Encerrou a última fábrica de máquinas de escrever do mundo

Os anos 1950 fizeram da máquina de escrever um símbolo da independência na Índia, onde estes ruidosos instrumentos continuaram a ser produzidos até aos dias de hoje. Mas esta história de resistência chegou ao fim: a última fábrica que continuava a fazê-las chegar ao mercado capitulou face à supremacia dos computadores.

A Godrej & Boyce, a multinacional com sede em Bombaim que ainda apostava na produção de máquinas de escrever, decidiu pôr um ponto final numa cronologia com quase século e meio (a primeira máquina de escrever comercial foi fabricada em 1867, nos Estados Unidos), aceitando finalmente a obsolescência deste instrumento de trabalho.

A última década foi fatal para a máquina de escrever. Nos anos 1990, já a época dourada no Ocidente tinha acabado, a Godrej & Boyce conseguia vender cerca de 50 mil máquinas anualmente. No entanto, o declínio progressivo das vendas culminou com um mínimo histórico no ano passado: saíram menos de 800.

“No início dos anos 2000, os computadores passaram a dominar. Todos os fabricantes de máquinas de escrever de escritório pararam a produção, excepto nós”, observou o director executivo da empresa, Millind Dukle, ao diário indiano Business Standard. E eles resistiram até agora, Abril de 2011.

“Não estamos a receber muitas encomendas. Até 2009, costumávamos produzir 10 a 12 mil máquinas por ano”, contabilizou Dukle. Na despedida, sobram as duas centenas que ainda se encontram em armazém, a maioria das quais em árabe. “Esta pode ser a última oportunidade para os amantes da máquina de escrever”, sublinhou o responsável.

As máquinas vão passar definitivamente para os antiquários e museus, aonde chegaram anos antes do fim de linha. Desde logo, nos dedicados a alguns dos escritores mais relevantes do século passado: Faulkner, Hemingway, Burroughs, Kerouac. Este último, por exemplo, escreveu Pela Estrada Fora num único rolo de papel, para não ter que trocar as folhas da máquina e interromper a narrativa.

As histórias são muitas, os nomes reconhecíveis também – ainda hoje Cormac McCarthy escreve à máquina. Contudo, a história deste instrumento, que começou a ser desenvolvido no início do século XVIII, não se reduz a notáveis. Os escritórios eram o território natural das máquinas de escrever, que desempenhavam o actual papel quotidiano dos computadores: banais e indispensáveis.

Cortesia de O Público

BIO - Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade nasceu em Póvoa de Atalaia (19. 01. 1923), uma aldeia da Beira Baixa onde passou a infância. Com oito anos de idade acompanha a mãe para Castelo Branco, e, em 1932, vão viver para Lisboa. Neste mesmo ano, termina os estudos primários que iniciara na aldeia natal. Em 1938, envia uma carta a António Botto, com alguns poemas, manifestando o desejo de o conhecer; momento particularmente importante, pois é nesse encontro com Botto que um amigo deste revela a Eugénio de Andrade a poesia de Fernando Pessoa, origem de um fascínio ilimitado. O conhecimento da literatura do autor da Mensagem será determinante para a afirmação de um estilo individual numa direcção oposta à poética pessoana, naquilo em que esta se mostra distanciada da exaltação do sensualismo, da afirmação da corporalidade — vectores decisivos no trajecto poético de Eugénio de Andrade. Em 1942, dedicará o seu primeiro livro à memória de Pessoa. Outra influência marcante, nesses anos de formação, será a poesia de Camilo Pessanha. Este autor encarna o papel de mestre, sintetizando algumas das linhas idealisticamente perseguidas na poética eugeniana, como a musicalidade e a aguda consciência de que a poesia é ofício de artesão.

É no ano de 1939 que, incitado por António Botto, publica uma plaqueta intitulada Narciso, o seu primeiro poema, ainda com o nome civil (José Fontinhas). Três anos depois é dado à estampa o primeiro livro, Adolescente (já com o pseudónimo), que, apesar de ter sido bem acolhido por algumas notas críticas na imprensa, seria posteriormente, por razões de ordem estética, renegado pelo autor. Esta posição estender-se-á ao seu segundo livro, Pureza, publicado em 1945. Bastante mais tarde, em 1977, numa edição de conjunto da sua obra, resgatará dez poemas daqueles dois livros, reunindo-os sob o título de Primeiros Poemas.

Em 1943, Eugénio de Andrade instala-se na cidade de Coimbra. Torna-se amigo de Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço e Miguel Torga; publica, em 1946, uma Antologia Poética de García Lorca. Regressa a Lisboa no final desse mesmo ano e, em 1947, ingressa no funcionalismo público. Publica em 1948 aquele que viria a ser o seu livro de consagração e o mais reeditado dos seus textos: As Mãos e os Frutos. Por essa altura faz amizade e convive com outros poetas como Mário Cesariny e Sophia de Mello Breyner Andresen. Fixa residência no Porto em 1950, onde passará a desempenhar as funções de inspector dos Serviços Médico-Sociais até 1983, quando se reforma. Em 1956 morre a mãe, figura central na sua poesia, em cuja memória publica, dois anos depois, o livro Coração do Dia. Datam dos anos 50 os contactos pessoais com alguns poetas espanhóis da geração de 27 e a amizade com Teixeira de Pascoaes e Jorge de Sena. Além dos títulos já mencionados, publica As Palavras Interditas no ano de 1951; Até Amanhã, em 1956, e Mar de Setembro, em 1961.

É de assinalar um grande interregno na sua produção poética após a publicação de Ostinato Rigore (1964); só no final de 1971 dá à estampa novo volume de poemas: Obscuro Domínio. A interrupção é importante do ponto de vista da linha evolutiva da obra; trata-se de um momento fulcral no sentido de uma viragem que resulta na amplificação da regularidade, que vai de As Mãos e os Frutos até Ostinato Rigore, em concreto ao nível das gamas lexicais e semânticas. A partir daqui, retoma o ritmo regular que vinha imprimindo à sua obra. Esta revelará contornos cada vez mais peculiares que denotam uma aguda consciência do percurso que se vai construindo: um profundo sentido de renovação, de diferença dentro de uma nítida linha de continuidades. O que já se verificava entre os livros publicados na primeira fase; daí que os contidos poemas de um livro como Até Amanhã, em relação ao qual com propriedade se pode falar de claridade apolínea, difiram dos poemas do livro anterior As Palavras Interditas, poemas mais extensos, marcados por uma imagética próxima de alguns textos dos poetas surrealistas. Com a publicação de Obscuro Domínio torna-se muito acurada, da parte do poeta, a necessidade de prosseguir no alargamento do círculo, o que passa por uma amplificação do espectro semântico. Nos últimos anos, a linha que vem traçando para a sua poética projecta um intencional caminho para o concreto, para o real. Um significativo gesto, neste sentido, é aquele que, em 1977, o leva a reabilitar poemas dos primeiros livros rejeitados. À medida que se aproxima do fim, vemo-lo mais atento a essa produção com o propósito claro de fundamentar a “tese” de que o real sempre esteve presente, de que a fundação da poesia assenta no real.

Numa segunda fase, continuam a encontrar-se momentos tão diferentes como quando se confronta Véspera da Água (1973) com Limiar dos Pássaros, publicado em 1976. Este livro configura, no conjunto da produção poética de Eugénio de Andrade, uma espécie de nó onde se entrelaçam os principais núcleos de ressonância autobiográfica, texto denso do mais radical e perturbante olhar sobre esses núcleos. Outros livros apresentam assinaláveis marcas diferenciadoras dentro da continuidade estilística, podendo alguns deles ser aproximados por afinidades de diversa ordem, nomeadamente estruturais, caso de Memória doutro Rio (1978) e de Vertentes do Olhar (1987), onde ocorre uma comum matriz de narrativização dos poemas em prosa. Matéria Solar (1980) é um livro cujo metaforismo fulgurante se encontra próximo da equilibrada expressão de apaziguamento que irradia em Branco no Branco (1984). E se em O Peso da Sombra (1982) é onde mais notoriamente se manifesta a melancolia e a aguda consciência da passagem do tempo com seus efeitos sobre o corpo, a partir de O Outro Nome da Terra (1988) e Rente ao Dizer (1992) depara-se com um progressivo caminhar para o despojamento da expressão, aliado a uma atenção sábia às pequenas coisas da vida, às fulgurações da palavra, à cintilação das sílabas.

Existe uma tendência manifesta para se identificar Eugénio de Andrade com alguns poemas antológicos, retirados na sua maioria dos primeiros livros (“Green God”, “Adeus”, “Os amantes sem dinheiro”, “As palavras interditas”, “Poema à mãe”, “Urgentemente”, “Litania”, “As palavras”, “Pequena elegia de Setembro”), assim como com alguns desses livros, como por exemplo, As Mãos e os Frutos ou As Palavras Interditas. A partir da década de 90, fomos assistindo, da parte do poeta, a um curioso esforço de correcção dessa tendência. Se, nas sessões públicas, deu um maior destaque à última poesia, mais significativa será a inscrição do gesto em antologias organizadas por si, colectâneas que concedem um maior espaço aos poemas da última fase, como é o caso da antologia 30 poemas (Fundação Eugénio de Andrade, 1993). Quando aparentemente parece retomar os mesmos procedimentos retórico-estilísticos e composicionais, esta poesia revela “novas direcções” dentro da uma espantosa linha de coerência interna.

Os últimos livros (Ofício de Paciência, 1994; O Sal da Língua, 1995; Pequeno Formato, 1997; Os Lugares do Lume, 1998; Os Sulcos da Sede, 2001) vêm confirmar a busca incessante de uma linguagem transparente face à pulsação do real quotidiano.

Em 1974, publicou Escrita da Terra e Outros Epitáfios, livro que foi sendo continuamente ampliado, ao longo dos anos, até ao seu desdobramento em volumes diferenciados (Escrita da Terra, 5ª edição, 1983; Homenagens e Outros Epitáfios, 8ª edição, 1993). A obra poética de Eugénio de Andrade encontra-se traduzida em diversas línguas (a seguir a Pessoa é o poeta português mais traduzido).

Eugénio de Andrade revela-se igualmente um notável prosador. Publicou três livros em prosa: Rosto Precário (1979), Os Afluentes do Silêncio (1968), À Sombra da Memória (1993). No primeiro, para além das poéticas explícitas, incorpora um conjunto de entrevistas apuradamente reescritas numa direcção que, como afirma Vasco Graça Moura, permite “organizar uma matriz para os traços possíveis de um retrato do escritor, espécie de Narciso espelhando-se complacentemente na pose da sua própria arte poética e na sua oficina”. Nos outros dois livros, encontramos textos sobre poetas, prosadores, pintores, escultores, arquitectos, fotógrafos, músicos, sobre as cidades e regiões que conheceu bem. Todas as observações e leituras surgem impregnadas da vivência autobiográfica, e em praticamente todos esses textos encontramos traços que espelham a própria poética autoral.

Em 1976, Eugénio de Andrade publica História da Égua Branca uma narrativa para crianças, onde se podem encontrar traços que permitem falar de um diálogo com a obra poética. Essa sintonia torna a acontecer com o livro Aquela Nuvem e Outras (1986), pequeno volume que agrupa um conjunto de poemas dedicados ao afilhado, Miguel, que foram sendo escritos à medida que este ia crescendo.

No domínio da tradução, a sua bibliografia inclui poemas e textos dramáticos de Lorca, uma tradução das Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado, uma edição de Poemas e Fragmentos de Safo, e um livro com o título: Trocar de Rosa, que reúne traduções de poetas contemporâneos.

O poeta organizou também diversas antologias, muitas delas de considerável êxito editorial, como foi o caso da Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, publicada em 1999; na fase final, organizou outra antologia panorâmica: Poemas Portugueses para a Juventude, publicada no ano de 2002. Assinalem-se também as recolhas de poemas de autores canónicos reunidos nos seguintes volumes: Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972; Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995; Sonetos de Luís de Camões, 2000. Em torno da poesia erótica portuguesa organizou: Variações sobre um Corpo (1972) e Eros de Passagem. Poesia Erótica Contemporânea (1982). Outro domínio de incidência dos volumes antológicos organizados por Eugénio de Andrade é o das recolhas de textos literários sobre cidades e regiões, como por exemplo: Daqui Houve Nome Portugal (1968), antologia consagrada ao Porto; Memórias de Alegria (1971), antologia que reúne textos sobre Coimbra; ou ainda Alentejo não tem Sombra: Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo (1982). Para além destas recolhas, o poeta organizou algumas antologias com textos seus: Antologia Breve, 1972 (com sucessivas reedições actualizadas); A Cidade de Garrett, 1993; Chuva sobre o rosto, 1976; Coração Habitado, 1983; Com o Sol em cada Sílaba, 1991; Os Dóceis Animais, 2003.

Em 1994, deixa a exígua morada na Rua Duque de Palmela, onde viveu durante décadas, e passa a viver numa casa, apoiada pela Câmara do Porto, onde funciona uma Fundação com o seu nome. Foi nesta casa, no Passeio Alegre, na Foz do Douro, que faleceu em 13 de Junho de 2005.

Eugénio de Andrade sagrou-se à poesia como uma espécie de monge que vê no poema a via da redenção. Afabilidade e rudeza, ascetismo e hedonismo nele coabitam sem qualquer espécie de tensão. O encanto desta poesia capaz de suscitar uma emoção tão viva provém em grande medida da extraordinária harmonia (“aliança primogénita entre a palavra e a música”) encontrada no corpo do poema. Torna real o símile da corporalidade, tornando a língua mais maleável.

O poeta de Ostinato Rigore insere-se na tradição dos poetas artesãos, estatuto que para si mesmo reivindica. A recorrente insistência na afirmação do princípio orientador que o faz definir-se como poeta artesão tem óbvias implicações quanto ao rigor, observado no plano das micro-estruturas fónico-rítmicas e composicionais, mas também ao nível da conformação macro-estrutural de cada poema, de cada livro. Esta atitude traz consigo as mais fundas consequências face ao olhar vigilante exercido sobre a obra globalmente considerada, o que se torna cada vez mais notório nos últimos livros. Um núcleo restrito de obsessões configura o seu universo poético, recorrências que o poeta sintetiza nestas palavras: “o fluir do tempo num jogo de luzes e de sombra; a ascensão e declínio de Eros, que não pode reduzir-se meramente à sexualidade; a descoberta do próprio rosto, entre os muitos que nos impõem; a dignificação do homem, num mundo mais empenhado em negar-lhe o corpo do que em negar-lhe a alma — preocupações maiores, ao que parece, da minha poesia, sem esquecer a face acolhedora e materna extensiva a tanta imagem de vida instintivamente feliz e aberta” (Rosto Precário). O que se observa na obra é a inter-relação destes valores que conformam a intrincada constelação de temas e motivos, de metáforas e imagens multiplicando-se incessantemente sob um efeito caleidoscópico.

por Carlos Mendes de Sousa

Livraria Bertrand do Chiado é a mais antiga do mundo

Desde que abriu em 1732, a Livraria Bertrand do Chiado nunca deixou de funcionar. É por isso que entrou para o Guiness como a livraria mais antiga do mundo ainda em actividade.

A Livraria Bertrand do Chiado foi reconhecida pelo Guiness como a livraria mais antiga do mundo ainda em actividade. O atestado, certificado pelo Guiness Book of Records, está exposto desde ontem à noite no interior da loja.

A livraria Bertrand do Chiado está em funcionamento desde 1732 e o processo de candidatura a livraria mais antiga do mundo obedeceu “a uma rigorosa prestação de provas”. Foi necessário confirmar que a actividade da livraria não foi interrompida ao longo destes anos e para isso contribuíram o historiador contemporâneo e colaborador da LisbonWalker, José Antunes; o sociólogo Miguel Cabrita; Ana Salvado, que no momento da candidatura era subdirectora do Instituto Nacional para a Reabilitação; o escritor, historiador e crítico de arte José Augusto-França, entre outros.

A primeira Bertrand, fundada por Pedro Faure em 1732, abriu portas na Rua Direita do Loreto, em Lisboa. Mais tarde, em 1755, quando já era o genro de Faure, Pierre Bertrand que dirigia a livraria foi instalar-se junto da Capela de Nossa Senhora das Necessidades por causa do Grande Terramoto. Dezoito anos depois, em 1773, a Bertrand voltou a abrir as portas na já reconstruída baixa pombalina. No texto de José António Saraiva, “Bertrand – a história de uma editora” é-nos dito pelo historiador que a Bertrand teve 11 nomes e conheceu quatro moradas.

Esta novidade, de a Livraria Bertrand do Chiado ser a mais antiga do mundo, foi dada ontem durante um jantar que juntou livreiros, editores, autores e jornalistas na loja do Chiado. Um espaço ao lado da livraria, o número 15 da Rua Anchieta, foi recentemente recuperado e passará agora a chamar-se a Sala do Autor onde se realizarão lançamentos de livros e tertúlias como a "Ler No Chiado". Foi nessa sala que José Fontana, que foi durante 16 anos empregado da Bertrand do Chiado, primeiro como livreiro e depois como gerente, se suicidou por estar doente com tuberculose. Personagem real que inspirou o romance “Na próxima semana, talvez”, de Alberto Nessi, e que já está à venda nas livrarias.

A rede de livrarias Bertrand apresentou ontem também um “Manifesto” que Paulo Oliveira, do Conselho de Administração, definiu como “um compromisso com o livro e com o leitor”. O escritor valter hugo mãe e o editor Diogo Madre Deus (editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005 com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma) leram durante a cerimónia o manifesto “Somos Livros”: “Somos a tinta fresca em folha áspera. A capa dura. Aquilo que procura. Somos a História. Desde sempre. O terramoto de 55 e a revolução de 74. Somos todos os nomes. As pessoas do Pessoa. Alexandre Herculano e Ramalho Ortigão.”

Conta-se que nas salas da livraria, ninguém ousava invadir o cantinho de Aquilino Ribeiro e ainda não há muito era possível encontrar naqueles corredores Fernando Namora ou José Cardoso Pires. A Bertrand Livreiros é o nome de uma rede com 53 livrarias espalhadas pelo país e integra formalmente o Grupo Porto Editora desde 30 de Junho do ano passado.

Cortesia de O Público

Onde vou

Se inda saudades tivesses
(diz-me como e onde vou)
e com beijos te prendesses
(amour - bel oiseau),

se em rapto de asas te esquivas
e sobre os Andes pairares,
sem ideia de quem vivas,
permutando-te em dois mares,

se ainda tormentos doem,
lágrimas por bel oiseau
te despenham e destroem -
diz-me como e onde vou?

Gottfried Benn

Poesia portuguesa: conjecturas e balanços

Na conferência que António Carlos Cortez proferiu no Centro Nacional de Cultura, no quadro do balanço literário da primeira década do século, ficaram claramente definidas três grandes tendências que animam a mais recente poesia que se escreve em Portugal. Por um lado, uma reacção ao realismo mecânico e excessivamente denotativo que foi moda nos primeiros anos da década; por outro lado, alguma recuperação da poesia entendida como puro trabalho de oficina ao nível da linguagem; por outro lado ainda a poesia como formato essencialmente rítmico (e com recuperação de alguma tradição lírica).

Dir-se-ia estarmos (de novo) virados para uma dominante estésica que reclama – ainda que sem manifestos ou apologias – um reatar da poiesis (a linguagem gerando-se a si própria), uma certa ‘desinstrumentalização’ face ao real e uma atitude de pesquisa em torno da proporção e da cadência. Como se o imediatismo ‘sem derrame’ tivesse ancorado noutras paragens. Como se a ideia de uma janela figurada que diria o real de modo pouco autotélico se tivesse convertido, de novo, no espírito prospectivo de laboratório e, portanto, de prazer construtivo.

Estes dados iniciais merecem um confronto com a perspectiva que, há uma década atrás, tentava projectar os caminhos da nossa poesia. Recorro ao que considero ser uma obra matricial deste tipo de conjectura, mais concretamente o texto de Fernando Guimarães de 2002, Em Direcção ao Fim do Século (publicado em A Poesia Portuguesa Contemporânea pela Quasi). Nesse texto, o autor referia três pistas para o que já então se designava, com alguma euforia, por “novíssima” poesia portuguesa. Correspondiam essas três pistas ao vitalismo, ao microrrealismo e ao revivalismo.
A primeira das três pistas, o vitalismo, foi perspectivada a partir de uma análise bastante objectiva. A ponderação dava ênfase à superação da antinomia des-construção vs. construção, tentando ilustrar a falência do movimento que, ao longo da modernidade, sempre ligara vanguardas e oficinas construtivas. Reagindo a este permanente intelectualizar da palavra poética, uma espécie de arte rude estaria a convocar o que Fernando Guimarães considerava ser a “tendência para privilegiar o que se possa revelar como instintivo, vital, marcadamente emocional”.

A segunda das pistas foi buscar a sua designação a Guilherme Merquior. O microrrealismo seria um contraponto à dominante simbólica e/ou à imagem de teor romântico. Esta tendência seria caracterizada pelo ímpeto descritivo e pelo cariz denotativo com que o real poético indexicalizaria o real do vivido. Como se a ordem indexical substituísse a icónica, recorrendo aos termos de C. Peirce.

A terceira das pistas referida no texto publicado em 2002 era porventura a mais óbvia: “…uma terceira opção que poderíamos situar na passagem do Modernismo para o Pós-Modernismo diria respeito à substituição de um espírito de vanguarda por um sentido totalmente diferente, o do revivalismo.”. Tínhamos aqui um modo paródico generalizado que pressupunha um horizonte de reactualizações muito aberto, ou seja, sem programa. Como se o devir evocatório passasse a integrar – como um dado intrínseco – a substância dos enunciados do presente.

Sendo sucinto e colocando de lado todos os mecanicismos, poderia conluir-se que a novidade se centra no ressurgir da perspectiva oficinal enfatizada por António Carlos Cortez, constituindo o pendor evocatório o factor de persistência entre as pistas fornecidas por Fernando Guimarães em 2002. De referir que o ‘novo’ é sempre uma força de expressão, quando não uma miragem. Ou seja, algum ‘regresso’ à fábrica oficinal pressupõe a revisitação de correntes do início dos anos sessenta (atenuando o intertexto mais próximo da ‘arte rude’ dos anos setenta), enquanto a evocação repõe inevitavelmente uma continuidade lírica que a conjectura de Guimarães não previra e que deve entender-se, como referiu Cortez, como reacção aos “realismos mecânicos” que, na sua obsessão ‘anti-derrame’, geraram amiúde – no início do século – uma poética de ‘palavra de ordem’ ou do mais elementar ‘topoi’.

Luís Carmelo

Cortesia de PNETLiteratura

O espelho

O espelho espreita-me
É confuso o que vejo.
Não me desvendo,
Permaneço recluso.

Em mim coabitam
Cidades desertas
Praças e jardins
Solitários.

Diante do espelho esta
O reflexo. É incómodo.
Estou nu, sim! Nu. E esta
Nudez não é silenciosa.

Passos inquietos meu mundo
Esta em guerra. Cada vez que
Deparo com espelho, a cidade
Fecha, agita e quer viver, mas
Não há forças.

O espelho e o reflexo
O reflexo e o meu mundo
E eu? Nu! diante das cidades
Desabitadas.

Debruço-me sobre os fragmentos
Na esperança de junta-los e
Devolver-me. Mas o reflexo do
Espelho se desfaz. Despido das
Mascaras encaro-me. Já não há nudez.

A serenidade que se avizinha fez as minhas
Lágrimas desaguar no mar, já não há medo
Nem insegurança, reencontro meu olhar,
Sem mascaras, perdi o reflexo.

Gleidston César

Petição contra o fim do Ministério da Cultura




Mais de quatro mil pessoas, na sua maioria autores, subscreveram já a petição lançada pela SPA contra a dissolução do Ministério da Cultura e a passagem da tutela desta área para uma Secretaria de Estado.

Esta petição foi lançada no passado dia 2 de Maio, no decorrer de uma reunião realizada na SPA, com a presença da Ministra da Cultura, durante a qual foi apresentada a versão final da proposta de Lei da Cópia Privada, que não chegou a transitar para a Assembleia da República devido à dissolução daquele órgão e à demissão do governo.


Subscrita nessa sessão por várias dezenas de autores, esta petição continua entretanto a circular on-line, podendo ser assinada através do endereço:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N9960

Recorde-se que no texto deste documento lançado pela SPA se afirma que a despromoção da cultura do nível de ministério para o de secretaria de Estado poderá representar uma diminuição significativa da capacidade de decisão governativa neste domínio e também da dotação orçamental destinada à cultura, já de si tão reduzida.

Ajude-nos a divulgar a Petição. A melhor maneira de o fazer é partilhar com os seus amigos.

Conheça o texto original da Petição

Cortesia de SPA

Manuel Bandeira e Filinto Elísio – transgressão e ironia em prol da poesia

É notória a influência do modernismo brasileiro na literatura de Cabo Verde, mais precisamente na geração da revista Claridade (1936-1960), representanda, dentre tantos outros, por Jorge Barbosa, Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara) e Manuel Lopes. Os claridosos, assim conhecidos, visualizavam no exemplo dos modernistas brasileiros uma vertente para pensar o arquipélago, suas contradições e dilemas distanciando-os da metrópole portuguesa. Surge nos intelectuais desse período, pois a Claridade não era uma revista apenas de literatura e abarcava outras áreas do saber, um olhar aprofundando dos problemas sociais do país, ou como afirma Manuel Ferreira: “Os modernos textos brasileiros andaram de mão em mão no momento em que os jovens intelectuais cabo-verdianos descobriam a urgência de rigorosa objectividade socio-literária” (FERREIRA, 1985, p. 261).

Baltasar Lopes, um dos idealizadores dessa proposta, assim narra a recepção dos textos dos modernistas brasileiros:

Há pouco mais de vinte anos eu e um grupo de reduzidos amigos começamos a pensar no nosso problema, isto é, no problema de Cabo Verde. Precisávamos de certezas sistemáticas que só nos podiam vir, como auxílio metodológico e como investigação, de outras latitudes. Ora aconteceu que por aquelas alturas nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que consideramos essenciais pro doma nostra. Na ficção o José Lins do Rego d’O menino de Engenho e do Bangüê, o Jorge Amado do Jubiabá e Mar Morto; o Amândio Fontes d’Os Corumbas; o Marques Rabelo d’O caso da Mentira, que conhecemos por Ribeiro Couto. Em poesia foi um ‘alumbramento’ a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, que, salvo um ou outro pormenor, eu visualizava com as suas figuras dramáticas, na minha vila da Ribeira Brava. (idem, p. 259)

Para além dos romances regionalistas – e aqui podemos acrescentar “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos –, percebemos o impacto causado pela poesia de Manuel Bandeira na geração claridosa e “as reverberações do tema de Pasárgada, colhido da poesia de Manuel Bandeira, alçaram-no a matriz poética do arquipélago, tendo como seu principal cultor o poeta Osvaldo Alcântara (Baltasar Lopes) que o legou entusiasticamente a outros escritores” (GOMES, 2008, p. 115). Dessa maneira, Osvaldo Alcântara, com maior ênfase, e outros escritores cabo-verdianos seguem o verso de Bandeira, “Não quero mais saber do lirismo que não é libertador”, e incorporam o pasargadismo que inspirou o desejo de evasão para outro espaço conotado a justiça social e no poder libertador da palavra poética.

Entretanto, o evasionismo proposto pelo pasargadismo e o desejo de emigrar sofreram severas críticas com o passar dos anos em razão da insustentável submissão colonial, já com a revista Certeza (1944), de cariz marxista, e a geração da Nova Largada contrária ao pasargadismo, ao evasionismo e ao terra-longismo, porém a favor de um olhar que recuperava as raízes crioulas e de veementes críticas ao colonialismo, para dissabor da metrópole, mas ainda assim “conservando a lição do quotidiano e o substracto telúrico veiculados pelos claridosos” (ALMADA, 2010, p. 3). Vários são os poetas da Nova Largada, dentre tantos, Aguinaldo Fonseca, António Nunes, Yolanda Morazzo, Ovídio Martins, chegando a atingir nomes revelados ao final dos anos 1950, tais como Onésimo Silveira, Mário Fonseca, Oswaldo Osório, Arménio Vieira e Kaoberdiano Dambará. Essa postura radicalizada dos novalargadistas é muito bem exposta no poema Anti-evasão de Ovídio Martins, que é enfático no seu antipasargadismo: Pedirei/ Suplicarei/ Chorarei// Não vou para Pasárgada// Atirar-me-ei ao chão/ e prenderei nas mãos convulsas/ ervas e pedras de sangue// Não vou para Pasárgada/ Gritarei/ Berrarei/ Matarei// Não vou para Pasárgada (ANDRADE, 1977, p. 48.)

Na década de 1950, as guerras de libertação das colônias africanas tornaram-se uma realidade e revelavam ao mundo o absurdo do colonialismo, os ideais pan-africanistas espalhavam-se pelos continentes, fundava-se o PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné e Cabo Verde) sob a liderança de Amílcar Cabral, mas antes este jovem lançava um importante texto “Apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”[i] (1952), premonitório no dizer de Manuel Ferreira (FERREIRA, 1985, p. 304), acerca dos novos rumos que caberiam aos futuros atores da literatura cabo-verdiana assumirem após o chão fecundado por Claridade e Certeza:

Os seus poetas – o contato com o mundo é cada vez maior – sentem e sabem que, para além da realidade caboverdiana, existe uma outra realidade humana de que não podem alhear-se. Sentem e sabem que não é apenas em Cabo Verde que há “gritos lancinantes pela noite silenciosa” e “homens vagabundos” que “fitam estrelas que a madrugada esculpiu”. (...)

Mas a evolução da poesia cabo-verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a “resignação” e a “esperança. A “insularidade total” e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene. As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho da evasão, o desejo de “querer partir” não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos poetas – os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum – compete cantá-lo. O caboverdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos poetas. (CABRAL, 1976, p. 21).


Por Ricardo Riso

Cortesia de Triplov

Escritores lançam campanha para tornar Granada na Capital Mundial da Poesia

Alguns Prémios Nobel da Literatura, como Derek Walcott e Wole Soyinka, escritores como Ernesto Cardenal, Juan Gelman, José Manuel Caballero Bonald, Tomás Segovia, Luis García Montero e Nuno Júdice, assim como algumas figuras conhecidas da cultura, mandaram um manifesto à Unesco a pedir para nomearem a cidade espanhola, Granada, Capital Mundial da Poesia. Nas obras de Federico García Lorca, conhecido poeta espanhol, a presença de Granada é constante. As referências à cidade surgem em muitos dos seus títulos e foi ainda em Granada que o espanhol morreu. O Festival Internacional de Poesia e o Prémio Federico García Lorca colocam Granada no centro do mundo literário todos os anos em Maio. Os eventos são motivos de encontro entre autores do panorama internacional, convertendo-se num dos eventos literários mais importantes do mundo.

Cortesia de O Público

Comemorações do Aniversário de Fernando Pessoa

Humildade

As águas beijei,
As nuvens olhei,
As árvores cantei,
Na sua beleza.

Os bichos amei,
Na sua bruteza,
Na sua pureza,
De forças sem lei.

E porque os amei
E os acompanhei,
Não me senti Rei
Na Mãe-Natureza.

Francisco Bugalho

Aspectos da poesia de Eugénio de Andrade

Neste ensaio procurou-se compreender e descrever como se articulam o pensamento estético e a poética de Eugénio de Andrade, mostrando, através do rigor formal da sua escrita, como o acto poético, este fogo de conhecimento que também é fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. (Federico Bertolazzi sobre Noite e Dia da Mesma Luz)

Dia 14 de Junho, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Apresentação a cargo de Fernando J.B. Martinho. Será projectada uma vídeo-antologia de Eugénio de Andrade em que o poeta, magistralmente, lê os seus poemas.

Cortesia de CFP

Giorgio Agamben: a partir dos seus institutos poéticos

Por esta razão, talvez, nem a poesia nem a filosofia, nem o verso nem a prosa possa jamais levar a cabo por si a própria empresa milenar. Talvez apenas uma palavra na qual a pura prosa da filosofia interviesse, a certa altura, rompendo o verso da palavra poética e na qual o verso da poesia interviesse, por sua vez, dobrando em anel a prosa da filosofia seria a verdadeira palavra humana.

(Giorgio Agamben)

Realizando uma abordagem diretamente a partir do poema, o pensamento de Giorgio Agamben consegue iluminar, como poucos, aspectos da inteligência material poemática inerentes à dinâmica rítmico-semântico-sintática, tal qual um dia, entre nós, foi requisitado, entre outros, por Haroldo de Campos, Augusto de Campos (ambos vindos na esteira de Ezra Pound) e, mais recentemente, Roberto Corrêa dos Santos, que escreveu:



[1. Investimentos teóricos sobre o poema, apesar da longevidade desse objeto, não chegam a formar corpus relevante. 2. Predominaram estudos sobre os processos de composição técnica e retórica, exames pautados em modelos clássicos relativos ao gênero e seus constituintes. 3. Investigações diversas visaram a circunscrever certo número de caracteres, por modos humanistas e abrangentes, do fenômeno entendido por lírico, em diferença àqueles formadores dos também homogeneizados épico e dramático. 4. Bem pouco restou para o esboço da possível corporeidade de uma, diga-se assim, teoria do poema. 5. As mais valiosas propostas situam-se ainda no âmbito do chamado formalismo russo. 6. Nesse ambiente epistêmico traçam-se parte das melhores proposições reflexivas, bem como das melhores análises, ultrapassando-se aspectos consabidos. 7. Pesquisas quanto à inteligência do poema em seu caráter rítmico-semântico-sintático e dedicadas à sua estratégia de leitura tornaram-se exceções. 8. Movimento científico de igual porte vem a ser reposto nos anos 60 por meio do empenho da semiologia e da semântica estrutural. 9. Conhecer o poema descreve-se como uma vontade a levantar-se e a tombar de tempos em tempos por razões relacionadas ao resistente modo-de-existir disso a chamar-se poema. 10. Por sua singular (im)permeabilidade ao factum e por sua condição de manter-se firme historicamente em sua radicalizante insistência formal e temática, suas modificações mantêm-se quase imperceptíveis. 11. Os hábitos fixados para quem dele se aproxime acarretam processos receptivos duros.[1]



Efetivar, portanto, um investimento teórico a partir do poema, que, diminuindo sua aspereza, flagre, potencializando-os, alguns atos pensantes a regê-lo em sua materialidade através de procedimentos que a organizam, é uma tarefa considerável para que possamos fruir as intensidades poéticas, evidenciando-as, quando possível, como uma dinâmica do poema que, ela mesma pensada, dá o que pensar.

Como já dito no primeiro capítulo, a partir do século XIX, uma das maiores dificuldades da teoria literária é conseguir estabelecer uma diferença entre poema e prosa, já que, em um movimento de mão dupla, tanto o primeiro incorporou a segunda, como esta, aquele, misturando-se. Em muitos casos, através da radicalização do uso das imagens, dos ritmos, dos metros, das invenções sintáticas, das significações ou daquilo que Pound chamou de “melopeia”, “fanopeia” e “logopeia”, ambos já assimilaram uma “linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível”[2], conseguindo uma maior condensação da forma verbal como requer, para o poeta americano, as exigências da poesia.

Transertões[3], um curioso ensaio de Augusto de Campos, oferece amostras sensíveis neste sentido. Nele, a preocupação não é negar o caráter da prosa euclidiana em nome do poético ali presente, mas de demonstrar como estruturas poéticas demarcam a diferença de uma prosa que incorpora diversos aspectos historicamente considerados poéticos, ajudando a criar a força desta escrita então híbrida em todos os aspectos. O poeta-crítico destaca a presença maciça do controle do ritmo pela artesania métrica do verso embutido na prosa, exemplificando-a com centenas de frases metrificadas (pelo menos 500 decassílabos significativos, com predominância dos sáficos e heroicos, acrescidos de mais de 200 dodecassílabos, dentre os quais muitos alexandrinos, como, por exemplo, “estrídulo tropel de cascos sobre pedras”, e versos livres) e padrões heterométricos que se irmanam a um completo domínio sonoro do encadeamento das palavras na frase.

Fora isso, ainda acentua diversas passagens com densas aliterações, sibilações, paranomásias, onomatopeias e figuras de linguagem como metáforas, metonímias e antíteses. Se uma prosa como, dentre outras, a de Euclides, absorve elementos poéticos, criando uma indiscernibilidade entre os gêneros, e se os poetas inventaram tanto o verso livre quanto o poema em prosa e o em constelação, como estabelecer a diferença entre poema e prosa? Essa pergunta não vela, obviamente, um desejo de refluxo que afaste o poema da escrita de ficção, ensaística ou outra prosaica de modo geral, mas expõe a tentativa de conquista de mais um elemento de compreensão da escrita, que nos leve a uma ampliação das possibilidades da própria escrita, da leitura e do pensamento.

Visando prolongar uma reflexão que passa por Everardo, o Alemão, Niccolo Tibino, Brunetto Latini e Dante, chegando à frase de Valèry apropriada por Jackobson, que diz ser o poema “a hesitação prolongada entre o som e o sentido”, os conceitos utilizados por Agamben para determinar o enjambement e a cesura como as únicas possibilidades de distinção entre o verso e a prosa estão em inteira consonância com seus arquissemas gerais. Nos quatro textos que definem “institutos poéticos” decisivos[4], todos ligados a limites e terminações, como o enjambement, a versura, o fim do poema, a cesura e a rima, tais termos são: hesitação, não-coincidência, deslocamento, cisma, disjunção, antagonismo, oposição, contraste, não correspondência, desacordo, descolamento, divergência, tensão, pausa, intervalo, parada, interrupção. Aproveitando o que escreveu Sophia de Mello Breyner Andressen, os “institutos poéticos” buscam mostrar que “há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema”[5].

A posição tomada pelo italiano não pode aceitar, como elemento primordial para o pensamento do poema – e, consequentemente, do próprio pensamento –, uma compreensão habitual para a qual, no enjambement, quando a pausa fônica que estaria ao fim de um verso passa a estar no seguinte, ou seja, quando o verso anterior, adentrando o próximo, ganha uma elasticidade que o estende para além de sua pausa métrica, esta “se torna a rigor inoperante e até inexistente se não está assinalada pela rima”[6]. Nesse caso, há a crença de que, sem a rima, a continuação fônica que estabelece o enjambement elimina e neutraliza a pausa métrica em nome da unidade do ritmo – em nome, poderia ser dito, do alongamento de um verso até a depressão da voz no interior do subsequente, fazendo com que a exclusão da pausa final prevista confunda o verso com a prosa em um “ponto de coincidência” ou em uma “bodas mística do som e do sentido”[7]. O enjambement, então, estaria a serviço da penetração da prosa no poema. Não que isto não seja passível de ocorrer nem que não seja até mesmo predominante em nosso tempo, mas a possibilidade agambeniana nos revela, com uma acurácia muito maior, o ponto de força que singulariza tal instituto como a diferença do poético: a hesitação e os termos afins não podem acatar a resolução da unicidade prosaica, mas, sim, manter os traços tensivos pelos quais, com o abismo do silencioso burburinho do enjambement, ritmo e sentido, ou verso e sintaxe, entram em um antagonismo essencial a favor do mostrar-se do poema em sua diferença.

O entendimento do verso provém de seu habitar, pelo menos virtualmente, em um cisma, de seu morar, ainda que virtual, em uma incongruência. Para Agamben, o discurso eminentemente prosaico é o que em hipótese alguma acata tal possibilidade do enjambement, enquanto poético é aquele que, pelo menos potencialmente, reside neste traço distintivo. Visto, ao lado da cesura, como a única garantia de uma diferença entre o verso e a prosa, o enjambement é formulado como a disjunção entre o limite métrico e o sintático, como um íntimo desacordo entre o ritmo sonoro e o sentido, como a oposição entre a segmentação métrica e a semântica, como o contraste entre a série semiótica e a série semântica. Uma simultaneidade das duas segmentações em desencaixe, das duas séries em derrapagem desigual, das duas intensidades em curto-circuito, dos dois tônus em cisalhamento, dos dois fluxos em movimentações tortuosas compõe as linhas de fuga do poema.

O enjambement leva o fim do verso a governar a linha, a gerir o sulco pelo qual o poema semeia sua beleza e pensamento desde seu princípio, provindo, daí, sua importância decisiva. Tornando-se seu núcleo constitutivo e ponto nevrálgico, o enjambement é o acontecimento que faz o verso nascer enquanto a singularidade que é. O verso só se torna o que é em seu fim, quando, na interrupção, ganha seu distintivo. No fim do verso, flagra-se um tempo de parada sonora e um lugar de interrupção plástica que podem condizer ou não com uma cessação sintática da oração, que é passível de continuar. Por exemplo, o poema Introdução à Arte das Montanhas, de Leonardo Fróes:



Um animal passeia nas montanhas.

Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego

mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.

De tanto andar fazendo esforço se torna

um organismo em movimento reagindo a passadas,

e só. Não sente fome nem saudade nem sede,

confia apenas nos instintos que o destino conduz.

Puxado sempre para cima, o animal é um ímã,

numa escala de formiga, que as montanhas atraem.

Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.

Sente-se disperso entre as nuvens,

acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,

ainda, que agora tem de aprender a descer. [8]

O poema começa (e se realiza quase todo ele) com um verso sem enjambement, já que nele o limite métrico e o sintático coincidem plenamente, ou seja, o sentido que nele começa e continua a ser esboçado finda ao término do verso, suas interrupções sonora e plástica combinam com a cessação sintática:

Um animal passeia nas montanhas.

Ao fim deste verso, tem-se a totalidade do que ele está dizendo desde seu princípio; a pontuação lhe dá um limite, fazendo com que nenhum sentido reste para além dele. Coincidindo, tanto a série semiótica quanto a segmentação semântica são simultaneamente interrompidas. Todas as possibilidades de sentido inauguradas pelo começo do verso e continuadas pela linha estão presentes em “Um animal passeia nas montanhas”. Claro que várias indeterminações de sentido permanecem nele (que animal é esse, que tipo de passeio é esse, que montanha é essa, o que vai acontecer a esse animal que passeia nas montanhas, como ele passeia...?), mas todas elas moram dentro do limite do verso, como potências dele. O enjambement está presente ali em um grau zero, como possibilidade (“Um animal passeia/ nas montanhas” ou “Um animal/ passeia nas montanhas”, para dar dois exemplos) que o poeta preferiu não cumprir.


Por Alberto Pucheu

Cortesia de PNETLiteratura

Silence is sexy, ou, a poesia no Musicbox e no São Jorge

Atenção, amantes da poesia, boémios iluminando a noite de bar em bar, ou malta que ainda está para escrever um ensaio literário de dez páginas para entregar na semana que vem: o Festival Silêncio!, evento que dá destaque à spoken word e à alma poética de músicos de todos os quadrantes, anunciou hoje alguns dos nomes que vão estar presentes em Lisboa, de 15 a 25 de Junho, no Musicbox e no São Jorge, para leituras indispensáveis. Destaque natural: Linton Kwesi Johnson, considerado por muitos como o pai fundador da dub poetry (que é precisamente o tema do ensaio, e por isso podiam ter feito isto em Abril) e co-autor de um dos melhores discos reggae de sempre, o essencial Dread Beat An' Blood. Mas não só. Também Lee Ranaldo cá virá novamente a solo, desta feita para apresentar o projecto Notebook, poesia acompanhada por imagens. E ainda, porque "FMI" roda incessantemente nas nossas cabeças há já algum tempo, José Mário Branco subirá ao(s) palco(s) acompanhado por pessoas como Camané, Carlos Bica e José Peixoto. Isto para não falar de Arnaldo Antunes, do projecto Moradas do Silêncio (poesia de Al Berto por Sérgio Godinho, JP Simões, João Peste, Rui Reininho e Noiserv), e das oportunidades que alguns terão, se entrarem nos concursos em questão, para ler a sua própria poesia. Porque a música também se faz de palavras.

Cortesia de Bodyspace.net

Francisco Bugalho, o poeta que pintou a Natureza



Francisco Bugalho, o poeta a quem José Régio chamou o pintor da Natureza, recorre a uma expressiva paleta de sensações com que ilustra a Natureza, transcendendo os sentidos pela sua faculdade de sonhar, contemplar, cismar e abandonar-se.

A poesia é um domínio singular, onde a Natureza é protagonista e a experiência humana princípio activo. Das percepções sensoriais às ideias mais rarefeitas, atitudes simples de laborar e amar, são sementes de arte para o poeta, por cuja compreensão passam os fenómenos e as forças que os animam. Mas Herbert Read afirma que “tem sido sempre função da arte, dilatar a mente um pouco para além dos limites da compreensão. Essa distância para além, pode ser espiritual ou transcendental, ou simplesmente fantástica, algures tem de passar além dos limites do racional”.

Assim, numa sociedade organizada segundo a racionalidade dos meios, que lugar ocupará a poesia? E como a substância poética contém um universo de valores – estéticos, intelectuais, éticos, ambientais … - que tipo de relação se estabelece entre poeta e leitor?

Francisco Bugalho, a quem José Régio chamou “pintor da Natureza”, encontrou no real um filão de maravilhoso. A Natureza que está na raiz da sua inspiração resplandece na obra deste poeta. Em cada poema percebe-se um movimento circular em torno da realidade, seja uma árvore, serra, fim-de-dia ou dois meninos. O movimento evolui e consuma-se quando, poeta e real, encontram a relação justa. O poema Montado Velho, entre muitos outros, é um exemplo bem significativo.

Começa assim:

Meu triste montado velho
Que paz tem quem te procura
E, em ti, vem achar o espelho
De uma vida sem doçura,
Mas livre de enganos vãos ! …

Francisco Bugalho terá deambulado pelo labirinto rumorejante das árvores do montado e a par dos equilíbrios de alma, que o poema deixa adivinhar, revitaliza a imaginação. Ora espiritualizando o real, ora concedendo concretismo a fenómenos físicos e psicológicos o poema continua:

Troncos rugosos, mas sãos,
Ásperos, sim, mas generosos,
Todos, na desgraça, irmãos,
Dos maus Invernos ventosos
E dos verões, sem pinga d’água.

Montado, que estranha mágua
Te confrange e te redime !
A tua visão afago-a .
És bom cenário pra um crime …
E pra milagres também.

O Poeta passa depois a informar o montado da existência de outros espaços, com outras cores e brilhos e outros sons.

Montado, além, mais pra além,
Há céus azuis e há searas.
E brandas águas que têm
O brilho de pedras raras,
E não há só solidão ! …

Solidão que experimenta quem está domiciliado num mundo à parte? Os atractivos enumerados, não seduzem o poeta, que permanece com o montado. Realiza-se a unidade entre ambos.

Mas essa tua canção
- solução d’alma que anseia –
Também a meu coração,
Furtivamente se enleia.
E aqui me fico contigo.

Sem ternura, nem doçura;
Mas longe do mundo vão,
- Meu velho montado amigo ! …

É sempre preciso um poeta. Ele conduz-nos a um mundo mais vasto, mais ardente, mais belo, onde as dissonâncias se resolvem em harmonias.

Em 1960 José Régio escrevia assim: “Pela simples vivacidade dos sentidos, ainda Francisco Bugalho não seria o poeta que é; sendo já, sem nenhum desperdício de palavras, um belo pintor da Natureza … Os conhecidos sentidos … multiplica-os, transcende-os o poeta pela sua faculdade de sonhar, contemplar, cismar, abandonar-se. Eis que a sua comunicação com a Natureza vai muito além, assim, do primeiro contacto e penetra-a até aos seios do mistério …”. E é destas faculdades de “sonhar”, “contemplar” e de “cismar”, referidas por José Régio que nasce a obra do poeta, a importância do seu pensamento.

Se cada arte tem o seu próprio público, cujo comportamento e pensamento influencia, que acção escreverá a poesia ?

Diz-se que a poesia proporciona prazer. Porém, não existe só, para que os leitores alcancem a plenitude dos bem aventurados.

Na obra de Francisco Bugalho, o tema da relação entre os seres, aparece em diversos poemas. Num tempo em que os abusos inflingidos sobre a fauna e a flora são frequentes e por vezes irreparáveis, é útil conhecer outras formas de relacionamento. O poema Humildade demonstra que a vida quer esteja no Homem, nos animais, ou nas plantas é sempre a vida.

Através de diversos encaminhamentos, e a poesia será um dos caminhos, nasce o desejo de estabelecer um modo melhor de regulamento, das relações entre o Homem e o meio natural.

Francisco Bugalho, o poeta “pintor da Natureza” terá vivido na perspectiva da eternidade. O poema A uma Árvore, celebra o triunfo da vida. Uma árvore que o poeta plantou, acompanha o ritmo das estações, regenera-se ciclicamente, ouve os sonhos dos filhos do poeta e eterniza-o.

Cortesia de Naturlink

Seminário de Literatura e Ambiente: "Falas da Terra” no Século XXI What do we see green?


o IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da FCSH-UNL e o Programa Gulbenkian Ambiente da Fundação Calouste Gulbenkian apresentam, no dia 7 de Junho, na sala 3 da Gulbenkian, o Seminário de Literatura e Ambiente: "Falas da Terra” no Século XXI What do we see green?

Constituído por duplas de escritores e leitores (investigadores de várias áreas disciplinares), o programa procura perceber como os escritores reflectem sobre os grandes problemas ambientais da actualidade e sobre a potencial função dos textos literários enquanto catalisadores de uma nova consciência ambiental.

Entre outras, são analisadas obras de Álvaro Magalhães, Gonçalo M. Tavares, Joana Bértholo, Rui Cardoso Martins, Mário de Carvalho, e valter hugo mãe, que ali debaterão com os respectivos “leitores”, nomeadamente: Carlos Nogueira, José Eduardo Ferreira, Carlos Augusto Ribeiro, Ana Isabel Queiroz, Natália Constâncio, Adolfo Luxúria Canibal.

Às conversas entre escritores e investigadores juntam-se as participações de um elenco de académicos portugueses e estrangeiros, entre eles Ana Paula Guimarães, Cármen Flys Junquera, José Manuel Pedrosa e Tonia Payne, intervenções enquadradas pelo ecocriticismo - prática disciplinar que estabelece pontes entre a literatura e o ambiente, buscando exemplos na criação universal, desde a tradicional oral à ficção científica.

O seminário encerrará com o lançamento do livro homónimo, título que reúne as leituras e reflexões dos vários intervenientes.


Cortesia de Naturlink

Biblioteca Nacional adquire Espólio de José Gomes Ferreira

A BNP concluiu, em Dezembro de 2010, o processo de aquisição do Espólio de José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – Lisboa, 1985). Poeta e ficcionista, filho do Vereador e Deputado Republicano Alexandre Ferreira, um dos impulsionadores da Universidade Livre, José Gomes Ferreira - o “poeta militante” - cursou Direito, em Lisboa (1918-1924), período em que integrou o Batalhão Académico Republicano que defrontou as forças monárquicas (1919). No início do ano de 1926 parte para a Noruega onde desempenhou as funções de cônsul na cidade Kristiansund até 1929. Após o regresso, dedicou-se à Literatura, ao jornalismo e à tradução de legendas de filmes, uma actividade constante na sua vida, tendo sido, nomeadamente, consultor do Cinema Tivoli. Escritor atento e participante dos movimentos políticos e sociais, integrou, por exemplo, o Movimento de Unidade Democrática, colaborou com Lopes Graça em álbum de canções revolucionárias, foi o primeiro presidente da Associação Portuguesa de Escritores, em 1973, mantendo-se em 1975 e 1978.

Colaborador da imprensa periódica, José Gomes Ferreira co-dirigiu, em 1919, Ressurreição: mensário de arte, para literatura, para vida mental - revista em que Fernando Pessoa publicou o poema “Abdicação”. A partir de 1930, foi redactor principal da revista de cinema Imagem, colaborou na Kino, em Sr. Doutor, revista infantil onde publicou os textos posteriormente integrados em Aventuras de João Sem Medo e, entre outras, na Seara Nova, na presença, em Descobrimento, no Diabo, na Revista de Portugal, na Portucale, na Gazeta Musical e de Todas as Artes, na Serpente, onde Alexandre Pinheiro Torres assina um ensaio sobre a sua poesia (1951), em Pentacórnio ou nos Cadernos do Meio Dia.

Estreou-se na edição de poesia com Lírios do Monte em 1918 e, em 1921, editou Longe. Mas o poema considerado como definidor da sua personalidade poética “Viver Sempre também Cansa”, é datado de 1931. Quinze anos depois (1948) e com o apoio do grupo do Novo Cancioneiro, editou Poesia I, considerada a primeira das suas obras principais. Poesia III (1961) recebeu o 1º Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. Neste género literário e sob este título geral publicou 6 volumes - Poesia VI é de 1976. Foram posteriormente reunidos em Poeta Militante: Viagem do Século XX em MIM (3 v., 1978).

A vasta bibliografia de José Gomes Ferreira regista também contos, crónicas, ensaio, teatro, traduções de obras literárias e de legendas de filmes, obras para jovens e memorialismo, bem como prefácios a edições de obra alheia.

O Espólio de José Gomes Ferreira, recentemente incorporado na BNP, inclui manuscritos autógrafos e/ou dactiloscritos da obra literária do escritor, obras musicais em versão autógrafa e impressa, documentos áudio, fotografias, recortes de imprensa, documentos biográficos, bem como testemunhos do seu universo relacional – a correspondência. Inclui cartas de Adolfo Casais Monteiro, Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, António Ramos Rosa, António Sérgio, Augusto Casimiro, Castelo Branco Chaves, Francine Benoït, Irene Lisboa, João de Barros, João José Cochofel, João Rui de Sousa, José Cardoso Pires, José Rodrigues Miguéis, José Saramago, Luís Amaro, Luís Pacheco, Natércia Freire, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Urbano Tavares Rodrigues, para apenas referir correspondentes cujos espólios integram o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da BNP. Parte do acervo é de acesso reservado.

Cortesia de BN

O anjo da humanidade

Era na estância cristalina e pura,
Que além do firmamento rutilante
Se ergue longe de nós, e está segura
Em milhões de colunas de diamante;
Jerusalém celeste, onde fulgura
Do eterno dia o resplendor constante,
E onde reside a glória e majestade
D’Aquele que povoa a imensidade.

Na mansão mais recôndita e profunda
A soberana Essência o trono encerra,
Donde a fonte de amor brota fecunda,
Os astros animando, os céus e a terra;
Um mar de luz seus penetrais circunda,
Que o próprio arcanjo deslumbrado aterra,
Luz que em triângulo ardente se condensa
Quando o Eterno os oráculos dispensa.

Por toda a parte o azul e as pedrarias
Na cidade divina resplandecem;
Mil arcadas de sóis, mil galerias
De brilhantes estrelas a guarnecem;
Os anjos em lustrosas jerarquias
Nas harpas d’ouro melodias tecem,
Outros em coros adejando voam
E d’aromas e canto o céu povoam.

Eis de repente nos umbrais divinos,
Sobre as asas pairando, um anjo entrava,
Parecendo de sítios peregrinos
Que às regiões celestes assomava;
Cruzando o empíreo, as legiões, e os hinos,
Qual rápido luzeiro perpassava,
Té que chegando ao trono do Increado,
Nos últimos degraus ficou pousado.

Pelos ebúrneos ombros o cabelo
Em aneladas ondas lhe caía;
A safira das asas sobre o gelo
Das roupagens reluzentes refulgia.
Mais brilhante não é, não é mais belo,
Comparado com ele, o astro do dia,
Ou a estrela que brilha quando a aurora
De purpurina luz o céu cobra.

Ao trono augusto levantou a frente,
Mas com as asas a toldou ansioso,
Não podendo suster o brilho ardente
Que despedia o foco luminoso.

A milícia dos anjos resplendente
Fixou atenta seu irmão formoso;
Os concertos pararam, e ele entanto
Assim falou entre o geral espanto:

«Eterno Ser, que as divinais moradas
«Enches de glória em majestoso assento,
«Fonte de vida e criações variadas,
«Que dás ao mundo poderoso alento;
«A cujo aceno tremem abaladas
«As colunas do etéreo firmamento,
«E cujo nome, que o universo entoa
«No céu, na terra, e nos abismos soa!

«Por teu mando supremo destinado,
«A conduzir a humana descendência,
«Desde que a mancha do cruel pecado
«A fez cair da primitiva essência:
«Venho afinal, Senhor, de teu mandado
«Dar-te conta fiel, após a ausência;
«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,
«E aguardar teus preceitos sacrossantos.

«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre atento
«Prosseguisse na terra a lei sob’rana
«Que rege, na amplidão do firmamento
«A criação que de teu seio emana:
«Essa lei do progresso e movimento
«Tenho cumprido na família humana,
«Desde que ao mundo, a combater seu fado,
«O desterrado do éden foi lançado.

«Primeiro, sobre a terra esclarecendo
«Seus duvidosos passos vacilantes;
«Depois, o justo e seu baixel sustento
«Nas águas do dilúvio sussurrantes:
«De novo à terra de pavor tremendo,
«Conduzindo mais puros habitantes:
«Mais tarde junto ao berço do Messias,
«Anunciando ao mundo novos dias.
«Agora, sobre as ruínas dum império
«Outro império de novo edificando;

«Agora, as povoações dum hemisfério
«Sobre as doutro hemisfério derramando:
«Já do teu Verbo o divinal mistério,
«Com as santas doutrinas propagando;
«Já mostrando por fim à humanidade
«Nova luz de justiça e de verdade.

«Quantos velhos sofismas desterrados!
«Quantos ídolos falsos em ruínas!
«Quantos sábios triunfos alcançados!
«Quantas conquistas imortais, divinas!
«Calcando o pó dos séculos passados,
«O homem corre ao fim que lhe destinas;
«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta
«Seu amor esmorece e desatenta.

«Seu valor esmorece! tantas lidas,
«Tanto lutar contínuo das idades,
«Tanto sangue e martírios, tantas vidas,
«Tantas ruínas d’impérios e cidades:
«E o homem sofre, e as gerações perdidas
«Se revolvem num mar de tempestades,
«Sem ver luzir esse fanal jucundo
«Que por teu filho prometeste ao mundo.

«Quantos males ainda! a lei sublime,
«A lei d’amor que derramou teu Verbo,
«Sobre a face da terra, à voz do crime,
«Sucumbe e morre por destino acerbo.
«O férreo jugo que as nações oprime,
«Os humildes abate, ergue o soberbo,
«E o rei da terra, sobre a terra escravo,
«Sofre mesquinho seu eterno agravo.

«Por toda a parte, em lastimoso acento,
«Se ouve gemer a humanidade aflita.
«A terra, a mãe comum, nega alimento
«Dos filhos seus a à multidão proscrita:
«Enquanto folga em vícios o opulento,
«A indigência cruel na choça habita,
«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,
«Aperta morto à fome o seu filhinho.

«Entanto a guerra, que a ambição ateia,
«Ensanguenta as campinas e as cidades;
«A crua peste, que ninguém refreia,
«Converte as povoações em soledades;
«Destes males cruéis a terra cheia,
«Cobre-se inda de mil iniquidades;
«O vício, o crime, a corrupção devora
«A pobre humanidade, como outrora.

«Ao ver tanta miséria, o bom padece,
«O mau blasfema de teu nome santo,
«A voz dos inspirados esmorece,
«O futuro se envolve em negro manto...
«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece
«Que a humanidade te dirige em pranto,
«Subi confuso ao eternal assento,
«A depor a teus pés meu desalento.»

Disse, e um gemido d’aflição pungente,
Semelhante a dulcíssona harmonia,
Soltou do peito, reclinando a frente
Com celeste e ideal melancolia:
Assim pendendo ao longe no ocidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pálida açucena,
Açoutada do vento, a fronte amena.

Depois, continuando: «O Deus, quem há-de
«Sondar mistérios que teu seio esconde?
«Tuas leis divinais, tua vontade
«Cumprirei sobre a terra. Eia, responde:
«Os passos da mesquinha humanidade
«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»
Uma voz retumbou do céu radiante.
Que ao anjo respondeu, dizendo: — AVANTE!

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