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Retrato de Alberto de Lacerda

Num país sem tradição de biografias literárias, Luís Amorim de Sousa cometeu a proeza de fazer o retrato do seu amigo Alberto de Lacerda. Verdade que um retrato não é uma biografia, mas Às Sete no Sa Tortuga vai com certeza ser saudado como embrião de uma obra de maior fôlego.

Lacerda e Amorim de Sousa foram amigos durante décadas. Conheceram-se em Londres, no café Sa Tortuga de King’s Road, creio que em 1960. (O encontro coincide com o regresso de Lacerda a Londres depois de uma temporada no Brasil.) E ficaram amigos para a vida.

O livro lê-se num ápice, tanto pela escrita fluente do autor como pelo sortilégio que emana da figura de Lacerda, alguém que, e são palavras de Eduardo Lourenço, «sob o silencioso desdém ou a fulgurante ironia poucos adivinhariam que Alberto de Lacerda era [...] um exilado de si mesmo, escolhido com infalível mirada pela musa exigente da pura melancolia e da liberdade.» (cf. Alberto de Lacerda. O Mundo de um Poeta, Lisboa: Gulbenkian, 1987) Amorim de Sousa tem a vantagem do happy few entre pares. Quando se conheceram, Lacerda tinha quase dez anos de Londres. A diferença de idade — Lacerda nasceu em 1928, Amorim de Sousa em 1937 — não foi obstáculo a um convívio que sobreviveu às naturais atribulações da vida literária.

Londres foi o ponto de encontro e despedida de ambos. Amorim de Sousa foi a última pessoa que viu Lacerda antes de morrer, no Chelsea and Westminster Hospital, a 26 de Agosto de 2007, um mês antes de completar 79 anos. Na véspera, tinha sido descoberto em coma pelo seu amigo John McEwen, crítico de arte, que o fora buscar para almoço. Um ataque de coração em simultâneo com um derrame apagaram subitamente o autor de Palácio (1961).

Amorim de Sousa faz justiça às peculiares idiossincrasias de Alberto de Lacerda. Acompanha o seu trajecto por Londres, o período americano (primeiro em Austin, depois em Boston), o regresso a uma Londres “desumanizada” e as graves dificuldades materiais dos últimos anos.

No momento em que a Assírio & Alvim e a Fundação Mário Soares dão à estampa os primeiros volumes da Colecção Alberto de Lacerda, sendo um deles O Pajem Formidável dos Indícios, colectânea inédita de poemas escritos entre Outubro de 1995 e Janeiro de 1997, neste momento, dizia eu, o retrato do poeta feito por Amorim de Sousa tem todas as condições para chamar a atenção para a obra de um poeta que foi sempre estrangeiro na sua própria terra.

Eduardo Pitta

Cortesia de PNETLiteratura

Al Berto: a dramaturgia do silêncio

Lêem-se versos como – “A memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do homem, hirta como uma sombra num sonho” – e a questão que imediatamente se coloca é esta: que fronteiras traçam estas imagens? Porventura, delimitarão espaços onde se digladia o teor que faz esta escrita ser uma poesia que diz, mas que diz, mostrando, ao mesmo tempo, a carne viva que dita a urgência de ter que dizer. Daí que não haja, muitas vezes, tempo para instalar os andaimes da retórica e a voragem – o ritmo largo – acabe por se sobrepor à lentidão estudada e depurada da sintaxe e das imagens límpidas, noutras atmosferas sempre muito polidas, trabalhadas e determinadas pela pose literária.

Al berto está longe dessas oficinas almofadadas onde o arear da poética é um moldar quase solene da prata. Mas isso não significa que o tom filigrânico não ressurja no meio do impetuoso caudal: “tuas mãos de neve”, “luas incendiadas”, “os lábios incendeiam-se com vinho” – ou ainda – “cintilam peixes pelas paredes do quarto” – são disso óptimo exemplo. Imagens com figurações da intimidade, figuras de fogo, fisionomias do excesso.

Se aliarmos a disposição pioneira e “vitalista” de Al berto – tal como seria chamada no final dos anos noventa – a textos como os de “obsessividade íntima”[1] de Herberto Helder ou da “art brut”[2] de Joaquim Manuel Magalhães, entramos num mundo de metamorfoses e de abismos matéricos. Os exemplos de Mar-de-Leva (1980), que continuamos a revisitar desde o “Ponto de Mira” de há duas semanas, falam por si: “O sal tornou-se rubro e cospe flores…”, “na memória ficaram os sinais dos bosques ceifados…”, “para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora…”, “da água enfurecida irromperá o desasatre” – ou, num tom de glorificação trágica: “na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição”.

Esta glória semeada no coração do abismo dita uma outra característica de Al berto: o propósito dramatúrgico que envolve o relato como um água que se insinua, revolta, num aquário em permanente clímax. As vozes realmente interpelam, interrogam e contracenam com a densidade crua do Eu. Vozes de segunda e da primeira pessoas debatem-se no palco, ao mesmo tempo, sacrificial e narcísico que se vai enunciando: “onde estarão as tâmaras maduras das tuas palmeiras?”, “que murmúrio terão as pedras do teu silêncio?”, “sabes, as aves aquáticas…” ou “é tarde meu amor, estou longe de ti…”. Este relacionar íntimo e questionador parece indiferente à asserção que o corpo ininterruptamente veicula: “apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam”, “não consigo dormir com esta ferida” – ou – “levanto-me e saio para a rua”.

Seja como for, à moda de um coro que se levanta do silêncio de fundo, nos finais, a intemporalidade acena para superar a catástrofe. Esta estratégia de (verso de) ouro surge, de maneira clara, nas seis anáforas do final do poema 7 de Mar-de-Leva. As seis imagens que aí se desdobram são regidas pelas formas verbais “Acostam”, “Agitam-se”, “Se abandona”, “Pernoita”, “Cresce” e “Perdem” – e colocam em evidência o ‘não dito’ matricial dos poemas do livro: a perenidade que subjaz à transformação e que se imporá para além do tempo da história e das narrativas que o iludem. Daí, também, o apelo da infância como signo de pureza e perspicácia de um tempo que parece viver fora da respiração do tempo comum: “encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura”, “por onde andará o Cabecinha? E a Tia Clementina? E o Cisisnato?” – ou ainda, em jeito de ‘quête’ sem fim – “procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola”.

Por Luís Carmelo

Cortesia de PNETLiteratura

Poesia na voz de Amália encanta bibliotecária russa

“Que significa cativar?” perguntou o principezinho à raposa. “Significa criar laços, que é uma coisa de que toda a gente se esqueceu.” Amália Rodrigues faria este mês 90 anos. No dia 1 ou no dia 23 – como ela própria disse, ligaram tão pouca importância ao acontecimento que nem se deram ao trabalho de anotar a data exacta. Mas os laços que criou, a poesia da voz e na voz de Amália perduram, longos, no tempo e no espaço.

Natália Rumiantseva, bibliotecária em São Petersburgo, deixou-se cativar por essa poesia. Natália não se identifica com a música pop ou rock, diz. E, na sua busca por outras sonoridades, encontrou um dia um CD de Amália, e foi uma revelação. “Talvez para os Portugueses seja normal, nascem dentro desta cultura, mas eu descobri esta música há relativamente pouco tempo; quando a ouvi pela primeira vez pareceu-me tão próxima, e mesmo sem saber a língua senti que a compreendia. E, mais tarde, vi que estava certa.”

Em 2006 visitou Lisboa, “para ouvir o fado onde ele tinha nascido”. Sem saber que andava literalmente pelos caminhos de Amália, subiu uma vez a Rua de São Bento. “De repente oiço a voz de Amália, viro-me e vejo uma porta, era um fim de tarde de Agosto e a porta estava aberta, e vejo o retrato de Amália! Que encontro! Fado”, diz Natália, séria e simplesmente, no rosto a expressão de quem sente verdadeiramente o significado daquela palavra.

E conta, com emoção e gratidão, como foi recebida por Estrela Carvas, amiga e confidente de Amália, que hoje vela pela Casa-Museu. “Eu ainda não falava português, ela falava um pouco de inglês. Sensibilizou-me muito a maneira como me recebeu, tão simples e com tão grande amizade, e, com tão grande amor por Amália, me levou em visita guiada pela casa. Numa parede vi referências à passagem de Amália por vários cantos do mundo, mas nada da Rússia. Mas Estrela Carvas disse-me que ela cá tinha estado. Depois, encontrei o livro Amália – Uma biografia, de Vítor Pavão dos Santos, e, na lista das tournées, a informação de que Amália deu, em Maio de 1969, vários concertos na então União Soviética.

“E eu pensei – eu sou bibliotecária, agora regresso a São Petersburgo, pesquiso nos arquivos dos jornais e revistas da época, recolho informação e escrevo cá um destes artigos! Mas, imagine, no princípio não encontrei nada. Mas não desisti. E assim começou a minha investigação.” Entretanto, começou a estudar português, na Faculdade de Filologia da Universidade Estatal de São Petersburgo, para compreender melhor a cultura que sentia tão próxima. “Quanto mais conheço a arte de Amália, mais me impressionam a sua profundidade e beleza. Eu estudei muito a literatura clássica Russa, e, para mim, a arte de Amália está ao mesmo nível. Ela tem essa nobreza de alma que transparece na nossa grande literatura”.

Teve ainda a ideia de procurar pessoas que estiveram presentes naqueles concertos. “A própria Amália disse que Fado é lamento, pranto, e isto está-nos muito próximo. Há fados alegres e fados muitos tristes, sobre a solidão, o medo, mesmo o amor à Pátria. Agora, vivemos em tempo de paz” - Natália fica silenciosa um momento - “mas então, tínhamos passado por uma guerra horrível, quanta dor e sofrimento, em geral todo o século XX parece um pesadelo, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução terrível, a Guerra Civil, depois repressão, a Segunda Guerra Mundial, outra vez repressão – horror. E, para além disso, era impossível falar abertamente do próprio sofrimento, chorar abertamente. É um paradoxo da nossa vida.” E por isso se interroga - o que terão as pessoas sentido ao ouvir esta cantora? Como foi o seu encontro com o fado? “A língua era desconhecida, mas aquilo que ela cantava não era possível esconder. O fado fala do que é também o nosso destino, da história da nossa vida.”

Natália tem vindo a construir, com grande sensibilidade, um arquivo-testemunho da arte de Amália, com todo o material que tem encontrado ao longo da sua pesquisa: o programa dos espectáculos na URSS, referências em jornais e revistas da época, uma entrevista que fez a Helena Golubeva - uma das maiores especialistas em língua portuguesa na Rússia, que esteve presente num dos concertos há quarenta anos… Aos poucos, vai traduzindo poemas-fado e artigos sobre Amália em Russo, e partilhando esse material na internet. Um exemplo do requinte com que o faz: na página dedicada à tournée por Leninegrado, o pormenor vai ao ponto de incluir a descrição do estado do tempo nos dias dos concertos.

Natália gostava que na Casa-Museu de Amália aparecessem registos da passagem pela Rússia, e de traduzir, um dia, o livro Amália – Uma biografia em Russo. Mas, mais importante, diz, “é o caminho – fado é caminho”: e continuará a sua viagem de descoberta pela cultura portuguesa, velando para que os laços que Amália criou se tornem realidade para cada vez mais pessoas.

por A. L. Simões Gamboa

Guiné-Bissau: «da poesia de combate à poesia intimista»

Uma literatura exclusivamente poética: da poesia de combate à poesia intimista

Com a independência do país, surge uma vaga de jovens poetas, cujas obras impregnadas de um espírito revolucionário, manifestam um carácter social. Os autores mais representativos são: Agnelo Regalla, António Soares Lopes (Tony Tcheca), José Carlos Schwartz, Helder Proença, Francisco Conduto de Pina, Félix Sigá.

O colonialismo, a escravatura e a repressão são denunciados por esses autores que, no pós independência imediato apelam para a construção da Nação e invocam a liberdade e a esperança num futuro melhor. O tema da identidade é abordado através de diferentes situações: a humilhação do colonizado, a alienação ou assimilação e a necessidade de afirmação da identidade nacional.

Note-se porém que a questão de identidade não é apresentada como um factor de oposição entre o indivíduo e a sociedade na qual este evolui. Ela é analisada como um conflito pessoal do indivíduo, que consciente do seu desfasamento cultural em relação à sociedade de origem, procura identificar-se com as suas raízes, da qual foi afastado pela assimilação colonial. Por conseguinte, nesta abordagem não se põe em causa a pertença do indivíduo à sociedade em questão.

Embora o recurso ao crioulo seja marginal, os autores afirmam-se como cidadãos africanos

Vejamos :

Agnelo Regalla (tema do assimilado)

Fui levado

a conhecer a nona sinfonia

Beethoven e Mozart
na música

Dante, Petrarca e Bocácio

na literatura

… Mas de ti mãe África ?

Que conheço eu de ti ?

a não ser o que me impingiram

o tribalismo, o subdesenvolvimento

e a fome e a miséria como complementos…/[vii]



Helder Proença (temas: reconstrução e esperança)

« …É assim que vamos tecendo as nossas manhãs

de ferro e terra batida

são as cores da nossa vida

onde a juventude se forja

- ardente e gloriosa no peito palpitante do futuro - … »[viii]

As primeiras publicações poéticas surgem em 1977 com a edição da primeira antologia « Mantenhas para quem luta », editada pelo Conselho Nacional da Cultura. No ano seguinte, é publicada a “Antologia dos novos poetas / primeiros momentos da construção”. Estas duas obras consagram uma poesia que instiga à reconstrução do jovem país.

Ainda em 1978, Francisco Conduto de Pina publicou o seu primeiro livro de poemas “Garandessa di nô tchon” e Pascoal D’Artagnan Aurigema editou ‘Djarama”.

Helder Proença publicou em 1982 « Não posso adiar a palavra » com duas obras poéticas.

Em 1990, surgiu uma nova colectânea poética, a “Antologia Poética da Guiné-Bissau” editada em Lisboa pela Editorial Inquérito, reunindo obras de quinze poetas, dos quais a maioria produz ainda uma poesia característica desta época.


Uma poesia mais intimista

O desencantamento dos sonhos do pós-independência imediato fez com que a euforia revolucionária desse lugar a uma poesia que se tornou mais pessoal, mais intimista, com a deslocaçao dos temas Povo-Nação para o Indivíduo. Outros temas passaram a inspirar a criação literária, tais como o amor. De entre os seus autores citemos: Helder Proença, Tony Tcheca, Félix Sigá, Carlos Vieira, Odete Semedo.

«Quisera

nesta vida

… afagar teus cabelos

sugar o doce dos teus olhos

transportar em arco-íris

o néctar da tua boca

e juntos caminharmos

ante a ânsia e o sonho … »[ix]


« A vida

nasce de gotas de Amor

- a morte

acontece no tempo

entre mim e a vida

paira um vácuo

- com sorriso

aguardo o destino[x].

Embora o português continue a ser a língua dominante na poesia guineense, o recurso ao crioulo tornou-se mais frequente, quer pela escrita em crioulo, quer pela utilização de termos e expressões crioulas em textos em português. Empregando o crioulo, os autores põem em evidencia a riqueza metafórica dessa língua, profundamente enraizada na cultura popular.

Odete Semedo, que utiliza tanto o português como o crioulo, reivindica pertencer a duas culturas:

« Em que língua escrever

as declarações de amor ?

em que língua contar as histórias que ouvi contar ?

… Falarei em crioulo ?

Falarei em crioulo !

mas que sinais deixar aos netos deste século ?

ou terei que falar nesta língua lusa

e eu sem arte nem musa

mas assim terei palavras para deixar.. . »[xi]

Várias são as publicações que dão conta destas inovações na literatura bissau – guineense: « O Eco do Pranto » de Tony Tcheca em 1992, uma antologia temática sobre a criança, editada pela Editorial Inquérito em Lisboa ; « O silêncio das gaivotas » em 1996, o segundo livro de poemas de Francisco Conduto de Pina ; « Kebur – Barkafon di poesia na kriol », uma recolha de poemas em crioulo, editada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) em 1996 ; « Entre o Ser e o Amar », uma recolha bilingue português-crioulo de poemas de Odete Semedo, publicada também pelo INEP em 1996 « Noites de insónia em terra adormecida », um outro livro de poemas de Tony Tcheka publicado também em 1996 e « Um Cabaz de Amores - Une corbeille d’amours”, recolha bilingue português-francês de poemas de Carlos Edmilson Vieira, publiacada em 1998 pelas Editions Nouvelles du Sud em Paris.

As primeiras bandas desenhadas de Fernando Júlio, exclusivamente em crioulo, apareceram na década de oitenta. Trata-se essencialmente de sátiras sociais que tiveram um grande sucesso. A música, onde a poesia crioula tem quase a exclusividade, foi também marcada pela exultação da reconstrução nacional.

Autoria de Filomena Embaló

«Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’tamid» de Ana Cristina Silva

A existir, a ser equacionado por um qualquer levantamento estatístico, o registo do romance histórico em Portugal nos últimos anos provavelmente denunciá-lo-ia num dos lugares cimeiros, senão mesmo no topo, entre os géneros literários mais amiúde praticados pelos autores nacionais. Entre crónicas romanceadas de rainhas pretéritas – imbuídas de espíritos benfazejos, de ideais cristãos beneméritos das artes ou pugnando, altruístas, e avant son temps, em favor e defesa dos mais desfavorecidos – e revisitações dos tempos luso-imperialistas, pré e pós-descolonização (não isentas de “emboscadas” narrativas, no que respeita à leitura e interpretação dos factos pretensamente ficcionados, propiciadas por sentimentos e memórias desfiados na primeira pessoa e por decorrência não por completo sanadas nas suas feridas), o romance histórico português, poderá afirmar-se sem receios de nos afastarmos da verdade dos factos, encontra no público português terreno sólido para cada vez mais se afirmar. É verdade, sim, que tratar-se-á de um género com alguma dificuldade em escapar às temáticas supracitadas, o que em parte, e sobretudo no que respeita ao romance histórico de vertente colonialista, chamemos-lhe assim, se ficará a dever às nunca desvalorizáveis capacidades de auto-expiação ou autopsicanálise que a escrita de um tal género romanesco comportará, sobretudo quando, durante décadas, o romance português nunca se ocupou em pleno de uma tal temática, isto se exceptuarmos alguns arremedos assinados por quem, de viva presença, fez a guerra, o mais das vezes por militares operacionais que mais do que mão para a escrita revelavam, eles sim, uma vontade de, por via das palavras, expiar os dramas vividos e na pele experimentados. Vejamos, contam-se pelos dedos os relatos com mão literária desses tempos do ódio, recordando-me, assim de repente, de um Lobo Antunes, de um Vergílio Alberto Vieira, de um João de Melo, um Carlos Vale Ferraz e poucos mais, isto não entrando pela poesia, onde também, a bem da verdade, muitos outros exemplos não pontuariam, sendo de relevar, sem dúvida, vozes como a de Manuel Alegre ou, e sobretudo, a fulgurante e algo desconhecida poesia do brilhante poeta que foi Fernando Assis Pacheco. Voltemos, porém, ao âmbito e motivo destas perorações para neste cenário situarmos e darmos conta do novo romance de Ana Cristina Pereira, tão-só porque no domínio do romance histórico escapa às compartimentações prévias, optando antes por deter-se numa outra temática.

Para recriação romanesca, Ana Cristina Pereira, neste que é o seu terceiro romance editado na Presença, reincide no registo histórico (seja lá o que isso seja, desconhecendo-se as balizas exactas a partir das quais um romance deixa de ser apenas romance para ser romance histórico…), desta feita detendo-se sobre uma personagem histórica de grande aura. Nada mais nada menos que o rei poeta e creio que também dito agricultor Al-Mu’Tamid, emir e rei que foi primeiro governador de Silves, depois senhor da taifa de Sevilha, uma vez sucedendo ao seu pai no trono, Al-Mu’Tadid. É a história semi-ficcionada da sua vida, baseada em fontes que a autora no final do livro nomeia, nomeadamente os importantes escritos biográficos de Adalberto Alves e o livro «Portugal na Espanha Árabe», de António Borges Coelho, que aqui nos é dada a ler. Com conta e medida, desde já se retenha. Porque não se espraiando em demasia na efabulação de episódios da vida do rei, porque não se perdendo em excessivas decorações de teor descritivo, como é hábito acontecer noutras empreitadas do género, mais importadas com o pintar dos dias e dos tempos vividos, do que com a tentativa de chegar ao coração e ao pensamento das personagens. Ora o que Ana Cristina Silva faz é justamente optar por ir antes nessa direcção, isto é, dar-nos o tempo das personagens a partir do modo como elas pensariam os seus dias. O que daí resulta é que temos dos factos uma ideia interpretada à luz do pensamento das personagens, sobretudo, no caso, a perspectiva de Al-Mu’Tamid. Deste modo, os factos históricos surgem-nos não apenas como meros factos, distantes e frios, mas antes imbuídos de uma perspectiva humana, donde, de resto, a conseguinte reflexão sobre eles e sobre os seus efeitos. Daí decorre uma muito interessante leitura histórica, não apenas da sociedade desses tempos, mas de como as pessoas (nomeadamente os seus actores principais) pensavam e reflectiam os acontecimentos.

Relatada na primeira pessoa (estas são as memórias de um rei já moribundo, dadas a conhecer por um seu escravo e presumível filho depois de o encontrar morto sob uma palmeira no seu exílio forçado na remota Aghmât, no meio do deserto) esta história dá-nos a conhecer um homem que, vistas as coisas, foi vítima da história. Com essência de poeta, ele acaba por ceder ao longo da vida, e nas suas decisões, aos desígnios e desejos do seu pai, este um homem cruel, sedento de guerras, conquistas e vitórias, ansioso por acrescentar mais e mais territórios ao império árabe na Península. Contudo, a história movia-se, e quis o destino que Al-Mu’Tamid viesse ao mundo no exacto momento em que as hostes cristãs na Península, comandadas por Afonso VI, se reuniam para a anunciada e pressentida Reconquista. Isso veio a acontecer, vitimadas as fileiras árabes não só pelo recrudescer das forças cristãs como também por intestinas lutas entre os emires da várias taifas andaluzes, mesmo que no seu final aglutinadas sob a mão de ferro dos berberes almorávidas, estes cães ferozes na defesa dos preceitos mais conservadores e acirrados do Alcorão. Incapaz de lutar contra o rolo da História, mesmo que se revelando no campo de batalha digno sucessor dos créditos do seu pai, Al-Mu’Tamid dir-se-ia talhado para a miséria enquanto rei, já que perderia o seu trono, os seus territórios, as suas riquezas e até alguns dos seus filhos. No mais, como bom poeta (que era e que a História guardou, guarda como tal), apenas conservou a aura poética (escrevendo até ao fim dos seus dias, mesmo dentro de um calabouço – e aqui, no relato, fica apenas a dúvida de saber onde escrevia, pois encontrava-se numa aldeia de tendas no meio do deserto, quase sem vivalma e agrilhoado dentro de uma “masmorra”), o amor das suas mulheres, a amizade dos poetas, uma réstia de dignidade e a memória afectiva do seu povo. Um falhado ou um vencedor? Pelos trâmites da História, talvez um vencedor, pois apesar de um perdedor no seu tempo foi a ele que a História guardou, mais do que, por exemplo, a memória do seu pai ou outros conquistadores árabes seus predecessores. Nada de muito espantar; quem hoje, entre a massa de anónimos cidadãos, sabe nomear os ministros de, por exemplo, uma primeira república? Por outro lado, pergunte-se-lhes que foi Camões e todos saberão dizê-lo um dos nossos, senão o nosso maior poeta. Eis, ao fim e ao cabo, neste romance bem expressa a força imorredoira da poesia. Expressa, diga-se, de forma admiravelmente bem escrita.

Pedro Teixeira Neves

Cortesia de PNETLiteratura

Sarau Poético

As poesias poderiam ter brotado nos jardins do Gramercy Park, rodeado por construções distintas e refinadas, dentre as quais a casa que abriga The National Arts Club. Os salões do clube oferecem uma revisita ao tempo, quadros e fotos antigas nas paredes, uma decoração predominantemente art nouveau, esculturas de animais, salões com grades, há ares do fantástico nos cômodos, alguns abertos ao público, várias passagens interditadas. Flores, grandes flores cobrem os papéis de parede. Passamos pela recepção, onde o atendente assistia ao Kentucky Derby na televisão e não demonstrava qualquer interesse no evento literário do dia. Na sua pequena sala, o atendente fazia questão de construir um universo aparte através de telas de segurança e televisivas, rádios e conversas mundanas. No salão do primeiro piso, cadeiras circundavam um palco improvisado. Vinho branco e tinto servido à vontade. Navios intergaláticos feitos de restos de molduras de quadro, com pequenas telas de cinema amador e personagens de plástico, a Bela e a Fera, voavam nas paredes negras da sala em espera. O público e os poetas chegam com certo atraso. A leitura começa e o mexicano Homero Aridjis abre a noite com a sua Salutación al Sol... sol de los mistérios... sol como una gema anemica... nos mira por dentro y afuera... Em seguida, o poeta mexicano lê um poema em homenagem ao pai morto, uma conversa espiritual: asi nos encontramos los vivos y los muertos, cada uno sigue su camino... E no desejo de ser um, si uno pudiera cavalgar intensamente... versos para Kafka. Em Ojos de otro miraje: ... un colibri volando como un pedazo de mediodia... mi vida es un relampago... as palavras do poeta gotejam no ar úmido, muitos na platéia cerram os olhos para não deixarem escapar o toque na alma. Homero Aridjis é um poeta abençoado que ainda nos lê o seu Un Poema de Amor e Auto-retrato a los 54 años, não tão recente.

Ariel Dorfman é chileno e americano, anuncia que lerá a maior parte dos seus poemas em inglês, dispensando a jovem intérprete de vestido preto e bolinhas brancas que acompanhou Aridjis. Pede que o público guarde os aplausos para o final, a interrupção atrapalha o ritmo da leitura. Tem domínio de palco, lê com intensidade teatral os poemas traduzidos por Edith Grossman, a grande tradutora de obras do espanhol para o inglês tal como a última versão de Dom Quixote de la Mancha lançada no ano passado. Em um dos poemas, Dorfman ressuscita William Blake que entabula um diálogo com a bela Laura Bush, versos que expressam a raiva do poeta com relação à invasão do Iraque. Cathy Park Hong traz um novo sabor ao evento com seus poemos ritmados, lidos em inglês com um sotaque totalmente asiático, quase entoando um novo idioma. Impressiona com termos como “the beige population”, num protesto contra as tendências anti-imigração no país e a absorção hipócrita de raças de outras cores.

Antes da vez de Marlene van Niekerk, vinda da África do Sul, Inga Kuznetsova nos revela as limitações do seu inglês. Os russos na platéia já haviam corrigido a pronúncia errada do sobrenome de Inga pelo presidente da Poetry Society. A jovem chega ao palco com uma blusa de flores e o longo cabelo castanho preso por uma flor ao lado. Recita os poemas sem necessitar leitura, não hesita. Começa com uma ode por um dia perdido, “if this life really has a meaning, the rain will wash it away...”. Ainda fresca a lembrança da salutação ao sol, pedimos que não chova tão logo, quem não gostaria de um pouco de sentido para a vida e as chuvas da primavera são particularmente cruéis, levam tudo consigo, relegam-nos às flores. “All things exist without tricks...”, explica-nos o intérprete de Inga. Será?


Kátia Gerlach

Cortesia de PNETLiteratura

País de poetas que não lê poesia

Fernando Pessoa, Herberto Hélder e Manuel Alegre são os poetas que mais livros vendem em Portugal. No país dos poetas, há cada vez menos editoras a apostar na edição de poesia. Aquelas que o fazem dizem que as vendas estão a crescer. Já os livreiros apontam na direcção contrária e afirmam que a poesia se vende pouco. Apesar disto, as caixas de correio das editoras não cessam de se encher com manuscritos de aspirantes a poetas.

Para Vasco David, da Assírio & Alvim, "as vendas de poesia têm aumentado, em parte devido ao tipo de obras que estão a editar-se, nomeadamente as obras completas de autores clássicos".

Já o dono da livraria Poesia Incompleta, um espaço exclusivamente dedicado a este género literário, declara que "passa muitos dias sem vender livro nenhum" e considera que muitas vezes "se lê, se fala ou se compra poesia de forma superficial, porque as pessoas não têm coragem de assumir que não lhes interessa".

Símbolo máximo da elevação da linguagem humana, criadora de experiências intelectuais e estéticas profundas, difícil, aborrecida, bela ou sublime, a poesia é, desde há muito, um género amado ou odiado.

"As coisas só nos interessam como entretenimento; tudo o que foge disso é rejeitado, como é o caso da poesia , we are all now entertainers, como cantavam os Nirvana ", diz Changuito, que também é responsável, há 11 anos, pela dinamização de sessões de leitura de poesia no teatro A Barraca. "É só isso que somos hoje."

Se o volume de obras editadas e vendidas do género ficção tende a aumentar, "a poesia será sempre para franjas da população", diz Vasco David. "Há um boom editorial que não é acompanhado pela poesia, porque a aposta é sempre na vertente mais comercial."

O facto de sermos um país com níveis de literacia muito baixos e com uma educação que "cria pessoas com medo da leitura" não ajuda a que sejamos verdadeiros leitores de poesia", defende Changuito.

Opinião diferente tem o poeta Nuno Júdice, para quem "há uma nova geração muito aberta para a poesia", algo que não se traduz em vendas, "pois a leitura e a troca de poesia faz-se, cada vez mais, na Internet".

Já Jorge Silva Melo, que vai ler poesia de Mário Cesariny na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (ver caixa), ressalva o facto de em Portugal "ainda haver várias editoras de grande dimensão a apostarem na edição de poesia, algo que noutros países está a deixar de acontecer".

As tiragens de poesia em Portugal "são muito superiores às de Espanha, por exemplo", diz Júdice, que sublinha ainda que "a leitura de poesia não pode ser medida pelas vendas e, em Portugal, a poesia nunca perdeu a sua capacidade de comunicar com os leitores".

O percurso feito pela poesia nos seus movimentos modernista, surrealista, futurista, formalista, entre outros, está ele próprio ligado à forma como o público se aproximou ou afastou deste género literário.

"A poesia formalista assustou as pessoas e é responsável pelo afastamento de muitos leitores", defende Nuno Júdice.

Na opinião do editor da Assírio & Alvim, o crescimento que esta editora tem verificado na venda de poesia prende-se "com um maior esforço de promoção das obras", embora reconheça, tal como o faz o proprietário da livraria Poesia Incompleta, que os autores mais vendidos são os poetas portugueses que pertencem ao cânone, ao passo que os poetas mais jovens têm mais dificuldade em chegar ao público.

Jorge Silva Melo e Nuno Júdice defendem que, neste momento, a música é a forma por excelência da divulgação e da conquista de públicos para a poesia.

"Para que serve, afinal, este Dia Mundial da Poesia?", interroga-se Changuito. "Para debitar mais uns quantos lugares-comuns, porque amanhã tudo continuará igual."

Com lugares-comuns ou "capelinhas onde tantas vezes ancora", a poesia "está inscrita de alguma maneira na vida das pessoas, e as pessoas estão cada vez mais à procura de coisas vivas, à procura de alternativas", conclui Silva Melo.

Cortesia de DN Artes

Brooklyn: refúgio e cenário

Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebulição: the Brooklyn follies estão aí para ficar. Os agentes literários se distinguem pelas pilhas de manuscritos e contratos que carregam soltos, arriscando-se no vento forte de inverno, tudo vale pelo próximo bestseller, as páginas podem voar como pombos ousados. Os americanos têm a capacidade de transformar a arte em business talk, mesmo que façam small talk, as they say. Escritores, alguns personas mascaradas pela mídia, e poetas, verdadeiros heróis na odisséia pela poesia sobrevivente são protagonistas na tal história.

Agentes literários estabanados, com os cabelos em desconcerto, trocam figurinhas pelas ruas do bairro. As editoras gigantescas verdadeiros king kongs a pular de um empire state visível à distância buscam nova identidade. Em contraponto, a insurgência de pequenas editoras e escritores emergentes, pequenas bolhas a ponto de estourar como os “brics”. Walt Whitman ali começou a sua carreira na prensa. As alterações climáticas são inegáveis, em todas as suas frentes.

A agente na mesa vizinha é uma mulher pachorrenta, daquelas cujo rosto não perde o suor engordurado, o cabelo vem preso em um elástico de borracha na pressa de cumprir o horário com o cliente, um senhor idoso de barba branca bem aparada (a semelhança com o bom velhinho natalino faz-se inegável), ele agita as mãos trêmulas, tem as unhas bem tratadas e compridas. Os dois decidem dividir a conta após um sanduíche de baguette e brie, metade para cada um. É possível ler-se Proust sem o conhecimento do idioma francês, indaga o escritor. É possível considerar-se conhecedor de queijos franceses havendo apenas experimentado versões pasteurisadas?, questiono. Os nomes de ambos restam anônimos, não há de se revelar segredos nos canais virtuais. A conversa se encerra: o mercado editorial encontra-se em queda espiral, há de se contactar a New York Review of Books e discutir-se este tema aflito.

A ponte que liga o Brooklyn a Manhattan desde 1883 simboliza a modernidade e foi homenageada por Jack Kerouac em Brooklyn Bridge Blues. Para os amantes da literatura, os livros não podem deixar de existir, não importa a forma, o barro se molda. Nas brownstones do Brooklyn, labutam escritores de origem anglo-saxã, com a sua prosa ultra-realista; europeus em busca de contemporaneidade vis-à-vis o “velho continente”; asiáticos na mélange milenar; africanos, inclusive muçulmanos, expondo os conflitos que os circundam; e latino-americanos, caribenhos inclusos, a tocar nas palavras com fantasia tropical. Em alguma casa durante o verão, estudantes se reúnem para debater Proust sob a tutela do escritor cuja identidade guardamos.

Dentre os encontros mais disputados no Brooklyn, salientam-se os almoços com Paul Auster, autor da Trilogia de Nova York e do recém lançado Invisível. Ricky Moody introduz Auster ao público elogiando-o pela generosidade como mentor. Auster leciona em cursos de escrita criativa, não faz segredos do ofício (embora a prosa de Auster não chegue a impressionar, críticos como James Wood acusam-no de pecar pela ausência de silêncio em suas palavras e uso abundante de clichês que pouco espaço deixam ao leitor, e muito embora, os livros de Ricky Moody restrinjam-se a um público determinado). Uma confraria, no entanto, pulsa nas margens do East River. O poeta Philippe Levine é um daqueles a transformar em versos as caminhadas por Brooklyn Heights, a misturar a universalidade desta ponta de mundo com o hoje e agora. Os seus poemas tratam da falência de Detroit, das cidades fantasma no countryside inglês, do impacto da segunda guerra mundial, de internações hospitalares, das formações montanhosas da Califórnia, dos vazios da Austrália. A prosa de Carmen Bullosa, outra brooklynite, busca uma comunhão entre os dois mundos da autora, imigrantes mexicanos/latinos experimentam Nova York, em seu livro de contos El Fantasma y el poeta, aparições tocam a Ruben Dario e à autora na Dean Street, Brooklyn. O livro verte sobre temas variados desde a presença de Santa Teresa em um hospital metropolitano a uma mulher solitária perseguida por um telefonema misterioso. Amitav Ghosh escreve do Brooklyn e da Índia sobre os mares de papoulas, aventureiros, navios, palácios de vidro, a trilogia do Íbis.

Nas primaveras, um grupo de afetos sai da Poets House em Manhattan para uma caminhada em que se atravessa a Brooklyn Bridge na sola do sapato enquanto são lidos poemas e prosa inspirados no monumento. Há de se esperar o passar da brisa cortante para se desfrutar em 2010 de uma nova aventura em que se transponha fronteiras físicas e metafísicas quais as experimentadas pela barca a ligar lado a lado de duas cidades, de dois mundos simbióticos, precedendo a construção magnificente.

Cortesia de PNETLiteratura

O silêncio dos intelectuais

«Não há volta a dar. Junho foi dominado pelas eleições europeias. O foguetório do costume, candidatos decalcados a papel químico do Camilo, de Júlio Dinis e Alves Redol e afins. (A Laurinda-que-fala-com-Deus-em-inglês, presumivelmente com Evelyn Waugh.) Mas ninguém soube o que pensam os escritores portugueses. Tirando Eduardo Lourenço, teórico de serviço à Res publica, dita “coisa do povo”, não me lembro de nenhum jornal ou televisão ter promovido um debate sério com intelectuais. Porque os comentadores regulares de televisão ou jornal, mesmo os que são criadores e intelectuais (meia dúzia, pelas minhas contas), e isto não é juízo de valor, é facto, falam pelos partidos que representam ou pelas “sensibilidades” partidárias que publicamente apoiam.

Ora, eu tenho saudade do tempo em que escritores que o povo identificava como tais — Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, José Régio, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Natália Correia, José Cardoso Pires, Eduardo Prado Coelho, etc. —, coisa diferente de escritores que recebem prémios, mas, embora “laureados”, nós outros, seus pares, perguntamos, perplexos, “quem?”; tenho saudade do tempo, dizia, em que os escritores escreviam nos jornais textos de apoio ou agravo sobre assuntos de interesse colectivo.

Ainda me lembro, em Moçambique, nos anos 1960-70, de polémicas acesas por causa de Godard, Antonioni ou Mike Nichols, a pretexto da adaptação que este último fez de Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), de Edward Albee. As questões políticas, essas, faziam-se de viés (censura oblige). Mas em democracia a aparente apatia da intelligentzia não se percebe.

E discutir a Europa não é coisa de somenos! Queremos este modelo? O alargamento de 15 para 27 beneficiou? Sim ou não? E quem? Vamos acertar o passo (melhor dito: as cabeças) pela Europa desenvolvida e cosmopolita, ou queremos continuar neste marasmo melancólico de 1.ª República pós-moderna? »

Eduardo Pitta

Cortesia de PNETLiteratura

Notes Inspiring - poesia e música em Georgetown

Atrai-me o que é cantabile em tudo, aquilo a que Leonard Bernstein chamou nas Harvard Lectures “A Poesia da Terra”, referindo-se à tonalidade, que em música está presente mesmo na música atonal. Em literatura, seria o sentido; na filosofia, a racionalidade.

É isto que guia os meus passos na direcção do Healy Hall, o edifício central da Universidade de Georgetown, sua alma mater, e aí na direcção de Gaston Hall. Este é a “Jóia da Coroa” da Universidade, um auditório imponente de 750 lugares, que tem recebido inúmeros líderes mundiais – ainda há poucos dias este espaço se encheu por completo de público que quis ouvir o Presidente Obama falar sobre a situação económica.

Hoje é o Coro de Concertos da Universidade de Georgetown que apresenta, como todos os anos, o seu Concerto Anual de Primavera, festejando Abril, o Mês Nacional da Poesia. Dirigido por C. Paul Heins, o Coro vai interpretar um programa de adaptações musicais de poemas em língua inglesa desde 1500 até aos nossos dias.

Notes Inspiring, o título do Concerto retoma versos do poema de John Dryden “A Song for St. Cecilia’s Day” (1687). Esta canção, dedicada à santa padroeira da música, inspirou a composição de D. E. Wagner And Music Shall Untune the Sky (2005), uma adaptação livre de 24 dos 63 versos originais do poema de Dryden.

Seguem-se Weep O Mine Eyes, de Halsey Stevens sobre poema provavelmente de John Bennet, e duas canções de William Blake musicadas por David Dickau em 2007, Two Blake Songs (“Piping Down the Valley Wild” e “Laughing Song”).

O programa propõe ainda uma adaptação do poema dito a Alice por Humpty Dumpty no cap. 6 de Through the Looking-glass de Lewis Carroll, um texto surrealista avant la lettre questionando a temática da autoridade - The Little Fishes of the Sea de Robert Convery (2008). Do mesmo compositor ouviremos ainda uma estreia mundial neste Concerto, Dream-Dove (2008-09).

Outras propostas incluem Three Choruses from e. e. cummings (1960), música de Peter Shickele, e “Harlem Night Song”, um dos três poemas de Langston Hughes musicados pela compositora americana Gwyneth Walker em Harlem Songs (2001). A composição fica no ouvido com elementos dos blues, recriando a atmosfera nocturna do Harlem.

Todo o concerto é acompanhado pela pianista Jennifer Jackson e encerra com uma composição de Ralph Vaughan Williams, Toward the Unknown Region (1906), sobre poesia de Walt Whitman, Whispers of Heavenly Death. No número de despedida, Georgetown Alma Mater, os alunos do coro que estão na assistência juntam-se ao grupo no palco, vestido a rigor. O espaço festivo e solene de Gaston Hall está em perfeita harmonia com as composições que fazem a moldura do Concerto, And Music Shall Untune the Sky e Toward the Unknown Region, e em singular contraste com aquelas que são as minhas composições preferidas deste programa, The Little Fishes of the Sea e a Harlem Song – e também destas harmonias e contrastes se faz a riqueza de um programa de música e poesia inesquecível em Georgetown.

Conversámos com uma das alunas do Coro, Emily Miller, uma estudante do 2º ano (“Sophomore”) que está a fazer o “College”, um “Major” em Espanhol e “Premed”. Esta futura médica participou, só neste ano lectivo, em várias produções teatrais e espectáculos do Coro de Concertos, de que destaca a sua estreia teatral em Georgetown na comédia de Caldéron de la Barca No hay burlas con el amor (Love Is no Laughing Matter), sob direcção de Barbara Mujica, na qual desempenhou o papel feminino principal. Dos espectáculos do Coro, Emily diz que aqueles que mais vivamente a marcaram foram o Concerto dado durante a Missa no Estádio Nacional por ocasião da visita do Papa Bento XVI em Abril de 2008 a Washington, D.C., e o Concerto dado em Abril de 2009 na American Judicature Society em honra de Janet Reno, “Attorney General” (Procuradora Geral) da anterior administração. Fala ainda de quanto gostou de participar no espectáculo do Coro em Fevereiro de 2009 no Gaston Hall, dedicado a musicais da Broadway, A Tribute to Broadway. Quando lhe pergunto a razão de toda esta actividade extra-curricular, Emily Miller responde com uma simplicidade e sorriso desarmantes: “For fun!”, “Pelo prazer que me dá, e para experimentar algo de diferente, que alargue os meus horizontes – muitas das peças escolhidas pelo Director do Coro, ouvi-as pela primeira vez.”

Música e poesia, poesia e música – quem escolhe quem e porquê? Não há música sem pausas, sem silêncio, e há muitas coisas que não sei ainda, talvez as mais belas, por serem aquelas na direcção das quais escrevo e me interrogo.

Georgetown, 17 de Maio de 2009

Ana Maria Delgado

Cortesia de PNET

«Busboys and Poets é um café»

Busboys and Poets, na intersecção da Rua V com a Rua 14, junto ao corredor da Rua U, Washington, D. C. - uma área do Distrito de Columbia que tem sido um centro da cena cultural e activista com lugares como o Lincoln Theatre, o Howard Theatre, o Bens Chili Bowl, as Bohemian Caverns, o Jazz-Utopia. Era esta a grande zona urbana afro-americana dos EUA, até ter sido ultrapassada pelo Harlem nos anos 1920. A cantora de jazz Pearl Bailey chamou-lhe a Broadway Negra, e em 1968 foi palco de motins que se seguiram ao assassínio do Reverendo Martin Luther King. Hoje em dia, reabilitada e quase sem vestígios de incêndios e destruição, é uma zona residencial e de lojas muito agradável. Muito perto fica a Igreja de St. Augustine, onde as missas são acompanhadas por belíssimos espirituais negros cantados ao vivo.

Busboys and Poets é um café, restaurante, livraria, espaço de performance e local de reunião onde as pessoas podem discutir assuntos relacionados com a paz e a justiça social. Busboys and Poets orgulha-se de reflectir e respeitar a área histórica onde se insere, bem como a sua identidade, e de juntar uma clientela diversa, negra e branca, mais jovem e mais velha, em diálogo criativo e formativo. Fundado em 2005, a história de Busboys and Poets confunde-se com a do seu proprietário, Andy Shallal, um americano de origem iraquiana, que veio para os EUA em 1968, com 11 anos. O pai de Shallal era diplomata e traduziu os Rubayat de Omar Khayyam. Busboys and Poets não demorou a tornar-se uma imagem de marca em Washington, D. C., e conta já com quatro cafés, estando para abrir mais um em breve. Andy Shallal estudou Medicina na Howard University e na Universidade Católica, mas depressa se dedicou a abrir restaurantes e cafés com o irmão – Skewers, Cafe Luna e MiMi’s Peace Cafe. Vende entretanto a sua quota nestes cafés para se dedicar só ao Busboys and Poets, que em 2005 logo se torna lugar de referência em Washington, D. C., o “talk of the town”, aquilo de que toda a gente fala. Shallal reuniu-se, durante meses, à procura de raízes locais para o seu projecto, com líderes comunitários, homens de negócios, políticos, organizações episcopais, escolas e estações de rádio e outros organismos locais. Empenha os seus outros cafés para financiar este novo projecto, prometendo inserir o café na vizinhança. Shallal aprendera com os seus outros empreendimentos que, quanto mais um local está imerso e inserido na vida da comunidade circundante, mais essa comunidade muda. Activista e pacifista, os seus heróis são Martin Luther King e Gandhi. A estes se junta o Dalai Lama para formar o trio que preside a todos os eventos na sala de performances. O Dalai Lama aconselha: esperar, Gandhi: observar, Martin Luther King: sonhar – “Waiting”, “Watching”, “Dreaming”, dizem respectivamente cartazes por baixo dos retratos de cada um dos pensadores.

O nome do café, Busboys and Poets, é uma homenagem ao poeta e autor Langston Hughes, que trabalhou como copeiro (busboy) num hotel da vizinhança em 1930, quando começava a afirmar-se como poeta. Conta-se como Hughes, que à época era copeiro no Wardman Park Hotel em Washington, foi “descoberto” pelo poeta Vachel Lindsay. Lindsay estava a jantar neste hotel, quando um copeiro colocou algumas folhas de papel ao lado do seu prato. Apesar de incomodado, Lindsay pegou nos papéis, leu um poema intitulado “The Weary Blues” e o seu interesse ia crescendo à medida que lia. Chamou então o copeiro e perguntou-lhe: “Quem escreveu isto?”, ao que Hughes respondeu: “Fui eu”. Lindsay apresentou o jovem a editores que publicaram o autor de “Shakespeare in Harlem”, “The Dream Keeper”, “Not Without Laughter”, bem como do já referido poema “The Weary Blues”, que acabou por dar nome ao seu primeiro livro publicado em 1925. Hoje em dia uma mais-valia em qualquer área da cidade onde abra um novo café, o Busboys and Poets é um ponto de encontro inclusivo e vibrante que mistura o trabalho manual com o intelectual, frequentado por estudantes da Universidade de Howard, negros que querem reviver o passado da zona, e todos aqueles que se empenham na acção social. Shallal não receou, com a sua radical visão integradora, ser parte de um problema para ser parte também da sua solução, e o local é um cais de abrigo para escritores, pensadores, poetas, performers, que têm em comum pertencer a movimentos sociais e políticos progressistas. Shallal considera missão sua criar uma cultura de paz, num país em que, segundo ele, há um défice de paz. Uma espécie de Speaker’s Corner do Hyde Park em Londres, um lugar onde as pessoas possam dizer aquilo que pensam, mas mais ainda pensar em comum.

O dia de quase Verão leva-me ao Busboys and Poets da Rua V com a Rua 14 às 4 da tarde, para duas horas de poesia, “The World and Me Celebration and Reading”, em que as organizações Sol y Soul e Split this Rock entregarão os prémios aos vencedores do segundo Concurso Anual de Poesia Juvenil The World and Me. As convidadas especiais Naomi Ayala e Toni Asante Lightfoot lêem poemas, depois é a vez das crianças, adolescentes e jovens. Em seguida são entregues os três primeiros prémios e as menções honrosas, sempre acompanhados pelas palmas do público, que enche por completo a sala de performances do café, sempre sob a égide do Dalai Lama, de Gandhi e Martin Luther, eles ali continuam imperturbáveis mas aprovadores, “Waiting”, “Watching”, e “Dreaming”. Troco cartões de visita com dois jovens da Comissão das Artes e Humanidades do Governo do Distrito de Columbia, que trabalham na organização do evento. O público é numeroso, jovem, educado, liberal, classe-média e com grande percentagem de negros. Há brownies (bolo de chocolate) para todos. A poesia flui calma como o tempo lá fora - é simples, lida em voz alta, partilhada, aplaudida com entusiasmo e premiada. Um título fica na memória, “Broken Masterpiece”, assim como alguns versos, “Paint me like I am (...) but most of all / Paint me free”.

Ana Maria Delgado, Georgetown, 21 de Abril de 2009

Cortesia de PNET

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