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Poetas do Mundo - Ana Cristina César

POEMAS

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor

m Beijo

Um beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor



Fisionomia
Não é mentira
é outra
a dor que doi
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói



Dias Não Menos Dias

Chora-se com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde

e a tarde
pendurada no raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima



Flores do Mais

devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais



Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
os restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.



Fagulha

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

PEQUENA BIOGRAFIA

Ana Cristina César, nasceu em 1952, no Rio de Janeiro. Em 1968, fez as suas primeiras viagens pelo mundo e viveu, durante um ano, em Londres. Quando voltou deu aulas, traduziu, fez letras e escreveu para revistas e jornais alternativos. Em 1976, integrou a célebre antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque. Fez pesquisas sobre literatura e cinema. Concluíu o mestrado em comunicação e lançou os seus primeiros livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, voltou a Inglaterra. Em 1980, recebeu o título de Masters of Arts em Theory and Practice of Literary Translation pela Universidade de Essex. Durante a sua estadia em Inglaterra escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Após regressar ao Brasil, trabalhou em jornalismo e televisão. Viu o melhor da sua obra publicada no livro A Teus Pés, pela editora Brasiliense (1982). Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. Foram publicados três obras póstumas: Inéditos e Dispersos (1985), Escritos da Inglaterra (1988) e Escritos no Rio (1993). Em Portugal, em Novembro de 2005, as edições quasi, publicaram Um Beijo que Tivesse um Blue - uma antologia seleccionada e prefaciada por Joana Matos Frias.

Poetas do Mundo - Charles Cros

POEMAS

Le Hareng Saur

Era um grande muro branco - nu, nu, nu,
Posta no muro uma escada - alta, alta, alta,
No chão, um arenque fumado - seco, seco, seco.

Ele chega, trazendo nas mãos - porcas, porcas, porcas,
Um martelo pesado, um prego - bicudo, bicudo, bicudo,
Um novelo de fio - grosso, grosso, grosso.

Subindo então à escada - alta, alta, alta,
Espeta o prego bicudo - toque, toque, toque,
Ao alto do muro branco - nu, nu, nu.

Deixa fugir o martelo - que cai, que cai, que cai,
ao prego amarra a corda - longa, longa, longa,
E à ponta o arenque fumado - seco, seco, seco.

Volta a descer a escada - alta, alta, alta,
Leva-a, e ao martelo - pesado, pesado, pesado,
E lá se afasta para - longe, longe, longe.

Então o arenque fumado - seco, seco, seco,
Na ponta da corda - longa, longa, longa,
Balança devagarinho - sempre, sempre, sempre.

E eu inventei esta história - banal, banal, banal,
Para enfurecer as pessoas - graves, graves, graves,
E divertir as criancinhas - pequenas, pequenas, pequenas.


Réponse

Ce que je te suis te donne du doute ?
Ma vie est à toi, si tu la veux, toute.
Et loin que je sois maître de tes voeux,
C'est toi qui conduis mon rêve où tu veux

Avec la beauté du ciel, en toi vibre
Un rhythme fatal ; car mon âme libre
Passe de la joie aux âpres soucis
Selon que le veut l'arc de tes sourcils.

Que j'aye ton coeur ou que tu me l'ôtes,
Je te bénirai dans des rimes hautes,
Je me souviendrai qu'un jour je te plus
Et que je n'ai rien à vouloir de plus.



Moi, je vis la vie à côté

Moi, je vis la vie à côté,
Pleurant alors que c'est la fête.
Les gens disent : Comme il est bête!
En somme, je suis mal coté.
J'allume du feu dans l'été,
Dans l'usine je suis poète ;
Pour les pitres je fais la quête.
Qu'importe ! J'aime la beauté.

Beauté des pays et des femmes,
Beauté des vers, beauté des flammes,
Beauté du bien, beauté du mal.

J'ai trop étudié les choses ;
Le temps marche d'un pas normal;
Des roses, des roses, des roses !

PEQUENA BIOGRAFIA

Charles Cros, poeta e cientista francês, nasceu em Fabrezan no dia 1 de Outubro de 1842. Poeta de um humor e de uma ironia incomparáveis, foi também um inventor de méritos reconhecidos. Desenvolveu alguns métodos de fotografia, aperfeiçoou a tecnologia telegráfica e esteve perto de ficar para a história como o inventor do fonógrafo. Cros faleceu em Paris, no ano de 1888, onde levou uma vida de boémia relacionando-se com outros poetas como, por exemplo, Verlaine. Publicou os seus primeiros poemas em 1869 na revista L'Artiste. Foi, entre outras coisas, redactor e editor de La Revue du monde nouveau. À altura da sua morte, grande parte da sua obra estada inédita. Só mais tarde, Robert Desnos e Aragon lhe renderam homenagem. Assim como Breton, que o incluiu na sua Antologia do Humor Negro.

Poetas do Mundo - Alejandra Pizarnik

POEMAS

Conto de Inverno

A luz do vento entre os pinheiros, - compreendo
estes sinais de tristeza incandescente?

Um enforcado balança-se na árvore marcada com a cruz lilás.

Até que conseguiu deslizar fora do meu sonho e
entrar no meu quarto pela janela, com a cumplicidade
do vento da meia noite.


Não, as palavras não fazem amor

Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?

Infância

Hora em que a erva cresce
na memoria do cavalo.
O vento pronuncia discursos ingénuos
em honra dos lilazes,
e alguém entra na morte
com os olhos abertos
como Alice no país do já visto.


Caminhos do Espelho

I

E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.

II

Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.

III

Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.

IV

Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V

Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.

VI

Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.

VII

A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.

VIII

E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.

IX

Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.

X

Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI

Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII

Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII

Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem.
E o que desejava eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.

XIV

A noite parece um grito de lobo.

XV

Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.

XVI

A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.

XVII

Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.

XVIII

Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX

Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz.


A Jaula

Lá fora há sol.
Não é mais que um sol
porém os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Eu sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até de manhã
quando a morte pousa nua
na minha sombra.

Eu choro debaixo do meu nome.
Eu agito lenços na noite e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Eu oculto cravos
para escarnecer dos meus sonhos enfermos.

Lá fora há sol.
Eu visto-me de cinzas.

PEQUENA BIOGRAFIA

Alejandra Pizarnik nasceu em Buenos Aires, a 29 de Abril de 1936. A sua família era de origem judaica russa. Estudou filosofia e letras na Universidade de Buenos Aires e posteriormente pintura com Juan Batlle Planas. De 1960 a 1964, viveu em Paris onde estudou história da religião e literatura francesa na Sorbonne. Publicou poemas e críticas em vários jornais franceses. Traduziu Antonin Artaud, Henri Michaux, Margueritte Duras e Yves Bonnefoy. As suas principais obras de poesia são Los trabajos y las noches, Extracción de la piedra de locura, El infierno musical, La Última Inocência. Suicidou-se no dia 25 de Setembro de 1972, durante um fim-de-semana que passou fora da clínica psiquiátrica onde estava internada. Textos de Sombra y Últimos Poemas foi publicado em 1982. Em Portugal, a editora Correio dos navios, publicou Antologia Poética, edição bilingue em 2002.

Poetas do Mundo - Robert Walser

POEMAS

Para Quê?

Quando de repente o dia voltou
tão puro,
falou lentamente e com firmeza,
branda e sinceramente:
alguma coisa deve mudar,
entro na luta,
eu também quero ajudar, como tantos outros,
a erradicar o mal do mundo,
quero sofrer e vaguear
até que o povo se liberte.
Não quero voltar a declinar, cansado;
alguma coisa tem que
acontecer. Mas nesse momento apoderou-se dele uma vaga sensação,
um torpor: oh, deixemos isso agora!


No Escritório

A lua observa-nos do lado de fora,
e repara em mim, pobre empregado,
a desfalecer sob o olhar implacável
do chefe.
Atrapalhado, coço o pescoço.
Nunca conheci um sol perdurável
em toda a minha vida.
A privação é a minha sina:
coçar o pescoço
sob o olhar do chefe.

A lua é a ferida da noite
e todas as estrelas são gotas de sangue.
A felicidade permanece muito longe de mim,
por isso a minha natureza é modesta.
A lua é a ferida da noite.

Estrela D'Alva

Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.

As Àrvores

Eles não deviam cerrar os punhos
é o meu desejo que se aproxima;
não deviam enfurecer-se assim,
é o meu desejo que se aproxima timidamente;
não deviam preparar-se para atacar como cães raivosos,
como se quisessem esquartejar o meu desejo;
não deviam ameaçar assim com as patas traseiras,
tudo isso faz mal ao meu desejo.
Porque se transformaram tão de repente?
O meu desejo também é grande e profundo.
Mesmo sendo tão difícil e tão perigoso:
devo caminhar até eles, pronto, já lá estou.

PEQUENA BIOGRAFIA

Robert Walser nasceu em Biel, na Suiça, em 1878. Depois de abandonar a escola, aos 14 anos, trabalhou como empregado de escritorio ao mesmo tempo que escrevia poesia. Em 1898 foi viver com o imão mais velho, em Berlim. Levou uma vida errante e precária. Publicou o primeiro livro em 1904, As composições de Fritz Kocher. Escreveu obras magníficas como Os irmãos Tanner (1907), O Ajudante (1908), Jakob von Gunten (1909). Em 1909 regressou a Biel mas foi acometido de uma depressão profunda e de crises alucinatórias recorrentes. Durante esse período escreveu livros de prosas curtas como O passeio e outras histórias (1917), Vida de poeta (1918) e A rosa (1925). Escreveu os seus últimos livros a lápis numa letra cada vez mais miúda- microgramas, dificílimos de decifrar. O Salteador, escrito em 1925-26, só viria a ser decifrado e publicado em 1972. Em 1933, Robert Walser foi internado numa clínica para doentes psiquiátricos em Herisau, onde passou o resto da vida. Dava longos passeios a pé e não voltou a escrever uma única linha. "I am not here to write, but to be mad" disse Walser.
Morreu sozinho, durante um passeio, no dia de natal de 1956. A sua obra, que inclui ainda poemas, ensaios e crónicas, foi admirada por escritores como Robert Musil, Walter Benjamin e Franz Kafka. A sua tradução e divulgação foi tardia. Em Portugal (um século depois) foram publicados 5 livros: Branca de neve, A Bela Adormecida e A Gata Borralheira, &etc, 2000, O passeio e outras histórias; Granito Editores e Livreiros, 2001, O Salteador, Relógio D’Água, 2003; A Rosa, Relógio D’Água, 2004; Jakob Von Gunten- Um diário, Relógio D’Água, 2005 e O Ajudante, Relógio D'Água, 2006.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Sebastião Alba

POEMAS

A pomba para o cheina

Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.


Trecho da Praia

Como por um ralo atrás da pupila,
vêem-me agir:
nada divide o caranguejo, dividindo
os lodos em seu sulco,
e também suas pinças se amotinam
à passagem, com sombra,
duma ave marinha…

E antes da chegada ascendente do mar,
ou que alguém module a voz
pela que da nuvem soou
no paraíso, amam-se na areia.
Enquanto do largo
o halo dum navio nocturno
se expande e irisa em seu redor.


Na sua primordial existência…


Na sua primordial existência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável

e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou

apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie

já não buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou
que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária

e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.


A Guerrilheira

Eis a ocasião em forma de mulher
com a ponte do lábio galgando
a voz Seus cabelos ondulam
por dentro das estrofes

Na mesma noite dividida ao meio
como se um lado reflectisse no outro
a sombra que na folha me adelgaça os dedos
verte ainda alguns versos e pára

Para quê

Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados
pelo volteio das luzes contrárias
E desatam-se das luzes os seus reflexos
a noite desdobra-se em metades imperfeitas.



não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde

Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável

atento à efusão
da névoa na sala.



há poetas com musa. Muitos.

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.

Preciso de Qualquer Objecto

Preciso de qualquer objecto dos teus, uma coisa de que possas já desfazer-te, mas tenha sido tua, para trazer comigo, nestes dias.
Não me lembro se já te disse que o escritor norte-americano Ernest Hemingway andava com uma pata de coelho na algibeira. Os antepassados de teu pai, os meus, eram mágicos, bruxos, fetichistas.
Deixa-o à porta, eu hei-de vê-lo, querida.
Virei sempre com uma carta para ti. Quando não vier, é porque os sinos de Braga me estavam a ensurdecer, e fui dar uma volta.
Toma lá o orvalho e a rosa, meu amor.

Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

PEQUENA BIOGRAFIA

Dinis Albano Carneiro Gonçalves (Sebastião Alba), poeta Moçambicano, nasceu no dia 11 de Março de 1940, na freguesia da Cividade, Braga. Em 1949 partiu com a família para Moçambique, onde viveu e escreveu durante muitos anos. Em 1965 publica o seu primeiro livro, Poesias. Exerce jornalismo. Em Outubro de 1974 dá à estampa O Ritmo do Presságio, na colecção O Som e o Sentido, da Livraria Académica de Lourenço Marques. Em 1978, publica A Noite Dividida. Cinco anos depois, abandona Moçambique, passando a viver em Braga. Em 1987, muda-se para Miratejo. Publica poemas na revista Colóquio/Letras. Em 1988 regressa a Braga, passando a viver só em quartos de aluguer. Torna-se andarilho e alcoólico. A 14 de Outubro de 1994, dá a sua mais longa entrevista a Michel Laban, professor universitário francês, que a inclui no volume: Moçambique - Encontros com Escritores (Edição da Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 1998). Durante este período, vai dando forma definitiva aos poemas que virão a constituir a sequência inédita O Limite Diáfano. Em 1996, reúne num só volume, A Noite Dividida, o que considera ter ficado da sua poesia e que graças à iniciativa de Herberto Helder, foi posteriormente publicado pela Assírio & Alvim. A 14 de Outubro de 2000 morre, vítima de atropelamento; permanece sem ser identificado na morgue do Hospital de São Marcos durante três dias. Postumamente foi publicado Uma Pedra ao lado da Evidência.(Campo das Letras, 2000)

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Ivan Laučik

POEMAS

A QUEM PERGUNTAS?

A vós a quem a luz aquece,
na abertura da luz,
inteiramente resguardados,
não é possível tocar-vos as entranhas e perguntar:
Onde apanhastes isso?

À beira do mar que contém as visões dos outros
e os rostos a quem já não é possível molestar -
a quem perguntas?

Quando se abre uma cratera
a fronteira renova-se, o fogo sossega.

Quando te cobres de flores,
quem sabe se é para adormeceres ou para acordares
para os actos mais puros?





ANOTAÇÃO DE FIM DE TARDE



Nada importa, dizem-te pela manhã:
E tu (vês-te obrigado) duvidas destas palavras todo o dia.

Resiste, entretém os peixes,
canta-lhes em voz alta sobre a ponte...
Os momentos de alegria quase te envergonham:
As distâncias convenientes, relações de altura e profundidade,
os invernos curtos, vento em conta para os moínhos -
e um tempo longo coberto
de ornamentos de ferro!
(Os livros de Lógica estão gastos
pelas mãos e pelo suor!)

Alguém que ouve mal embriaga-se de palavras:
o futuro pertence apenas aos helicópteros silenciosos,
capazes de aterrar na palma da mão.
(Haverá palma da mão?) E continua em sonhos
a separar-se o comestível do que não presta.

Sim, chegam-nos plantas cheias de entusiasmo.
Mas não é por isso que a folha artificial é menos verde.

Assim os incrédulos valorizam a fé.
Os infalíveis esperam ser salvos pelos nossos erros.
Os vivos sabem
que tudo importa
desde manhã.



NO LIMIAR

Chuvas
silenciosas verdes desabaram
nas cinzas e nas frágeis construções das Tuas criaturas
e inundaram-nas com alimentos.

O eco da primeira explosão está presente
no brilho,
na angústia das grutas,
e ressoa nas nossas memórias.

Interior revelado do dilúvio:
os olhos abertos
para a fragilidade
das formações de neve!

Plantas glaciares que vivem
no vento.
Trazemo-las dentro de nós à noite, no inverno.

A visão
das formosas colunas, da luz vertiginosa
nos cumes rochosos
no interior das cavernas.
Foi apenas tremor?
Vidro tocando o olho:
limpando o olhar.

E sempre em frente
da crina nevada das montanhas.
Cabelos esvoaçantes (incendiados da nuca
até ao rosto)
como um pólen selvagem
na memória do fogo.

Oh, fulgor das plantas distantes,
captado por uma película interior!

A erva acesa nas colinas,
os que atearam o fogo fugiram pelos jardins.

Quem conta isto segreda-nos de perto:
O que é aqui alimento?

tradução colectiva da série Poetas em Mateus

de Mobilis in Mobile, Quetzal Editores, 1999



PEQUENA BIOGRAFIA

Ivan Laučik, poeta eslovaco, nasceu em Liptov, em 1944. Foi professor de literatura na sua terra natal. A publicação da sua obra poética esteve proibida durante os dezoito anos de regime comunista Checoslovaco. Com a fundação do Grupo literário Solitary Runners (Os corredores solitários), em 1964, a sua poesia foi finalmente divulgada. Este movimento adoptou um programa «anti-literário» e «anti-poesia», imprimindo aos textos um forte conteúdo ético.Em Portugal, a editora Livros Quetzal, publicou em 1999 Mobilis in Mobile

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Cesare Pavese

POEMAS

Virá a morte e terá os teus olhos

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Desceremos o remoinho mudos.


Indisciplina

O bêbado deixa para trás as casas estupefactas.
Nem todos se aventuram a passear bêbados
à luz do sol. Atravessa tranquilo a rua,
e poderia entrar pelas paredes dentro, pois as paredes estão ali.
Só os cães deambulam assim, mas um cão pára
sempre que sente uma cadela e cheira-a cuidadosamente.
O bêbado não vê ninguém, nem mesmo as mulheres.

Na rua, as pessoas que se perturbam ao vê-lo, não se riem
e gostariam que não estivesse ali o bêbado, mas os muitos que tropeçam
ao segui-lo com os olhos voltam a olhar em frente
com uma praga. Passado que foi o bêbado,
toda a rua se move mais lentamente
à luz do sol. E se uma pessoa começa
a correr, é alguém que não o bêbado.
Os outros olham, sem distinguir, o céu e as casas
que nunca deixaram de estar ali, ainda que ninguém as veja.

O bêbado não vê as casas nem o céu,
mas sabe que estão ali, pois num passo pouco firme percorre um espaço
tão claro como as franjas do céu. As pessoas, embaraçadas,
deixam de compreender o que fazem ali as casas,
e as mulheres já não olham para os homens. Têm
todos, dir-se-ia, medo de que de repente a voz
rouca se ponha a cantar e os persiga pelo ar.

Cada casa tem uma porta, mas não vale a pena entrar.
O bêbado não canta, mas mete por uma rua
onde o único obstáculo é o ar. Felizmente
não vai dar ao mar, pois o bêbado,
caminhando tranquilo, entraria também no mar
e, deixando de se ver, prosseguiria no fundo o mesmo caminho.
Cá fora, a luz seria sempre a mesma.


Agonia

Irei pelas ruas até cair morta de cansaço
saberei viver sozinha e reter nos olhos
cada rosto que passa e continuar a ser a mesma.
Esta frescura que sobe e me busca as veias
é um despertar que em manhã nenhuma sentira
tão real: sinto-me simplesmente mais forte
que o meu corpo e um arrepio mais frio acompanha a manhã.
Longe vão as manhãs em que tinha vinte anos.
E amanhã, vinte e um: amanhã sairei para a rua,
lembro-me de cada pedra da rua e das nesgas do céu.
A partir de amanhã as pessoas ver-me-ão outra vez
de pé e caminharei direita e poderei parar
e mirar-me nas montras. Nas manhãs do passado,
era jovem e não sabia, nem sabia sequer
que era eu que passava – uma mulher, dona
de si mesma. A rapariguinha magra que fui
despertou dum pranto que durou anos:
agora é como se esse pranto nunca tivesse existido.
E desejo só cores as cores não choram,
são como um despertar: amanhã as cores
voltarão. cada mulher sairá para a rua,
cada corpo uma cor – e até as crianças.
Este corpo vestido de vermelho claro
após tanta palidez voltará à vida.
Sentirei à minha volta deslizarem os olhares
e saberei que sou eu: olhando à volta,
ver-me-ei no meio da multidão. Em cada nova manhã,
sairei para a rua em busca das cores.


És a terra e és a morte

“És a terra e és a morte.
Tua estação é a treva
E o silêncio. Não vive
Coisa que mais do que tu
Seja distante da aurora.

Quando pareces desperta
És somente o doer
Que tens nos olhos, no sangue
Mas tu não sentes. Tu vives
Como só vive uma pedra,

Ou como a terra dura.
E vestem-te os sonhos
Movimentos arquejantes
Que ignoras. E a dor
Como a água de um lago
Trepida e te circunda.
São círculos na água.
Tu deixa-los esvair-se.
És a terra e és a morte.”

PEQUENA BIOGRAFIA

Cesare Pavese nasceu em Stefano Belbo a 09 de Setembro de 1908. Foi poeta, romancista, tradutor, crítico literário e editor. Estudou filologia inglesa na Universidade de Turim. Dedicou grande parte da sua vida a traduzir autores como Walt Whitman, Herman Melville, James Joyce, Sherwood Anderson, Gertrude Stein, John Ernst Steinbeck e Ernest Miller Hemingway, entre outros. Os seus artigos anti-fascistas, publicados na revista Cultura, levaram à sua prisão e exílio em 1935. Suicidou-se no dia 26 de Agosto de 1950, num quarto de hotel em Turim. Algumas das páginas mais comoventes de Pavese encontram-se no seu diário que foi publicado postumamente, em 1952, com o título O ofício de viver. Em 1957 foi criado um prémio literário com o seu nome. Alguns livros publicados em Portugal: A Lua e as Fogueiras, (Colecção Mil Folhas); O Ofício de Viver, (Relógio d’Água); O camarada, (Minerva); Trabalhar cansa (Livros Cotovia); O Vício absurdo, (&Etc); Diálogos com Leucó (Assírio & Alvim); Férias de Agosto (Quasi)

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Ángel González

POEMAS

Inventário de Lugares Propícios ao Amor

São poucos.
A primavera tem muito prestígio, mas
é melhor o verão.
E também essas frestas que o outono
forma quando interfere com os domingos
em algumas cidades
já de si amarelas como bananas.
O inverno elimina muitos sítios:
gonzos de portas orientadas a norte,
margens de rios,
bancos de jardins.
Os contrafortes exteriores
das velhas igrejas
deixam às vezes vãos
a utilizar, ainda que a neve caia.
Mas desenganemo-nos: as baixas
temperaturas e os ventos húmidos
dificultam tudo.
As leis, além do mais, proíbem
as carícias (à excepção
de determinadas zonas epidérmicas
sem qualquer interesse -
em crianças, cães e outros animais)
e "não tocar, perigo de ignomínia"
pode ler-se em milhares de olhares.
Para onde fugir, então?
Por todo o lado olhos de viés,
córneas torturadas,
implacáveis pupilas,
retinas reticentes,
vigiam, desconfiam, ameaçam.
Resta talvez o recurso de andar sozinho,
de esvaziar a alma de ternura
e enchê-la de fastio e indiferença,
neste tempo hostil, propício ao ódio.



Soneto Para Cantar Uma Ausência



As horas passam, pesam lentamente
vazias de ti, cheias da tua memória.
A tua ausência rompe o fio da minha história,
isola como um fosso este presente.

deixando-me indefeso e inocente
entre a espada afiada da glória
de ter-te amado ontem, e a ilusória
esperança de amar-te eternamente.

Não dirijo a minha vida, e o futuro
apresenta-se inseguro, turvo, incerto.
Atenho-me só a ti, que não te tens.

Inclino-me sobre ti, débil muro
das minhas lamentações: arruinado, aberto,
fendido dique no qual me conténs.



Canção de Inverno e de Verão

Quando é Inverno no Mar do Norte
é verão em Valparaíso.
Os barcos fazem soar as suas sirenes ao entrar no
porto de Bremen com bandeiras de névoa e de
gelo nos seus cabos,
enquanto as balandras batidas pelo sol arrastam pela
superfície do Pacífico Sul belas banhistas.
Isso sucede ao mesmo tempo,
mas jamais no mesmo dia.
Porque quando é dia no Mar do Norte
- brumas e sombras absorvendo restos
de uma suja luz –
é noite em Valparaíso
- rutilantes estrelas lançando afiados dardos
às ondas adormecidas.

Como duvidar de que nos quisemos,
que me perseguia o teu pensamento
e a tua voz me procurava – por trás.
muito perto ia a minha boca.
Quisemo-nos. é certo, e eu não sei quanto:
primaveras, verões, sóis, luas.

Contudo jamais no mesmo dia.



Cidade zero

Uma revolução.

Depois, uma guerra.

Naqueles dois anos - que eram
a quinta parte de toda a minha vida ?
eu havia experimentado sensações distintas.

Imaginei mais tarde
o que é a luta na qualidade de homem.
Mas para mim, criança, a guerra era apenas:


suspensão das aulas na escola,
Isabelita em cuecas na cave,
cemitérios de automóveis, andares
abandonados, fome indescritível,
sangue descoberto
na terra ou nas pedras da calçada,
um terror que durava
o mesmo que o frágil rumor dos vidros
depois da explosão,
e a quase incompreensível
dor dos adultos,
suas lágrimas, seu medo,
sua ira sufocada,
que, por alguma ponta,
entrava na minha alma
para desvanecer-se logo, rapidamente,
perante um dos muitos
prodígios quotidianos: descobrir
uma bala ainda quente,
o incêndio
de um edifício próximo,
os restos de um saque
-papéis e retratos
no meio da rua...
Tudo passou,
é tudo confuso agora, tudo
menos aquilo que apenas entendia
naquele tempo
e que, anos mais tarde,
ressurgiu dentro de mim, então para sempre:
este medo difuso,
esta ira repentina,
estas imprevisíveis
e verdadeiras vontades de chorar.



Preâmbulo a um silêncio

Porque tem consciência da inutilidade de tantas
coisas
às vezes uma pessoa senta-se tranquilamente à sombra de
uma árvore – no verão –
e cala-se.
(Disse tranquilamente?: falso, falso:
uma pessoa senta-se inquieta fazendo estranhos gestos,
calcando as folhas abatidas
pela fúria de um Outono sombrio,
destruindo com os dedos o cartão inocente de uma caixa
de fósforos,
mordendo injustamente as unhas desses dedos,
cuspindo nos charcos invernais,
golpeando com o punho fechado a pele rugosa das
casas que permanecem indiferentes à passagem da
primavera,
uma primavera urbana que faz assomar com timidez as ma-
deixas dos seus cabelos verdes lá no alto,
por trás do zinco escuro dos algerozes,
levemente arreigada à matéria efémera das telhas
prestes a tornar-se pó).
Isso é certo, tão certo
como eu ter um nome de asas celestiais,
arcangélico nome que a nada corresponde:
Ángel,
dizem-me,
e eu levanto-me disciplinado e direito
com as asas mordidas


PEQUENA BIOGRAFIA

Ángel González nasceu em 1925 em Oviedo. Tinha 11 anos quando começou a Guerra Civil Espanhola. Aos 19 anos foi-lhe diagnosticada tuberculose e passou três anos num sanatório nas montanhas de León, onde começou a ler poesia. Posteriormente estudou Direito na Universidade de Oviedo. Em 1955 publicou o seu primeiro livro de poesia, Áspero mundo. Em 1972 recebeu um convite da Universidade do Novo México onde passou a dar aulas de Literatura espanhola. Em 1996 foi eleito como membro da Royal Academy for the Spanish Language. Foi galardoado com vários prémios. Os seus poemas encontram-se traduzidos em diversos idiomas. Em Portugal a «Fenda» editou o livro «Tratado de Urbanismo», em 2001, com tradução de Helder Moura Pereira. A sua poesia é dominada por temas como a história, a política, o amor e a música. Mesmo quando o tom é pessimista, existe subjacente uma leve ironia. Ángel González faleceu em Madrid, no dia 12 de Janeiro de 2008.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Pia Tafdrup

POEMAS

Entre o sempre e o nunca

Entre o sempre e o nunca
é que as coisas acontecem
um segundo sem fôlego
quando menos se espera
o mundo transforma-se

afundado em si próprio
sete corações abaixo
é que de repente se imagina
uma época em que as pedras
começam a sangrar.


Dá-me chuva

Dá-me chuva
como mãos vivas
ou passa-me
o instante
na ponta de um faca
eu fico aberta.


Água em chamas

…e ele parecia um deus ao sair do banho.

Um banho te darei como as servas de Circe o deram a Ulisses,
como essas filhas dos bosques e das fontes
e dos rios sagrados que desaguam no mar,
encho a banheira de água e sirvo-te vinho.

Misturo num jacto de água quente com outra que arrefece,
enquanto os espelhos se embaciam e o silêncio vem de mansinho;
um longo banho terás, o vinho iluminarão teu sangue,
descontrairá os músculos que eu banho com um jarro de água.

Tal como a quarta serva afastou a fadiga dos membros de Ulisses,
Continuarei a dar-te banho, para que o mundo seja do tamanho deste quarto,
onde os suaves vapores se adensam cada vez mais e as fragrâncias do teu corpo
se expandem no quarto à medida que o calor te inunda tanto por fora como por dentro.

Aproximo-me, lavo o teu pescoço e o teu peito,
acaricio o teu rosto, a tua nuca e os teus ombros,
reparo no prazer que avança à medida que depões as tuas armas,
vejo que deixas relaxar os teus ombros e mergulhas no banho.

Tem de haver água para haver vida,
e os homens precisam de banhos demorados...
ensaboo-te e enxaguo-te de novo, o teu corpo torna-se pesado,
não és só um homem mas todos os homens.

E quando te levantas do banho para emergir
és tão encantador como Telémaco
que foi banhado pela adorável donzela Policasta,
antes de ser ungido com óleo cintilante e coberto com túnica e manto.

De quem é o amor que brilha através do mundo como um rio que corre,
e porque flui tão puro como a alma
que vem em direcção a mim, tão deferente de tudo o que conheci
no labirinto do palácio onde vagueei sozinha durante tanto tempo.



Mil Vezes Nascido
(…)


71.

Se formos para o céu,
pergunta a criança,
o esqueleto também vai,
e todos os ossos que o cão comeu’



97.


Não procurem a caixa negra da poesia,
não tem respostas gravadas,
está cheia de perguntas e perguntas dos sonhos
ou de um silêncio onde é penoso entrar.

(…)


Tradução colectiva coordenada por Laureano Silveira


PEQUENA BIOGRAFIA

Pia Tafdrup nasceu em Copenhaga em 1952 e iniciou a sua carreira literária em 1980. Viveu em Elsinore de 1971 a 1978. Até agora publicou onze livros de poesia, duas peças de teatro, um livreto para dança, uma novela e um ensaio. Editou seis antologias de poesia contemporânea dinamarquesa. Em 1989 foi eleita para a Academia Literária da Dinamarca. Os seus poemas foram traduzidos para sueco, finlandês, islandês, português, espanhol, alemão, francês, italiano, macedónio, romeno, russo, eslovaco, turco, hebraico, árabe e outras línguas. Recebeu vários prémios literários.


Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Dylan Thomas

POEMAS

The force that through the green fuse drives the flower

The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.

The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.

The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.

The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.

And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.


.....


A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sobre a febre do mesmo inverno.

A força que impele a água através das pedras
impele o meu rubro sangue; a que seca o impulso das correntes
deixa as minhas como se fossem de cera.
E não tenho voz para que os lábios digam às minhas veias
como a mesma boca suga as nascentes da montanha.

A mão que faz oscilar a água no pântano
agita ainda mais as da areia; a que detém o sopro do vento
levanta as velas do meu sudário.
E não tenho voz para dizer ao homem enforcado
como da minha argila é feito o lodo do carrasco.

Como sanguessugas, os lábios do tempo unem-se à fonte;
fica o amor intumescido e goteja, mas o sangue derramado
acalmará as suas feridas.
E não tenho voz para dizer ao dia tempestuoso
como as horas assinalam um céu à volta dos astros.

E não tenho voz para dizer ao túmulo da amada
como sobre o meu sudário rastejam os mesmos vermes.

tradução: Fernando Guimarães


And death shall have no dominion


And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


....

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.


E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.


E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


Poem in October


It was my thirtieth year to heaven
Woke to my hearing from harbour and neighbour wood
And the mussel pooled and the heron
Priested shore
The morning beckon
With water praying and call of seagull and rook
And the knock of sailing boats on the net webbed wall
Myself to set foot
That second
In the still sleeping town and set forth.

My birthday began with the water-
Birds and the birds of the winged trees flying my name
Above the farms and the white horses
And I rose
In the rainy autumn
And walked abroad in a shower of all my days.
High tide and the heron dived when I took the road
Over the border
And the gates
Of the town closed as the town awoke.

A springful of larks in a rolling
Cloud and the roadside bushes brimming with whistling
Blackbirds and the sun of October
Summery
On the hill's shoulder,
Here were fond climates and sweet singers suddenly
Come in the morning where I wandered and listened
To the rain wringing
Wind blow cold
In the wood faraway under me.

Pale rain over the dwindling harbour
And over the sea wet church the size of a snail
With its horns through mist and the castle
Brown as owls
But all the gardens
Of spring and summer were blooming in the tall tales
Beyond the border and under the lark full cloud.
There could I marvel
My birthday
Away but the weather turned around.

It turned away from the blithe country
And down the other air and the blue altered sky
Streamed again a wonder of summer
With apples
Pears and red currants
And I saw in the turning so clearly a child's
Forgotten mornings when he walked with his mother
Through the parables
Of sun light
And the legends of the green chapels

And the twice told fields of infancy
That his tears burned my cheeks and his heart moved in mine.
These were the woods the river and sea
Where a boy
In the listening
Summertime of the dead whispered the truth of his joy
To the trees and the stones and the fish in the tide.
And the mystery
Sang alive
Still in the water and singing birds.

And there could I marvel my birthday
Away but the weather turned around. And the true
Joy of the long dead child sang burning
In the sun.
It was my thirtieth
Year to heaven stood there then in the summer noon
Though the town below lay leaved with October blood.
O may my heart's truth
Still be sung
On this high hill in a year's turning.


....


Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã

Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.

Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.

Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio no bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que humedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário ia adiante mas o tempo girava em derredor.

Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Peras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela

E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.

E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.

Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.


PEQUENA BIOGRAFIA

Dylan Marlais Thomas, nasceu em Swansea, no País de Gales, em 1914. Sem estudos superiores, foi jornalista e escritor. Escreveu sobretudo poemas e contos. Saído de uma escola literária que teve autores como T. S. Eliot, Edith Sitwell, W. H. Auden ou Stephen Spender, deixou-nos uma poesia, intensa, contemporânea, plena de vivência dos sentidos, que toca a sensibilidade de gerações e se mantém viva, em muitas línguas. «Deaths and Entrances" (1946) é um dos seus livros mais conhecidos, a par com os seus «Collected Poems» (1934-1952). Actualmente é considerado um dos mais importantes poetas universais do século XX. A sua obra é estudada nas Universidades. Bob Dylan usou o seu sobrenome como pseudónimo artístico. Dylan Thomas levou uma vida desordenada e alcoólica, em breve consumida. Faleceu aos trinta e nove anos, em 1953, durante uma tournée de leitura de poemas, em Nova Iorque.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Lucian Blaga

POEMAS

AOS LEITORES

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim
[ com colméias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre
[ as grades
e esperam que eu fale. ... Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se
[ queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria
[ desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.



de Îm Marea Trecere (A Grande Travessia), 1924


DE PROFUNDIS

Mais um ano, um dia, um instante —
e as vias que via adiante
Somem, de sob meu passo errante.
Mais um ano, um sonho, outro sono —
e sob a terra serei dono
dos ossos que dormem em torno.



de Poezii (Poemas)


MELANCOLIA

Um vento só seca suas lágrimas frias
nas janelas. Chove.
Tristezas vagas me assolam, porém toda
a dor,
que sinto, não sinto, em mim,
no coração,
no peito,
mas sim nas gotas de chuva que escorrem.
E enxertado com minha vida o mundo imenso
com seu outono e sua noite
dói em mim como uma chaga.
Para os montes passam nuvens com úberes
[ cheios.
E chove.



de Poemele Luminii (Os Poemas da Luz), 1919


NA GRANDE TRAVESSIA

O sol no zênite sustém a balança do dia.
O céu se concede às águas embaixo.
Com olhos ajuizados as bestas na travessia
Observam sem medo suas sombras no leito.
A folhagem se arca profundamente
na direção de toda uma lenda.

Nada, do que é, tenta ser diferente.
Somente meu sangue grita pelos campos
atrás de sua infância longínqua,
como um velho cervo
atrás de sua corça perdida na morte.

Talvez tenha perecido sob os rochedos.
Talvez tenha mergulhado na terra.
Em vão espero notícias suas,
somente ressoam as cavernas,
riachos buscam as profundezas.

Sangue sem resposta,
ah, houvesse silêncio, quão bem se ouviria
a corça calcando a morte.

Ainda mais longe cambaleio pela trilha —
e, como um assassino que sela com um lenço
uma boca vencida,
fecho com o punho todas as fontes.
Que se calem para sempre
para sempre.



de Îm Marea Trecere (A Grande Travessia), 1924


A LUZ DE ONTEM

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto
vai tão baixo, que antes nos céus ia posto!

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
auroras idas, que jorravam, inflamadas
fontes — hoje com águas presas derrotadas.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
a grande hora que em mim restou sem figura
como em um cântaro morto um fim de abertura.

Procuro, não sei o que procuro. Sob estrelas de
[ ontem,
sob as que passaram, procuro
a luz apagada que ainda enalteço.



de La cumpăna apelor (No Divisor de Águas), 1933



A SAUDADE

Sedento bebo teu perfume e seguro teu rosto
com ambas as mãos, como quem segura
na alma um milagre.
Queima-nos a proximidade, olhos nos olhos,
[ como estamos.
E contudo me sussurras: "Tenho tanta saudade
[ de ti!"
Falas tão misteriosa e desejosa, como se eu
[ estivesse
exilado em outro mundo.

Mulher.
que mares levas no peito, e quem és?
Canta ainda uma vez mais tua saudade,
por que te ouça
e os instantes me pareçam botões prenhes
de que florescessem de fato... eternidades.



de Poemele Luminii (Os Poemas da Luz), 1919

PEQUENA BIOGRAFIA

Lucian Blaga poeta, filósofo, tradutor, dramaturgo e diplomata, nasceu em 1895 in Lancrăm, na Roménia. È um dos principais nomes da literatura Romena do século XX. Escreveu quase quarenta livros, mais de uma dezena dos quais de filosofia. Seu primeiro livro de poesia, Os Poemas da Luz, foi publicado em 1919. Seguiu-se Os Passos do Profeta, de 1921. A sua principal obra filosófica está reunido em três trilogias: Trilogia do Conhecimento, de 1943; Trilogia da Cultura, de1944; e Trilogia dos Valores, de 1946. Foi embaixador da Romênia em Portugal, entre 1938 e 1939. Em 1948, já na vigência do regime pró-soviético na Roménia, foi demitido de sua posição de professor universitário e "arrumado" como bibliotecário do instituto histórico. Até 1960, só publicou traduções, sendo proibidos títulos de sua própria lavra. Morreu em 1961, marginalizado e perseguido pelo regime ditatorial Romeno.
Micaela Ghitescu traduziu para português parte da obra poética da Lucian Blaga, integrando a antologia intitulada Nas Cortes da Saudade, escrito durante a estadia do poeta em Portugal e publicada em maio de 1999 pela Editora Minerva de Coimbra.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Mario Benedetti

POEMAS


Nuevo canal interoceánico

Te propongo construir
un nuevo canal
sin exclusas
ni excusas
que comunique por fin
tu mirada
atlántica
con mi natural pacífico.


Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


Botella Al Mar

El mar es un azar
Vicente Huidobro



Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.


Desganas

Si cuarenta mil niños sucumben diariamente
en el purgatorio del hambre y de la sed
si la tortura de los pobres cuerpos
envilece una a una a las almas
y si el poder se ufana de sus cuarentenas
o si los pobres de solemnidad
son cada vez menos solemnes y más pobres
ya es bastante grave
que un solo hombre
o una sola mujer
contemplen distraídos el horizonte neutro

pero en cambio es atroz
sencillamente atroz
si es la humanidad la que se encoge de hombros.


TRANSGRESIONES

Todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones
por ejemplo inventar el buen
amor
aprender
en los cuerpos y en tu cuerpo
oír la noche y no decir
amen
trazar
cada uno el mapa de su audacia
aun que nos olvidemos
de olvidar
seguro
que el recuerdo nos olvida
obedecer a ciegas deja
cíego
crecemos
solamente en la osadía
sólo cuando transgredo alguna
orden
el futuro
se vuelve respírable
todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones


TRANSGRESSÕES

Todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões
por exemplo inventar o bom
amor
aprender
nos corpos e em seu corpo
ouvir a noite e não dizer
amem
traçar
cada um o mapa de sua audácia
mesmo que nos esqueçamos
de esquecer
é certo
que a recordação nos esquece
obedecer cegamente deixa
cego
crescemos
somente na ousadia
só quando transgrido alguma
ordem
o futuro
se torna respirável
todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões

Tradução: Astolfo Lima Sandy



PEQUENA BIOGRAFIA

Mario Benedetti nasceu em 1920 em Tacuarembó, Uruguai. Em 1960, com a publicação de La tregua, alcança reconhecimento internacional, com mais de uma centena de edições traduzidas em 19 idiomas e levada ao cinema, ao teatro, ao rádio e à televisão. Em 1973 teve que abandonar o seu país por razões políticas; viveu na Argentina, em Cuba, no Peru e em Espanha. A sua vasta produção literária abrange todos os géneros, incluindo famosas letras de canções. A poesia de Benedetti renova a linguagem dos sentimentos, diz com uma voz original aquilo que todos sentimos.

Mario Benedetti faleceu aos 88 anos em Montevideo, no dia 18 de Outubro de 2009


Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Rui Knopfli

POEMAS

Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.


Nenhum Monumento

Não são aparentes em ti as marcas de grandeza
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.

A escassez de ogivas, arcobotantes.
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer
da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,
não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva
fala por ti apenas o tempo.


Posteridade

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.


Baldio

O menino que eu fui debruça-se furtivo
de meus olhos sobre o recanto da paisagem.
Entre a dureza austera dos prédios
e o largo sorriso colorido das vidraças
aquele recanto que sobrou da paisagem
pertence intacto ao menino que eu fui outrora
e o menino que eu fui outrora desce
alvoraçado de meus olhos, desliza
entre o capim, atira pedras aos galagalas
e salta sobre as velhas folhas de zinco
apodrecido, num cenário querido de girassóis
antigos. Então parto dali
e o menino que fui regressa extenuado
e adormece na sombra de meus olhos.


PEQUENA BIOGRAFIA

Rui Knopfli nasceu em Inhambane, em 1932 e viveu em Moçambique até 1975. Foi delegado de propaganda médica, poeta, crítico literário e de cinema. Opositor do regime colonialista, colaborou activamente na imprensa independente, casos de A Tribuna e A Voz de Moçambique. Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72), que reuniram colaboradores como Jorge de Sena, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, José Craveirinha e Sebastião Alba. Dirigiu o caderno Letras & Artes (1972-75), da revista Tempo. Traduziu e publicou poetas como T. S. Eliot, Blake, Sylvia Plath, Kavafis, Dylan Thomas, Yeats, Robert Lowell, Pound, René Char, Apollinaire, Octavio Paz e Reverdy. Demite-se do jornal A Tribuna , por objecções de natureza ética, e deixa Moçambique em Março de 1975. Em Julho do mesmo ano radica-se em Londres onde exerceu o cargo de conselheiro de imprensa (1975-97) junto da Embaixada de Portugal na capital britânica. Em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube. Em Portugal tem colaboração dispersa no JL e nas revistas Colóquio-Letras e Ler. Encontra-se representado em algumas antologias, designadamente em Contemporary Portuguese Poetry (Manchester, 1978) e no The Penguin Book of Southern African Verse (Londres, 1989).. Em Bruxelas foi publicado Le Pays des Autres (1995), volume que colige os três primeiros livros. A sua obra é fortemente influenciada pelas suas vivências europeias e africanas, revelando uma forte originalidade e um tom eminentemente coloquial. Morreu em Lisboa em 1998. Em 2003, a empresa nacional casa da moeda, publicou uma antologia dos seus poemas, intitulada “Obra Poética”.

Bibliografia: O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1962), Máquina de Areia (1964), Mangas Verdes com Sal (1969), A Ilha de Próspero (1972), O Escriba Acocorado (1978), Memória Consentida (1982), O Corpo de Atena (1984) e O monhé da cobras (1997).

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Jorge Luis Borges

POEMAS

Afterglow

É sempre comovente o pôr do Sol
por indigente ou berrante que seja,
mas ainda bem mais comovedor
é o brilho desesperado e derradeiro
que enferruja a planície
quando o último sol ficou submerso.
Dói-nos reter essa luz tensa e clara,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e que pára de súbito
quando notamos como é falsa,
quando acabam os sonhos,
quando sabemos que sonhamos.


Ausência

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornam vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.


Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.

A Prova
Do outro lado desta porta um homem
ignora a sua corrupção. À noite
elevará em vão alguma prece
ao seu curioso deus, que é três, dois, um,
e julgará que é imortal. Agora
ele ouve a profecia da sua morte
e sabe que é um animal sentado.
És esse homem, irmão. Agradeçamos
os vermes e o esquecimento.


Hino

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento lembrará
ter sido esse peixe.
Na gruta cujo nome será Altamira
dedos sem rosto traçam a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acarinha
a seda trazida
do reino do Imperador Amarelo
por naus e caravanas.
O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela aos seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os lebréus de prata perseguem os veados de ouro.
Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de caçar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta, é uma onda,
e essas antigas coisas recorrem
porque uma mulher te beijou.




Nostalgia do presente

Naquele preciso momento o homem disse:
“O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruo.”
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.


Um sonho

Num deserto lugar do irão há uma não muito alta torre de pedra, sem portas nem janelas. No único compartimento (cujo chão é de terra e tem a forma de um círculo) há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem parecido comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que noutra cela circular escreve um poema sobre um homem que noutra cela circular... O processo não tem fim e ninguém poderá ler o que os prisioneiros escrevem.



Inferno, V, 129

Deixam cair o livro, porque sabem
que são personagens do livro.
(Sê-lo-ão de outro, o máximo,
mas isso não lhes interessa.)
Agora são Paolo e Francesca,
não dois amigos que partilham
o sabor de uma história.
Olham um para o outro com incrédula maravilha,
as mãos não se tocam.
Descobriram o único tesouro;
encontraram o outro.
Não atraiçoam Malatesta,
porque a traição exige um terceiro
e só existem eles no mundo inteiro.
São Paolo e Francesca
e também a rainha e o seu amante
e todos os amantes que existiram
desde Adão e a sua Eva
no prado do Paraíso.
Um livro, um sonho revela-lhes
que são formas de um sonho que foi sonhado
em terras de Bretanha.
Outro livro fará com que os homens,
sonhos também, os sonhem.


Os justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.


PEQUENA BIOGRAFIA

Jorge Luis Borges (1899-1986) Poeta, contista e ensaísta argentino nasceu em Buenos Aires e morreu em Genebra. A avó era de ascendência inglesa e Borges foi Bilingue desde a infância. Borges passou uma temporada com os pais na Europa antes de 1914. Surpreendida pela guerra, a família passou o período de 1914 -18 na Suíça. Viveu em Espanha entre 1919 e 1921 e dois anos depois regressou à Argentina. Borges começou por publicar poesia ( Fervor de Buenos Aires, 1923) e dedicou-se a escrever contos nos anos seguintes sobre temas ditos argentinos. Na revista Sur, fundada por Victoria Ocampo, publicará recensões, ensaios, poemas e contos. Conhece Adolfo Bioy Casares com quem escreverá vários livros e desenvolverá diversas actividades literárias. Durante os anos 30 foi perdendo a visão, até ficar cego. Trabalhou a partir de 1937 na Biblioteca Municipal Miguel Cané, mas a ascensão de Perón ao poder obrigou-o a abandonar. Será nomeado director da Biblioteca Nacional em 1955, depois da queda de Péron. Em 1944 surge Ficciones, que reune os contos de O jardim dos caminhos que se bifurcam (1941) e outros que coligiu sob o título de Artificios. Em 1949 publica O Aleph, outra colecção de contos. Nos anos sessenta viaja pela Europa, fazendo conferências pela Escócia, Inglaterra, França, Suíça e Espanha. Em 1967 casa-se com Elsa Millán que o acompanha aos Estados Unidos. Durante os anos setenta publica poesia (O ouro dos tigres, A rosa profunda, História da noite, entre outros volumes) e vários livros em colaboração. Viaja muito, acompanhado por Maria Kodama, com quem casará pouco antes de morrer. Em 1985 surge o seu último livro de poemas Os Conjurados.

Poetas do Mundo - Izet Sarajlic

POEMAS

Necrologia do Verbo Amar 


Amo -

lançando-se contra moinhos de vento gritava dom Quixote.

Amo –
envenenado de céus gritava Otelo.
Amo –
recostado em Ossian soluçava Werther.
Amo –
tremendo nas carruagens de Jasvin repetia Vronski.
Amo –
separando-se de Grusenka sonhava Dimitri Karamazov.
Amo –
brandindo a espada recitava Cyrano.
Amo –
regressando do comício sussurrava Jacques Thibault.
Amo –
gritaria também o herói de um romance contemporâneo,
mas o autor não lho permite.


Não está na moda.
O amor já não é contemporâneo.



Todas voltam de algum lugar


Todas voltam de algum lugar
Zelja de Regensburgo.
Sanja de Trieste.
Asja de Maiorca.
Daniela de Tuniz.
Nieves de Roma.
Mirka de Budapeste.
Sandra Lucic de Tucepi.
Nusa Kajetan do mercado.
Zaga do hospital.
Lucy das aulas.

Todas voltam de algum lugar.
Apenas tu não voltas.

Mains


Pendant cinq années entières,
elle a tenu la crosse du fusil :
main du soldat.

Elle a été obligée
de frapper le chien aimé :
main du chasseur.

Toute la vie,
elle a donné des coups :
mains du boxeur.

Toute la vie,
elle a porté le verre aux lèvres :
main de l'ivrogne.

Mais voici pourtant une main heureuse,
celle qui depuis vingt ans te caresse.
Mais voici pourtant une main heureuse !



Em Sarajevo
Na primavera de 1992
Tudo é possível:

Uma pessoa põe-se na bicha do pão
e vai parar ao serviço de urgência
com uma perna amputada.

E no fim ainda diz
que teve muita sorte.


PEQUENA BIOGRAFIA

Izet Sarajlic nasceu em Deboj (Bósnia-Herzégovinia) a 16 de Março de 1930. Cresceu em Treblinja e em Dubrovnik. Licenciou-se em Letras na Faculdade de Sarajevo. Trabalhou durante quase toda a sua vida na editora “ Veselin Maslesa”. Teve uma posição crítica quanto à intervenção internacional no conflicto armado na Bósnia, sendo conhecida a sua frase: Eu gostava de escrever 'liberdade' nos muros, mas vieram vocês os internacionalistas e destruiram os muros. A sua obra marcou a poesia europeia e em especial a dos Balcãs. Publicou 15 livros de poesia e numerosas memórias, textos políticos e traduções. Os seu poemas foram traduzidos para macedónio, eslovaco, russo (nomeadamente por Joseph Brodski, na altura um jovem poeta de Leninegrado), turco, inglês, albanês, lituano, castelhano, alemão, polaco e francês. Izet Sarajlic morreu em Sarajevo, no dia 2 de Maio de 2002, pouco depois de ser premiado com a maior distinção literária da Bósnia-Herzégovinia.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Yehuda Amichai

POEMAS


O lugar em que temos razão




Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída.


tradução: Nancy Rozenchan



Eu, que eu possa descansar em paz




Eu, que eu possa descansar em paz
eu, que ainda estou vivo e digo:
que eu possa ter paz no que tenho de vida.
eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo.
não quero esperar como aquele piedoso que almejava
uma perna do trono de ouro do Paraíso. Quero uma cadeira
de quatro pernas, aqui mesmo, uma cadeira simples de madeira.
Quero o resto de minha paz agora.
Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora,
combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo,
minha cara de amante, minha cara de inimigo
Guerras com velhas armas, paus e pedras, machado enferrujado, palavras,
rasgão de faca cega, amor e ódio,
e guerra com armas de último forno, metralha, míssil,
palavras, minas terrestres explodindo, amor e ódio.
Não quero cumprir a profecia de meus pais de que vida é guerra
Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma.
Descansem-me em paz...

tradução: Millor Fernandes


Na história do nosso amor


Na história do nosso amor
Um foi sempre uma tribo nómada,
Outro uma nação no seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar,
tudo tinha acabado,
O tempo passará, como paisagens
passaram por trás dos actores
parados em suas marcas
quando se roda um filme
as palavras passarão
por nossos lábios,
Até as lágrimas passarão
por nossos olhos.
O tempo passará por
cada um em seu lugar.
E na geografia do resto
de nossas vidas,
Quem será uma ilha,
quem uma península.
Ficará claro para cada um de nós
No resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros...



Estatísticas




Por cada homem enfurecido há sempre
dois ou três que o acalmam com palmadinhas nas costas,
por cada chorão, muitos mais limpadores de lágrimas,
por cada homem feliz, uma profusão de infelizes
a querer aquecer-se no calor da sua alegria.

E todas as noites pelo menos um homem
não consegue encontrar o caminho de casa
ou a sua casa mudou-se para outro lugar
e ele vagueia pelas ruas,
supérfluo.

Uma vez estava com o meu filho pequeno na estação
e um autocarro vazio passou por nós. O meu filho disse:
“Olha, um autocarro cheio de gente vazia.”



Violino de Palmo e Meio


Sento-me no jardim onde brinquei em criança.
A criança brinca ainda na areia. As suas mãos fazem ainda
pat-pat, depois cavam a destroem,
depois outra vez pat-pat.

Entre as árvores a pequena casa está ainda de pé
onde a alta voltagem zumbe e ameaça.
Na porta de ferro a caveira é
outra conhecida de infância.

Quando tinha nove anos deram-me
um violino de palmo e meio
e palmo e meio de emoções.

Às vezes sou ainda assaltado por orgulho
e alegria: Já me sei vestir e despir
sozinho.



PEQUENA BIOGRAFIA

Yehuda Amichai nasceu em Wurzburg, na Alemanha, em 1924. Em 1936, emigrou com a sua família para a Palestina e mais tarde, naturalizou-se como cidadão israelita. Participou na II Guerra Mundial, como soldado das brigadas semitas do exército britânico e lutou na guerra israelo-árabe de 1948. Depois da guerra estudou literatura hebraica e textos bíblicos. Foi professor do ensino secundário. Amichai publicou o seu primeiro livro de poesia, Achshav Uve-Yamim HaAharim (“Now and in Other Days”), em 1955. Escreveu onze volumes de poesia em hebraico, duas novelas e um livro de contos. A forma inovadora como utiliza a língua hebraica, influenciou a linguagem moderna em Israel. A sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas. Morreu em Jerusalém no dia 27 de Setembro de 2000.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

Poetas do Mundo - Jacques Prévert

POEMAS

O Discurso Sobre a Paz (bilingue)

Vers la fin d'un discours extrêmement important
le grand homme d'Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre:
la délicate question d'argent.


Já no final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado engasgado
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.

tradução: Luís Eusébio

Bairro Livre

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.


Para fazer o retrato de um pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
depois pintar
qualquer coisa de bonito
qualquer coisa de simples
qualquer coisa de belo
qualquer coisa de útil...
para o pássaro
depois pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dar um pio
sem mover um dedo...
Às vezes o pássaro chega sem demora
mas pode também levar longos anos
até se decidir
Não se abater
esperar
esperar anos e anos se preciso
pois a rapidez ou a demora
do pássaro não têm nada a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
manter o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando entrar
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar sem querer nas penas do pássaro
Fazer depois o retrato da árvore
reservando o galho mais belo de todos
para o pássaro
pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento
a poeira do sol
e o rumor dos insetos na relva no calor do verão
depois é só esperar que o pássaro comece a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
sinal de que o quadro é mau
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
então você deve arrancar devagarinho
uma das penas do pássaro
e escrever seu nome num canto do quadro.


Para ti meu amor

Fui à feira dos pássaros
E comprei pássaros
Para ti
meu amor
Fui à feira das flores
E comprei flores
Para ti
meu amor
Fui à feira das ferragens
E comprei cadeias
Pesadas cadeias
Para ti
meu amor
E depois fui à feira dos escravos
E andei à tua procura
Mas não te encontrei
meu amor

Tradução: José Lima

Cet amour

Cet amour
Si violent
Si fragile
Si tendre
Si désespéré
Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais
Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire
Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blémir
Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Parce que nous l'avons traqué blessé piétiné achevé nié oublié
Cet amour tout entier
Si vivant encore
Et tout ensoleillé
C'est le tien
C'est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelles
Et qui n'a pas changé
Aussi vraie qu'une plante
Aussi tremblante qu'un oiseau
Aussi chaude aussi vivante que l'été
Nous pouvons tous les deux
Aller et revenir
Nous pouvons oublier
Et puis nous rendormir
Nous réveiller souffrir vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort
Nous éveiller sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là
Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant
Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi j'écoute en tremblant
Et je crie
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi pour moi et pour tous ceux qui s'aiment
Et qui se sont aimés
Oui je lui crie
Pour toi pour moi et pour tous les autres
Que je ne connais pas
Reste là
Là où tu es
Là où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t'en va pas
Nous qui sommes aimés
Nous t'avons oublié
Toi ne nous oublie pas
Nous n'avions que toi sur la terre
Ne nous laisse pas devenir froids
Beaucoup plus loin toujours
Et n'importe où
Donne-nous signe de vie
Beaucoup plus tard au coin d'un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve-nous.

PEQUENA BIOGRAFIA

Jacques Prévert nasceu em 1900 em Neuilly-sur-Seine. Passou a juventude em Paris, onde exerceu diferentes ofícios antes de se ligar a artistas de vanguarda, ligados ao surrealismo. Relacionou-se com Marcel Duhamel, Yves Tanguy, Raymond Queneau, Georges Sadoul e muitos outros. Começou a escrever teatro no Grupo Outubro, escreveu poemas (em 1945 a colectânea Paroles obteve um enorme sucesso), fez colagens, compôs canções (mais tarde interpretadas, entre outros, por Juliette Gréco, Yves Montand, Mouloudji e os Frères Jacques). Trabalhou no cinema e é autor de inúmeros argumentos, nomeadamente para Marcel Carné (Drole de Drame, Quai des Brumes, Les Visiteurs du Soir, Les Enfants du Paradis), Jean Renoir (Le Crime de Monsieur Lange) ou para o seu irmão Pierre Prévert (L'Affaire est dans le Sac).
Morreu na aldeia de Omonville le Petit em 1977.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

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