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Poesia portuguesa: conjecturas e balanços

Na conferência que António Carlos Cortez proferiu no Centro Nacional de Cultura, no quadro do balanço literário da primeira década do século, ficaram claramente definidas três grandes tendências que animam a mais recente poesia que se escreve em Portugal. Por um lado, uma reacção ao realismo mecânico e excessivamente denotativo que foi moda nos primeiros anos da década; por outro lado, alguma recuperação da poesia entendida como puro trabalho de oficina ao nível da linguagem; por outro lado ainda a poesia como formato essencialmente rítmico (e com recuperação de alguma tradição lírica).

Dir-se-ia estarmos (de novo) virados para uma dominante estésica que reclama – ainda que sem manifestos ou apologias – um reatar da poiesis (a linguagem gerando-se a si própria), uma certa ‘desinstrumentalização’ face ao real e uma atitude de pesquisa em torno da proporção e da cadência. Como se o imediatismo ‘sem derrame’ tivesse ancorado noutras paragens. Como se a ideia de uma janela figurada que diria o real de modo pouco autotélico se tivesse convertido, de novo, no espírito prospectivo de laboratório e, portanto, de prazer construtivo.

Estes dados iniciais merecem um confronto com a perspectiva que, há uma década atrás, tentava projectar os caminhos da nossa poesia. Recorro ao que considero ser uma obra matricial deste tipo de conjectura, mais concretamente o texto de Fernando Guimarães de 2002, Em Direcção ao Fim do Século (publicado em A Poesia Portuguesa Contemporânea pela Quasi). Nesse texto, o autor referia três pistas para o que já então se designava, com alguma euforia, por “novíssima” poesia portuguesa. Correspondiam essas três pistas ao vitalismo, ao microrrealismo e ao revivalismo.
A primeira das três pistas, o vitalismo, foi perspectivada a partir de uma análise bastante objectiva. A ponderação dava ênfase à superação da antinomia des-construção vs. construção, tentando ilustrar a falência do movimento que, ao longo da modernidade, sempre ligara vanguardas e oficinas construtivas. Reagindo a este permanente intelectualizar da palavra poética, uma espécie de arte rude estaria a convocar o que Fernando Guimarães considerava ser a “tendência para privilegiar o que se possa revelar como instintivo, vital, marcadamente emocional”.

A segunda das pistas foi buscar a sua designação a Guilherme Merquior. O microrrealismo seria um contraponto à dominante simbólica e/ou à imagem de teor romântico. Esta tendência seria caracterizada pelo ímpeto descritivo e pelo cariz denotativo com que o real poético indexicalizaria o real do vivido. Como se a ordem indexical substituísse a icónica, recorrendo aos termos de C. Peirce.

A terceira das pistas referida no texto publicado em 2002 era porventura a mais óbvia: “…uma terceira opção que poderíamos situar na passagem do Modernismo para o Pós-Modernismo diria respeito à substituição de um espírito de vanguarda por um sentido totalmente diferente, o do revivalismo.”. Tínhamos aqui um modo paródico generalizado que pressupunha um horizonte de reactualizações muito aberto, ou seja, sem programa. Como se o devir evocatório passasse a integrar – como um dado intrínseco – a substância dos enunciados do presente.

Sendo sucinto e colocando de lado todos os mecanicismos, poderia conluir-se que a novidade se centra no ressurgir da perspectiva oficinal enfatizada por António Carlos Cortez, constituindo o pendor evocatório o factor de persistência entre as pistas fornecidas por Fernando Guimarães em 2002. De referir que o ‘novo’ é sempre uma força de expressão, quando não uma miragem. Ou seja, algum ‘regresso’ à fábrica oficinal pressupõe a revisitação de correntes do início dos anos sessenta (atenuando o intertexto mais próximo da ‘arte rude’ dos anos setenta), enquanto a evocação repõe inevitavelmente uma continuidade lírica que a conjectura de Guimarães não previra e que deve entender-se, como referiu Cortez, como reacção aos “realismos mecânicos” que, na sua obsessão ‘anti-derrame’, geraram amiúde – no início do século – uma poética de ‘palavra de ordem’ ou do mais elementar ‘topoi’.

Luís Carmelo

Cortesia de PNETLiteratura

Giorgio Agamben: a partir dos seus institutos poéticos

Por esta razão, talvez, nem a poesia nem a filosofia, nem o verso nem a prosa possa jamais levar a cabo por si a própria empresa milenar. Talvez apenas uma palavra na qual a pura prosa da filosofia interviesse, a certa altura, rompendo o verso da palavra poética e na qual o verso da poesia interviesse, por sua vez, dobrando em anel a prosa da filosofia seria a verdadeira palavra humana.

(Giorgio Agamben)

Realizando uma abordagem diretamente a partir do poema, o pensamento de Giorgio Agamben consegue iluminar, como poucos, aspectos da inteligência material poemática inerentes à dinâmica rítmico-semântico-sintática, tal qual um dia, entre nós, foi requisitado, entre outros, por Haroldo de Campos, Augusto de Campos (ambos vindos na esteira de Ezra Pound) e, mais recentemente, Roberto Corrêa dos Santos, que escreveu:



[1. Investimentos teóricos sobre o poema, apesar da longevidade desse objeto, não chegam a formar corpus relevante. 2. Predominaram estudos sobre os processos de composição técnica e retórica, exames pautados em modelos clássicos relativos ao gênero e seus constituintes. 3. Investigações diversas visaram a circunscrever certo número de caracteres, por modos humanistas e abrangentes, do fenômeno entendido por lírico, em diferença àqueles formadores dos também homogeneizados épico e dramático. 4. Bem pouco restou para o esboço da possível corporeidade de uma, diga-se assim, teoria do poema. 5. As mais valiosas propostas situam-se ainda no âmbito do chamado formalismo russo. 6. Nesse ambiente epistêmico traçam-se parte das melhores proposições reflexivas, bem como das melhores análises, ultrapassando-se aspectos consabidos. 7. Pesquisas quanto à inteligência do poema em seu caráter rítmico-semântico-sintático e dedicadas à sua estratégia de leitura tornaram-se exceções. 8. Movimento científico de igual porte vem a ser reposto nos anos 60 por meio do empenho da semiologia e da semântica estrutural. 9. Conhecer o poema descreve-se como uma vontade a levantar-se e a tombar de tempos em tempos por razões relacionadas ao resistente modo-de-existir disso a chamar-se poema. 10. Por sua singular (im)permeabilidade ao factum e por sua condição de manter-se firme historicamente em sua radicalizante insistência formal e temática, suas modificações mantêm-se quase imperceptíveis. 11. Os hábitos fixados para quem dele se aproxime acarretam processos receptivos duros.[1]



Efetivar, portanto, um investimento teórico a partir do poema, que, diminuindo sua aspereza, flagre, potencializando-os, alguns atos pensantes a regê-lo em sua materialidade através de procedimentos que a organizam, é uma tarefa considerável para que possamos fruir as intensidades poéticas, evidenciando-as, quando possível, como uma dinâmica do poema que, ela mesma pensada, dá o que pensar.

Como já dito no primeiro capítulo, a partir do século XIX, uma das maiores dificuldades da teoria literária é conseguir estabelecer uma diferença entre poema e prosa, já que, em um movimento de mão dupla, tanto o primeiro incorporou a segunda, como esta, aquele, misturando-se. Em muitos casos, através da radicalização do uso das imagens, dos ritmos, dos metros, das invenções sintáticas, das significações ou daquilo que Pound chamou de “melopeia”, “fanopeia” e “logopeia”, ambos já assimilaram uma “linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível”[2], conseguindo uma maior condensação da forma verbal como requer, para o poeta americano, as exigências da poesia.

Transertões[3], um curioso ensaio de Augusto de Campos, oferece amostras sensíveis neste sentido. Nele, a preocupação não é negar o caráter da prosa euclidiana em nome do poético ali presente, mas de demonstrar como estruturas poéticas demarcam a diferença de uma prosa que incorpora diversos aspectos historicamente considerados poéticos, ajudando a criar a força desta escrita então híbrida em todos os aspectos. O poeta-crítico destaca a presença maciça do controle do ritmo pela artesania métrica do verso embutido na prosa, exemplificando-a com centenas de frases metrificadas (pelo menos 500 decassílabos significativos, com predominância dos sáficos e heroicos, acrescidos de mais de 200 dodecassílabos, dentre os quais muitos alexandrinos, como, por exemplo, “estrídulo tropel de cascos sobre pedras”, e versos livres) e padrões heterométricos que se irmanam a um completo domínio sonoro do encadeamento das palavras na frase.

Fora isso, ainda acentua diversas passagens com densas aliterações, sibilações, paranomásias, onomatopeias e figuras de linguagem como metáforas, metonímias e antíteses. Se uma prosa como, dentre outras, a de Euclides, absorve elementos poéticos, criando uma indiscernibilidade entre os gêneros, e se os poetas inventaram tanto o verso livre quanto o poema em prosa e o em constelação, como estabelecer a diferença entre poema e prosa? Essa pergunta não vela, obviamente, um desejo de refluxo que afaste o poema da escrita de ficção, ensaística ou outra prosaica de modo geral, mas expõe a tentativa de conquista de mais um elemento de compreensão da escrita, que nos leve a uma ampliação das possibilidades da própria escrita, da leitura e do pensamento.

Visando prolongar uma reflexão que passa por Everardo, o Alemão, Niccolo Tibino, Brunetto Latini e Dante, chegando à frase de Valèry apropriada por Jackobson, que diz ser o poema “a hesitação prolongada entre o som e o sentido”, os conceitos utilizados por Agamben para determinar o enjambement e a cesura como as únicas possibilidades de distinção entre o verso e a prosa estão em inteira consonância com seus arquissemas gerais. Nos quatro textos que definem “institutos poéticos” decisivos[4], todos ligados a limites e terminações, como o enjambement, a versura, o fim do poema, a cesura e a rima, tais termos são: hesitação, não-coincidência, deslocamento, cisma, disjunção, antagonismo, oposição, contraste, não correspondência, desacordo, descolamento, divergência, tensão, pausa, intervalo, parada, interrupção. Aproveitando o que escreveu Sophia de Mello Breyner Andressen, os “institutos poéticos” buscam mostrar que “há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema”[5].

A posição tomada pelo italiano não pode aceitar, como elemento primordial para o pensamento do poema – e, consequentemente, do próprio pensamento –, uma compreensão habitual para a qual, no enjambement, quando a pausa fônica que estaria ao fim de um verso passa a estar no seguinte, ou seja, quando o verso anterior, adentrando o próximo, ganha uma elasticidade que o estende para além de sua pausa métrica, esta “se torna a rigor inoperante e até inexistente se não está assinalada pela rima”[6]. Nesse caso, há a crença de que, sem a rima, a continuação fônica que estabelece o enjambement elimina e neutraliza a pausa métrica em nome da unidade do ritmo – em nome, poderia ser dito, do alongamento de um verso até a depressão da voz no interior do subsequente, fazendo com que a exclusão da pausa final prevista confunda o verso com a prosa em um “ponto de coincidência” ou em uma “bodas mística do som e do sentido”[7]. O enjambement, então, estaria a serviço da penetração da prosa no poema. Não que isto não seja passível de ocorrer nem que não seja até mesmo predominante em nosso tempo, mas a possibilidade agambeniana nos revela, com uma acurácia muito maior, o ponto de força que singulariza tal instituto como a diferença do poético: a hesitação e os termos afins não podem acatar a resolução da unicidade prosaica, mas, sim, manter os traços tensivos pelos quais, com o abismo do silencioso burburinho do enjambement, ritmo e sentido, ou verso e sintaxe, entram em um antagonismo essencial a favor do mostrar-se do poema em sua diferença.

O entendimento do verso provém de seu habitar, pelo menos virtualmente, em um cisma, de seu morar, ainda que virtual, em uma incongruência. Para Agamben, o discurso eminentemente prosaico é o que em hipótese alguma acata tal possibilidade do enjambement, enquanto poético é aquele que, pelo menos potencialmente, reside neste traço distintivo. Visto, ao lado da cesura, como a única garantia de uma diferença entre o verso e a prosa, o enjambement é formulado como a disjunção entre o limite métrico e o sintático, como um íntimo desacordo entre o ritmo sonoro e o sentido, como a oposição entre a segmentação métrica e a semântica, como o contraste entre a série semiótica e a série semântica. Uma simultaneidade das duas segmentações em desencaixe, das duas séries em derrapagem desigual, das duas intensidades em curto-circuito, dos dois tônus em cisalhamento, dos dois fluxos em movimentações tortuosas compõe as linhas de fuga do poema.

O enjambement leva o fim do verso a governar a linha, a gerir o sulco pelo qual o poema semeia sua beleza e pensamento desde seu princípio, provindo, daí, sua importância decisiva. Tornando-se seu núcleo constitutivo e ponto nevrálgico, o enjambement é o acontecimento que faz o verso nascer enquanto a singularidade que é. O verso só se torna o que é em seu fim, quando, na interrupção, ganha seu distintivo. No fim do verso, flagra-se um tempo de parada sonora e um lugar de interrupção plástica que podem condizer ou não com uma cessação sintática da oração, que é passível de continuar. Por exemplo, o poema Introdução à Arte das Montanhas, de Leonardo Fróes:



Um animal passeia nas montanhas.

Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego

mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.

De tanto andar fazendo esforço se torna

um organismo em movimento reagindo a passadas,

e só. Não sente fome nem saudade nem sede,

confia apenas nos instintos que o destino conduz.

Puxado sempre para cima, o animal é um ímã,

numa escala de formiga, que as montanhas atraem.

Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.

Sente-se disperso entre as nuvens,

acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,

ainda, que agora tem de aprender a descer. [8]

O poema começa (e se realiza quase todo ele) com um verso sem enjambement, já que nele o limite métrico e o sintático coincidem plenamente, ou seja, o sentido que nele começa e continua a ser esboçado finda ao término do verso, suas interrupções sonora e plástica combinam com a cessação sintática:

Um animal passeia nas montanhas.

Ao fim deste verso, tem-se a totalidade do que ele está dizendo desde seu princípio; a pontuação lhe dá um limite, fazendo com que nenhum sentido reste para além dele. Coincidindo, tanto a série semiótica quanto a segmentação semântica são simultaneamente interrompidas. Todas as possibilidades de sentido inauguradas pelo começo do verso e continuadas pela linha estão presentes em “Um animal passeia nas montanhas”. Claro que várias indeterminações de sentido permanecem nele (que animal é esse, que tipo de passeio é esse, que montanha é essa, o que vai acontecer a esse animal que passeia nas montanhas, como ele passeia...?), mas todas elas moram dentro do limite do verso, como potências dele. O enjambement está presente ali em um grau zero, como possibilidade (“Um animal passeia/ nas montanhas” ou “Um animal/ passeia nas montanhas”, para dar dois exemplos) que o poeta preferiu não cumprir.


Por Alberto Pucheu

Cortesia de PNETLiteratura

A descida aos labirintos de Brasília na poética de Augusto Rodrigues

O texto de Augusto Rodrigues é o fio de Ariadne que nos permite descer aos labirintos da Capital da República e retornar à superfície com visão renovada. Não se trata de um enfrentamento ao Minotauro ou de uma descida ao mundo dos mortos; trata-se, nesse caso, da descida aos meandros arquitetônicos e urbanísticos da cidade criada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

O eu lírico, que narra sua viagem pelos labirintos da cidade (“Eu esperava ônibus”; “Abano a mão e alguém me leva, ilegal...”; “Depois ando e me perco”) é um ser tomado pelo encanto (“Brasília me prende, narcisa e Atena, para ser admirada. Ando e admiro: ladrilhos, pastilhas, veredas , vãos.”), pela novidade (“Passeio pelas entrequadras e acho graça das ruas sem nome”) e pela beleza marcada pelo espírito da modernidade. A sua tentativa é no sentido de apreender a alma do lugar, mas “A cidade: nebulosa aerada, expansão de fronteiras moventes”, lhe escapa. Faz-se necessário, então, utilizar instrumentos mais precisos (“Brasília é um código genético que precisa ser decifrado. Eu o observo do alto de meu microscópio...”).

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Munido de um vasto repertório cultural, que vai da música popular ao rock, como Aldir Blanc e João Bosco (“O poeta, bêbado e equilibrista”) e Legião Urbana (“uma legião urbana de cantos anuncia músicas urbanas.”), da poesia épica à lírica: Homero (“O pássaro na aurora de róseas águas) e Carlos Drummond de Andrade (“... vai ser coisa na vida”), passando por prosadores como Guimarães Rosa (“Quem descobriu Brasília? Foi Diadorim. Grandes Sertões: visagens.”) e Clarice Lispector (“A moça perto do coração selvagem...”), Augusto Rodrigues constrói um texto multifacetado, poético e marcado, como se pode ver, pela intertextualidade. O tom lírico e o épico se misturam numa obra de estrutura e linguagem modernas.

A referência a outros textos é a marca mais visível de Brasileia desvelada – o título já é uma referência ao famoso poema de Mário de Andrade: Pauliceia desvairada (também parodiado pelo poeta Nicolas Behr: Brasileia desvairada). Essa carga acentuada de referências a outros textos pode desagradar a alguns leitores, ávidos, talvez, de ouvir, em meio a essa multiplicidade de vozes, a voz do poeta. Como justificar esse recurso constante da referência? É que o poeta, para entender o mundo em que se encontra, esse cronotopos de novidades e surpresas, precisa misturar-se, metamorfosear-se em outros (“Eu sou Dédalos o fazedor de labirintos”; “E vejo surpresas proustianas na viçosa”). Labiríntico é o seu discurso, que vai do passado mítico ao presente marcado pela mudança. O universo popular da Rodoviária, por exemplo, liga-se, pela metáfora, ao contexto erudito, familiar de Proust. Pastel e madeleine juntos, desse modo, no mesmo espaço-tempo. O texto de Augusto Rodrigues ergue pontes para transitar por esse mundo de novidades.

É dessa forma que o poeta goiano, que adotou Brasília de corpo, alma e poesia, nos apresenta a Capital da República, conhece-a, desvenda-a e a desvela. E enquanto a desvela aos olhos do leitor, revela a si mesmo: um ser capaz de encantar-se, de deixar-se levar pela beleza. Ao mesmo tempo em que o poeta (ou o eu lírico) faz a sua leitura da cidade, é lido, traduzido por ela (“E Brasília me lê no inusitado das suas impressões”). Temos, com Brasileia desvelada, uma nova visão da Capital Federal. Nesse ponto, penso ser possível fazer um paralelo com outros textos poéticos que têm como tema Brasília. A poesia de Nicolas Behr, caracterizada, essencialmente, pelo humor e pela linguagem despojada, própria da chamada Geração Marginal ou Mimeógrafo, já havia nos apresentado Brasília do ponto de vista de seu plano urbanístico, tirando poesia daquilo que a faz diferente de outras cidades: “em paz com a cidade/meu fusca vai por esses eixos,/balões e quadras,/burocraticamente,/carimbando o asfalto/e enviando ofícios de estima/e consideração ao sr. diretor’ (eu engoli Brasília, do livro Por que construí Braxília). Embora marcada pelo humor, pela paródia, pela brevidade dos poemas, a poesia de Behr nos fez ver, de maneira crítica, a realidade brasiliense. Na poesia de Alexandre Pilatis, fruto já de uma releitura da produção de Nicolas Behr, domina o tom crítico, sarcástico, corrosivo, mas referindo-se, ainda, à paisagem urbanística da Capital: “tomei umas cervejas no beirute/e (como inexoravelmente/fizesse parte de uma raça pacífica)/fui analisar esteticamente/a modernidade artística do plano-piloto” (puzzle candango, do livro sqs 120m² comdce). A poética de Augusto Rodrigues dá prosseguimento a esse discurso sobre a Capital Federal, agora com o olhar de quem chega e tenta conhecê-la.

O poeta se nutre do diálogo com outros textos, da metáfora, do jogo de palavras, para dar conta dessa realidade. Temos flashes, fotogramas da cidade, revelando o olhar curioso e encantado de alguém ávido de apreender-lhe a alma. O fragmento, não a totalidade, é que nos invade os olhos. Porém a ambição do poeta é alcançar essa visão total do corpo e da alma de Brasília. Augusto Rodrigues mergulha nos labirintos da urbe levando consigo a voz de outros autores, pois esse mundo vasto, movente, esse novo sertão, só pode ser conquistado assim. Se na épica clássica o poeta evocava a ajuda das musas para conduzi-lo na sua jornada poética, nada mais justo que, na pós-modernidade, o poeta evoque ou incorpore no seu discurso o discurso de outros para ajudá-lo na travessia desse labirinto pós-moderno. E é exatamente isso o que o goiano Augusto Rodrigues faz com competência e sensibilidade.

(Esse texto tem como objeto de análise o livro inédito Brasileia desvelada,
do professor da UNB e poeta Augusto Rodrigues.)

Por Geraldo Lima

Cortesia de TRIPLOV

Florbela, a Princesa Desalento

1


Florbela não consegue dormir, embora a noite tenha chegado há muito, sorrateira, com seus passos de cetim negro. Acende mais um cigarro - companheiro constante e traiçoeiro, cada vez mais presente e necessário.

Corre o dia 7 de Dezembro de 1930 e está quase a cumprir mais um aniversário. Pela primeira vez quer oferecer-se a si própria uma prenda única e derradeira. Contudo, não sabe se terá coragem, não sabe se terá mesmo chegado a hora. Já o tentou duas vezes e sente ainda o gosto amargo do fracasso, da frustração, mesclado com o ar piedoso dos outros. Sim, porque os outros sabem viver. Tudo para eles é fácil, tudo tem sentido, mesmo o que é inteiramente vazio e incongruente. Pelo contrário, ela é uma exilada da vida, uma inadaptada, imersa num oceano de tédio e incompreensão. Há pouco dias, escreveu no seu Diário «E não haver gestos novos e palavras novas». Tudo se gastou, até as palavras. O amor, aquela fonte de poesia, onde germinava a raiz de cada verso, também secou, como uma árvore esquecida, plantada por um agricultor negligente e preguiçoso.

A criada bate à porta suavemente.

- A senhora quer tomar alguma coisa? Posso trazer-lhe um copo de leite? – pergunta.

- Sim, Teresa, traga-o. Hoje fico neste quarto, talvez consiga dormir melhor. Peço-lhe que não volte a bater à porta e que não me venha acordar amanhã. Quero ter finalmente o meu merecido descanso, um repouso infinito, total e profundo. Há tanto tempo que não durmo!

A criada pousa, poucos minutos depois o copo cheio de leite sobre a cómoda de pinho castanho e deseja-lhe as boas noites. Sempre tão discreta e dedicada, aquela Teresa! Possui uma eficiência mecânica, mas simultaneamente suave e humana.

Lá fora, o vento entoa um lânguido lamento, que apenas o sussurrar da chuva acalma. Em Matosinhos, os dias cinzentos são mais frequentes, húmidos e sombrios se comparados com os da sua viçosa vila natal alentejana. Aí, embora nesta altura do ano o frio abrace a planície com garras de mármore, há mais luz e mais azul no céu.

Decide deitar-se, fecha os olhos e sente-se embalada pelo rumor daquela tempestade teimosa, mas algo serena. Dentro de poucos minutos, o irmão Apeles visita-lhe os sonhos, vem sempre habitar esse espaço onde o vazio começa a germinar. De novo, surge o radioso e trágico 6 de Junho de 1927. O hidroavião pilotado por Apeles Espanca, 1º tenente da Marinha, precipita-se no Tejo, cerca de meia milha a sul da Torre de Belém. No entanto, nos sonhos dela, ele flutua ileso nas águas transportando nas mãos dois fragmentos do aparelho... Sorri e estende-lhe a mão. Porém, quando ela o tenta abraçar, afasta-se rápida e progressivamente, desvanecendo-se como o nevoeiro. Mergulha como um filho de Neptuno nas águas do rio que ondulam na suavidade azul. Volta ainda a erguer os braços até se desvanecer definitivamente.

Solta um grito, sobressaltada, e o seu olhar choca com o branco das paredes do quarto.


Por Dora Gago

Cortesia de TRIPLOV

Sobre a poesia de António José Forte

Dizia Ernesto Sampaio em “A única real tradição viva” que “É esta a orla de um tempo onde todo o pensamento grande e rigoroso vai dar ao Inferno”.

Noutro continente, por seu turno, referia Chesterton que “Todo o encadeamento de palavras leva ao êxtase, todos podem levar ao país das fadas”. É pois entre florestas e sombras inquietantes ou surpreendentes que se movem as vozes dos Poetas, uma vez que a razia social, se acaso consente a maravilha, muito mais desejaria essas vozes perenemente sob um sol negro de amargura. Nestes tempos do fim como lhes chamou André Coyné, a Poesia move-se com dificuldade e é deslocando-se entre Sila e Caríbdis que a nave poética busca chegar a bom porto.

Não tenhamos ilusões: o Poeta que o é e não simples abonador de prestígios em verso para maior glória dos seus donos, tem sempre pela frente a insídia das horas do quotidiano policiado – mesmo sendo homem de paz – da intolerância social das aparelhagens sediadas nos pólos onde a avidez, o interesse orientado, a mesquinhez, a corrupção judicial e a fraude pública ditam as suas leis.

Para os que persistem em opor aos desvigamentos sociais do dia-a-dia uma palavra alta e clara, já Gilbert Proteau nos esclareceu qual o destino mais provável: a corda, o punhal, o garrote, as difamações geralmente impunes, o calabouço e, nos casos mais suaves, a marginalização. Aos que acaso escapam, resta em geral uma vida de dificuldades que, entre nós, se cifra na “apagada e vil tristeza” dum mundo que não pode e não quer consentir a liberdade luminosa de ser-se “profeta e aedo num país onde só querem que haja lapuzes e vilões”, para citar Manuel Carreira Viana.

A poesia de António José Forte, falecido em meados de 1988, ilustra de maneira perfeita o trajecto de quem não cede e persiste em procurar a casa encantada em cujo telhado crescem floridas excrescências carnosas, o “palácio ideal” que Cheval levou à prática e tantos outros tentam erguer ora aqui ora ali, entre bosques primordiais e estranhas muralhas de granito.

Desde o seu primeiro livro “Trinta noites de insónia de fogo nos dentes numa girândola implacável” até aos poemas finais dados a lume na Editorial Estampa, passando pelo texto que tinha como personagem nuclear Daniel Cohn-Bendit vindo a público na revista “Grifo”, imediatamente retirada de circulação pela PIDE que impediu a publicação de novos números, sente-se perpassar uma grande inquietação temperada, todavia, pela ternura dos seus melhores momentos. As imagens encadeiam-se de forma inusitada, sempre muito próximas de um “real absoluto” que punha em destaque o amor e o conhecimento do mundo onde as figuras estendiam salutarmente de mão em mão os objectos comuns como um cigarro ou uma chave.

Lembro, das conversas havidas ao velejar dos minutos ao fim da tarde ou já na noite colectiva, o interesse que Forte tinha pelos grandes mistérios da existência (pirâmides de Tenochtitlan, as construções desenhadas na planície desértica de Nazca…) e, em contraponto, os enigmas contidos na existência quotidiana habitual, que lhe pareciam ultrapassar os outros em fascínio e estranheza. Esse quotidiano onde ele “passasse a fumar/ e o fumo fosse para se ler”.

A poesia de António José Forte foi-me dada pela primeira vez a ler por Donato Faria, seu companheiro de emprego nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, numa das nossas habituais reuniões (já Forte saíra de Portalegre para ir trabalhar na Casa mãe) na pensão da Rua 31 de Janeiro, frente à taberna Capote e cujas janelas de terceiro andar deitavam para o Largo da Sé – sempre repleto de gente, principalmente rapazes e raparigas alunos da Escola do Magistério Primário, nesses anos em que a cidade não mergulhara ainda na desertificação que hoje a caracteriza em geral e no casco histórico em particular.

Foi ali que este me mostrou os “Cadernos Pirâmide” da responsabilidade de Carlos Loures e Máximo Lisboa. Era a segunda vaga surrealista, que trazia nela autores como Manuel de Castro, o magnífico poeta de “Estrela Rutilante” que teria como pares, no desenho e na pintura, as explosões singulares de Mário Botas e José Escada, posto que actuassem por outras bandas.

Mergulhando inelutavelmente no sonho de todas as horas, interiores e exteriores, a poesia surrealista desses tempos, seguidos logo de outros onde mais autores se forjavam, forçava por libertar-se dos enleios do hábito, do conformismo imposto por condottieri exteriores, geralmente literatos subidos ao poder administrativamente e nele mantidos pelos mandantes dentro e fora dos órgãos de comunicação e das estantes desses lugares de massacre que demasiadas vezes são os “estabelecimentos de ensino” de alto coturno. E em que o lirismo, mais que ser apenas “um epigonismo da prisão de ventre” como Cesariny dizia com justa ferocidade, seria luz revelada na noite geral.

O lirismo de Forte, separado – por uma brusca mutação interior – daquele que ainda hoje se expande em revoadas de folhas propiciadas por tanto vate de ocasião (ou, o que ainda é pior, por operadores de safada carreira cimentada por áulicos), aspirava à realidade, essa realidade outra (surrealidade) em que as mãos, por exemplo, já não são objectos para prender os movimentos alheios mas sinal palpável de fraternal sabedoria alcançada, pomo finalmente liberto abrindo fulgores diferentes e mais autênticos.

Contra a quinquilharia que frequentemente fere o viajante, a sua poesia é susceptível de criar em quem a lê um apetite de melhor e menos banal. A sua adjectivação, que nunca bordeja as margens do efémero ou do destrambelhadamento pseudo-original, que nunca reside e se deixa cair na redundância pretensiosa mas é antes um sublinhar de adequadas iluminações, faz passar de estrofe para estrofe símbolos que extinguem a inutilidade das escritas que acatitam a leitura.

Dizia Étienne de Sénancour: “O homem é perecível; pode ser…Mas pereçamos resistindo e se, ao fim, o que nos espera é o vazio e o nada façamos com que isso seja uma injustiça”. A poesia de António José Forte, que permanece nos nossos ouvidos e na nossa cabeça muito depois de ser lida, ilustra de forma soberana como é possível lançar, aos deuses programados e programadores, o grande desafio dos que sabem ser e dar-se a si mesmos como penhor de que não foi em vão a passagem dum Poeta pelas planícies do tempo destroçado.

Por Nicolau Saião

Cortesia de TRIPLOV

Matsuo Bashô: poeta japonês

O ritmo na poesia tradicional portuguesa é marcado, geralmente, por versos de cinco e de sete sílabas métricas. Na poesia tradicional japonesa também assim é. As origens da poesia japonesa perdem-se na noite dos tempos, mas desde épocas remotas que os ritmos preferidos pelos poetas japoneses se concretizam em versos de cinco e de sete sílabas, como se pode ver em antologias organizadas a partir do século VIII.

Na Arte Breve da Lingoa Japoa, obra do Padre Jesuíta João Rodrigues publicada em Macau, em 1620, faz-se referência ao estilo poético japonês que se caracteriza pelo uso de versos " de sinco & sete syllabas, que nesta lingoa fazen muito boa cadencia". Esta Arte Breve da Lingoa Japoa é a primeira Gramática alguma vez elaborada sobre a língua japonesa. Foi feita por um português, João Rodrigues, apelidado Tçuzu (o Intérprete), missionário jesuíta que viveu largos anos no Japão e se debruçou sobre o funcionamento daquela língua oriental. Mas não é sobre esta obra que quero falar agora. Apenas me lembrei dela porque penso que é a primeira obra escrita em português em que há referência à poesia japonesa.

Um grande poeta do Japão, tão famoso naquele país como Camões o é em Portugal. Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena cidade de Ueno, na província de Iga e faleceu em Osaka, em 1694. O seu nome de nascimento era Matsuo Kinsaku, mas, muitos anos depois, quando já era um conhecido poeta, mestre na sua arte, adoptou o pseudónimo de Bashô, agradecido aos seus discípulos que tinham plantado uma bananeira de jardim (bashô) junto da sua modesta habitação. A vida de Bashô foi uma permanente caminhada em busca do conhecimento e do contacto com a Natureza, procurando atingir a perfeição na expressão poética, tendo conferido grande beleza e dignidade literária ao género poético designado haiku ou haikai. Este género poético continua na linha da poesia tradicional japonesa. É um dos mais notáveis géneros poéticos da literatura universal e, possivelmente, aquele que apresenta a forma de expressão mais breve e concisa. Cada poema é constituído por dezassete sílabas métricas distribuídas por versos ou segmentos de 5-7-5 sílabas. Teve origem numa forma poética mais antiga, o tanka, que é constituído por trinta e uma sílabas distribuídas por cinco versos de 5-7-5-7-7 sílabas métricas.

No haiku, encontramos a simplicidade, a concisão, o sentimento da Natureza. Pressupõe, no poeta, uma atitude de contemplação e de despojamento e o sentido da permanência e da mudança. Para se alcançar a beleza subtil desta forma de poesia é necessário aprender a respirar em uníssono com a Natureza. O haiku nasce de um acontecimento vivenciado, surge a partir de um momento concreto que se viveu e que impressionou os nossos sentidos e o nosso espírito. Em poucas palavras, o poeta tenta transmitir, ou melhor, sugerir a essência do acontecimento breve que o impressionou.

Muitos dos haiku de Bashô estão incluídos nos diários que escreveu durante as várias viagens ou peregrinações que realizou através do Japão. Assim, pode considerar-se Bashô não só como um poeta mas também como um prosador de apurado sentido estético, criador de um estilo que será modelo para muitos escritores em sucessivas gerações. A sua obra mais conhecida, Oku no Hosomichi, (traduzida para português com o título O Caminho Estreito para o Longínquo Norte), conta-nos, em forma de diário, intercalando poemas em pequenos textos em prosa, a sua longa viagem por diversas regiões do Japão.

Muito haveria a dizer sobre este poeta considerado um dos grandes mestres da poesia japonesa, mas o melhor é dar a ler alguns dos seus haiku (escolhemos a tradução de Luísa Freire, em Imagens Orientais).

Crisântemo branco -
nem um só grão de poeira
a vista descobre

Outono já frio;
eu penso no meu vizinho -
como viverá?

No meio da planície
uma cotovia canta,
liberta de tudo.

A primeira neve:
tal basta para dobrar
as folhas dos lírios.

Cortesia de Expresso

Paul Celan: no Rastro Perdido da Experiência

“Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema”.



Paul Celan, “Carta a Hans Benderm”, in Arte Poética – Meridiano e outros textos, ed. Cotovia, Lisboa, 1996.



Aquilo que mais nos impressiona, na abordagem da vida e obra de Paul Celan foi o modo trágico como o poeta assumiu a responsabilidade da sua época. Por isso, o fascínio de que se revestiu deve-se a essa dupla dimensão, entre o poeta, no “limiar do emudecimento”, e o ser humano, profundamente consciente da sua época e do seu tempo, tendo pago caro essa factura com os dissabores que isso lhe trouxe. O que diferencia o homem e a lenda?



Edith Silbermann[i], amiga de juventude de Paul Pessakh[ii] Antschel – nome verdadeiro de Celan - , refere esses aspectos que foram desvirtuados na sua biografia. Paul Antschel nasceu em 23 de Novembro de 1920, em Czernowicz, Bucovina (na Roménia). Filho único, Paul tem, desde cedo, o objectivo de ir para França estudar. E, de facto, parte em 1938, mantendo-se dois anos em Tours, a estudar medicina. É dessa data que nascem os primeiros poemas. Ela dá conta de um jovem ávido e iconoclasta, que defende corajosamente os seus ideais. As leituras de Marx e Nietszche, a par da poesia alemã, sobretudo Hölderlin e Rilke, mas também Goethe e Schiller, Heine, Trakl, Kafka, Hofmannsthal, entre outros, desenvolveram no poeta um gosto pela política e simultaneamente pela literatura. Para o grupo de jovens que acompanhavam Celan, a língua francesa “era a mais bela língua do mundo”[iii]. Liam Mallarmé, Valéry, Apollinaire, Baudelaire. Paul traduziu também sonetos de Shakespeare, poemas de Yeats, Apollinaire, entre muitos outros. Foi por este caminho que ele chegou à poesia.

Em 1940, começou a estudar russo e, nessa altura, começa a traduzir Sergeï Lessenine. A armada vermelha ocupa, entretanto, a sua cidade. Durante esse período, que vai de 1940 a 1941 (aquando das ofensivas de Hitler e recuo dos russos), os judeus não ousavam mostrar-se e revelar a sua religião, os seus costumes. Todavia, o irreverente Paul Antschel não se escondia e afrontava corajosamente esse medo. Como o relata Edith Silbermann, Paul adorava chamar a atenção sobre si próprio, o que lhe traria grandes desilusões.

É a partir de 1941 que os judeus são “empurrados” para o gueto, pelos alemães. Num dia em que ele sai miraculosamente de casa, antecipando o perigo e refugia-se, graças à sua amiga Ruth Lackner, numa fábrica de cosméticos, aguardando a chegada dos seus pais. Porém, a mãe de Paul negou-se, dizendo-lhe: “Não podemos escapar ao nosso destino”. Nesse ano de 1942, os alemães prenderam os seus pais, que foram levados para um campo de concentração e, no espaço de alguns meses, ambos assassinados.

Pouco tempo depois, o próprio Celan alista-se num campo, em Tabaresti, na Roménia, onde se sente mais seguro do que na sua cidade. O trabalho duro que aí realizava deixava-lhe tempo, porém, para ler e escrever, para traduzir, vivenciando a miséria, o desastre e a destruição, à sua volta. Temas como “a morte na neve” serão um dos mais recorrentes da sua obra poética, testemunhando a tragédia dos judeus e, sobretudo, a dor da morte dos seus pais. O frio glacial, as pegadas e vestígios que se dissipam na neve são essas tantas formas metafóricas de exprimir a morte, metáforas que se apresentam de modo constante na sua poesia.

A derrota dos alemães, em 1943, estava, todavia, tão próxima que se permitiu aos residentes de Tabaresti o regresso às suas cidades e Paul regressou, então, a Czernowitz. Na Primavera, os soviéticos entravam, pela segunda vez, na sua cidade. Paul avistava um novo período menos cruel. Evitou, por essa altura, a entrada no exército russo, com alguma ajuda, pois a guerra ainda não havia terminado. Em compensação, trabalhou como ajudante numa clínica psiquiátrica, onde se encarregava de tratar os soldados soviéticos com feridas na cabeça e em estado de choque. Para ganhar dinheiro, realizava traduções para ucraniano, num periódico local. Reuniu, nessa época, um conjunto de 93 poemas dactilografados e entregou uma outra colecção escrita à mão à sua amiga Ruth Lackner, para que ela os fizesse chegar a Bucareste e os entregasse ao poeta Alfred Magul-Sperber. No Outono de 1944 retoma os seus estudos de inglês, na universidade que foi reaberta pelos soviéticos e entregou-se à leitura de escritores hebreus.

Após o término da guerra, alguns deportados voltaram dos campos e, entre eles, encontrava-se o seu amigo, o poeta Immanuel Weiglass[iv]. Nessa época, Paul supunha que o seu tio, Bruno Schrager, tinha ficado em Paris, mas veio a constatar que o seu nome constava dos desaparecidos em Auschwitz, o que veio reacender o seu trauma. Começou, então, a escrever a primeira versão do poema “Fuga da Morte”, o poema que o celebrizou e que tantos dissabores lhe traria, numa polémica questão levantada por Theodor Adorno. Teve uma primeira publicação, em língua romena, no número de Maio de 1947, numa revista de Bucareste, Agora, graças à tradução do seu amigo Petre Solomon. Paul Antschel muda, então, o seu nome de Antschel para o anagrama Celan, que viria a conservar ao longo de toda a sua vida.

Felstiner dá conta do acontecimento terrível que parece estar relacionado com o poema, de forma mais directa. Num panfleto escrito por Konstantin Simonov, datado de 29 de Agosto de 1944, sobre o campo de extermínio de Lublin, o autor contava que durante os trabalhos no campo eram tocados tangos e fox-trots. Na revista romena, onde foi publicada a primeira tradução do poema, sob o título “Tango de Morte”, um ano antes da publicação do original, uma nota de apresentação dizia que o poema publicado era construído a partir da evocação de um facto real. Um grupo de prisioneiros, nesse campo, era obrigado a cantar canções nostálgicas enquanto os outros abriam valas comuns. Mas existe, ainda, uma outra fonte de informação, a qual dizia que, num campo próximo de Czernowitz (a cidade de Paul Celan), um comandante das SS obrigava violinistas judeus a tocar um tango, enquanto eram cavados túmulos e decorriam marchas, torturas e uções. Um dia, o comandante disparou contra toda a orquestra.

Música e morte entretecem-se, na poesia de Celan, evocando a atmosfera lírica de Schubert – A Morte e a Donzela - ou de Mahler, de Brahms e do Requiem Alemão, numa tentativa de harmonizar a mais dolorosa e insustentável vivência. Celebração, não da morte, mas daqueles que pereceram nos campos de morte, sob as condições mais desumanas que é possível imaginar-se e a dilaceração surge, de forma sublime, no poema “Fuga da Morte”:



Leite negro da madrugada bebemos-te de noite

bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite

bebemos e bebemos

cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados

Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve

escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete

escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham

assobia e vêm os seus cães

assobia e saem os judeus manda abrir uma vala na terra

ordena-nos agora toquem para começar a dança



O tema da “dança da morte”, a atentar nas palavras de E. Silbermann[v], já o havia preocupado antes. Celan conhecia bem os “Simulacros da Morte” de Hans Holbein e a tradição da dança macabra, nos poetas alemães e no imaginário medieval, onde a vida é de tal forma precária que o tema da “dança com a morte” assume uma visibilidade que o homem contemporâneo consideraria insuportável. Por outro lado, a questão prende-se igualmente ao problema da língua alemã. A língua em que Celan escrevia era a alemã, a mesma que os “mestres da morte” usavam. Essa terrível contradição – a de escrever numa língua que era a da sua mãe e também a dos seus carrascos – ocupava-lhe permanentemente o espírito e transformou-se numa das suas obsessões fundamentais e que se exprime da forma mais intensa na sua poesia, introduzindo nela uma profunda crispação:



(…)Mãe, eles escrevem poemas.

Oh,

mãe, quanto

chão do mais estranho dá o teu fruto!

Dá esse fruto e alimenta

os que matam! (…)[vi]



Quando Derrida[vii] fala da experiência da morte em Celan, refere-se, também, ao aspecto da morte, tal como ela é vivida na experiência da língua: “Parece-me, a cada instante, que ele deve ter vivido esta morte. De muitas maneiras. Deve tê-la vivido por toda a parte onde sentiu que a língua alemã era morta duma certa maneira, por exemplo pelos sujeitos da língua alemã que fizeram um certo uso dela: ela é assassinada, morta (…) A experiência do nazismo é um crime contra a língua alemã. O que foi dito em alemão sob o nazismo, isso é uma morte. Há outra morte que é a simples banalização, a trivialização da língua alemã, não importa quando ou onde. E, depois, há uma outra morte que é aquela que não pode chegar à língua por causa daquilo que ela é, isto é: posta em letargia, mecanizada, etc. O acto poético constitui, então, uma espécie de ressurreição: o poeta é alguém que tem a tarefa permanente, numa língua que nasce e ressuscita, não de lhe dar um aspecto triunfante, mas despertando-a como se desperta um fantasma: ele desperta a língua e para tornar viva a experiência do despertar, do retorno à vida da língua [sublinhado meu], é necessário estar próximo do seu cadáver.”

Esta experiência do limite da linguagem, de que tão bem falam Steiner (Langage et Silence) e Agamben (v. Le Langage et la Mort), Blanchot (sobretudo no livro que é dedicado a Celan, Le Dernier à Parler) aproxima Celan da experiência poética de Hölderlin[viii], também ele no limiar do perigo. A visão corrosiva de Celan está próxima, igualmente, da visão benjaminiana do perigo que sofre, a cada instante, aquele que lida com a linguagem e a tarefa alegórica. Mais ainda, ela aproxima-se de Benjamin, no que se refere à tarefa da rememoração, tema por excelência do pensamento hebraico, tomado na sua mais ampla dimensão e que se articula com a da temporalidade do poema. Ambos comungaram da questão da cesura e do limite do dizer, com ele, igualmente, a tarefa da rememoração enquanto alvo da sua escrita. Ainda que esse alvo se colocasse, no caso de Celan, no cerne do paradoxo da insustentável experiência dos campos. Alegoria e rememoração são pólos constitutivos da poesia de Celan, no sentido em que a única experiência possível de rememoração e de luta contra o esquecimento só pode ser levada a cabo pelo gesto redentor da escrita. No caso de Celan, é na e pela linguagem poética que ela se opera.

Ainda a esse propósito, cito o notável estudo de António Guerreiro, consagrado a Celan, “Paul Celan e o Testemunho Impossível”[ix]. António Guerreiro fala na tarefa trágica da poesia, no autor, definindo-a como o “limiar do emudecimento”[x]. No texto Arte Poética, Meridiano e outros textos, Paul Celan cruza o seu pensamento com o de Heidegger e Lévinas, numa tentativa de (re)definição do “ser do poema”, que nos remete para a dificuldade do poeta. “O poema mostra, e isso é indesmentível, uma forte tendência para o emudecimento.” Nesse texto extraordinário, pela sua clareza, Celan dá conta da natureza da poesia. O poeta é dominado pelo pathos, que é a experiência da linguagem, naquilo que nela confina – e com ela se entrelaça, obviamente - com a existência da realidade. António Guerreiro sublinha-o, dizendo: “E porque essa língua não está disponível desde logo, não existe senão através da experiência que leva o poeta ao encontro dela, ela é única.” Celan recusa, aqui, a ideia de uma correspondência poema-realidade, o que nos conduziria, aos seus olhos, a uma visão mimética e empobrecida da realidade. O poeta é o que luta por ir, com os meios de que dispõe, ao encontro da realidade, através da linguagem. Assim, a ideia de um correlato entre a palavra poética e o real é algo que não existe como um dado previamente estabelecido. Este correlato pode existir ao nível da linguagem enquanto forma de comunicação (e isto não passa de uma hipótese), mas nunca ao nível do “dizer poético, onde persiste inevitavelmente uma irredutibilidade entre a palavra e o real. A concepção mimética (e aristotélica) da poesia e da linguagem é, assim, repudiada por Celan.

Por outro lado, a ideia de univocidade do poema caminha, par a par, com a afirmação anterior. Tal é essa ideia da univocidade do poema, quando o poeta afirma: “O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele.”[xi] Aquele que o escreve e o poema, embora sejam realidades díspares, na sua essência, confundem-se numa outra realidade, que é a do poema. Celan, não apenas recusa o mimetismo, como recusa igualmente o bilinguismo da língua[xii], reafirmando a sua univocidade.

Deste modo, tempo e poesia encontram a sua articulação no topos do poema e essa temporalidade é, na sua expressão mais vívida, a experiência da linguagem, no sentido em que o poeta “vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade.”[xiii]. Como quem lança uma mensagem numa garrafa, dirigindo-se essencialmente a um “tu apostrofável”, o tempo do poema confunde-se com aquele que o escreve, como o afirma Celan, absorvendo-o[xiv], mas sustenta-se na frágil linha que se liga ao Outro, lugar onde o Eu se dissipa, libertando-se de si próprio.

Neste modo de pensar reconhecemos o próprio pensamento de Lèvinas, entendendo-se o poema, não apenas como o tempo da “respiração”[xv], como também o da direcção, o pôr-se a caminho do Outro, “falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome de um radicalmente Outro.”(p. 55). No vaivém do Eu para o Outro, o poema auto-sustenta-se na velocidade da respiração ou caminho, através da linguagem. Peter Szondi, amigo de Celan, compreendeu bem essa tripla e essencial função do poema, que ele tão bem analisou em vários dos seus poemas: “linguagem como figura, direcção e respiração.”

Esta caminhada para o Outro corresponde a um reconhecimento do instante desse encontro e as ressonâncias que, aqui, se ouvem, além de Adorno, evocam, também, Schleiermacher, Lèvinas, Martin Buber e Rosenzweig[xvi]. E nesse instante do encontro não há a mínima certeza nem qualquer apoteose, mas o que João Barrento designa por uma “imperceptível mudança de respiração”, o que atesta uma escuta do Outro e do mundo, dando-se num lugar que é já um impossível caminho, para parafrasear a expressão de Celan[xvii], onde as utopias se transformam em tal:

“(…)encontro alguma coisa que me consola um pouco por, na vossa presença, ter percorrido este caminho do impossível, este impossível caminho.

Encontro aquilo que une e como que conduz o poema ao encontro.”

“O impossível caminho de encontro ao outro” constitui-se como o paradoxo – e, enquanto tal, é condição alegórica da poesia - sobre o qual assenta toda a poesia de Celan. João Barrento[xviii] defende que a ancoragem da sua poética já não é o romantismo nem a ontologia de Heidegger, “em que a figura do «Autêntico» tem ainda um papel central.” Quando, nesse contexto da relação com o Outro e na caminhada para ele, Celan fala do poema autêntico, ele afirma: “Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.”[xix] O poema, de acordo com Celan, na sua obscuridade e complexidade, é autêntico. O ofício do poeta constitui-se, como o afirma Celan na Carta a Hans Bender, de acordo com a condição necessária da verdade e do caminho para o Outro. A relação que Celan, nessa carta, estabelece entre “ofício de mãos” e “construção do poema” revela, também, a íntima articulação entre a realidade e a poesia.

A construção do poema obedece à sequência dialógica do Eu com o Outro, do poeta com a Verdade. Porém, essa caminhada, do poema impossível que “fala em nome do outro” é, na sua contradição íntima, uma caminhada na direcção do abismo. Transforma-se no “poema absoluto” que não existe ou na “magestade do absurdo”[xx]. E este absurdo é a lei do poema, tal como o é da tragédia, na desmedida que é a paradoxal fonte de criação poética. Somos levados à conclusão de que a configuração do encontro com o Outro é necessária, na poética de Celan e, para tal, evoque-se aqui a forma do des-inter-esse de que João Barrento[xxi] nos fala, de forma pertinente. Corresponde essa caminhada impossível a uma superação das poéticas do “hermetismo mais puro”, assim como Lèvinas a efectua da fenomenologia e da ontologia. A sua poética não é da “simples ordem de compreensão com os meios da linguagem, é antes anterior a todas as formas de compreensão imediatamente humanas (do verdadeiro humano): o encontro com o Outro.”[xxii]. Procura uma outra linguagem, que se construa como a verdadeira língua, capaz de ultrapassar os limites da linguagem. Poderíamos aí perceber a busca de Celan por uma ideia da criação da “nova” palavra ou palavra poética, a partir de uma relação intensificada entre o hermetismo e a cabala. Todavia, se é possível falar da magia da palavra em Celan, esta magia, no dizer de Yvette Centeno[xxiii], é uma “magia de inversão”[xxiv], pois “a palavra não cria, a palavra reduz ou aniquila”.

Como em Lèvinas (e também em Buber), a presença incontornável do Outro é o ponto arquimediano da sua poética que, embora não se lhe dirigindo, o contém. Daí que exista e, sobretudo, preexista uma dimensão ética que lhe é inegável. Como Barrento o assinala[xxv], será possível colocar a poética de Celan sob a forma de uma “poesia das vítimas”? Ou, para utilizar a expressão benjaminiana, como “salvação dos vencidos da história”? É justamente por isso que nos encontramos no limiar da mudez. “É impossível resistir ao apelo, à convocação imperativa do rosto do Outro, rosto sem rosto, porque, para Lèvinas, ele está para além das formas plásticas. Então, o poema enquanto acontecimento não é um acto da vontade que parte do sujeito, mas, antes, qualquer coisa a que o seu autor se submeteu, como que convocado por um chamamento. “O apelo do outro é irresistível, avassalador”[xxvi], algo que se abate sobre o poeta que, assim, se vê absorvido pelo poema, tornando-se “parte integrante dele.”

Esta é a dimensão ética[xxvii], na qual enraíza profundamente Celan, tomando Lèvinas como seu mestre de pensamento, ainda que não fale dele. Por isso, emergindo da fissura da linguagem, o poema corresponde à abertura do caminho por entre os limites da linguagem, no limiar da experiência do emudecimento.

No magnífico prefácio que João Barrento faz à sua tradução de Sete Rosas mais Tarde, estabelece uma relação íntima e indissociável entre uma poética que – paradoxalmente – se alimenta dessa “relação constante com o Outro” e, em si mesma, tende para o emudecimento radical, que é da ordem de uma poética do inefável, a que preside uma simultânea sacralização e violentação[xxviii] da palavra poética. Esta dupla dimensão opera sobre a poesia de Celan uma tensão que se manifesta no modo como a antinomia a dilacera. Os poemas de Celan querem dizer o horror extremo e o desabar da esperança através do silêncio. Por isso, o seu conteúdo, como o nota A.Guerreiro[xxix], citando Adorno, “torna-se negativo”.

Esse niilismo cósmico de que Yvette Centeno[xxx] dá conta, um niilismo que “anula o tempo e as suas fracturas”, que faz cessar toda a capacidade de nomear e recuar a existência “para o abismo da essência não-diferenciada” parece converter-se na força motriz do poema, numa proximidade com a mística da negação de Jacob Böhme. Como a autora o afirma, “Não há salvação possível na obra de Celan, que não aponta caminhos, não filosofa, apenas lambe feridas que não cicatrizam mais.” Não existe qualquer apaziguamento nessa poesia de um hermetismo que revela um mundo irreversivelmente contaminado, destruído. O hermetismo – e o cabalismo - da sua poesia reforça, através das suas imagens, esse esvaziamento do mundo e, ao mesmo tempo, permite a acentuação da intensidade dramática do real. Veja-se, por exemplo, no paradigmático poema “Cristal”:



Não busques nos meus lábios a tua boca,

Nem diante do portão o forasteiro,

Nem no olho a lágrima.



Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,

sete corações mais fundo bate a mão à porta,

sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.



(continua)

Cortesia PNETLiteratura

Metamorfose e jogo da linguagem na Poética de Zambrano

Incorpórea, a claridade da manhã dança. Quem não terá visto na claridade da manhã, na dança perfeita que é a metamorfose, uma pluralidade de figuras que, desenhadas e desdenhadas, não se corporizam, transformando-se infatigavelmente? Nascem e desfazem-se, enlaçam-se e retiram-se; escondem-se para reaparecer como faz o homem a jogar quando é criança, ou quando joga com esses jogos em que a infância se eterniza.

María Zambrano, O Homem e o Divino, p. 41.



Hamann diz: «Tudo o que o homem ouviu no começo, viu com os olhos [...] tocou com as suas mãos, era [...] palavra viva; pois Deus era a palavra. Com esta palavra na boca e no coração, a origem da linguagem foi tão natural, tão próxima e tão fácil como um jogo infantil.

Walter Benjamin, G.S., II, 1, "Sobre a Linguagem em geral e sobre a linguagem humana", p. 151.



O que pode ligar Hamann a María Zambrano? Que elos misteriosos são esses que iluminam a compreensão da poética de Zambrano e aproximam a concepção de Hamann a Zambrano? Se o jogo infantil se desenha no círculo mágico que ele próprio cria, revelando uma leveza e uma liberdade inéditas, a passagem citada alude precisamente a esse "espaço mágico" que a linguagem configura como um jogo de passagens e metamorfoses inesgotáveis. Só a linguagem entendida como Revelação, no sentido hamanniano[1], nos transporta para o espaço "irrespirável" do jogo. Esse é o lugar "estranho" - e quase inabitável - onde se dá o encontro com o pensamento de María Zambrano. Sem dúvida inquietante e perturbadora, a escrita da autora entranha-se na pele, arrasta o leitor, seduzindo-o, também, pela intensa carga poética da sua linguagem. Nela, as imagens convocam a clareza do pensamento, desafiando ao diálogo permanente. O pensamento de María Zambrano é, também e como Hamann, profundamente imagético e eivado do seu poder potenciador. Desta forma se fundam os lugares da linguagem, irrompendo como o fluxo da razão poética na sua escrita, imagens e conceitos entrelaçados que possibilitam a criação de novas topologias. A linguagem aparece como "desvendamento" ou desvelamento[2] do mundo, sinal e abertura, urgência do sentido. Neste umbral do pensamento e da poesia encontramo-nos suportados e, ao mesmo tempo, suspensos, adiados pela linguagem, pelo seu poder metamórfico. Vivificadora do pensamento filosófico, a poesia é a voz matricial que cava o seu sulco na sua linguagem. E, mais do que uma apresentação do mundo, a sua filosofia constitui-se como uma visão da linguagem, ou seja, o fio condutor que percorre toda a sua obra.

Posicionando-se de forma crítica face ao pensamento moderno e ao naufrágio da esperança moderna, o que ressalta é o profundo amor que María Zambrano devota às coisas, numa tarefa de devolver à matéria e a tudo o que nos rodeia a sua voz, a sua fala íntima, num recuo até ao contacto primitivo, arcaico. Trata-se, como compreenderemos ao longo desta comunicação, de habitar a linguagem, de construir nela a morada do pensamento e da vida, em simultâneo, distanciando-se de um ponto de vista estritamente objectivo e redutor do pensamento, para volver a um estado originário da palavra e do pensamento, em que a violência do gesto filosófico ainda não escavara a sua fractura. Porém, se habitar a linguagem ou procurar a clareira do bosque[3] é, sem dúvida, a vocação primordial do escritor, à qual ele não pode escapar, sabe, no entanto, que se submete ao perigo, abandonando-se às suas flutuações e detendo-se no limiar na escuridão, onde apenas tem acesso a fugidias sombras, questionando-se permanentemente sobre o que o espera. Nesse arrebatamento que lhe é próprio, assume a sua força, assim como as suas contradições e os limites. Ele conhece profundamente o modo como lhe resistem essas potências e tensões não domesticadas da linguagem, sabe que pode sucumbir à vertigem da luta com o anjo e arriscar-se à perda de si e ao embate com as resistências do pensamento e da linguagem. Como Zambrano o afirma[4], “a clareira do bosque é um centro onde nem sempre é possível entrar; da extrema, olha-se para ela e o aparecimento de algumas pegadas de animais não ajuda a dar esse passo. É outro reino que uma alma habita e guarda.” Tem-se dela um conjunto de indícios: pegadas de animais, o grito de um pássaro, um segredo que o bosque guarda, no seu silêncio. Todas as perguntas que se fazem, na veloz perseguição desse centro, se quedam inúteis. A procura revela-se, também ela, sem efeito. É preciso estar atento, aberto à escuta, suspender o conhecimento objectivo, suspender as imagens, os conceitos, para que a voz, a voz descontínua, sem tempo, o leve a um tal lugar sagrado. Onde a respiração leve da luz o conduza e lhe dê guarida, perto do coração animal.

Da mesma forma, escrever é, como o diz a autora, “descobrir um segredo e comunicá-lo”. E este segredo revela-se ao escritor visitando-o, na sua solidão incomensurável. Porém, “o segredo revelado” permanece no seu enigma, não se torna mais explícito[5], pelo facto de ser revelado. É, todavia, o destino do escritor, “aquele que tropeça primeiro na verdade”, mostrar aos outros, para que a decifração possa nascer desse enigma. Trata-se, assim, de um puro acto de fé e de fidelidade, nascido da solidão daquele que escreve.[6] Deste modo, é necessário percorrer um trilho oculto no corpo da linguagem e, ao mesmo tempo, necessário perceber o modo como a voz visita inesperadamente o pensamento. Aquele que escreve é, também, o que escuta a voz que o visita. Dá-lhe forma, configura-a. É, ainda, preciso acreditar que, um dia, a escrita há de encontrar a justeza da palavra, do modo de dizer, resgatando as coisas ao silêncio da matéria. E essa fidelidade, a mais elevada capacidade de resgatar o traço ou vestígio mínimo, reclama a purificação das paixões e da vaidade, desfiguradora da verdade[7]. Reclama uma pobreza essencial que convém às coisas, na sua autenticidade, um olhar que se pretende límpido e cristalino. E que é convocado pelas próprias coisas.

Profundamente alicerçada no pensamento de Ortega Y Gasset, de quem foi dedicada discípula, e admiradora do pensamento de Unamuno, Zambrano deve-lhes a sua ampla compreensão da modernidade filosófica. Já Ortega Y Gasset denunciava a arrogância do racionalismo: “Em lugar de situar-se perante o mundo e recebê-lo na mente tal como ele é, com as suas luzes e as suas sombras, suas serras e os seus vales, o espírito impõe-lhe um certo modo de ser, o que faz imperar e violenta, projectando sobre ele a sua subjectiva estrutura racional”[8]. Assim, o racionalismo, ao formar ideias das coisas, constrói ideais a que estas se devem ajustar, pela legislação do pensamento. Esta crítica de Ortega ao racionalismo marcou, desde cedo, o pensamento da jovem filósofa, pelo facto de o pensamento ter perdido de vista a unidade última do universo. Para María Zambrano, a realidade não era só o que o pensamento conseguira captar e definir, mas também essa outra coisa que escapa ao conhecimento, a inserção do homem no universo. O racionalismo nada pode contra as forças indomesticáveis da natureza, regidas pelas misteriosas leis da metamorfose e do devir, irredutíveis, como se sabe, à lógica.

Nómada incansável, na sua condição de exilada durante 45 anos, María Zambrano transcendeu o olhar próprio da mulher da sua época, confinada ao país conservador e profundamente católico que era a Espanha. Arte, literatura e poesia constituíram os seus grandes alimentos espirituais, desde a mais tenra idade, contribuindo para uma visão universal da cultura e do pensamento. Por outro lado, o contacto com a obra de Zubiri[9] e com a sua “penumbra tocada de alegria” (que dá título a um ensaio notável de María Fernanda Henriques), ensinou-lhe que o pensamento não pode existir desligado das coisas e fez com que a autora perseguisse a sua própria voz, reclamando a descoberta da unidade do mundo e da pertença recíproca das coisas entre si. De acordo com María Zambrano, com respeito à actividade filosófica propriamente dita, esta culmina numa contradição que faz perigar a coerência. Se, de facto, o filósofo é aquele que sente uma urgência de verdade, todavia essa urgência não parece habitar a vida. A verdade, tal como o racionalismo a defendeu, sustenta-se, sobretudo, num acto de ascese e de renúncia da vida. Nesta compreensão das formas íntimas da vida, Zambrano aproxima-se bastante da posição nietszcheana, defendendo a aceitação da vida em toda a sua contradição e da existência como padecimento, em lugar da ascese racionalista.

Esta redução (antes uma erosão) racionalista atinge o seu clímax com o cogito cartesiano, em que Descartes faz equivaler o sentir ao pensar. Uma irredutível estranheza entre a poesia e a filosofia parece estar no cerne da modernidade, como um abismo impossível de transpor. Inconciliáveis são a razão, capacidade lógica e objectiva de pensar, com o universo das emoções e do sonho, da poesia e da arte, ainda que Zambrano reconheça nestas últimas uma visão mais abrangente do mundo. A ligação primordial do homem com os deuses, esse trato arcaico e que garantia ao homem a possibilidade de ser olhado e reconhecido, aparece desfeita à luz da crueza do olhar da modernidade, como aparecem abalados, também, todos os pressupostos que permitiam a integração do homem na unidade cósmica. O desespero da condição moderna, na mais absoluta ausência do sagrado, mostra-nos que o homem moderno não sabe viver sem os deuses e essa é a sua grande tragédia. No mundo moderno não há lugar para a fé, mas o homem também ainda não aprendeu a viver sem ela, o que o atira para uma solidão irremediável.

O que pretendo é, precisamente, averiguar a razão de ser dessa intransponibilidade, da estranheza entre poesia e filosofia, por um lado e, por outro, "descobrir" a proposta zambraniana para a regeneração do pensamento, enquanto integrador da poesia, da emoção e da musicalidade da linguagem. Proposta que se encontrava, de resto, em Hamann e que está bem patente na sua crítica a Kant. A proposta de Zambrano é a de, precisamente, não rejeitar a poesia, para que todas as realidades se acolham, numa nova unidade. O caminho percorrido pelo poeta passa, não só por “sentir a ferida de cada amanhecer”[10], mas por ser ele próprio, poeta, uma ferida aberta ou uma fenda, o que significa também constituir-se como abertura para “a entrada da luz como uma ferida”[11] da linguagem e do real. Para Zambrano, esta abertura só é possível graças a um movimento de concentração do espírito, de atenção, como ela própria o defina, na sua obra De La Aurora: “a atenção é uma ferida sempre aberta. E da ferida tem a passividade, o ser chaga(…) o estar como uma cavidade vivente conformada para receber a realidade”. Mas esta capacidade de visão e de escuta do mais íntimo rumorejar da criatura só pode ter lugar pela abertura do coração, enquanto órgão capaz de (re)ligar a emoção e o espírito. Entranha entre as entranhas, ela ocupa um lugar privilegiado no reconhecimento, tanto da interioridade do corpo, como da exterioridade e relação com o mundo. O coração é o centro, tanto do animal, como do homem e, embora o homem não se detenha para o ouvir, é o incessante soar do seu coração que o sustenta e o mantém vivo, que suporta a unidade de ser existente que ele é. Porém, é a escuta silenciosa que o dá a ver na sua pulsação, como centro activo, submetido ao curso contínuo do tempo e da vida. Como o salienta Maria João Neves, a influência do sufismo e da teoria mística de Ibn Arabi[12] teve imensa importância na obra de Zambrano. A sua concepção de amor como a teoria do papel preponderante do coração, enquanto lugar primeiro do conhecimento, constituíram-se como dois eixos fundamentais da sua obra. Superando a aridez da consciência, o coração é capaz de submergir nas profundezas do humano e das criaturas, escutando-lhe o canto primordial. Trata-se de um nível de realidade a que a consciência não tem acesso, como ao sonho e ao verdadeiro conhecimento da luz[13], da música e do tempo.

Mais do que a visão, é a escuta e a sensibilidade que determinam os lugares do conhecimento. Metáfora que convoca o vitalismo e a organicidade do conhecimento, o coração remete para um conhecimento interiorizado da realidade, que lhe advém de um saber do tempo, onde ocorre a sua desformalização. A sucessão, enquanto critério, e suspende-se para dar lugar à dimensão da eternidade do instante[14]. Aí, nesse “lugar” ou “clareira do bosque” dá-se o encontro, unindo o conhecimento e a vida. O acontecimento da passagem, limiar onde se fundem a vida e o conhecimento, só pode ser compreendido a partir dessa unidade onde se enlaçam a carne e o espírito, na sua imanência. Ao privilegiar a via do coração, María Zambrano anuncia, desde logo, a primazia do pensamento poético ou aquilo a que ela chama a razão poética[15]. Aquilo a que María Zambrano aspira é a um saber que conjugue poesia, filosofia e a história. Maria Fernanda Henriques, no seu ensaio “A penumbra tocada de Alegria”[16], define o campo hermenêutico em que se inscreve o conceito de razão poética, subjacente à obra da autora como “o elemento sustentador dos escritos de María Zambrano”. O que importa, então, referir aqui, é precisamente, o lugar privilegiado que a poesia ocupa, para María Zambrano. O valor ontológico e existencial da poesia como um lugar de eleição para exprimir a relação entre ser e existir, é inestimável para a filósofa. Como o nota Maria Fernanda Henriques, a partir da leitura de Sentiers, “é a poesia que traz ao sentido e à linguagem o seu substrato originário e fundante”.[17] Esta protecção da poesia, relacionada com a figura paternal da língua, constitui-se como um “enraizamento estruturante”[18], no sentido em que descobre a pertença da linguagem e do sentido à cultura e tradição, às formas íntimas da linguagem.

Apenas o poeta detém o saber imoderado das coisas, pois só a ele lhe é dado um olhar encantado sobre o real. A sua lucidez (que tão paradoxalmente nasce do delírio) alcança a musicalidade que vibra no coração do mundo, desde a mais ínfima criatura ao mais elevado ser. Perseguido pelos deuses, mensageiro do divino, ele é tomado pelo arroubo e pelo delírio[19], que pode ser, também, a mais elevada forma de conhecimento. Do fundo do olhar dos deuses espreita a desmesura. Por isso, como nos diz a filósofa[20], “mergulhar no sonho é a origem da música e da poesia. Mergulhar no sonho é delirar. Há uma sabedoria do sonho, não reconhecida pela razão do homem acordado, adivinhação.” Longe do ruído e da fala, a linguagem poética nasce do silêncio e do sonho, desse trilho onírico que o homem percorre sem freio, na procura da voz genuína, nascida do segredo divino. E, ao invés da violência com que se instaura a questão filosófica, rasgando o coração das coisas, a poesia é um acto de amor, de escuta silenciosa. Porém, como ela própria o afirma, em “Pensamento e Poesia”[21], “Não se encontra o homem inteiramente na filosofia nem na poesia. Não se encontra a totalidade do humano em nenhuma dessas duas formas que inteiramente o reclamam. Este lamento percorre a maior parte da obra de Zambrano, que luta por religar essas duas formas de logos ou de pensamento. Enquanto que na poesia encontramos o homem concreto na sua individualidade, na filosofia, o homem na sua história universal, no seu querer ser. A poesia é encontro, dádiva, achado pela graça, resposta, embora se apresente como pergunta. A filosofia é busca, pergunta guiada por um método (…)”. María Zambrano pretende mostrar, nos textos que dedica a essa separação dicotómica, que não tem de resolver-se exactamente assim, mas que é possível e louvável encontrar uma forma mediadora que entrelace novamente filosofia e poesia. Nem sempre essa separação ocorreu, como há-de ver-se ao longo deste texto. A sua reconciliação é desejável por ser a única forma capaz de apaziguar o coração e acolher o homem na unidade originária.

Condenada pelas acusações de Platão, a poesia permaneceu, durante muito tempo, nos arrabaldes do pensamento. Na verdade, o que temiam os filósofos? A inquietação e o arroubo da linguagem, a sedução do efémero e a falsificação da realidade. O embate contra a sedução da poesia, enquanto intensificação da experiência, procura a solidificação do conhecimento, a sistematização e a ordem da cidade, que tão ciosamente procura Platão na República. O inquieto dorso da linguagem poética, prometendo na sua cavalgada o êxtase e a desmedida, perturbava os que apenas discerniam na ascese e na purificação das paixões a via de acesso à verdade. O ilusório canto da poesia desfazia a ordem vigente, pondo em causa a objectividade disciplinada dos que defendiam a polis. Perante a justiça, a poesia representa o engano, no sentido em que é mito, relegada para a categoria de “sombra de uma sombra”. Adormece e amolece a razão. Além disso, a entrega ao hedonismo e ao excesso dionisíaco, a transgressão poética, fazem perigar o bem comum, afirmando a liberdade individual e ilimitada. O que se estranha é o facto de Platão, que tão veementemente condenava a poesia, tenha recorrido frequentemente ao mito e à linguagem poética e metafórica para explicar o seu racionalismo.

Mendigo e amante da multiplicidade e da aparência, o poeta persegue a miragem, o fulgor do efémero. Isto é o que afirma Platão. Porém, com outra questão interpela-nos Zambrano, “acaso ao poeta não importa a unidade das coisas, a identidade da essência?”[22] Que fidelidade importa a cada um deles, filósofo e poeta? Parece que a poesia parece incorporar, por excelência, a abertura ao todo, à totalidade do real, preservando-lhe, no entanto, o mistério, enquanto que a filosofia luta e enfrenta essa totalidade como um problema a desvendar. Ao poeta o que importa é dar voz ao seu enamoramento pelas coisas e pelas criaturas. Afeiçoando-se às coisas e ao detalhe, seguindo os seus vestígios no labirinto do tempo, ele sente que lhe é impossível renunciar ao mundo e à sua multiplicidade, à modulação do canto. Colhendo o derradeiro fulgor do instante, o seu olhar melancólico luta por devolver a esperança ao mundo, revesti-lo de encanto. Pela fidelidade ao que já tem, pelo amor à matéria, ele não se lança na busca do invisível e das ideias, mas vive na espera da restituição originária, suspenso da linguagem e do rumor do mundo.

Este amor pela matéria esconde a mais dolorosa ferida na carne[23], a percepção agónica de que tudo se encontra votado à morte[24]. Por isso, ele é escravo, refém das coisas, não se encontrando em défice, como o filósofo. A sua alma vive prisioneira do delírio, pois é através dele que alcança a sua vida e a lucidez[25]. Ele consome-se, ardendo na chama da sua própria paixão, inebriado e escravo dela, quer delirar porque sabe que é nesse delírio que se encontra a pureza originária da palavra. Imerso no fluxo desse canto único e irrepetível, sabe que é “na música onde mais suavemente resplandece a unidade”[26], pois ela é o resultado de uma harmonia, composta pelos instantes fugazes. Esta unidade da música, ela própria efémera na sua natureza, é uma unidade de criação, atravessada pelo sonho. Com os sons dispersos e passageiros, tão voláteis quanto o vento que passa, constrói-se a unidade. O poeta, como o músico, dança com a metamorfose, capta o mais volátil instante, percorre o íntimo voo do tempo, tanto quanto humanamente lhe é possível. Esse tempo é o tempo nascente, “que brota sem figura nem aviso”, que “não alberga nenhum acontecimento”, mas que é um “tempo único, nascente em sua pureza fragante como um ser que nunca se converterá em objecto; divino”[27]. Entre a fantasmagoria e o sonho, a unidade criadora é-lhe dada, como um dom ou uma dádiva. Pois aquele que sonha mantém-se na periferia de todo o universo[28], imerge na vida e entra em consonância com o ritmo cósmico, passando a fazer parte de uma unidade verdadeira e longe das armadilhas do tempo contínuo.

A criação e o sonho enlaçam-se na poesia insinuando-se como a mais absoluta via de acesso ao conhecimento do eu, em María Zambrano. Se a vigília nos transporta à realidade e à dimensão da temporalidade contínua, assim que se entra no sonho e no seu espaço vazio, entra-se no absoluto[29], na total insubmissão às leis da temporalidade contínua. O que se verifica é a suspensão, a epoché do tempo sucessivo. Abolido o fluxo da continuidade, são também banidas as habituais correlações estabelecidas pela sucessividade. A vida dá-se, então, como abertura à dimensão mais autêntica do tempo e à criação, padecendo o homem da sua própria transcendência.

Vimos, assim, como a relação da linguagem com a música é fundamental, na concepção zambraniana. Não menos importante é a relação daquela com o tempo, especialmente no caso da poesia. Tal como aquele que dorme e sonha, o poeta acolhe-se numa unidade que é de outra ordem, visceral e autêntica. E nessa visceralidade palpita a vida verdadeira, no seu retorno às forças da criação. O poeta abandona-se ao fluxo da multiplicidade, fez-se abertura, fenda, nesse espaço aberto que rodeia toda a poesia e onde o poema lhe é ofertado como um dom. Por isso, pelo facto de não ser perseguida, a unidade do poema revela-se mais imediatamente. E o poema funde-se com a vida, com o quotidiano. A unidade desejada pelo filósofo nasce da violência, da ruptura com a origem, com a inocência. Ainda que em ambas, poesia e filosofia seja a admiração a origem do questionamento, a filosofia cedo segue um caminho bem diferente da poesia. O filósofo concebe a vida como uma perpétua vigilância[30], como uma suspeita, face ao poder da metáfora. Ele nunca abranda a sua vigília. Contrariamente à paixão e ao delírio do poeta, ele afasta de si o canto sedutor, quer escravizar e domesticar a palavra, tomar a decisão e responsabilizar-se por isso. Trata-se, assim, de uma abertura ética, face à responsabilidade humana. Daí também a acusação platónica da irresponsabilidade do poeta. A vigilância da razão e a lucidez são estranhas ao poeta. A luta com a razão e a linguagem, a exigência da luz do conhecimento são-lhe alheias. E, contrariamente ao poeta, o filósofo desdenha as aparências, o logro e as sombras, porque as sabe perecedouras. Desta melancolia escapa o filósofo pelo caminho seguro e sereno da razão. Esta, acerada como uma lâmina, repõe a ordem e a clareza do raciocínio, no mundo onde a esperança é ilusória. As palavras de Platão são de uma clareza inexcedível. Existe uma profunda contradição entre o homem que segue, na sua alma, a razão e aquele que segue a paixão. E aquilo que é mais irrenunciável à poesia é precisamente o aguilhão da dor, o sofrimento. Por isso, a poesia quer perpetuar a sua memória, que nutre a sua melancolia.

Para o filósofo, a paixão e o sofrimento são banidos do seu horizonte, dando lugar à tranquilidade da razão. Ora, a poesia ameaça a conquista da filosofia, esse trato fundamental com a esperança. Ameaça a pureza do logos e da justiça com o frenesim das paixões e o excesso imoral da carne. Pior do que isso, a poesia, tendo sido essa experiência intensificadora da carne, eternizou-a e fixou-a numa unidade. Esse foi o atrevimento maior do poeta, para o qual o filósofo olhou com horror. Não apenas uma perigosa irracionalidade, como a expressão da contestação do logos, a rebeldia da palavra afirmando-se como verdade.

No diálogo Fédon, Platão levou ao extremo a recusa do corpo e a afirmação da sabedoria como um combate implacável contra a tentação da carne. A alma vive prisioneira desse cárcere que é o corpo. Para se manter fiel à razão, o prisioneiro deve fazer-se inimigo da sedução da paixão e dos sentidos. A alma deve sofrer a renúncia ascética, num esforço sobre-humano. Eternidade, imortalidade e unidade são os fios da entretecedura em toda a busca filosófica, desenhando o mapa da apresentação platónica. A ideia da existência e da vida como naufrágio, porém, não é platónica, mas tem uma origem órfica. Platão não faz mais do que aquiescer, procurando-lhe o fundamento que a legitime.

A esperança já não se encontra neste mundo das aparências e da multiplicidade, no sulco da beleza que exalta o poeta, mas num mundo invisível que aparece como uma promessa para além da vida. Por um paradoxo, cujas terríveis consequências se irão arrastar até aos dias de hoje, devorando toda a tradição do pensamento, a filosofia apenas reconhecerá na razão o seu arquétipo. O homem é arrancado a si mesmo e à natureza, para conhecer a irreversível solidão do pensamento. E esta, nascida da rarefacção do pensamento, é alvo de uma reconquista, de uma luta árdua que ele trava contra o aguilhão da carne. A alegoria da Caverna, que justamente procura na força da metáfora a intensificação da escrita, assinala a despedida, o adeus do prisioneiro, forçado a libertar-se das cadeias que o retêm contra as sombras. A dialéctica platónica é a virtude suprema, e o homem é colocado no mais doloroso embaraço: o de não saber como andar ou o de ter de prosseguir contra todo o consolo, caminhando em terra de ninguém. Irredutivelmente estranho face a tudo, cego perante a luz que o fere de conhecimento abrupto, cego também para o mundo das sombras que lhe era familiar. O irreconhecimento dos seus iguais é tal que estão a ponto de matá-lo. Violência e aspereza, eis os acicates que movem o filósofo, uma hostilidade inóspita, já que a esperança está morta para ele. Já não depende dos deuses, mas vê-se inteiramente só.

Platão sabe que é impossível aniquilar a força mais pujante da poesia lírica grega: o amor. A par da catharsis e da destruição das paixões, pela criação de uma mística da razão reforçada na República, em prol da ordem e da justiça, e no Fédon, em nome da imortalidade da alma e do conhecimento, sabe, no entanto, que o amor é a questão verdadeira[31]. E que o amor “é coisa da carne; é ela a que deseja e agoniza no amor, a que por ele quer afirmar-se perante a morte.” Por si mesma, ela vive imersa, mergulhada na dispersão e na multiplicidade, mendiga da beleza sensível. Porém, a carne redime-se através do amor, o que a eleva à unidade. Platão não o nega e, por isso, consagrará ao tema do amor dois diálogos que são, eles próprios dois caminhos apontados; um, o da beleza; o outro, o da criação. O primeiro é objecto do diálogo Fedro, o segundo do Banquete. Só esses caminhos possibilitam à carne a sua redenção. Mais uma vez, a filosofia insinua-se como esperança salvadora, oferecendo alternativa à poesia. O desejo carnal será, assim, salvo pela filosofia. A poesia escrava da carne, submetida à paixão, não é capaz de, por ela própria, alcançar a unidade. Perder-se-ia, algures, nos meandros da dispersão. Pura contradição, ela atormenta o poeta, leva-o à irremediável aniquilação, pelo excesso que comporta, num processo autofágico.

Sabemos, nós, que a poesia se sustenta nesse convénio com a carne, que vai entrando no seu interior, apoderando-se dos seus segredos e tornando-a diáfana, espiritualizando-a. Essa é a redenção do poeta, cujo olhar se enamora perdidamente da beleza sensível e a faz esplendorosa. Desse saber das entranhas, errante, estranho à filosofia, ele é capaz de lhe alcançar o canto, a música e a imagem poética, numa unidade tecida pela lentidão do sonho. Não há falta no poeta, no seu coração, pois ele é servo humilde da multiplicidade esparsa, que lhe cai em sorte. Porém, nunca pode salvar o amor da dispersão.

Contrariamente procede o filósofo, angustiado, incompleto na sua natureza. Toda a teoria do amor platónico assenta na irremediável separação do corpo, no seu exílio. E se, por momentos, o clarão da beleza visível lhe acena, esse rasgão mais não faz do que apontar para a unidade da beleza, ideal. Para a filosofia, o amor só pode ser salvo desta forma da sua dispersão. Isso, a unidade do amor e a sua indestrutibilidade, o cristianismo há-de agradecer-lhe, de forma gloriosa. O rastro do platonismo na poesia mística é, sem dúvida, incomensurável. Mesmo no amor profano, a expressão do mesmo era platónica. Graças a Platão e ao platonismo, “o amor teve categoria intelectual e social e pôde amar-se sem ter sido um facto escandaloso”[32].

O amor exige a distância, a renúncia. A ausência é o sulco secreto da poesia mística, a verdadeira razão para que ele possa ser cantado. O perfume imaginado dos cabelos da amada, uma certa forma de sorrir e olhar, todos esses detalhes que movem o amante e o arrastam no desamparo, face à sua ausência, eis o que alimenta o poeta, o que o faz sonhar e o deixa escravo do desejo. Ao poeta não lhe são concedidos senão os traços fugidios e esquivos da amada, o indício da sua presença. Tudo aquilo que a rodeia se transforma, adquirindo a aura da sua presença: árvores, rios, flores, lugar. Tudo é metamorfoseado pela luz secreta do amor e do desejo. A distância agudiza-o e, mais do que isso, nutre-o. O objecto inalcançável nunca deixa o desejo consumir-se, mantém-no vivo.

A época em que a filosofia e a poesia mais se enlaçam é, sem dúvida, durante o Romantismo. Igualmente excessivas e velozes, tomadas pelo êxtase e pelo delírio, “não aspiram ao absoluto porque se crêem já dentro dele. Ambas se sentem como uma revelação transcendente”[33]. Ambas comungam da crença de que tocam o divino. Vista essa relação apaixonada com suspeita, hoje, no entanto, há que reconhecer-lhes a grandiosidade da criação. Victor Hugo, em França, mas também a incontornável geração alemã composta por Novalis e Hölderlin, onde a expressão dessa reconciliação alcançou o seu clímax.

Mas não é, ainda, a poesia, por si mesma, que pode servir de modelo ao pensamento de Zambrano, mas um cruzamento ou uma síntese entre o logos filosófico e o logos poético. Essa síntese resolve-se na palavra, sulcando os veios e as raízes mais fundas da tradição, nesse lugar do subsolo do pensamento e da linguagem onde todas as raízes se cruzam e se agarram à terra. Num texto sibilino, de Clareiras do Bosque, Zambrano fala da palavra, no seu modo mais fecundo, ligado ao saber da terra: “À maneira da semente esconde-se a palavra. Como uma raiz quando germina que, no máximo, levanta a terra levemente, mas revelando-a como casca. A raiz escondida, e até a semente perdida, fazem sentir o que as cobre como uma casca que há-de ser atravessada.”[34] Essa palavra que há-de germinar, desprender-se da sua casca e brotar do solo, nasce profundamente enraizada no solo da tradição, constitui-se como anúncio, tem uma natureza profética, que antecipa a aurora da linguagem. Nesse belíssimo texto, Zambrano fala da linguagem liberta como voo pleno, o voo que há também na dança e no canto, na descoberta da partilha entre os homens, a “festa da linguagem”. “O conhecimento puro, aquele que nasce da pura intimidade do ser, que, ao mesmo tempo o abre e o transcende, o “diálogo silencioso da alma consigo mesma” nasce, precisamente, da palavra única e indizível, a palavra liberta da linguagem”[35]. Escuta e diálogo entrelaçam-se, assim, para dar lugar ao regresso às coisas mesmas, o modelo que servirá de mote ao pensamento de María Zambrano, sem dúvida, um regresso pelos atalhos mais ocultos do bosque, onde a luz da aurora entra de mansinho, nas veias da escuridão, suspendendo a inexorável passagem do tempo, para aceder ao instante da eternidade, na clareira do bosque. Nela tudo se acolhe, tudo se reconhece, na claridade e no silêncio da alba que desponta.

Por Maria João Cantinho

Cortesia de PNETLiteratura

Poesia Urbana – de novo a voz de Valete

A Mentira do Vosso Amor

A Mentira do vosso amor
Está na fonética da própria palavra que tu banalizas diariamente
Eu nunca amei com o vosso amor
Eu sempre deixei o bater do meu coração compassar os meus movimentos

Hoje chamam-me de sonhador
Porque eu trago comigo os vossos sonhos para realizá-los antes que o Sol se aposente
Eu apenas quero o calor
Do teu abraço quando a vitória chegar e nos deixar seguir em frente

Não é amor esse amor que me entregas timidamente
Não é amor esse sorriso que nasce hipocritamente
Não é amor esse amor que fazes selvaticamente
O amanhecer vos deixará mais diferentes e indiferentes

Meu amor vem da agonia dessa mulher que te venera
E vem da melodia da balada mais sincera
Meu amor vem desse Inverno que te oferece a primavera
Meu amor vem desse amor que ainda te espera

[Micro-biografia: Balanço de um percurso pela música, na primeira pessoa:

«Setembro de 2002, saiu o meu primeiro álbum “Educação Visual”. Foi pesado, superou qualquer expectativa que pudesse ter. Recebia props de norte a sul do país. Senti mesmo que tinha feito algo importante para o rap português.

Em 2004 pela Horizontal, lançámos Poesia Urbana vol 1, fiz para essa compilação um som chamado “Fim Da Ditadura”. Senti que foi um som que também que teve muito impacto, inclusive pessoas muito distantes do HipHop, vinham-me falar desse som, e de como aquela música lhes tinha tocado. Esses elogios iam-me deixando cada vez mais confiante, comecei a acreditar mesmo que fazer rap, era quase como uma missão para mim. Devia isso às pessoas que me seguiam.

Em 2006, saiu o meu segundo álbum “Serviço Público”, o álbum teve um impacto bem para além da esfera do HipHop. Foi eleito pelos leitores do Blitz como uns dos 10 melhores álbuns de toda a música portuguesa em 2006, e foi também considerado por várias publicações como uma referência da música de intervenção em Portugal. O videoclip Anti-Herói teve 4 meses no top 20 dos videoclips mais votados da MTV, e sons como o “Roleta Russa” andavam na boca de toda a gente. Com o “Serviço Público” percebi mesmo que não era um mc só para “HipHoppers”. Senti mesmo que tinha esse dom para fazer rap comunicativo e para chegar com facilidade a todas as pessoas.]

Estou agora a trabalhar no meu 3º álbum. Para mim será quase como um início porque nesta altura sinto que estou na minha melhor forma de sempre, e quero mostrar ás pessoas toda a minha versatilidade no rap. Depois do álbum, virão concertos, e mais projectos ligados à Horizontal. Acreditem, agora é mesmo um só caminho.»]

Cortesia de PNETLiteratura

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