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Fim do blogue Poetícia
A Poesia Vai Acabar
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina
CITAÇÃO - Saint-John Perse
À pergunta habitual: «Por que é que escreve?», a resposta do poeta será sempre a mais curta: «Para viver melhor».
Film Arguments de Pessoa
Sob o rótulo Film Arguments, Fernando Pessoa deixou escritos e datilografados argumentos cinematográficos em três línguas que só agora serão publicados em Portugal, bem como planos para criar uma produtora de cinema, a Ecce Film, e o respetivo logótipo. Com edição, introdução e tradução de Patricio Ferrari e Claudia J. Fischer, todos esses textos de Pessoa diretamente relacionados com cinema, inéditos em Portugal, foram pela primeira vez reunidos num volume intitulado Argumentos para Filmes, que chegou no passado dia 8 de julho às livrarias, no âmbito da coleção Obras de Fernando Pessoa, coordenada por Jerónimo Pizarro e publicada pela Ática, chancela da Babel.
Cortesia de i
Cortesia de i
Ouvir literatura portuguesa em qualquer lugar
É mais fácil aceder à substância de um livro através da audição do que da leitura. Esta ideia pode resumir o projecto O Livro. Teresa Henriques, Joana Mendonça e Diogo Henriques querem assim combater a exclusão a que a literatura está sujeita na sociedade.
"As pessoas têm cada vez menos tempo para ler, mas não queremos atingir só esse público, pretendemos também chegar aos idosos, às crianças e aos... preguiçosos!", aponta a equipa que concorreu e faz parte dos dez candidatos da iniciativa Faz - Ideias de Origem Portuguesa, da Fundação Gulbenkian, em conjunto com a Fundação Talento.
Cada equipa de concorrentes deve ser constituída por portugueses na diáspora e residentes no país. A ideia de O Livro vem do outro lado do Atlântico, dos EUA, pela mão de Teresa Henriques, de 32 anos, escultora. "A oportunidade de ser escultora nos EUA é muito maior do que alguma vez será em Portugal", justifica.
Quanto ao projecto, este surgiu de uma vivência ainda em território nacional: "Vi os meus avós na última fase da vida deles, quando começaram a perder as capacidades físicas, a ficaram reféns da televisão".
A escultora a viver em Nova Iorque há três anos recorda que os avós eram duas pessoas que gostavam imenso da cultura portuguesa, "literatura, música, teatro", e perderam esses interesses. "Então, lembrei-me de fazer uma biblioteca falada, através da rádio".
Com a ajuda de Joana Mendonça e de Duarte Henriques, decidiu tornar o projecto mais abrangente. "Queremos criar um programa em que os idosos vão contar histórias às crianças", por exemplo. Mas não só. "Seria uma mais-valia para os doentes que estão nos hospitais ou para os cegos", embora salvaguardem a importância do braille, ou ainda para as pessoas analfabetas, que teriam assim uma "abismal melhoria na sua qualidade de vida".
A equipa acredita que o projecto vai valorizar a cultura de um "país que é conhecido mundialmente pelos seus escritores". Tudo isso através da rádio que "chega a todos, mesmo as famílias portuguesas mais pobres têm uma aparelhagem pequena". Teresa lembra o hábito que muitas pessoas têm de "rezar o terço" acompanhando a rádio. "Podia acontecer a mesma coisa com a nossa biblioteca falada!"
O objectivo é criar um programa de rádio, onde os livros podem ser lidos, capítulo a capítulo, a uma hora específica, como as antigas radionovelas. Autores como Eça de Queirós, Saramago ou Fernando Pessoa, entre outros, podem ser divulgadas. E é aqui que reside uma das principais dificuldades do grupo: convencer as rádios nacionais a introduzirem este tipo de emissão na programação diária ou semanal. É um programa que não se adequa a qualquer rádio. "Uma rádio juvenil nunca irá aceitar a nossa proposta", a aposta direcciona-se mais para uma rádio com um público-alvo "mais maduro, que saiba dar valor a um bom livro", avalia Teresa.
Para este programa funcionar, a família Henriques quer contar com o apoio das universidades. Estudantes formados em áreas de dicção e línguas podem "dar voz" à literatura portuguesa. Estudantes de multimédia e audiovisuais poderiam ocupar-se da edição do programa radiofónico.
Outro ponto do projecto, explica Joana Mendonça, de 31 anos, economista que trabalha na área da inclusão social, é o livre acesso desta biblioteca na Internet. "Existirá uma plataforma online onde os livros estarão disponíveis, as pessoas fazem download e vão ouvindo". Aqui entra a experiência de Diogo Henriques, de 27 anos, engenheiro informático. "Queremos uma coisa simples, que permita o acesso a qualquer pessoa, jovem ou menos jovem, português ou estrangeiro".
E deste projecto pode nascer outro, o do aluguer dos "livros em áudio", em cafés, nas praias, jardins ou praças públicas. Deste modo, nem os turistas ficam de fora. Para eles, estão pensadas gravações em inglês e francês.
Cortesia de O Público
Entrevista com Maria Teresa Horta
A ficção requer outro tempo. Levou 13 anos a escrever o romance sobre a Marquesa de Alorna. Mulher sem época, e antes de mais, sua avó.
As amigas encomendam-lhe feijoada. Os netos não passam sem o seu arroz. A avó, involuntária cozinheira de mão-cheia, que só pela família põe freio nas letras, escreveu sobre uma outra, a sua avó em quinto grau. Leonor de Almeida, mulher de erudição rara que desafiou preceitos nos séculos XVIII e XIX, enchia os cadernos de receitas com poesia. Um pouco à semelhança desta neta, nascida em 1937, que em vez de tirar notas durante as reuniões, entrega-se aos versos.
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(MTH) - O gravador dá resultado com toda a gente? A minha prática é que há muitos escritores que se inibem muito.
(i) - Não tem dado problemas. O pior é desgravar.
Isso é um trabalho de escravo, muito aborrecido. Mas diga-me.
Tinha-me dito que se aborrecia com as apresentações dos livros.
Não me aborrece. Acho que tem pouco a ver com o meu trabalho de escrita. Costumo dizer que eu sou a minha escrita. Escrevo porque me dá muito prazer, porque não posso deixar de escrever para ser feliz. Todo este acréscimo de exposição...Já tenho uma escrita muito exposta.
Sente que é um pouco redundante?
Sim, porque escrevo para mim, não escrevo para os outros. Depois com certeza que existem os outros. Acontece-me o mesmo na poesia. Quando as pessoas começam a fazer muitas perguntas acerca de cada verso, não gosto.
Dá-lhe vontade de dizer "leiam o livro"?
Dá-me sempre vontade de dizer isso, embora isso me assuste também um pedaço, porque a leitura de cada pessoa é diferente. Até porque numa obra que leva 13 anos a escrever, como é o caso, passei por visões muito diferentes da própria personagem. Acho que estou com trauma pós-parto.
Pelo vazio?
Um vazio enorme, como se ainda continuasse a escrever, que era a minha vontade. Fui para a Torre do Tombo e passei lá meio ano. Dias inteiros, até fechar, para investigar e ler coisas não editadas.
O espólio literário dela é vastíssimo, para uma mulher, para esta altura.
Para uma mulher. Mas ela não era uma mulher comum. À medida que fui entrando nos cadernos, diários, ela foi-se revelando. O livro teve oito versões, sendo que a estrutura literária foi a mesma desde o princípio.
Como é conviver há 13 anos...
Com a minha avó? Sim, porque ela é minha avó em quinto grau. Trisavó do meu avô. É ir atrás das minhas raízes também. É curioso e perturbador.
Descobrem-se muitas semelhanças entre esta Leonor e a Maria Teresa.
Pois, provavelmente tenho muitas coisas dela e obviamente que me projectei nela. Acho que a resposta é a epígrafe que coloco da Virginia Woolf, quando acabei o livro, se é que o acabei. Ainda ontem dizia ao Luís [de Barros], ao meu marido, que devia ter usado mais personagens. O truque foi mandar para a Dom Quixote.
Soube o momento certo de acabar?
Não era capaz. Mas tinha que pôr ponto final nisto. Fui enviando cada capítulo que terminava para a editora.
E os prazos?
Ultrapassei todos os prazos, mas a Cecília [da D. Quixote] é fabulosa. Teve uma paciência que eu sempre agradecerei. Às tantas já estava desesperada. Mas tive que mandar. No dia seguinte compro umas cartas da Virginia Woolf para a Sackville-West. Quando a Virginia acaba o livro, na última carta pergunta-lhe: "Agora que acabei pergunto a mim própria, será que te inventei dos pés à cabeça? É a epígrafe do livro. Tenho coisas dela, como encontrei respostas à maneira de ser da minha mãe na Leonor.
Que marcas a tocam mais?
A determinação, o arrebatamento. A transgressão dos papéis que na altura era muito mais evidente. Como lhe diz a Teresa de Mello Breyner numa carta: "Nós mulheres pagamos caro por ler livros".
Ainda hoje se diz que são perigosas.
São. Agora imagine naquela altura. Ela foi uma figura primeira na construção da Academia das Ciências e as mulheres não podiam ser sócias. Era uma sombra.
É uma feminista.
Completamente. Embora me tenha zangado três vezes com ela ao longo do livro e tive umas semanas que nem escrevi.
Porquê?
Até entender que na época, e mesmo hoje, é mais prudente uma mulher fazer de conta e não assumir as coisas. Por exemplo, quando o pai lhe diz para não ler Voltaire, ela dizia "não senhor, meu pai, nunca". E lia. Eu diria logo ao meu pai "ai leio, sim senhor". Era logo um desastre. Se tivesse feito o que ela fez era muito mais inteligente.
Como acha que ela seria hoje?
Não lhe sei dizer. Mas acho que seria feminista. Bom, pode dizer que estou a puxar a brasa à minha sardinha. Talvez seja, mas ela morre com 89 anos e até aos 80 e tal ainda saía de manhã para ir para as aulas na faculdade de Ciências. Para mim é estranhíssimo. A minha mãe morreu no ano passado com 90 e tal anos e quando tinha a idade da Leonor, olhava para ela, mulher de um vigor absoluto, e mesmo assim não a via meter-se num táxi para ir ter aulas.
Ia mostrando o que ia escrevendo?
Não mostro as coisas que escrevo. E como sou mulher tenho um cuidado ainda maior. No meio familiar não é um hábito uma mulher escrever. Sei que não teria a obra que tenho se a tivesse mostrado antes de publicar. Ainda hoje é uma prudência que as mulheres escritoras devem ter. Mas com a Leonor foi um pouco diferente. Passou a entrar na família hoje, no nosso quotidiano. Muito mais para o meu marido. Tenho que lhe agradecer a paciência para estes anos de obcecação. E mais ainda, para a intromissão de outra pessoa na nossa vida. Ele fez o mais inteligente, que foi interessar-se por ela.
Não podia vencê-la.
Foi atrás dela também. Nos últimos dois, três anos, foi fundamental. Apaixonou-se pela personagem depois de grandes debates. Ela apaixona-se por um homem que luta, da Vendeia. Hoje vê-se como uma coisa reaccionária, mas na época era um herói para ela. Estava à espera nesse Portugal sem heróis, de um herói, porque era muito mais do que todos os homens do país. Ele tinha vinte e tal anos e ela 50. Uma coisa impensável.
Não só na época, mais uma vez.
Ainda hoje. Um homem com 50 e uma mulher de 25 não tem problema nenhum, até é viril e os homens olham com uma certa inveja. O contrário não. As mulheres são coitadas, "o que é que lhe passou pela cabeça? Ai os filhos, que vergonha!" O Luís é jornalista e tem uma prática enorme de ler textos. Uma vez reparou que ela estava com um xaile de lã em Agosto. Não podia. Na editora não quero ninguém a tocar no meu texto. Mas com uma pessoa em quem confio e que amo ao meu lado, vou conversando.
É uma obra de muito detalhe.
Os talheres, a roupa. Li sobre tudo. Não a podia tirar do contexto senão não era verdade. Teve oito filhos, fiz oito partos. Já nem sabia como fazer tanto parto. Acho que é uma escrita feminina, do pormenor, com grande trabalho de linguagem. Há pessoas que me dizem que parece que cada texto levou horas. Horas? Levava dias.
Foi um prazer doloroso?
De vez em quando era um peso. Há também textos de uma escrita jornalística, que serviram para dizer o essencial. Em certos textos não podia ter o voo poético, mas informativo. Aí entra a jornalista, diz o que tem a dizer, para poder voltar à escrita literária e ficcional. As três escritas entram sempre até na minha poesia.
Quando decide pegar na Leonor?
Primeiro, num projecto muito vago, mas muito ambicioso, que era tirar da História as mulheres que ficaram na sombra. A quem lê a nossa História, parece que não existem. E não é verdade. Tivemos mulheres espantosas, mas como não sou regrada não comecei no Afonso Henriques. Apeteceu-me começar pelo mais próximo, a Marquesa de Alorna. Ao avançar percebi que não era possível o projecto todo. Resolvi dedicar-me por inteiro a ela.
Tem sempre o vínculo familiar.
Em pequena, e é o maior motivo, tenho memória de estar em cima de uma mesa da minha mãe, numa salinha, e de haver um livro da Marquesa de Alorna, do Marquês d''Avila e de Bolama. Aprendia a ler muito cedo, sozinha, naquela loucura da biblioteca do meu pai, o que aborrecia toda a gente. Não se ensinava uma menina a ler antes dos sete anos. Mas aprendi com a minha avó umas noções e peguei nesse livro; fui atrás dela. Se calhar era um projecto de vida. Ela era escritora, eu queria ser escritora. Ao longo da minha vida a minha mãe andou sempre com o livro atrás, e fui sempre encontrando-o.
Ainda o tem?
Tenho. Está completamente destruído, agora com a Leonor. Li-o tantas vezes que tive que mandar encadernar. Esta mulher fabulosa só pode existir hoje pela sua habilidade em construir uma obra que ela quis que chegasse aos nossos dias, a posteridade. Ela tinha cadernos feitos que começavam por ter receitas, contas de casa, depois um poema. Já estava tudo arrumado.
Sempre conseguiu compatibilizar a escrita com as receitas e as contas da casa?
É difícil, claro que é, sobretudo porque não gosto nada. Com os anos ainda vou ficando pior. Todos os dias passo a ferro, cozinho. As minhas amigas pedem-me para fazer feijoada, que é magnífica.
É boa cozinheira, afinal.
Pelos vistos sou. E os meus netos dizem que eu faço o melhor arroz do mundo, veja bem. Portanto há coisas que faço e tento fazer bem mas tem que ser tudo de seguida, senão esqueço-me logo e deixo queimar o que ficou ao lume. É um desastre. Até aquelas coisinhas que há para marcar as horas eu ponho mal. Não é fácil, mas lembro-me de fazer poesia a mudar as fraldas ao meu filho. Faço poesia durante as coisas terríveis que me acontecem.
Terríveis?
Nas reuniões que tenho, que odeio, as pessoas acham que estou a tomar notas, e fico muito bem vista, mas estou a fazer poesia. Quando faço coisas que não me deixam fazer poesia, aí a poesia aparece. Descobri que quando mudava fraldas ela aparecia. Antes já punha o papel e a esferográfica, ele estava deitadinho na cama e eu ia tirando notas. Depois entra-se em acordos. Quando estava com ele ouvia Mozart, depois ele ouvia "Os Três Porquinhos". Nunca fui uma mãe galinha, mas sou avó terrível. Hoje penso se os meus filhos não gostariam de ter uma mãe mais convencional.
Alguma vez se sentiram trocados pelas letras?
Não. O meu filho, o Luís Jorge, nunca me disse isso, mas é um homem muito lá em cima. Tenho uma família muito especial, um contacto muito grande com o meu filho através do cinema. E agora pergunta-me se a Leonor gostaria de cinema.
Acredito que gostasse.
Este livro tem muito a ver com o cinema, que sempre fez parte da minha vida. Fui a primeira mulher cineclubista deste país. Lembro-me de ir ao cinema com a minha mãe quando ainda não tinha idade para entrar.
Qual foi o primeiro que viu?
A Branca de Neve e os Sete Anões. Chorei tanto, tanto com a bruxa, que me levaram para fora do cinema. Aí já chorava porque estava a perder o filme. Preferiram levar-me para dentro de novo a chorar. Nunca mais voltei a ver. A minha mãe ia ao cinema sozinha, o que naquela época... ainda mais com uma menina.
Lidavam bem com os olhares de lado?
Só havia olhares para a minha mãe. A minha mãe era lindíssima, andava de calças quando as mulheres não as usavam, fumava na rua.
Uma mãe muito progressista que vem de uma família da alta-aristocracia.
Sim, mas era progressista na mentalidade. Politicamente não era. Foi criada pelos avós, que são mais permissivos. Tinha muitos primos e irmãos, andava muito com os rapazes. Era o que hoje se chama, e que eu odeio, uma maria-rapaz. Não é nada maria-rapaz. É uma rapariga que exige já da vida outra maneira de estar. Não são iguais aos rapazes, não achavam era justo ficar a bordar.
Também sentia mais afinidade com os rapazes?
Claro, eles têm esse espaço, esse álibi para fazer determinadas coisas. As filhas das amigas da minha mãe eram insuportáveis. Nada criativas, aborrecidas. As meninas na minha vida eram umas meninas pobres, ali em Benfica, que viviam em barracas. Apanhei piolhos diversas vezes. Ensinaram-me coisas fabulosas da vida. Devo-lhes imenso. Levava-as para casa, para grande escândalo dos meus pais.
Muito mais tarde tem uma afinidade histórica com as outras duas Marias.
Sim, muitíssimo mais tarde. Ao longo da vida fui tendo amigas e amigos, que é muito importante. Fui escolhendo as que tinham mais a ver comigo. Tinha várias amigas que não iam como eu, mas achavam graça, e pediam para contar o que lia. Li a biblioteca toda do meu pai às escondidas e passei a ler a biblioteca dos pais das minhas amigas.
Elas não liam?
Não, mas eram as que estavam mais perto de mim. Escutavam, tinham interesse. Depois encontrei mulheres muito interessantes. A Natália [Correia], a própria Fernanda Botelho. A Fiama [Hasse Pais Brandão] da Poesia 61, a Luísa Neto Jorge; mulheres fabulosas. Recordo-me muito da Fiama com grande saudade, foi a minha grande amiga. E muitos homens fabulosos. A geração do Urbano [Tavares Rodrigues], do David [Mourão-Ferreira], de uma generosidade e abertura. Não havia inveja.
Como é que estes homens vos viam?
Estes homens já eram especiais. Achavam muito curioso. Lembro-me do David e do Urbano me fazerem um encontro com a Natália, e estavam todos na expectativa do que ela diria sobre uma menina a entrar na escrita. Estavam convencidos que ia ser um despique. Lá me disse, sentada com uma grande boquilha: "Teresa, até que enfim há outra mulher arrebatada que escreve neste país!".
Nunca pensou ser outra coisa?
Não. Quando me perguntavam o que queria ser, e isso já era um avanço, eu dizia que queria escrever um livro. Sempre adorei jornalismo mas fiz primeiro ficção, nos cadernos do meu pai, que era médico. A poesia chega com a adolescência. Lia até não saber mais o que estava a ler. O Cesário, o Herculano, e as mulheres da escrita, que eram poucas.
Continuamos a ter poucas autoras?
Continuamos. A Virginia Woolf tem razão quando diz que a mulher para escrever tem que matar o anjo do lar. De vez em quando acho que não matei tanto quanto devia. O que me salva é ser poeta. Também não acredito nos autores que estão fechados em casa, despegados do mundo. Sempre adorei as redacções.
Sente saudades dos jornais?
Ai, muitas, muitas. Quando percebi que a Leonor não tinha fim, tive que deixar. Mas se os meus netos precisarem de mim, não há escrita não há nada. Quando o Luís esteve doente parei a Leonor durante um tempo. A poesia escreve-se em qualquer sítio e entrei com ele no hospital quando foi operado. E a poesia fi-la lá. Ficção tem outra exigência, mas por ele parei. Estou apaixonada pelos netos e por ele. Tinha mesmo que estar, que os homens dão muito trabalho.
Cortesia de i
Fernando Pessoa sonhou ser super-Camões
Fernando Pessoa sonhou ser super-Camões. Não o foi e se ele não o foi é porque essa empresa é impossível.
O mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”
“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que a minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!
Fernando Pessoa
Camões, diz Eduardo Lourenço, fez mais do que pintar-nos. Deu-nos o palco do mundo, celebrou nele a nossa aventura descobridora e simbólica em tais termos que não parece ter-nos deixado outra alternativa como entidade colectiva do que refazer sem fim a viagem do Gama ou ficar de braços cruzados na praia deserta do Restelo, a lamentarmo-nos do que fomos e já não somos, assistindo à aventura dos outros.
Foi o que Pessoa quis dizer, quando escreveu que depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia os portugueses ficaram sem emprego. Mas enganou-se. Quem nos desempregou não foram as Descobertas foi o cantor delas. Pessoa bem o sabia que teve de se empregar no desemprego.
Camões e o seu poema “Os Lusíadas” falam-nos da História de Portugal, Transformam factos históricos numa epopeia onde a História do nosso povo anda de mãos dadas com os desígnios e a vontade dos deuses.
O poema estrutura-se com base na viagem de Vasco da Gama. Viagem que une o Oriente ao Ocidente. Viagem que uniu mares e, assim, aproximou continentes, culturas e civilizações.
A descoberta da passagem do Cabo das Tormentas teve o poder histórico e simbólico de ousar confrontar o gigante Adamastor, de atrever-se a ir ver os segredos escondidos / Da natureza e do húmido elemento, / A nenhum grande humano concedidos / De nobre ou de imortal merecimento,...
“Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse (…) ?, pergunta o mostrengo, pela voz de Pessoa.
A “gente ousada” descobriu mundo. Alargou, geograficamente os domínios terrestres, roubando aos deuses o que antes estava sob a sua autoridade — Adamastor era “capitão do mar, por onde andava a armada de Neptuno”, o deus dos oceanos.
Da ocidental praia lusitana, barões ilustres, levaram a Terra até os céus. Ou, se preferirem, descobriram que os céus estavam aqui na Terra. No final da viagem que os levou à Índia, os marinheiros gozam do prazer físico em encontro amoroso com belas ninfas.
Na obra de Camões confluem e convivem homens e deuses, espaço conhecido e espaço mítico, factos históricos e destino cósmico.
E o poeta, relatando acontecimentos, transforma-os em mitos, em feitos que se fixam num tempo que ultrapassa o da História. Os feitos dos portugueses não ficaram ali, nos anos quatrocentos e quinhentos ou nos de toda a História que os precedeu, eles projectam-se constantemente no futuro.
Somos o que somos, porque fomos. Somos, não o que historicamente fomos, senão o que Camões quis que nós fôssemos.
Camões deu-nos o nosso bilhete de identidade e fez o nosso registo espiritual — deu-nos a alma, a alma que faz com que, cada um de nós, tal como o homem do leme, diga: “Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu.
Sabemos quem fomos, sabemos quem somos. Temos consciência da nossa identidade: somos portugueses.
No tempo, no passado, ficou o que já passou. O que passou no tempo de Camões, Os Lusíadas trouxeram-no para o futuro e chegou até nós em imagem de glória e fama, imagem de grandeza, que alimenta continuamente o nosso ser e faz com que continuemos a ser, tal como ele lembrava ao rei:
…
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pilouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo![4]
O poder desta alma, que o poeta nos deu, é a força de união entre todos nós portugueses, hoje e sempre, os que vivem na metrópole ou os que estão dispersos pelo mundo. Na Venezuela, como em Freixo-de-Espada-à-Cinta ou no Machico, somos portugueses. Somos portugueses e temos saudade. Saudade da nossa terra, uma saudade regionalista, mas uma saudade que alimenta o sentimento de um apego a uma tradição histórica, a um inconsciente colectivo, ao espírito de uma língua.
Armas e barões assinalados, da ocidental praia lusitana chegaram aos confins da África e dobraram o Cabo das Tormentas, fazendo dele o Cabo da Boa Esperança.
Unindo o Oceno Atlântico ao Índico, mudaram a face da Terra, mudaram a visão planetária do universo. Para nos darmos conta da importância deste feito, pensemos só o que seria do planeta hoje se, em vez de terem sido os portugueses a ir de cá para lá, a ir do ocidente até ao oriente, tivessem sido os chineses, por exemplo, a descobrir essa passagem.
Em 1420 os chineses chegaram a Quíloa, na costa oriental de África. Não foram mais longe. Coube ao povo luso a façanha histórica de levar a Europa para a Índia e para as longínquas terras da Ásia.
A partir de então, o Atlântico vai transformar-se no centro do planeta e a Europa, passará a ser o centro donde irradia civilização e cultura para todo o mundo. O mapa-mundo adquire uma forma nova: à direita, a Àsia e à esquerda, o Novo Mundo, a América. Ásia e América ficam relegados para os cantos, o centro é ocupado pelo Atlântico. Portugal ocupa um lugar central e, por ele e com ele, também a Europa.
Lisboa é a capital do Império. Um Império que difundiu fé e cultura.
Foi o povo luso quem produziu este mudança. Foi Camões quem a fixou na História e na memória. Ao transformar aqueles acontecimentos em mito, o poeta criou a nossa alma, a alma portuguesa.
Camões conheceu e viveu esta obra de Portugal, ele conheceu os novos mundos que Portugal deu ao mundo, mas viu e sentiu o processo histórico de dissolução que já estava em marcha. Nele há ainda, no entanto, memória e esperança, memória do que viu e conheceu e esperança de que esse império possa regressar ao seu período de auge.
Ele, que foi o criador do mito, vive ainda a realidade de uma fé que crê que Portugal pode tornar a ser Portugal, ou seja a nação que fez os feitos que ele narra.
Fernando Pessoa, na “Mensagem” fala-nos também de Portugal e do seu Império. Fá-lo, séculos mais tarde numa época em que a dissolução do Império já é uma realidade. Em Pessoa, existe a memória de uma imagem de Portugal: a imagem mítica que Camões soube criar. Pessoa faz reviver a alma da nação portuguesa, crê nela e espera o aparecimento de um Supra-Camões, capaz de dar ânimo e alento a essa alma.
O que em Camões era esperança de reconstrução, de ressurgimento do prestígio imperial, em Pessoa assume a forma de sonho, de utopia.
Pessoa, decepcionado com a realidade histórica, mas acreditando numa “Nova Renascença”, alimenta a utopia. Utopia de um império: um império de cultura.
Camões realça a aventura, o risco: a viagem. Para Pessoa a viagem será uma viagem sem limites geográficos, antes uma aventura de espírito. O império de “Os Lusíadas” é um império territorial, o império de “Mensagem” é o império da língua portuguesa.
Em “Os Lusíadas” glorifica-se o passado, enquanto que na “Mensagem” se glorifica o futuro.
Tal como já fizemos o passado, façamos também agora o futuro.
Tinha razão Fernando Pessoa quando dizia “A minha pátria é a língua portuguesa”. A Pátria está na língua, porque ela é o veículo que nos leva aos valores que se identificam com ela, os valores que nos fizeram a nós, povo português.
O carpinteiro precisa da serra para das árvores fazer móveis, o ferreiro precisa da forja. Nós precisamos da língua. Com ela, queremos fazer móveis e queremos moldar o ferro. Queremos continuar a ser — que os nossos filhos continuem a ser — “o homem português”, esse homem que teve de descobrir o caminho marítimo para a Índia e o caminho marítimo ou aéreo para a Venezuela, por exemplo.
Se perdermos a nossa língua, ficamos como o carpinteiro que perde a sua serra ou o ferreiro que perde a sua forja. Deixamos de fazer móveis. Deixamos de moldar o ferro.
Com a língua de Camões sejamos obreiros da construção do futuro.
No tempo do poeta, levámos as caravelas e as naus até à longínquea China e Japão, até às Américas. Infelizmente, lá dentro foi a Europa do poder militar e político.
Continuemos esta obra, mas levando agora cultura, vida.
Amigos, tal como o poeta, digo:
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor falta cumprir-se Portugal!
Por Francisco Nuno Ramos
São épicos de loucura
São épicos de loucura
Ilustrados com a mão suprema
Dum dedicado servo da noite
Que fugiu amarrado de nascimento
Do sono delicioso e florescente
De pedras inexauríveis que residem
Infames na chuva brilhante do crepúsculo.
Filipe de Fiúza
Ilustrados com a mão suprema
Dum dedicado servo da noite
Que fugiu amarrado de nascimento
Do sono delicioso e florescente
De pedras inexauríveis que residem
Infames na chuva brilhante do crepúsculo.
Filipe de Fiúza
Poesia invade as ruas de Cacela Velha

Cacela Velha, aldeia umbilicalmente apegada à poesia, será mais uma vez o epicentro da poesia, na próxima sexta-feira e sábado.
A aldeia algarvia, Concelho de Vila Real de Santo António, desde cedo se assumiu como um recanto para artistas, particularmente poetas. Poetas e apreciadores de poesia será certamente o que não faltará em Cacela Velha, em mais uma edição de “Poesia na Rua”.
Partindo da herança poética de Ibn Darraj al-Qastalli, lá nascido, e de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Abû al-‘Abdarî, Teresa Rita Lopes, Adolfo C. Gago, nomes que em Cacela Velha viveram ou sobre ela escreveram, o evento reitera - pelo segundo ano consecutivo - ser um verdadeiro momento cultural em volta das palavras. Leituras, conversas, apresentações de livros, ilustração de poemas – para os mais novos – são algumas das actividades previstas para a festividade.
Porém, nem só de poesia se fará esta celebração, que promete também presentear os visitantes com música. Guta Naki (sexta-feira, 22h30) e Noiserv (sábado, 23h00) são os músicos convidados a subir ao palco.
Cortesia de O Público
A aldeia algarvia, Concelho de Vila Real de Santo António, desde cedo se assumiu como um recanto para artistas, particularmente poetas. Poetas e apreciadores de poesia será certamente o que não faltará em Cacela Velha, em mais uma edição de “Poesia na Rua”.
Partindo da herança poética de Ibn Darraj al-Qastalli, lá nascido, e de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Abû al-‘Abdarî, Teresa Rita Lopes, Adolfo C. Gago, nomes que em Cacela Velha viveram ou sobre ela escreveram, o evento reitera - pelo segundo ano consecutivo - ser um verdadeiro momento cultural em volta das palavras. Leituras, conversas, apresentações de livros, ilustração de poemas – para os mais novos – são algumas das actividades previstas para a festividade.
Porém, nem só de poesia se fará esta celebração, que promete também presentear os visitantes com música. Guta Naki (sexta-feira, 22h30) e Noiserv (sábado, 23h00) são os músicos convidados a subir ao palco.
Cortesia de O Público
Na cólica do silêncio
Como gaivotas na margem entre sussurros roubados do mar e à distância de todos os pedaços de ti, a escalada do silêncio, o calado que ainda me faz sentir, porque dizias sonhos deliciosos. Procurando um mar que me chegue fico aqui…
Quando o dia for o seguinte, ah… quando os espasmos das gaivotas souberem… quando o mar perguntar por mim, diz-lhe que amanhã, quando as horas rasgarem o bastante de calor, e eu souber a cor mais colorida do desejo, há-de soprar um vento lento nos teus cabelos… diz-lhe pois que gravarei poemas nas tuas costas, às costas e às custas de uma cólica de silêncio, diz-lhe sobretudo que nunca digo o que quero dizer, que se chegares a areia circulará numa espiral lisa e sem rugas, num arabesco lento de vento, diz-lhe…
Conta-lhe que as nuvens imitam o sobrevoar das malucas gaivotas… e que eu talvez lhe fale qualquer coisa ainda por descobrir, que nem eu mesma sequer sei. Ele há-de gostar de saber…
Diz-lhe também como as ondas são impunes e como desaguam nas margens muitas vezes, quase sempre, sempre… numa cólica de silêncio.
Diz-lhe sobretudo que fico aqui…
Isabel Valentino
Poetas do Mundo - Ana Cristina César
POEMAS
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
m Beijo
Um beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
Fisionomia
Não é mentira
é outra
a dor que doi
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói
Dias Não Menos Dias
Chora-se com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde
e a tarde
pendurada no raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima
Flores do Mais
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
os restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Fagulha
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
PEQUENA BIOGRAFIA
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
m Beijo
Um beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
Fisionomia
Não é mentira
é outra
a dor que doi
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói
Dias Não Menos Dias
Chora-se com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde
e a tarde
pendurada no raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima
Flores do Mais
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
os restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Fagulha
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
PEQUENA BIOGRAFIA
Ana Cristina César, nasceu em 1952, no Rio de Janeiro. Em 1968, fez as suas primeiras viagens pelo mundo e viveu, durante um ano, em Londres. Quando voltou deu aulas, traduziu, fez letras e escreveu para revistas e jornais alternativos. Em 1976, integrou a célebre antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque. Fez pesquisas sobre literatura e cinema. Concluíu o mestrado em comunicação e lançou os seus primeiros livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, voltou a Inglaterra. Em 1980, recebeu o título de Masters of Arts em Theory and Practice of Literary Translation pela Universidade de Essex. Durante a sua estadia em Inglaterra escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Após regressar ao Brasil, trabalhou em jornalismo e televisão. Viu o melhor da sua obra publicada no livro A Teus Pés, pela editora Brasiliense (1982). Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. Foram publicados três obras póstumas: Inéditos e Dispersos (1985), Escritos da Inglaterra (1988) e Escritos no Rio (1993). Em Portugal, em Novembro de 2005, as edições quasi, publicaram Um Beijo que Tivesse um Blue - uma antologia seleccionada e prefaciada por Joana Matos Frias.
Cortesia de Um Buraco na Sombra
Outra história
Tudo aconteceu. Alheio a qualquer batalha, a paisagem é este pátio retangular, muros de pedra e hera, nesgas de céu entre árvores copadas. Daqui a pouco, o ondear de vozes, restos de frases.
Alguém tosse dando aviso de mão. Quer falar e já não mais. Eu sou o repositório de gestos, olhares fixos, solidões. Rostos e nomes que se diluem e fogem antes de resgatados: um exercício de cansaço.
Às vezes, a sensação de vagar em dois mundos. A hora da partida. A hora da chegada. E agora, ainda agora. Como nunca antes nada.
Ernane Catroli
Entrevista com Manuel António Pina, Prémio Camões 2011
O escritor e cronista Manuel António Pina foi recentemente distinguido com o Prémio Camões 2011. A decisão do júri foi unânime e rápida. Em apenas 30 minutos foi encontrado o nome que sucede a Ferreira Gullar. Leia aqui a última entrevista ao JL, publicado no n.º 1035, de 2 de Junho de 2010.
Nem uma palavra sobre gatos e ele vive com de uma dúzia em casa, o que desata a curiosidade de qualquer mortal. Tanto mais que os gatos também passam pelas suas conversas como por brasas e por mais do que um poema, atentos à escrita, por dentro dela. Mas a sua literatura está longe de ser um saco de gatos. Daí a inesperada gratidão: "Tenho que agradecer não me terem perguntado nada sobre gatos", diz com o seu quê de habitual doce ironia, estafado da insistência no pormenor da gataria, não dos gatos, evidentemente.
Também nem um assomo das histórias primordiais, do pânico de criança, amarrado à cadeira a comer a papa, enquanto a casa ardia, das constantes mudanças de morada e de amigos, por força do ofício do pai, secretário de Finanças, ou das lembranças do Sabugal, onde nasceu, em 1943, Nem sequer uma alusão à trovoada que fez desabar-lhe a escrita, o milagre das rosas e dos versos contra o medo. Tão-pouco a mítica referência de Winnie the Pooh, que nunca abandonou, a alma de jogador, da sueca ao póquer, noites dentro até ao almoço do dia seguinte, o inabalável coração de 'leão', a proximidade do budismo Zen, do xintoísmo, o cinturão de mestre em artes marciais, ou a inclinação para a hipocondria.
De tudo isso reza a crónica da sua vida, mas queríamos sobretudo tratar da arte do cronista talvez também ciência, agora que Manuel António Pina junta num novo livro uma centena e meia de crónicas.
Por outras palavras & mais crónicas de jornal, uma antologia organizada por António Sousa Dias, reúne sobretudo uma selecção das que tem escrito, cinco dias por semana, desde 2005, para o Jornal de Notícias, justamente chamada Por outras palavras, mas também noutras publicações, com destaque para a Visão.
A crónica será um 'lugar estranho', a "meio caminho" entre o jornalismo e a Literatura.
Um percurso natural, já que Pina é jornalista, 40 anos no batente, no JN, onde entrou como estagiário, enquanto estava na tropa, e saiu como chefe de redacção. E também poeta Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma é apenas um pouco tarde, Aquele que vai morrer, O caminho para casa, Cuidados Intensivos, Atropelamento e fuga e Os livros são alguns dos seus títulos, autor teatral e da dita literatura infanto-juvenil.
E podem separar-se as palavras como as águas? Não é primeira vez que publica um volume de crónicas. O primeiro, O anacronista saiu em 1994 e sobre a cidade onde vive desde os 17 anos, Porto modo de dizer, em 2002. E muitos mais poderia publicar, tantos milhares as que escreveu.
De tal modo que já interiorizou a medida, mil e cem caracteres, com algum eventual "bónus" muito regateado. A da última sexta-feira, 28, chamava-se A hipótese marciana, irresistível, mordaz, bem apontada à ordem do dia.
Outras são mais desprendidas da realidade política e social, do quotidiano.
Todas devedoras da mesma arte, que o digam os fiéis leitores dessas palavras que alinha dias úteis a fio, disciplinadamente. Uma "servidão", diz ele ao JL, numa entrevista feita (por razões pessoais suas) em diálogo por e-mail. Mas se também é rigorosa a sua disciplina poética, servo é, por certo do fazer do verso, das palavras com que interroga o mundo e a própria poesia.
Caso único, tão bem serve Manuel António Pina a dois amos.
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JL: Soube-se recentemente que tinha sido criada a primeira célula que pode chamar pai a um computador. E o cientista introduziu no programa frases de Joyce que de alguma maneira se inscreveram no adn dessa célula artificial: Esta é a crónica do tempo ou a crónica da criação literária?
Manuel António Pina: Da criação literária, só se for da de Joyce.
Mesmo sendo o ADN memória e embora a memória (incluindo a da literatura) constitua a matériaprima fundamental da literatura, a criação literária implica mais que matéria-prima, implica mão-deobra, trabalho, isto é, "fazer" (poiesis).
Curiosamente chama-se por vezes 'literatura' às 'bulas' dos remédios e aos tratados médicos. E há quem fale de uma ligação entre a ciência e a cultura ou mesmo a literatura. Interessam-lhe essas possibilidades do ponto de vista da poesia? E como cronista?
Sim, interessam (mais decerto na poesia do que nas crónicas). A poesia e a ciência partilham, interrogando o real interrogandose ao mesmo tempo a si mesmas, uma fronteira não raro difusa.
Por outro lado, a poesia é, como a ciência, uma prática artesanal, algo feito do próprio fazer. Hoje, quando já não há ninfas nos regatos, as ciências, principalmente as do infinitamente grande, como a astronomia, e as do infinitamente pequeno, como a física das partículas, ou como ainda, a vários títulos, também a biologia e a química, ou mesmo a neurologia, têm não só uma natureza, como dizer?, "poética" (não encontro agora palavra melhor) como, exprimindo-se fora da linguagem matemática, se socorrem às vezes de uma linguagem próxima da da poesia.
Como?
Diz Álvaro de Campos que "o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo"; mas também Stephen Weinberg (um Nobel da Física) fala igualmente de beleza (e de verdade) quando explica o seu deslumbramento com a hipótese de Witten de teoria unificada, a Teoria-M: "Quando Edward Witten a expôs, pensei: 'É tão bela que tem que ser verdadeira!'" Invertendo Novalis, talvez seja possível dizer hoje a propósito de muito do conhecimento científico que "quanto mais verdadeiro, mais poético".
Como poderíamos fazer o genoma de uma escrita como a sua, que é poesia, crónica, ficção e teatro? É uma sequência ou várias ramificações?
Postas assim as alternativas, escolho "ramificações". Embora a crónica não se adapte bem ao conceito de "ramificação" pois, pelo menos do modo especificamente jornalístico como eu a pratico, é de natureza diferente da literatura, mesmo que possa às vezes ter pontos de contacto com ela e ser, como ela, "abandono vigiado" (a expressão é de Alexandre O'Neill).
E não será apenas literatura "por outras palavras"?
Literatura não é certamente, embora eu não esteja certo do que seja ou não a literatura. Algumas vezes será, no máximo, jornalismo com saudades da literatura, ou literatura com remorsos de ser jornalismo.
ARTE EFÉMERA
Há uma arte da crónica?
Há. Em alguns casos, uma arte maior. Mas é sempre (repito: do modo como eu a pratico) uma arte efémera e voraz, prisioneira do tempo e das circunstâncias.
Por isso tenho oferecido resistência a propostas para publicar as minhas crónicas em volume, despojadas das suas circunstâncias (incluindo os constrangimentos concretos de escrita). Sinto uma espécie de culpa ao fazê-lo, como se cometesse uma traição.
Porquê?
Porque não são já crónicas, são anacrónicas (o meu primeiro livro de crónicas chama-se justamente O anacronista).
Havia um velho tipógrafo no Jornal de Notícias que se impacientava com o meu cuidado e preocupação com títulos e textos (eu era então responsável pelo fecho do jornal), dizendo-me que os jornais, no dia seguinte, só servem para embrulhar peixe. Mas não é o destino de tudo no dia seguinte, do jornalismo como da literatura, embrulhar peixe?
Uma crónica pode sempre acontecer, mesmo quando não ocorrem nem romances, nem versos?
Não é uma questão de poder ou não acontecer. Para quem, como eu, assumiu profissionalmente o compromisso de escrever uma todos os dias, tem que acontecer.
E isso não é constrangedor? Como consegue evitar a 'mecanização' ou a rotina do cronista?
Tenho um truque (uma espécie de ostinato rigore que provavelmente nem sempre funciona): não ceder ao previsível, tentar fazer de cada vez o máximo de que sou capaz é o mínimo que procuro exigir-me.
Nunca lhe ocorrem crónicas independentemente do compromisso, de 'geração espontânea'?
Raramente, e só aos fins-de-semana, quando não tenho crónica para escrever...
As suas crónicas ocupam-se mais da realidade ou estão mais perto do real do que os seus poemas? Ou falamos de duas realidades?
Na verdade, falamos de muitas e incoincidentes realidades. Parafraseando Mário de Sá-Carneiro, "é no real que ondeia tudo! É lá que tudo existe!"
O que o faz escrever uma crónica?
O que me faz escrever crónicas é, principalmente, como já deixei dito, a obrigação de as fazer, pois é assim que ganho a vida. Tratase de uma servidão, mas não é a própria vida uma servidão?
REGATEAR COM AS PALAVRAS
Mas como escolhe o assunto?
Como as faço? Sento-me diante do computador à procura, em jornais, em blogues, sei lá onde mais, de "assunto" (de uma faúlha capaz de incendiar ou, ao menos, chamuscar a vontade de escrever a propósito ou a despropósito) com a dead line à perna e confio-me ao improvável deus dos cronistas sabendo que, às 23 horas, aconteça o que acontecer, tenho que ter o morto feito à medida exacta do caixão dos 1100 caracteres, mais um título de duas linhas com o limite de 13 caracteres cada (regateando com os gráficos se, por exemplo, a linha calha de ter vários ii, que são caracteres um pouco mais estreitos que os demais consigo às vezes um bónus de um ou dois caracteres).
Costuma escrever a mais?
Entretanto, ao longo destes anos, interiorizei o ritmo e as crónicas já me saem quase sempre na medida mais ou menos certa; depois é só regatear com as próprias palavras.
Há sempre uma intencionalidade numa crónica? Por exemplo, de intervenção política, social ou cultural? E de cidadania?
O facto de ter que escrever todos os dias, quase sempre em cima do dead line, faz com que muitas das minhas crónicas tratem matérias políticas ou sociais, que são as que estão mais à mão. Não me move, no entanto, qualquer, como diz, "intencionalidade" de intervenção, política ou outra. Limito-me a reflectir (cepticamente a maior parte das vezes) em voz por assim dizer alta. Não tenho nada para vender a ninguém.
Não se considera portanto um opinion maker?
Valha-me Deus, não.
As suas crónicas situam-se mais no território do presente, enquanto os poemas remetem para a memória?
O presente é também construção, memória. A diferença fundamental entre uma coisa e outra é, acho eu, de natureza.
QUERO LÁ SABER DO FUTURO
Em que sentido?
Na crónica, a palavra é predominantemente instrumental de uma intenção de comunicação; na poesia, a intenção, se é possível falar de intenção, é a própria palavra, o seu "fazer" e, principalmente, o seu "fazer-se".
Poderíamos antes falar de inquietação? Com que palavras podemos dizer o fazer da poesia? Também há uma disciplina do poeta?
Sim, há uma disciplina. Rimbaud fala de "liberdade livre", mas a liberdade que existe na poesia é fundamentalmente a de escolher as suas próprias servidões. É essa escolha que faz que, mesmo na poesia metrificada e mesmo em formas canónicas como o soneto, os grandes poetas sejam tão diferentes uns dos outros.
Escreve crónicas para "memória futura" ou esse é o alcance da poesia?
Para "memória presente", as crónicas como a poesia. Quero lá saber do futuro!
Não gosta de falar da poesia que escreve, porquê?
Costumo furtar-me a perguntas dessas com uma resposta equívoca, mas nem por isso menos verdadeira: a minha poesia é tudo o que tenho a dizer sobre ela.
Com as crónicas é diferente?
Sim, com as crónicas é diferente. Falo delas sem constrangimento. Talvez porque tudo, nelas, seja mais óbvio, pelo menos para mim.
Disse um dia que talvez escrevesse para não ter medo: continua a ser assim?
Já o disse várias vezes e, por isso, deve ser verdade, como diria o Homem do Sino de A caça ao Snark, embora agora me pareça que deveria antes ter dito "por ter medo".
E isso aplica-se também às crónicas?
As crónicas não, as crónicas escrevo-as comezinhamente para ganhar a vida, já que ninguém a ganha por mim.
Lembra-se como começou a escrever crónicas? De que se ocupava na primeira?
Por acaso lembro-me dessa primeira crónica. Foi publicada no JN, pouco depois de ter chegado ao jornal, em 1971. Falava de um homem que vira adormecer de cansaço numa fila de espera do autocarro na Avenida dos Aliados, e da impaciência dos outros passageiros quando o autocarro chegou e ele não se mexeu. Havia nessa crónica uma frase que causou engulhos ao então director do jornal.
Qual?
"Ordem e tudo no seu lugar, como dizem os bem instalados".
Depois de esclarecido sobre a inocência da frase, o director disseme: "Olhe, talvez isso não queira de facto dizer nada, mas estou certo de que há por aqui alguma sacanice. Diga-me onde está para que a corte já, sem ser obrigado a ler tudo..." A partir da crónica da semana seguinte comecei, por isso, a meter duas 'sacanices', uma para ser cortada (o director não acreditava que as minhas crónicas dessem ponto sem nó, e temia naturalmente a intervenção da Censura) e outra para lá ficar...
Tem uma ideia de quantas já escreveu?
Já devo ter escrito uns bons milhares (que diabo, sou jornalista vai para 40 anos e sempre escrevi crónicas, primeiro semanalmente, agora diariamente e quinzenalmente).
Recorda alguma em particular?
Assim de repente, lembro-me dessa primeira de que antes falei e de uma ou outra a propósito da morte de amigos.
E de outros cronistas? Tem referências?
As minhas referências mais antigas de cronistas são talvez Rubem Braga, que lia nas páginas do Cruzeiro, e Carlos Drummond de Andrade. E, mais tarde, Fernando Assis Pacheco e Pedro Alvim nas páginas do Diário de Lisboa. Mais recentemente, Rui Cardoso Martins e o excelente Levante-se o réu, no Público.
Já recebeu vários prémios como cronista e publicou outros livros de crónicas. O que quis juntar no corpo deste novo volume?
O presente volume de crónicas nasceu da persistência do editor José da Cruz Santos, que há anos vinha insistindo comigo para que publicasse uma antologia. E da disponibilidade e generosidade de Sousa Dias, que se encarregou da selecção, entre quase três mil, de duas centenas e meia delas.
Foi Sousa Dias quem escolheu (recolhendo mesmo muitas que entretanto eu havia perdido) as que deveriam ser incluídas na antologia, quem as organizou tematicamente, quem as reviu.
Gabo-lhe a paciência, porque eu seria incapaz de fazê-lo.
Se as crónicas são de minha autoria, o autor do livro é, de facto, ele.
ÚLTIMOS POEMAS
O seu primeiro livro de crónicas, a que já se referiu, tinha um título fabuloso, O anacronista. Neste caso, optou por um título que repete o nome da sua crónica diária. Porquê?
Por razões comerciais, e porque muitos leitores do JN se me vinham dirigindo sugerindo a publicação das crónicas em volume (guardo a carta de um que me dizia que esse seria um livro que gostaria de poder deixar ao neto; o primeiro exemplar que eu receba há-de ser para lhe mandar), o título repete o das crónicas diárias que há cinco anos escrevo no JN: "Por outras palavras", e acrescentado, porque há também no volume textos saídos em outras publicações, de "& mais crónicas de jornal".
A literatura para os mais novos é outra vertente da sua escrita: Tem um modo próprio?
Claro que tenho (e como não teria?), mesmo que, frequentemente, seja um modo por assim dizer impróprio, já que não falta quem diga (gente que acha que a literatura é "para") que "isto não é para crianças".
Tem um novo livro de poemas quase pronto? O que tem escrito?
Quando, há pouco mais de um mês, entrei num hospital para ser operado a um aneurisma na aorta, deixei-o pronto, com título e tudo (Últimos Poemas), para a viúva publicar se quisesse. Como aparentemente sobrevivi, deixou de estar pw
A experiência da doença, dos últimos tempos, tem marcado a sua escrita?
Provavelmente terá (que sei eu?) marcado, embora a percepção disso não seja fácil.
O facto de ter chamado a esse livro, ainda não editado, Últimos Poemas implica a ideia de fim, de medo da morte?
Toda a poesia, e provavelmente toda a arte, toda a filosofia, todas as religiões, são, acho eu, movidas pelas perguntas fundamentais: "De onde vimos?" "Para onde vamos?" E, já agora, também pelo "Quem somos?". Isto é, pelo medo. "Riste porque tens medo", escreve Bataille. Poder-se-ia acrescentarse: escreves, ou tens fé, porque tens medo. Acho que é Borges quem diz que os temas de toda a literatura se podem reduzir a dois, o amor e a morte. O amor, através do sexo, está ligado ao abismo da origem do ser; a morte ao do seu desaparecimento.
É natural que os homens, perante tais abismos, se interroguem e, porque não encontram respostas, tenham medo. Talvez por isso a generalidade das religiões inclua uma cosmogonia e, simultaneamente, concebam um destino: para responder ao medo.
Como sente as várias homenagens que lhe estão a prestar? Ainda sem saber o que fazer?
E sem saber o que dizer. Há muita generosidade, mas também muita imprudência, em tudo isso. Eu, que me conheço, é que sei.
Este é mais um tempo de cronistas ou de poetas?
Estes são (todos são) "tempos de indigência" e, como Drummond diria, d s a cronistas. Nenhum tempo é apropriado à poesia.
Cortesia de Jornal de Letras, Artes e Ideias
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Encerrou a última fábrica de máquinas de escrever do mundo
Os anos 1950 fizeram da máquina de escrever um símbolo da independência na Índia, onde estes ruidosos instrumentos continuaram a ser produzidos até aos dias de hoje. Mas esta história de resistência chegou ao fim: a última fábrica que continuava a fazê-las chegar ao mercado capitulou face à supremacia dos computadores.
A Godrej & Boyce, a multinacional com sede em Bombaim que ainda apostava na produção de máquinas de escrever, decidiu pôr um ponto final numa cronologia com quase século e meio (a primeira máquina de escrever comercial foi fabricada em 1867, nos Estados Unidos), aceitando finalmente a obsolescência deste instrumento de trabalho.
A última década foi fatal para a máquina de escrever. Nos anos 1990, já a época dourada no Ocidente tinha acabado, a Godrej & Boyce conseguia vender cerca de 50 mil máquinas anualmente. No entanto, o declínio progressivo das vendas culminou com um mínimo histórico no ano passado: saíram menos de 800.
“No início dos anos 2000, os computadores passaram a dominar. Todos os fabricantes de máquinas de escrever de escritório pararam a produção, excepto nós”, observou o director executivo da empresa, Millind Dukle, ao diário indiano Business Standard. E eles resistiram até agora, Abril de 2011.
“Não estamos a receber muitas encomendas. Até 2009, costumávamos produzir 10 a 12 mil máquinas por ano”, contabilizou Dukle. Na despedida, sobram as duas centenas que ainda se encontram em armazém, a maioria das quais em árabe. “Esta pode ser a última oportunidade para os amantes da máquina de escrever”, sublinhou o responsável.
As máquinas vão passar definitivamente para os antiquários e museus, aonde chegaram anos antes do fim de linha. Desde logo, nos dedicados a alguns dos escritores mais relevantes do século passado: Faulkner, Hemingway, Burroughs, Kerouac. Este último, por exemplo, escreveu Pela Estrada Fora num único rolo de papel, para não ter que trocar as folhas da máquina e interromper a narrativa.
As histórias são muitas, os nomes reconhecíveis também – ainda hoje Cormac McCarthy escreve à máquina. Contudo, a história deste instrumento, que começou a ser desenvolvido no início do século XVIII, não se reduz a notáveis. Os escritórios eram o território natural das máquinas de escrever, que desempenhavam o actual papel quotidiano dos computadores: banais e indispensáveis.
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