Perdido da Experiência

“Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema”.



Paul Celan, “Carta a Hans Benderm”, in Arte Poética – Meridiano e outros textos, ed. Cotovia, Lisboa, 1996.



Aquilo que mais nos impressiona, na abordagem da vida e obra de Paul Celan foi o modo trágico como o poeta assumiu a responsabilidade da sua época. Por isso, o fascínio de que se revestiu deve-se a essa dupla dimensão, entre o poeta, no “limiar do emudecimento”, e o ser humano, profundamente consciente da sua época e do seu tempo, tendo pago caro essa factura com os dissabores que isso lhe trouxe. O que diferencia o homem e a lenda?



Edith Silbermann[i], amiga de juventude de Paul Pessakh[ii] Antschel – nome verdadeiro de Celan - , refere esses aspectos que foram desvirtuados na sua biografia. Paul Antschel nasceu em 23 de Novembro de 1920, em Czernowicz, Bucovina (na Roménia). Filho único, Paul tem, desde cedo, o objectivo de ir para França estudar. E, de facto, parte em 1938, mantendo-se dois anos em Tours, a estudar medicina. É dessa data que nascem os primeiros poemas. Ela dá conta de um jovem ávido e iconoclasta, que defende corajosamente os seus ideais. As leituras de Marx e Nietszche, a par da poesia alemã, sobretudo Hölderlin e Rilke, mas também Goethe e Schiller, Heine, Trakl, Kafka, Hofmannsthal, entre outros, desenvolveram no poeta um gosto pela política e simultaneamente pela literatura. Para o grupo de jovens que acompanhavam Celan, a língua francesa “era a mais bela língua do mundo”[iii]. Liam Mallarmé, Valéry, Apollinaire, Baudelaire. Paul traduziu também sonetos de Shakespeare, poemas de Yeats, Apollinaire, entre muitos outros. Foi por este caminho que ele chegou à poesia.

Em 1940, começou a estudar russo e, nessa altura, começa a traduzir Sergeï Lessenine. A armada vermelha ocupa, entretanto, a sua cidade. Durante esse período, que vai de 1940 a 1941 (aquando das ofensivas de Hitler e recuo dos russos), os judeus não ousavam mostrar-se e revelar a sua religião, os seus costumes. Todavia, o irreverente Paul Antschel não se escondia e afrontava corajosamente esse medo. Como o relata Edith Silbermann, Paul adorava chamar a atenção sobre si próprio, o que lhe traria grandes desilusões.

É a partir de 1941 que os judeus são “empurrados” para o gueto, pelos alemães. Num dia em que ele sai miraculosamente de casa, antecipando o perigo e refugia-se, graças à sua amiga Ruth Lackner, numa fábrica de cosméticos, aguardando a chegada dos seus pais. Porém, a mãe de Paul negou-se, dizendo-lhe: “Não podemos escapar ao nosso destino”. Nesse ano de 1942, os alemães prenderam os seus pais, que foram levados para um campo de concentração e, no espaço de alguns meses, ambos assassinados.

Pouco tempo depois, o próprio Celan alista-se num campo, em Tabaresti, na Roménia, onde se sente mais seguro do que na sua cidade. O trabalho duro que aí realizava deixava-lhe tempo, porém, para ler e escrever, para traduzir, vivenciando a miséria, o desastre e a destruição, à sua volta. Temas como “a morte na neve” serão um dos mais recorrentes da sua obra poética, testemunhando a tragédia dos judeus e, sobretudo, a dor da morte dos seus pais. O frio glacial, as pegadas e vestígios que se dissipam na neve são essas tantas formas metafóricas de exprimir a morte, metáforas que se apresentam de modo constante na sua poesia.

A derrota dos alemães, em 1943, estava, todavia, tão próxima que se permitiu aos residentes de Tabaresti o regresso às suas cidades e Paul regressou, então, a Czernowitz. Na Primavera, os soviéticos entravam, pela segunda vez, na sua cidade. Paul avistava um novo período menos cruel. Evitou, por essa altura, a entrada no exército russo, com alguma ajuda, pois a guerra ainda não havia terminado. Em compensação, trabalhou como ajudante numa clínica psiquiátrica, onde se encarregava de tratar os soldados soviéticos com feridas na cabeça e em estado de choque. Para ganhar dinheiro, realizava traduções para ucraniano, num periódico local. Reuniu, nessa época, um conjunto de 93 poemas dactilografados e entregou uma outra colecção escrita à mão à sua amiga Ruth Lackner, para que ela os fizesse chegar a Bucareste e os entregasse ao poeta Alfred Magul-Sperber. No Outono de 1944 retoma os seus estudos de inglês, na universidade que foi reaberta pelos soviéticos e entregou-se à leitura de escritores hebreus.

Após o término da guerra, alguns deportados voltaram dos campos e, entre eles, encontrava-se o seu amigo, o poeta Immanuel Weiglass[iv]. Nessa época, Paul supunha que o seu tio, Bruno Schrager, tinha ficado em Paris, mas veio a constatar que o seu nome constava dos desaparecidos em Auschwitz, o que veio reacender o seu trauma. Começou, então, a escrever a primeira versão do poema “Fuga da Morte”, o poema que o celebrizou e que tantos dissabores lhe traria, numa polémica questão levantada por Theodor Adorno. Teve uma primeira publicação, em língua romena, no número de Maio de 1947, numa revista de Bucareste, Agora, graças à tradução do seu amigo Petre Solomon. Paul Antschel muda, então, o seu nome de Antschel para o anagrama Celan, que viria a conservar ao longo de toda a sua vida.

Felstiner dá conta do acontecimento terrível que parece estar relacionado com o poema, de forma mais directa. Num panfleto escrito por Konstantin Simonov, datado de 29 de Agosto de 1944, sobre o campo de extermínio de Lublin, o autor contava que durante os trabalhos no campo eram tocados tangos e fox-trots. Na revista romena, onde foi publicada a primeira tradução do poema, sob o título “Tango de Morte”, um ano antes da publicação do original, uma nota de apresentação dizia que o poema publicado era construído a partir da evocação de um facto real. Um grupo de prisioneiros, nesse campo, era obrigado a cantar canções nostálgicas enquanto os outros abriam valas comuns. Mas existe, ainda, uma outra fonte de informação, a qual dizia que, num campo próximo de Czernowitz (a cidade de Paul Celan), um comandante das SS obrigava violinistas judeus a tocar um tango, enquanto eram cavados túmulos e decorriam marchas, torturas e uções. Um dia, o comandante disparou contra toda a orquestra.

Música e morte entretecem-se, na poesia de Celan, evocando a atmosfera lírica de Schubert – A Morte e a Donzela - ou de Mahler, de Brahms e do Requiem Alemão, numa tentativa de harmonizar a mais dolorosa e insustentável vivência. Celebração, não da morte, mas daqueles que pereceram nos campos de morte, sob as condições mais desumanas que é possível imaginar-se e a dilaceração surge, de forma sublime, no poema “Fuga da Morte”:



Leite negro da madrugada bebemos-te de noite

bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite

bebemos e bebemos

cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados

Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve

escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete

escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham

assobia e vêm os seus cães

assobia e saem os judeus manda abrir uma vala na terra

ordena-nos agora toquem para começar a dança



O tema da “dança da morte”, a atentar nas palavras de E. Silbermann[v], já o havia preocupado antes. Celan conhecia bem os “Simulacros da Morte” de Hans Holbein e a tradição da dança macabra, nos poetas alemães e no imaginário medieval, onde a vida é de tal forma precária que o tema da “dança com a morte” assume uma visibilidade que o homem contemporâneo consideraria insuportável. Por outro lado, a questão prende-se igualmente ao problema da língua alemã. A língua em que Celan escrevia era a alemã, a mesma que os “mestres da morte” usavam. Essa terrível contradição – a de escrever numa língua que era a da sua mãe e também a dos seus carrascos – ocupava-lhe permanentemente o espírito e transformou-se numa das suas obsessões fundamentais e que se exprime da forma mais intensa na sua poesia, introduzindo nela uma profunda crispação:



(…)Mãe, eles escrevem poemas.

Oh,

mãe, quanto

chão do mais estranho dá o teu fruto!

Dá esse fruto e alimenta

os que matam! (…)[vi]



Quando Derrida[vii] fala da experiência da morte em Celan, refere-se, também, ao aspecto da morte, tal como ela é vivida na experiência da língua: “Parece-me, a cada instante, que ele deve ter vivido esta morte. De muitas maneiras. Deve tê-la vivido por toda a parte onde sentiu que a língua alemã era morta duma certa maneira, por exemplo pelos sujeitos da língua alemã que fizeram um certo uso dela: ela é assassinada, morta (…) A experiência do nazismo é um crime contra a língua alemã. O que foi dito em alemão sob o nazismo, isso é uma morte. Há outra morte que é a simples banalização, a trivialização da língua alemã, não importa quando ou onde. E, depois, há uma outra morte que é aquela que não pode chegar à língua por causa daquilo que ela é, isto é: posta em letargia, mecanizada, etc. O acto poético constitui, então, uma espécie de ressurreição: o poeta é alguém que tem a tarefa permanente, numa língua que nasce e ressuscita, não de lhe dar um aspecto triunfante, mas despertando-a como se desperta um fantasma: ele desperta a língua e para tornar viva a experiência do despertar, do retorno à vida da língua [sublinhado meu], é necessário estar próximo do seu cadáver.”

Esta experiência do limite da linguagem, de que tão bem falam Steiner (Langage et Silence) e Agamben (v. Le Langage et la Mort), Blanchot (sobretudo no livro que é dedicado a Celan, Le Dernier à Parler) aproxima Celan da experiência poética de Hölderlin[viii], também ele no limiar do perigo. A visão corrosiva de Celan está próxima, igualmente, da visão benjaminiana do perigo que sofre, a cada instante, aquele que lida com a linguagem e a tarefa alegórica. Mais ainda, ela aproxima-se de Benjamin, no que se refere à tarefa da rememoração, tema por excelência do pensamento hebraico, tomado na sua mais ampla dimensão e que se articula com a da temporalidade do poema. Ambos comungaram da questão da cesura e do limite do dizer, com ele, igualmente, a tarefa da rememoração enquanto alvo da sua escrita. Ainda que esse alvo se colocasse, no caso de Celan, no cerne do paradoxo da insustentável experiência dos campos. Alegoria e rememoração são pólos constitutivos da poesia de Celan, no sentido em que a única experiência possível de rememoração e de luta contra o esquecimento só pode ser levada a cabo pelo gesto redentor da escrita. No caso de Celan, é na e pela linguagem poética que ela se opera.

Ainda a esse propósito, cito o notável estudo de António Guerreiro, consagrado a Celan, “Paul Celan e o Testemunho Impossível”[ix]. António Guerreiro fala na tarefa trágica da poesia, no autor, definindo-a como o “limiar do emudecimento”[x]. No texto Arte Poética, Meridiano e outros textos, Paul Celan cruza o seu pensamento com o de Heidegger e Lévinas, numa tentativa de (re)definição do “ser do poema”, que nos remete para a dificuldade do poeta. “O poema mostra, e isso é indesmentível, uma forte tendência para o emudecimento.” Nesse texto extraordinário, pela sua clareza, Celan dá conta da natureza da poesia. O poeta é dominado pelo pathos, que é a experiência da linguagem, naquilo que nela confina – e com ela se entrelaça, obviamente - com a existência da realidade. António Guerreiro sublinha-o, dizendo: “E porque essa língua não está disponível desde logo, não existe senão através da experiência que leva o poeta ao encontro dela, ela é única.” Celan recusa, aqui, a ideia de uma correspondência poema-realidade, o que nos conduziria, aos seus olhos, a uma visão mimética e empobrecida da realidade. O poeta é o que luta por ir, com os meios de que dispõe, ao encontro da realidade, através da linguagem. Assim, a ideia de um correlato entre a palavra poética e o real é algo que não existe como um dado previamente estabelecido. Este correlato pode existir ao nível da linguagem enquanto forma de comunicação (e isto não passa de uma hipótese), mas nunca ao nível do “dizer poético, onde persiste inevitavelmente uma irredutibilidade entre a palavra e o real. A concepção mimética (e aristotélica) da poesia e da linguagem é, assim, repudiada por Celan.

Por outro lado, a ideia de univocidade do poema caminha, par a par, com a afirmação anterior. Tal é essa ideia da univocidade do poema, quando o poeta afirma: “O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele.”[xi] Aquele que o escreve e o poema, embora sejam realidades díspares, na sua essência, confundem-se numa outra realidade, que é a do poema. Celan, não apenas recusa o mimetismo, como recusa igualmente o bilinguismo da língua[xii], reafirmando a sua univocidade.

Deste modo, tempo e poesia encontram a sua articulação no topos do poema e essa temporalidade é, na sua expressão mais vívida, a experiência da linguagem, no sentido em que o poeta “vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade.”[xiii]. Como quem lança uma mensagem numa garrafa, dirigindo-se essencialmente a um “tu apostrofável”, o tempo do poema confunde-se com aquele que o escreve, como o afirma Celan, absorvendo-o[xiv], mas sustenta-se na frágil linha que se liga ao Outro, lugar onde o Eu se dissipa, libertando-se de si próprio.

Neste modo de pensar reconhecemos o próprio pensamento de Lèvinas, entendendo-se o poema, não apenas como o tempo da “respiração”[xv], como também o da direcção, o pôr-se a caminho do Outro, “falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome de um radicalmente Outro.”(p. 55). No vaivém do Eu para o Outro, o poema auto-sustenta-se na velocidade da respiração ou caminho, através da linguagem. Peter Szondi, amigo de Celan, compreendeu bem essa tripla e essencial função do poema, que ele tão bem analisou em vários dos seus poemas: “linguagem como figura, direcção e respiração.”

Esta caminhada para o Outro corresponde a um reconhecimento do instante desse encontro e as ressonâncias que, aqui, se ouvem, além de Adorno, evocam, também, Schleiermacher, Lèvinas, Martin Buber e Rosenzweig[xvi]. E nesse instante do encontro não há a mínima certeza nem qualquer apoteose, mas o que João Barrento designa por uma “imperceptível mudança de respiração”, o que atesta uma escuta do Outro e do mundo, dando-se num lugar que é já um impossível caminho, para parafrasear a expressão de Celan[xvii], onde as utopias se transformam em tal:

“(…)encontro alguma coisa que me consola um pouco por, na vossa presença, ter percorrido este caminho do impossível, este impossível caminho.

Encontro aquilo que une e como que conduz o poema ao encontro.”

“O impossível caminho de encontro ao outro” constitui-se como o paradoxo – e, enquanto tal, é condição alegórica da poesia - sobre o qual assenta toda a poesia de Celan. João Barrento[xviii] defende que a ancoragem da sua poética já não é o romantismo nem a ontologia de Heidegger, “em que a figura do «Autêntico» tem ainda um papel central.” Quando, nesse contexto da relação com o Outro e na caminhada para ele, Celan fala do poema autêntico, ele afirma: “Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.”[xix] O poema, de acordo com Celan, na sua obscuridade e complexidade, é autêntico. O ofício do poeta constitui-se, como o afirma Celan na Carta a Hans Bender, de acordo com a condição necessária da verdade e do caminho para o Outro. A relação que Celan, nessa carta, estabelece entre “ofício de mãos” e “construção do poema” revela, também, a íntima articulação entre a realidade e a poesia.

A construção do poema obedece à sequência dialógica do Eu com o Outro, do poeta com a Verdade. Porém, essa caminhada, do poema impossível que “fala em nome do outro” é, na sua contradição íntima, uma caminhada na direcção do abismo. Transforma-se no “poema absoluto” que não existe ou na “magestade do absurdo”[xx]. E este absurdo é a lei do poema, tal como o é da tragédia, na desmedida que é a paradoxal fonte de criação poética. Somos levados à conclusão de que a configuração do encontro com o Outro é necessária, na poética de Celan e, para tal, evoque-se aqui a forma do des-inter-esse de que João Barrento[xxi] nos fala, de forma pertinente. Corresponde essa caminhada impossível a uma superação das poéticas do “hermetismo mais puro”, assim como Lèvinas a efectua da fenomenologia e da ontologia. A sua poética não é da “simples ordem de compreensão com os meios da linguagem, é antes anterior a todas as formas de compreensão imediatamente humanas (do verdadeiro humano): o encontro com o Outro.”[xxii]. Procura uma outra linguagem, que se construa como a verdadeira língua, capaz de ultrapassar os limites da linguagem. Poderíamos aí perceber a busca de Celan por uma ideia da criação da “nova” palavra ou palavra poética, a partir de uma relação intensificada entre o hermetismo e a cabala. Todavia, se é possível falar da magia da palavra em Celan, esta magia, no dizer de Yvette Centeno[xxiii], é uma “magia de inversão”[xxiv], pois “a palavra não cria, a palavra reduz ou aniquila”.

Como em Lèvinas (e também em Buber), a presença incontornável do Outro é o ponto arquimediano da sua poética que, embora não se lhe dirigindo, o contém. Daí que exista e, sobretudo, preexista uma dimensão ética que lhe é inegável. Como Barrento o assinala[xxv], será possível colocar a poética de Celan sob a forma de uma “poesia das vítimas”? Ou, para utilizar a expressão benjaminiana, como “salvação dos vencidos da história”? É justamente por isso que nos encontramos no limiar da mudez. “É impossível resistir ao apelo, à convocação imperativa do rosto do Outro, rosto sem rosto, porque, para Lèvinas, ele está para além das formas plásticas. Então, o poema enquanto acontecimento não é um acto da vontade que parte do sujeito, mas, antes, qualquer coisa a que o seu autor se submeteu, como que convocado por um chamamento. “O apelo do outro é irresistível, avassalador”[xxvi], algo que se abate sobre o poeta que, assim, se vê absorvido pelo poema, tornando-se “parte integrante dele.”

Esta é a dimensão ética[xxvii], na qual enraíza profundamente Celan, tomando Lèvinas como seu mestre de pensamento, ainda que não fale dele. Por isso, emergindo da fissura da linguagem, o poema corresponde à abertura do caminho por entre os limites da linguagem, no limiar da experiência do emudecimento.

No magnífico prefácio que João Barrento faz à sua tradução de Sete Rosas mais Tarde, estabelece uma relação íntima e indissociável entre uma poética que – paradoxalmente – se alimenta dessa “relação constante com o Outro” e, em si mesma, tende para o emudecimento radical, que é da ordem de uma poética do inefável, a que preside uma simultânea sacralização e violentação[xxviii] da palavra poética. Esta dupla dimensão opera sobre a poesia de Celan uma tensão que se manifesta no modo como a antinomia a dilacera. Os poemas de Celan querem dizer o horror extremo e o desabar da esperança através do silêncio. Por isso, o seu conteúdo, como o nota A.Guerreiro[xxix], citando Adorno, “torna-se negativo”.

Esse niilismo cósmico de que Yvette Centeno[xxx] dá conta, um niilismo que “anula o tempo e as suas fracturas”, que faz cessar toda a capacidade de nomear e recuar a existência “para o abismo da essência não-diferenciada” parece converter-se na força motriz do poema, numa proximidade com a mística da negação de Jacob Böhme. Como a autora o afirma, “Não há salvação possível na obra de Celan, que não aponta caminhos, não filosofa, apenas lambe feridas que não cicatrizam mais.” Não existe qualquer apaziguamento nessa poesia de um hermetismo que revela um mundo irreversivelmente contaminado, destruído. O hermetismo – e o cabalismo - da sua poesia reforça, através das suas imagens, esse esvaziamento do mundo e, ao mesmo tempo, permite a acentuação da intensidade dramática do real. Veja-se, por exemplo, no paradigmático poema “Cristal”:



Não busques nos meus lábios a tua boca,

Nem diante do portão o forasteiro,

Nem no olho a lágrima.



Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,

sete corações mais fundo bate a mão à porta,

sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.



(continua)

Cortesia PNETLiteratura

15ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”

A Câmara Municipal de Ovar e a Escola Secundária Júlio Dinis vão realizar a 15ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”, iniciativa que pretende envolver as comunidades escolares, a nível local, regional, nacional e internacional numa actividade artística, incentivando o aparecimento de novos valores no campo da poesia e motivando para a escrita do texto poético.

Com uma temática livre, o concurso conta com os escalões nacional - aberto a alunos de todos os graus de ensino, docentes e membros de associações de pais; e internacional - destinado a emigrantes de nacionalidade portuguesa, cidadãos de países de língua oficial portuguesa e estudantes de língua portuguesa. Cada participante poderá enviar até três poemas, obrigatoriamente individuais, originais e inéditos (ver regulamento aqui). O prazo de inscrição e envio de poemas termina a 31 de Março de 2011.

Na sua 15ª edição, o “Dar Voz à Poesia” é já um concurso de projecção e, todos os anos, centenas de poemas são recebidos. “Dar Voz à Poesia” é também o nome da colectânea que reúne todos os premiados e que é publicada de três em três anos, sendo que a V Colectânea deverá ser publicada em 2012.

Pelo valor e qualidade, pelo elevado grau de participação, pelas parcerias que envolve, o “Dar a Voz à Poesia” é uma iniciativa que a Câmara Municipal de Ovar e a Escola Secundária Júlio Dinis pretendem manter e aprofundar.

Cortesia de CMOVar

Artista português cria um robô pintor e poeta

Leonel Moura vai levar a sua criação à Techfest 2011, um dos maiores festivais de tecnologia da Ásia, que se realiza entre 07 e 09 de Janeiro em Bombaim, na Índia.

A Techfest, que reúne centenas de empresas de tecnologia de todo o mundo, possui uma área de exposições que este ano irá dar especial destaque à robótica, com várias criações de robôs de companhia, entretenimento e investigação.

No sítio online do evento (www.techfest.org) surge uma descrição do robô de Leonel Moura, o ISU, desenvolvido com um «cérebro» para criar pinturas e poemas.

O ISU também possui um conjunto de sensores que lhe possibilita construir uma composição e determinar quando o trabalho está acabado, e consegue ainda assinar a sua própria obra.

Para pintar, o robô começa ao acaso e então o processo evolui para um modo de feedback positivo, procurando criar grupos de cores, enquanto que, para criar poesia, escolhe uma primeira letra ao acaso e depois escolhe uma outra que faça sentido.

O resultado final do poema é semelhante ao automatismo surrealista ou na linha da poesia concreta.

Ainda segundo o texto do festival, «o ISU, e outros robôs no género, desafiam o nosso conceito de arte e de criatividade. Na verdade, estes robôs sugerem a possibilidade de gerar criatividade artificial no quadro da noção actualmente aceite de inteligência artificial».

Desde os anos 1990 que Leonel Moura se dedica à bioarte e à inteligência artificial, com especial interesse na área da robótica, criando robôs artistas.

Um dos robôs criados por Leonel Moura foi colocado em 2007 na nova Sala da Humanidade do Museu de História Natural de Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde continua a desenhar perante os visitantes.

O artista defende a tese de que os robôs são uma nova espécie de vida com a qual começamos a partilhar o planeta, «com todas as implicações, positivas e negativas, que daí advêm».

No ano passado lançou um livro de 30 poemas escritos por um robô para provar que as máquinas podem criar arte, resultado, no seu entender, de «uma expressão sensível ou de carácter emocional, mas também uma expressão de carácter matemático ou científico».

No festival Techfest, além da apresentação de engenhos, jogos, competições, workshops, e cinema de animação, está prevista uma série de conferências com a presença de Harold Kroto, Nobel da Química (1996), Michael Jones, fundador do Google e o físico Holger Nielsen, criador da Teoria das Cordas.

Cortesia de TVI24

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