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Entrevista com Maria Teresa Horta

A ficção requer outro tempo. Levou 13 anos a escrever o romance sobre a Marquesa de Alorna. Mulher sem época, e antes de mais, sua avó.

As amigas encomendam-lhe feijoada. Os netos não passam sem o seu arroz. A avó, involuntária cozinheira de mão-cheia, que só pela família põe freio nas letras, escreveu sobre uma outra, a sua avó em quinto grau. Leonor de Almeida, mulher de erudição rara que desafiou preceitos nos séculos XVIII e XIX, enchia os cadernos de receitas com poesia. Um pouco à semelhança desta neta, nascida em 1937, que em vez de tirar notas durante as reuniões, entrega-se aos versos.

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(MTH) - O gravador dá resultado com toda a gente? A minha prática é que há muitos escritores que se inibem muito.

(i) - Não tem dado problemas. O pior é desgravar.

Isso é um trabalho de escravo, muito aborrecido. Mas diga-me.

Tinha-me dito que se aborrecia com as apresentações dos livros.

Não me aborrece. Acho que tem pouco a ver com o meu trabalho de escrita. Costumo dizer que eu sou a minha escrita. Escrevo porque me dá muito prazer, porque não posso deixar de escrever para ser feliz. Todo este acréscimo de exposição...Já tenho uma escrita muito exposta.

Sente que é um pouco redundante?

Sim, porque escrevo para mim, não escrevo para os outros. Depois com certeza que existem os outros. Acontece-me o mesmo na poesia. Quando as pessoas começam a fazer muitas perguntas acerca de cada verso, não gosto.

Dá-lhe vontade de dizer "leiam o livro"?

Dá-me sempre vontade de dizer isso, embora isso me assuste também um pedaço, porque a leitura de cada pessoa é diferente. Até porque numa obra que leva 13 anos a escrever, como é o caso, passei por visões muito diferentes da própria personagem. Acho que estou com trauma pós-parto.

Pelo vazio?

Um vazio enorme, como se ainda continuasse a escrever, que era a minha vontade. Fui para a Torre do Tombo e passei lá meio ano. Dias inteiros, até fechar, para investigar e ler coisas não editadas.

O espólio literário dela é vastíssimo, para uma mulher, para esta altura.

Para uma mulher. Mas ela não era uma mulher comum. À medida que fui entrando nos cadernos, diários, ela foi-se revelando. O livro teve oito versões, sendo que a estrutura literária foi a mesma desde o princípio.

Como é conviver há 13 anos...

Com a minha avó? Sim, porque ela é minha avó em quinto grau. Trisavó do meu avô. É ir atrás das minhas raízes também. É curioso e perturbador.

Descobrem-se muitas semelhanças entre esta Leonor e a Maria Teresa.

Pois, provavelmente tenho muitas coisas dela e obviamente que me projectei nela. Acho que a resposta é a epígrafe que coloco da Virginia Woolf, quando acabei o livro, se é que o acabei. Ainda ontem dizia ao Luís [de Barros], ao meu marido, que devia ter usado mais personagens. O truque foi mandar para a Dom Quixote.

Soube o momento certo de acabar?

Não era capaz. Mas tinha que pôr ponto final nisto. Fui enviando cada capítulo que terminava para a editora.

E os prazos?

Ultrapassei todos os prazos, mas a Cecília [da D. Quixote] é fabulosa. Teve uma paciência que eu sempre agradecerei. Às tantas já estava desesperada. Mas tive que mandar. No dia seguinte compro umas cartas da Virginia Woolf para a Sackville-West. Quando a Virginia acaba o livro, na última carta pergunta-lhe: "Agora que acabei pergunto a mim própria, será que te inventei dos pés à cabeça? É a epígrafe do livro. Tenho coisas dela, como encontrei respostas à maneira de ser da minha mãe na Leonor.

Que marcas a tocam mais?

A determinação, o arrebatamento. A transgressão dos papéis que na altura era muito mais evidente. Como lhe diz a Teresa de Mello Breyner numa carta: "Nós mulheres pagamos caro por ler livros".

Ainda hoje se diz que são perigosas.

São. Agora imagine naquela altura. Ela foi uma figura primeira na construção da Academia das Ciências e as mulheres não podiam ser sócias. Era uma sombra.

É uma feminista.

Completamente. Embora me tenha zangado três vezes com ela ao longo do livro e tive umas semanas que nem escrevi.

Porquê?

Até entender que na época, e mesmo hoje, é mais prudente uma mulher fazer de conta e não assumir as coisas. Por exemplo, quando o pai lhe diz para não ler Voltaire, ela dizia "não senhor, meu pai, nunca". E lia. Eu diria logo ao meu pai "ai leio, sim senhor". Era logo um desastre. Se tivesse feito o que ela fez era muito mais inteligente.

Como acha que ela seria hoje?

Não lhe sei dizer. Mas acho que seria feminista. Bom, pode dizer que estou a puxar a brasa à minha sardinha. Talvez seja, mas ela morre com 89 anos e até aos 80 e tal ainda saía de manhã para ir para as aulas na faculdade de Ciências. Para mim é estranhíssimo. A minha mãe morreu no ano passado com 90 e tal anos e quando tinha a idade da Leonor, olhava para ela, mulher de um vigor absoluto, e mesmo assim não a via meter-se num táxi para ir ter aulas.

Ia mostrando o que ia escrevendo?

Não mostro as coisas que escrevo. E como sou mulher tenho um cuidado ainda maior. No meio familiar não é um hábito uma mulher escrever. Sei que não teria a obra que tenho se a tivesse mostrado antes de publicar. Ainda hoje é uma prudência que as mulheres escritoras devem ter. Mas com a Leonor foi um pouco diferente. Passou a entrar na família hoje, no nosso quotidiano. Muito mais para o meu marido. Tenho que lhe agradecer a paciência para estes anos de obcecação. E mais ainda, para a intromissão de outra pessoa na nossa vida. Ele fez o mais inteligente, que foi interessar-se por ela.

Não podia vencê-la.

Foi atrás dela também. Nos últimos dois, três anos, foi fundamental. Apaixonou-se pela personagem depois de grandes debates. Ela apaixona-se por um homem que luta, da Vendeia. Hoje vê-se como uma coisa reaccionária, mas na época era um herói para ela. Estava à espera nesse Portugal sem heróis, de um herói, porque era muito mais do que todos os homens do país. Ele tinha vinte e tal anos e ela 50. Uma coisa impensável.

Não só na época, mais uma vez.

Ainda hoje. Um homem com 50 e uma mulher de 25 não tem problema nenhum, até é viril e os homens olham com uma certa inveja. O contrário não. As mulheres são coitadas, "o que é que lhe passou pela cabeça? Ai os filhos, que vergonha!" O Luís é jornalista e tem uma prática enorme de ler textos. Uma vez reparou que ela estava com um xaile de lã em Agosto. Não podia. Na editora não quero ninguém a tocar no meu texto. Mas com uma pessoa em quem confio e que amo ao meu lado, vou conversando.

É uma obra de muito detalhe.

Os talheres, a roupa. Li sobre tudo. Não a podia tirar do contexto senão não era verdade. Teve oito filhos, fiz oito partos. Já nem sabia como fazer tanto parto. Acho que é uma escrita feminina, do pormenor, com grande trabalho de linguagem. Há pessoas que me dizem que parece que cada texto levou horas. Horas? Levava dias.

Foi um prazer doloroso?

De vez em quando era um peso. Há também textos de uma escrita jornalística, que serviram para dizer o essencial. Em certos textos não podia ter o voo poético, mas informativo. Aí entra a jornalista, diz o que tem a dizer, para poder voltar à escrita literária e ficcional. As três escritas entram sempre até na minha poesia.

Quando decide pegar na Leonor?

Primeiro, num projecto muito vago, mas muito ambicioso, que era tirar da História as mulheres que ficaram na sombra. A quem lê a nossa História, parece que não existem. E não é verdade. Tivemos mulheres espantosas, mas como não sou regrada não comecei no Afonso Henriques. Apeteceu-me começar pelo mais próximo, a Marquesa de Alorna. Ao avançar percebi que não era possível o projecto todo. Resolvi dedicar-me por inteiro a ela.

Tem sempre o vínculo familiar.

Em pequena, e é o maior motivo, tenho memória de estar em cima de uma mesa da minha mãe, numa salinha, e de haver um livro da Marquesa de Alorna, do Marquês d''Avila e de Bolama. Aprendia a ler muito cedo, sozinha, naquela loucura da biblioteca do meu pai, o que aborrecia toda a gente. Não se ensinava uma menina a ler antes dos sete anos. Mas aprendi com a minha avó umas noções e peguei nesse livro; fui atrás dela. Se calhar era um projecto de vida. Ela era escritora, eu queria ser escritora. Ao longo da minha vida a minha mãe andou sempre com o livro atrás, e fui sempre encontrando-o.

Ainda o tem?

Tenho. Está completamente destruído, agora com a Leonor. Li-o tantas vezes que tive que mandar encadernar. Esta mulher fabulosa só pode existir hoje pela sua habilidade em construir uma obra que ela quis que chegasse aos nossos dias, a posteridade. Ela tinha cadernos feitos que começavam por ter receitas, contas de casa, depois um poema. Já estava tudo arrumado.

Sempre conseguiu compatibilizar a escrita com as receitas e as contas da casa?

É difícil, claro que é, sobretudo porque não gosto nada. Com os anos ainda vou ficando pior. Todos os dias passo a ferro, cozinho. As minhas amigas pedem-me para fazer feijoada, que é magnífica.

É boa cozinheira, afinal.

Pelos vistos sou. E os meus netos dizem que eu faço o melhor arroz do mundo, veja bem. Portanto há coisas que faço e tento fazer bem mas tem que ser tudo de seguida, senão esqueço-me logo e deixo queimar o que ficou ao lume. É um desastre. Até aquelas coisinhas que há para marcar as horas eu ponho mal. Não é fácil, mas lembro-me de fazer poesia a mudar as fraldas ao meu filho. Faço poesia durante as coisas terríveis que me acontecem.

Terríveis?

Nas reuniões que tenho, que odeio, as pessoas acham que estou a tomar notas, e fico muito bem vista, mas estou a fazer poesia. Quando faço coisas que não me deixam fazer poesia, aí a poesia aparece. Descobri que quando mudava fraldas ela aparecia. Antes já punha o papel e a esferográfica, ele estava deitadinho na cama e eu ia tirando notas. Depois entra-se em acordos. Quando estava com ele ouvia Mozart, depois ele ouvia "Os Três Porquinhos". Nunca fui uma mãe galinha, mas sou avó terrível. Hoje penso se os meus filhos não gostariam de ter uma mãe mais convencional.

Alguma vez se sentiram trocados pelas letras?

Não. O meu filho, o Luís Jorge, nunca me disse isso, mas é um homem muito lá em cima. Tenho uma família muito especial, um contacto muito grande com o meu filho através do cinema. E agora pergunta-me se a Leonor gostaria de cinema.

Acredito que gostasse.

Este livro tem muito a ver com o cinema, que sempre fez parte da minha vida. Fui a primeira mulher cineclubista deste país. Lembro-me de ir ao cinema com a minha mãe quando ainda não tinha idade para entrar.

Qual foi o primeiro que viu?

A Branca de Neve e os Sete Anões. Chorei tanto, tanto com a bruxa, que me levaram para fora do cinema. Aí já chorava porque estava a perder o filme. Preferiram levar-me para dentro de novo a chorar. Nunca mais voltei a ver. A minha mãe ia ao cinema sozinha, o que naquela época... ainda mais com uma menina.

Lidavam bem com os olhares de lado?

Só havia olhares para a minha mãe. A minha mãe era lindíssima, andava de calças quando as mulheres não as usavam, fumava na rua.

Uma mãe muito progressista que vem de uma família da alta-aristocracia.

Sim, mas era progressista na mentalidade. Politicamente não era. Foi criada pelos avós, que são mais permissivos. Tinha muitos primos e irmãos, andava muito com os rapazes. Era o que hoje se chama, e que eu odeio, uma maria-rapaz. Não é nada maria-rapaz. É uma rapariga que exige já da vida outra maneira de estar. Não são iguais aos rapazes, não achavam era justo ficar a bordar.

Também sentia mais afinidade com os rapazes?

Claro, eles têm esse espaço, esse álibi para fazer determinadas coisas. As filhas das amigas da minha mãe eram insuportáveis. Nada criativas, aborrecidas. As meninas na minha vida eram umas meninas pobres, ali em Benfica, que viviam em barracas. Apanhei piolhos diversas vezes. Ensinaram-me coisas fabulosas da vida. Devo-lhes imenso. Levava-as para casa, para grande escândalo dos meus pais.

Muito mais tarde tem uma afinidade histórica com as outras duas Marias.

Sim, muitíssimo mais tarde. Ao longo da vida fui tendo amigas e amigos, que é muito importante. Fui escolhendo as que tinham mais a ver comigo. Tinha várias amigas que não iam como eu, mas achavam graça, e pediam para contar o que lia. Li a biblioteca toda do meu pai às escondidas e passei a ler a biblioteca dos pais das minhas amigas.

Elas não liam?

Não, mas eram as que estavam mais perto de mim. Escutavam, tinham interesse. Depois encontrei mulheres muito interessantes. A Natália [Correia], a própria Fernanda Botelho. A Fiama [Hasse Pais Brandão] da Poesia 61, a Luísa Neto Jorge; mulheres fabulosas. Recordo-me muito da Fiama com grande saudade, foi a minha grande amiga. E muitos homens fabulosos. A geração do Urbano [Tavares Rodrigues], do David [Mourão-Ferreira], de uma generosidade e abertura. Não havia inveja.

Como é que estes homens vos viam?

Estes homens já eram especiais. Achavam muito curioso. Lembro-me do David e do Urbano me fazerem um encontro com a Natália, e estavam todos na expectativa do que ela diria sobre uma menina a entrar na escrita. Estavam convencidos que ia ser um despique. Lá me disse, sentada com uma grande boquilha: "Teresa, até que enfim há outra mulher arrebatada que escreve neste país!".

Nunca pensou ser outra coisa?

Não. Quando me perguntavam o que queria ser, e isso já era um avanço, eu dizia que queria escrever um livro. Sempre adorei jornalismo mas fiz primeiro ficção, nos cadernos do meu pai, que era médico. A poesia chega com a adolescência. Lia até não saber mais o que estava a ler. O Cesário, o Herculano, e as mulheres da escrita, que eram poucas.

Continuamos a ter poucas autoras?

Continuamos. A Virginia Woolf tem razão quando diz que a mulher para escrever tem que matar o anjo do lar. De vez em quando acho que não matei tanto quanto devia. O que me salva é ser poeta. Também não acredito nos autores que estão fechados em casa, despegados do mundo. Sempre adorei as redacções.

Sente saudades dos jornais?

Ai, muitas, muitas. Quando percebi que a Leonor não tinha fim, tive que deixar. Mas se os meus netos precisarem de mim, não há escrita não há nada. Quando o Luís esteve doente parei a Leonor durante um tempo. A poesia escreve-se em qualquer sítio e entrei com ele no hospital quando foi operado. E a poesia fi-la lá. Ficção tem outra exigência, mas por ele parei. Estou apaixonada pelos netos e por ele. Tinha mesmo que estar, que os homens dão muito trabalho.

Cortesia de i

Entrevista com Manuel António Pina, Prémio Camões 2011

O escritor e cronista Manuel António Pina foi recentemente distinguido com o Prémio Camões 2011. A decisão do júri foi unânime e rápida. Em apenas 30 minutos foi encontrado o nome que sucede a Ferreira Gullar. Leia aqui a última entrevista ao JL, publicado no n.º 1035, de 2 de Junho de 2010.

Nem uma palavra sobre gatos e ele vive com de uma dúzia em casa, o que desata a curiosidade de qualquer mortal. Tanto mais que os gatos também passam pelas suas conversas como por brasas e por mais do que um poema, atentos à escrita, por dentro dela. Mas a sua literatura está longe de ser um saco de gatos. Daí a inesperada gratidão: "Tenho que agradecer não me terem perguntado nada sobre gatos", diz com o seu quê de habitual doce ironia, estafado da insistência no pormenor da gataria, não dos gatos, evidentemente.

Também nem um assomo das histórias primordiais, do pânico de criança, amarrado à cadeira a comer a papa, enquanto a casa ardia, das constantes mudanças de morada e de amigos, por força do ofício do pai, secretário de Finanças, ou das lembranças do Sabugal, onde nasceu, em 1943, Nem sequer uma alusão à trovoada que fez desabar-lhe a escrita, o milagre das rosas e dos versos contra o medo. Tão-pouco a mítica referência de Winnie the Pooh, que nunca abandonou, a alma de jogador, da sueca ao póquer, noites dentro até ao almoço do dia seguinte, o inabalável coração de 'leão', a proximidade do budismo Zen, do xintoísmo, o cinturão de mestre em artes marciais, ou a inclinação para a hipocondria.

De tudo isso reza a crónica da sua vida, mas queríamos sobretudo tratar da arte do cronista talvez também ciência, agora que Manuel António Pina junta num novo livro uma centena e meia de crónicas.

Por outras palavras & mais crónicas de jornal, uma antologia organizada por António Sousa Dias, reúne sobretudo uma selecção das que tem escrito, cinco dias por semana, desde 2005, para o Jornal de Notícias, justamente chamada Por outras palavras, mas também noutras publicações, com destaque para a Visão.

A crónica será um 'lugar estranho', a "meio caminho" entre o jornalismo e a Literatura.

Um percurso natural, já que Pina é jornalista, 40 anos no batente, no JN, onde entrou como estagiário, enquanto estava na tropa, e saiu como chefe de redacção. E também poeta Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma é apenas um pouco tarde, Aquele que vai morrer, O caminho para casa, Cuidados Intensivos, Atropelamento e fuga e Os livros são alguns dos seus títulos, autor teatral e da dita literatura infanto-juvenil.

E podem separar-se as palavras como as águas? Não é primeira vez que publica um volume de crónicas. O primeiro, O anacronista saiu em 1994 e sobre a cidade onde vive desde os 17 anos, Porto modo de dizer, em 2002. E muitos mais poderia publicar, tantos milhares as que escreveu.

De tal modo que já interiorizou a medida, mil e cem caracteres, com algum eventual "bónus" muito regateado. A da última sexta-feira, 28, chamava-se A hipótese marciana, irresistível, mordaz, bem apontada à ordem do dia.

Outras são mais desprendidas da realidade política e social, do quotidiano.

Todas devedoras da mesma arte, que o digam os fiéis leitores dessas palavras que alinha dias úteis a fio, disciplinadamente. Uma "servidão", diz ele ao JL, numa entrevista feita (por razões pessoais suas) em diálogo por e-mail. Mas se também é rigorosa a sua disciplina poética, servo é, por certo do fazer do verso, das palavras com que interroga o mundo e a própria poesia.

Caso único, tão bem serve Manuel António Pina a dois amos.
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JL: Soube-se recentemente que tinha sido criada a primeira célula que pode chamar pai a um computador. E o cientista introduziu no programa frases de Joyce que de alguma maneira se inscreveram no adn dessa célula artificial: Esta é a crónica do tempo ou a crónica da criação literária?

Manuel António Pina: Da criação literária, só se for da de Joyce.

Mesmo sendo o ADN memória e embora a memória (incluindo a da literatura) constitua a matériaprima fundamental da literatura, a criação literária implica mais que matéria-prima, implica mão-deobra, trabalho, isto é, "fazer" (poiesis).

Curiosamente chama-se por vezes 'literatura' às 'bulas' dos remédios e aos tratados médicos. E há quem fale de uma ligação entre a ciência e a cultura ou mesmo a literatura. Interessam-lhe essas possibilidades do ponto de vista da poesia? E como cronista?

Sim, interessam (mais decerto na poesia do que nas crónicas). A poesia e a ciência partilham, interrogando o real interrogandose ao mesmo tempo a si mesmas, uma fronteira não raro difusa.

Por outro lado, a poesia é, como a ciência, uma prática artesanal, algo feito do próprio fazer. Hoje, quando já não há ninfas nos regatos, as ciências, principalmente as do infinitamente grande, como a astronomia, e as do infinitamente pequeno, como a física das partículas, ou como ainda, a vários títulos, também a biologia e a química, ou mesmo a neurologia, têm não só uma natureza, como dizer?, "poética" (não encontro agora palavra melhor) como, exprimindo-se fora da linguagem matemática, se socorrem às vezes de uma linguagem próxima da da poesia.

Como?

Diz Álvaro de Campos que "o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo"; mas também Stephen Weinberg (um Nobel da Física) fala igualmente de beleza (e de verdade) quando explica o seu deslumbramento com a hipótese de Witten de teoria unificada, a Teoria-M: "Quando Edward Witten a expôs, pensei: 'É tão bela que tem que ser verdadeira!'" Invertendo Novalis, talvez seja possível dizer hoje a propósito de muito do conhecimento científico que "quanto mais verdadeiro, mais poético".

Como poderíamos fazer o genoma de uma escrita como a sua, que é poesia, crónica, ficção e teatro? É uma sequência ou várias ramificações?

Postas assim as alternativas, escolho "ramificações". Embora a crónica não se adapte bem ao conceito de "ramificação" pois, pelo menos do modo especificamente jornalístico como eu a pratico, é de natureza diferente da literatura, mesmo que possa às vezes ter pontos de contacto com ela e ser, como ela, "abandono vigiado" (a expressão é de Alexandre O'Neill).

E não será apenas literatura "por outras palavras"?

Literatura não é certamente, embora eu não esteja certo do que seja ou não a literatura. Algumas vezes será, no máximo, jornalismo com saudades da literatura, ou literatura com remorsos de ser jornalismo.

ARTE EFÉMERA

Há uma arte da crónica?

Há. Em alguns casos, uma arte maior. Mas é sempre (repito: do modo como eu a pratico) uma arte efémera e voraz, prisioneira do tempo e das circunstâncias.

Por isso tenho oferecido resistência a propostas para publicar as minhas crónicas em volume, despojadas das suas circunstâncias (incluindo os constrangimentos concretos de escrita). Sinto uma espécie de culpa ao fazê-lo, como se cometesse uma traição.

Porquê?

Porque não são já crónicas, são anacrónicas (o meu primeiro livro de crónicas chama-se justamente O anacronista).

Havia um velho tipógrafo no Jornal de Notícias que se impacientava com o meu cuidado e preocupação com títulos e textos (eu era então responsável pelo fecho do jornal), dizendo-me que os jornais, no dia seguinte, só servem para embrulhar peixe. Mas não é o destino de tudo no dia seguinte, do jornalismo como da literatura, embrulhar peixe?

Uma crónica pode sempre acontecer, mesmo quando não ocorrem nem romances, nem versos?

Não é uma questão de poder ou não acontecer. Para quem, como eu, assumiu profissionalmente o compromisso de escrever uma todos os dias, tem que acontecer.

E isso não é constrangedor? Como consegue evitar a 'mecanização' ou a rotina do cronista?

Tenho um truque (uma espécie de ostinato rigore que provavelmente nem sempre funciona): não ceder ao previsível, tentar fazer de cada vez o máximo de que sou capaz é o mínimo que procuro exigir-me.

Nunca lhe ocorrem crónicas independentemente do compromisso, de 'geração espontânea'?

Raramente, e só aos fins-de-semana, quando não tenho crónica para escrever...

As suas crónicas ocupam-se mais da realidade ou estão mais perto do real do que os seus poemas? Ou falamos de duas realidades?

Na verdade, falamos de muitas e incoincidentes realidades. Parafraseando Mário de Sá-Carneiro, "é no real que ondeia tudo! É lá que tudo existe!"

O que o faz escrever uma crónica?

O que me faz escrever crónicas é, principalmente, como já deixei dito, a obrigação de as fazer, pois é assim que ganho a vida. Tratase de uma servidão, mas não é a própria vida uma servidão?

REGATEAR COM AS PALAVRAS

Mas como escolhe o assunto?

Como as faço? Sento-me diante do computador à procura, em jornais, em blogues, sei lá onde mais, de "assunto" (de uma faúlha capaz de incendiar ou, ao menos, chamuscar a vontade de escrever a propósito ou a despropósito) com a dead line à perna e confio-me ao improvável deus dos cronistas sabendo que, às 23 horas, aconteça o que acontecer, tenho que ter o morto feito à medida exacta do caixão dos 1100 caracteres, mais um título de duas linhas com o limite de 13 caracteres cada (regateando com os gráficos se, por exemplo, a linha calha de ter vários ii, que são caracteres um pouco mais estreitos que os demais consigo às vezes um bónus de um ou dois caracteres).

Costuma escrever a mais?

Entretanto, ao longo destes anos, interiorizei o ritmo e as crónicas já me saem quase sempre na medida mais ou menos certa; depois é só regatear com as próprias palavras.

Há sempre uma intencionalidade numa crónica? Por exemplo, de intervenção política, social ou cultural? E de cidadania?

O facto de ter que escrever todos os dias, quase sempre em cima do dead line, faz com que muitas das minhas crónicas tratem matérias políticas ou sociais, que são as que estão mais à mão. Não me move, no entanto, qualquer, como diz, "intencionalidade" de intervenção, política ou outra. Limito-me a reflectir (cepticamente a maior parte das vezes) em voz por assim dizer alta. Não tenho nada para vender a ninguém.

Não se considera portanto um opinion maker?

Valha-me Deus, não.

As suas crónicas situam-se mais no território do presente, enquanto os poemas remetem para a memória?

O presente é também construção, memória. A diferença fundamental entre uma coisa e outra é, acho eu, de natureza.

QUERO LÁ SABER DO FUTURO

Em que sentido?

Na crónica, a palavra é predominantemente instrumental de uma intenção de comunicação; na poesia, a intenção, se é possível falar de intenção, é a própria palavra, o seu "fazer" e, principalmente, o seu "fazer-se".

Poderíamos antes falar de inquietação? Com que palavras podemos dizer o fazer da poesia? Também há uma disciplina do poeta?

Sim, há uma disciplina. Rimbaud fala de "liberdade livre", mas a liberdade que existe na poesia é fundamentalmente a de escolher as suas próprias servidões. É essa escolha que faz que, mesmo na poesia metrificada e mesmo em formas canónicas como o soneto, os grandes poetas sejam tão diferentes uns dos outros.

Escreve crónicas para "memória futura" ou esse é o alcance da poesia?

Para "memória presente", as crónicas como a poesia. Quero lá saber do futuro!

Não gosta de falar da poesia que escreve, porquê?

Costumo furtar-me a perguntas dessas com uma resposta equívoca, mas nem por isso menos verdadeira: a minha poesia é tudo o que tenho a dizer sobre ela.

Com as crónicas é diferente?

Sim, com as crónicas é diferente. Falo delas sem constrangimento. Talvez porque tudo, nelas, seja mais óbvio, pelo menos para mim.

Disse um dia que talvez escrevesse para não ter medo: continua a ser assim?

Já o disse várias vezes e, por isso, deve ser verdade, como diria o Homem do Sino de A caça ao Snark, embora agora me pareça que deveria antes ter dito "por ter medo".

E isso aplica-se também às crónicas?

As crónicas não, as crónicas escrevo-as comezinhamente para ganhar a vida, já que ninguém a ganha por mim.

Lembra-se como começou a escrever crónicas? De que se ocupava na primeira?

Por acaso lembro-me dessa primeira crónica. Foi publicada no JN, pouco depois de ter chegado ao jornal, em 1971. Falava de um homem que vira adormecer de cansaço numa fila de espera do autocarro na Avenida dos Aliados, e da impaciência dos outros passageiros quando o autocarro chegou e ele não se mexeu. Havia nessa crónica uma frase que causou engulhos ao então director do jornal.

Qual?

"Ordem e tudo no seu lugar, como dizem os bem instalados".

Depois de esclarecido sobre a inocência da frase, o director disseme: "Olhe, talvez isso não queira de facto dizer nada, mas estou certo de que há por aqui alguma sacanice. Diga-me onde está para que a corte já, sem ser obrigado a ler tudo..." A partir da crónica da semana seguinte comecei, por isso, a meter duas 'sacanices', uma para ser cortada (o director não acreditava que as minhas crónicas dessem ponto sem nó, e temia naturalmente a intervenção da Censura) e outra para lá ficar...

Tem uma ideia de quantas já escreveu?

Já devo ter escrito uns bons milhares (que diabo, sou jornalista vai para 40 anos e sempre escrevi crónicas, primeiro semanalmente, agora diariamente e quinzenalmente).

Recorda alguma em particular?

Assim de repente, lembro-me dessa primeira de que antes falei e de uma ou outra a propósito da morte de amigos.

E de outros cronistas? Tem referências?

As minhas referências mais antigas de cronistas são talvez Rubem Braga, que lia nas páginas do Cruzeiro, e Carlos Drummond de Andrade. E, mais tarde, Fernando Assis Pacheco e Pedro Alvim nas páginas do Diário de Lisboa. Mais recentemente, Rui Cardoso Martins e o excelente Levante-se o réu, no Público.

Já recebeu vários prémios como cronista e publicou outros livros de crónicas. O que quis juntar no corpo deste novo volume?

O presente volume de crónicas nasceu da persistência do editor José da Cruz Santos, que há anos vinha insistindo comigo para que publicasse uma antologia. E da disponibilidade e generosidade de Sousa Dias, que se encarregou da selecção, entre quase três mil, de duas centenas e meia delas.

Foi Sousa Dias quem escolheu (recolhendo mesmo muitas que entretanto eu havia perdido) as que deveriam ser incluídas na antologia, quem as organizou tematicamente, quem as reviu.

Gabo-lhe a paciência, porque eu seria incapaz de fazê-lo.

Se as crónicas são de minha autoria, o autor do livro é, de facto, ele.

ÚLTIMOS POEMAS

O seu primeiro livro de crónicas, a que já se referiu, tinha um título fabuloso, O anacronista. Neste caso, optou por um título que repete o nome da sua crónica diária. Porquê?

Por razões comerciais, e porque muitos leitores do JN se me vinham dirigindo sugerindo a publicação das crónicas em volume (guardo a carta de um que me dizia que esse seria um livro que gostaria de poder deixar ao neto; o primeiro exemplar que eu receba há-de ser para lhe mandar), o título repete o das crónicas diárias que há cinco anos escrevo no JN: "Por outras palavras", e acrescentado, porque há também no volume textos saídos em outras publicações, de "& mais crónicas de jornal".

A literatura para os mais novos é outra vertente da sua escrita: Tem um modo próprio?

Claro que tenho (e como não teria?), mesmo que, frequentemente, seja um modo por assim dizer impróprio, já que não falta quem diga (gente que acha que a literatura é "para") que "isto não é para crianças".

Tem um novo livro de poemas quase pronto? O que tem escrito?

Quando, há pouco mais de um mês, entrei num hospital para ser operado a um aneurisma na aorta, deixei-o pronto, com título e tudo (Últimos Poemas), para a viúva publicar se quisesse. Como aparentemente sobrevivi, deixou de estar pw

A experiência da doença, dos últimos tempos, tem marcado a sua escrita?

Provavelmente terá (que sei eu?) marcado, embora a percepção disso não seja fácil.

O facto de ter chamado a esse livro, ainda não editado, Últimos Poemas implica a ideia de fim, de medo da morte?

Toda a poesia, e provavelmente toda a arte, toda a filosofia, todas as religiões, são, acho eu, movidas pelas perguntas fundamentais: "De onde vimos?" "Para onde vamos?" E, já agora, também pelo "Quem somos?". Isto é, pelo medo. "Riste porque tens medo", escreve Bataille. Poder-se-ia acrescentarse: escreves, ou tens fé, porque tens medo. Acho que é Borges quem diz que os temas de toda a literatura se podem reduzir a dois, o amor e a morte. O amor, através do sexo, está ligado ao abismo da origem do ser; a morte ao do seu desaparecimento.

É natural que os homens, perante tais abismos, se interroguem e, porque não encontram respostas, tenham medo. Talvez por isso a generalidade das religiões inclua uma cosmogonia e, simultaneamente, concebam um destino: para responder ao medo.

Como sente as várias homenagens que lhe estão a prestar? Ainda sem saber o que fazer?

E sem saber o que dizer. Há muita generosidade, mas também muita imprudência, em tudo isso. Eu, que me conheço, é que sei.

Este é mais um tempo de cronistas ou de poetas?

Estes são (todos são) "tempos de indigência" e, como Drummond diria, d s a cronistas. Nenhum tempo é apropriado à poesia.

Cortesia de Jornal de Letras, Artes e Ideias

Entrevista com o poeta Manuel Gusmão

O poeta e ensaísta português, distinguido pela APE com o Grande Prémio de Ensaio "Eduardo Prado Coelho", falou, em entrevista ao JPN, sobre a obra que motivou a distinção e também sobre a carreira que o faz feliz.

"Tatuagem & Palimpsesto - da poesia em alguns poetas e poemas" foi a obra que fez com que o prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Escritores (APE) fosse atribuído a Manuel Gusmão. "Por unanimidade", foi como a instituição definiu a decisão. Nascido em 1945 e com uma carreira "multifacetada", o também professor apenas começou a publicar poemas a partir dos anos 90, mas já leva um reconhecido "historial" que faz com que diga: "mais vale tarde do que nunca".

Que significado tem, para si, receber esta distinção, tomada por unanimidade pelo júri da APE?
É um sinal de que, o meu trabalho, ao longo dos anos, tem valido alguma coisa.

O que é que os leitores podem encontrar na obra "Tatuagem & Palimpsesto", que acaba por galardoá-lo?
A obra é constituída por um conjunto diversificado de ensaios sobre poesia, sobretudo. Uma parte mais teórica sobre o ensino da poesia e, depois, um ensaio, que se individualiza, sobre a poesia de Rimbaud. Depois tem uma série de textos sobre poesia portuguesa moderna e contemporânea, a partir de Cesário [Verde] e [Fernando] Pessoa. Depois disso vêm ensaios sobre Sophia [Andresen], Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Mário Cesariny, e acabo com poetas fugidos nos anos 60.

Ao longo dos anos, escreveu sobre obras de autores portugueses, mas também estrangeiros, como os franceses. Sobre os quais lhe dá mais prazer escrever?
Pode depender muito. Não é bem por serem portugueses ou estrangeiros que me dá mais prazer. Agora, é evidente que há textos que são difíceis de escrever e, por isso mesmo, dão-me bastante prazer quando consigo acertar, sejam portugueses, sejam franceses. Por exemplo, Rimbaud é um autor sobre quem tenho tido sempre prazer em escrever e falar, porque quando dava aulas de literatura francesa na Universidade, tinha de o fazer, e daí a razão por ter muitos ensaios sobre autores franceses, como também Francis Ponge, sobre quem fiz a tese de doutoramento.

Na sua opinião, a literatura portuguesa está de boa saúde?
Eu faria uma distinção entre poesia portuguesa e literatura portuguesa. A poesia portuguesa do século XX, penso que toda a gente concorda, está de bastante boa saúde. Embora se ponha a questão de saber se hoje, entre os jovens poetas, há aqueles que mantêm o nível que a tornaram com esta qualidade. Eu penso que sim, que os há. Tendo a olhar mais desconfiadamente, perdoe-se-me a expressão, para o romance. Acho que alguns dos grandes escritores portugueses de romance, deste século, são já autores que morreram ou que não têm escrito muito ultimamente. Entretanto, penso que há alguns grandes autores de ficção, ainda vivos e jovens. Há um menos jovem de que eu gosto muito, o Rui Nunes, e outro novo, que é o Gonçalo M. Tavares.

Apesar de antes já ter escrito alguns poemas, só a partir dos anos 90 começou a publicar poesia. Partilha daquele ditado popular "mais vale tarde do que nunca"?
(risos) Se valeu a pena começar a publicar tão tarde, terão que ser os outros a dizer. Mas só o comecei a fazer tão tarde, porque vivia obcecado por fazer um livro que fosse uma unidade, um projecto, que não fosse apenas uma sequência aleatória de poemas. Depois de 90 é que tenho vindo a publicar com alguma regularidade, mas não com muita pressa.

Já com um considerável número de obras, ainda existem coisas que quer alcançar e escrever?
Quero continuar a escrever, não porque quero ganhar mais prémios, mas porque acho que me devo, que devo às pessoas que gostam de ler, à língua portuguesa, à cultura portuguesa, e enquanto tiver autores sobre os quais ainda não tenha escrito aquilo que eu penso escrever, continuarei.

Professor, poeta, ensaísta... O que é que gosta mais de ser?
Nós somos um pouco da diversidade das coisas que fazemos. Eu sempre gostei muito de dar aulas, entretanto aposentei-me, mas participo, de vez em quando, em algumas sessões extraordinárias. Mas quando dava aulas, era na vida de professor universitário que tinha mais prazer, porque era o confronto com outros e o ver outros a crescerem. Ter a sensação, talvez enganada, talvez não, de que, comigo, alguma coisa teriam aprendido. Agora, isso sem a poesia e os ensaios, não sou capaz de imaginar.

Cortesia de Jornalismo Porto Net

Entrevista com Lee Chandong realizador de «Poesia»

Poesia, o filme coreano que conquistou o prémio de argumento em Cannes, realizado por um homem das imagens preocupado com a sobrevivência das palavras.

A história de uma avó que procura beleza em todo o lado mas está rodeada pela rudeza insuportável da realidade. De uma velhota simpática e tonta, que fala e olha demais e que procura pela primeira vez na vida escrever um poema mas as palavras já lhe vão sendo roubadas pelo Alzheimer. Poesia, um filme coreano onde a delicadeza e a brutalidade se tocam sem melodramatismos, chega finalmente a Portugal. O premiado realizador, Lee Changdong, argumentista, romancista e ex-Ministro da Cultura e do Turismo da Coreia do Sul, falou à VISÃO sobre palavras e incomunicação, sobre a decadência da poesia e deum certo tipo de filmes, e sobre as medidas proteccionistas coreanas que contribuem para manter o cinema coreano no mapa internacional.

Entrevista:

FINAL CUT: O seu filme insiste muito na questão da poesia como algo em vias de extinção... Pode dizer-se que a avó (a extraordinária atriz Yun Junghee) encarna a poesia e busca a beleza das coisas nas roupas garridas que veste, nos pássaros, nas ameixas, nas flores, mas está a desvanecer-se aos poucos e a perder a memória? Acha mesmo que a poesia vai morrer?


LEE CHANGDONG: Penso que as pessoas escrevem cada vez menos poesia e lêem-na cada vez menos. Parece-me que os alunos aprendem poemas na escola como se aprendessem palavras arcaicas e que, na vida quotidiana, os poemas existem apenas na publicidade. Isto acontece também no cinema.

Quem terá uma morte mais súbita, a poesia ou o cinema?

Alguns filmes ainda estão a ser consumidos em grande quantidade. Alguns filmes que gostava de produzir e de ver tornam-se cada vez mais difíceis de encontrar. Agora, estes filmes não circulam em 'supermercados' e são como um objecto raro que podemos comprar numa feira da ladra que se realiza uma vez por ano. A feira da ladra é o festival de filmes. Nestas circunstâncias, acha que vale a pena medir pulsações para ver quem vai morrer primeiro?

Pensa que este sentimento em relação à poesia como uma coisa para loucos, sonhadores, com os pés pouco assentes na terra é algo de universal? Em Portugal, houve um candidato a presidente da Republica e muita gente comentava depreciativamente "mas é um poeta"... Pelo facto de também ter sido político ligado à arte sentiu esta espécie de desconfiança ou preconceito?

Acho que os coreanos têm uma dualidade de pensamento sobre os poemas. Se um político escrever bem poemas na Coreia, ganhará mais crédito. Mas se um poeta se tornar político, as pessoas irão rir-se. Não sei se haverá também esta dualidade de atitudes noutros países? As pessoas dizem que os poemas devem ser respeitados, que são valiosos mas por outro lado desprezam-nos dizendo que não enchem barrigas.

É ao mesmo tempo comovente e cruel assistir a alguém a tentar escrever o seu primeiro poema na vida e encontrar as palavras justas, quando descobre que tem Alzheimer e já começa a esquecer-se das palavras mais óbvias...

Essa é exactamente a ironia da vida. A vida é algo que tem de se ganhar e algo que tem de se perder. Escrever poemas também é a mesma coisa. Escrever poemas é descobrir beleza, mas ela não existe por si só. Tal como existe luz e escuridão, a beleza coexiste com sujidade, fealdade e sofrimento.

O filme põe em confronto diferentes tipos de alheamento. O da velhota que vai perdendo a memória porque tem Alzheimer. O do adolescente, alienado pela televisão e jogos de computador. O do velhote acamado que quer a ilusão de ter sexo. Todos aquele pais mais preocupados em resolver o crime dos filhos mais através do dinheiro do que com a ética...

Adicionalmente, podemos dizer que a Mija, a personagem principal, é marginalizada pelo mundo. Ela não tem uma amiga íntima e não tem empatia pelo neto com quem vive. Ela também não sente empatia pela filha com quem está sempre a comunicar pelo telefone, apesar de lhe chamar eterna amiga. A sua pureza de criança é tratada ainda como uma imprudência estranha no mundo sofisticado.

Também considera, tal como diz o professor de poesia, que para saber criar o principal é saber olhar?

As palavras do poeta representam de algum modo os meus pensamentos. Como olhar para o mundo? Isso é essencial para escrever poemas e produzir filmes. Os filmes mostram o mundo pelos olhos dos espectadores. Mas como é que os filmes que produzimos mostram o mundo aos espectadores?

A poesia também não pode ser uma forma de nos alhearmos da realidade - no bom sentido da expressão?

Acredito que os bons poemas nos mostram as coisas, para além da realidade e do mundo. Isso não é fugir ou afastar-se da realidade e do mundo, é em vez disso, entrar dentro deles.

O seu filme contém uma parte quase documental em que uma série de pessoas nos falam do seu conceito de felicidade. Se para uns é o amor, ou o nascimento dos filhos para outros pode ser mudar de apartamento para um andar superior...

O modo de sentir a beleza varia de pessoa para pessoa. O professor que ensina poemas no filme queria que cada aluno o contra-interrogasse sobre o que sentem pelo belo na vida deles. Mija, a personagem principal, conta a primeira memória da sua vida.

A memória de quando ela andou, e deu o primeiro passo no mundo... E ela está agora a perder as memórias da sua vida.

Enquadra sempre a televisão de costas para nós, de forma a que o adolescente fique quase a fitar a câmara, mas ao mesmo tempo, com um olhar distante e ausente?

Criei a cena em que o Wooki está a ver televisão à noite, jantando à mesa e a Mija está de pé atrás dele, e a olhar para ele. Esta cena demonstra a sua relação com o neto e é uma cena simbólica que mostra a lacuna entre as gerações do nosso tempo. Isso é constituído pelo chamado triângulo ortodoxo e há uma televisão no meio de toda a cena (claro que não podemos ver o écrã). Parece-nos que o miúdo só está interessado em ver televisão. A avó, afastada, está a olhar para as costas dele. Essa é a forma como a televisão contribui como modo de comunicação entre as gerações do nosso tempo.

Porque é que ela concede o desejo sexual ao velho, humilhando-se? Por compaixão, por calculismo ou por alguma relação com a violação em que o grupo do neto está envolvido?

Na cena anterior ela está de pé, na ponte em que a menina se atirou, olhando para baixo, para a água que corre. E está a pensar profundamente em algo, sentada debaixo da ponte à chuva. Esta cena é o ponto de viragem para ela e para o filme. Em que terá pensado? Talvez tivesse pensado no desejo sexual de um macho imaturo que não se responsabiliza e no desejo sexual de um macho velho que agora se tornou impotente e que suplica por desempenhar pelo menos uma vez o papel do homem. E ela visita o velho. Mas ninguém sabe porque é que ela teve aquele comportamento. Isso é algo que não se pode explicar

Há um sentido sacrificial que funciona como um paralelismo ... Ela denuncia o neto que violou mas deixa-se violar pelo velho... E no final, há uma espécie de transferência de personalidades, quando a velhota assume o destino fatal da rapariga...

Ou seja, aquilo é compaixão pelo sofrimento dos outros. Normalmente é fácil pensarmos que o sofrimento dos outros neste mundo não tem nada a ver connosco, no entanto os sofrimentos estão interligados. O sofrimento da mãe palestiniana que chora pela perda do filho (é apresentado na primeira parte do filme através de uma notícia de televisão numa cena no hospital) está ligado ao de uma mãe coreana.

Essa velhota é uma pessoa demente mas é a única que tem a lucidez de perceber que há uma vítima que está ser transaccionada por dinheiro...

Ela também é uma figura única que tem uma determinação ética. O enredo escondido deste filme, na verdade, está ém seguir a sua opção ética. É claro que tentei não mostrar directamente a opção dela, porque queria que os próprios espetadores a avaliassem. Claro que deixei várias pistas. Por exemplo, comprar a pizza ao menino como se fosse a última ceia, dar-lhe banho e cortar-lhe as unhas dos pés....

Ao contrário de Portugal e de tantos outros países, a Coreia do Sul tem uma cinematografia sólida e muito apoiada oficialmente. Pode explicar-nos como isso funciona?

Existem várias políticas para incentivar a indústria cinematográfica e também há uma instituição chamada Conselho de Promoção Cinematográfica na Coreia. Mas acima de tudo, a razão pela qual a indústria cinematográfica da Coreia pôde manter o seu dinamismo deveu-se ao sistema de quotas de tela, para que os filmes coreanos não entrassem em declínio com a ofensiva quantitativa dos filmes de Hollywood. Por isso a Coreia pôde permanecer como um dos raros países do mundo onde os filmes coreanos são produzidos a pedido do mercado. Mas a quota da tela tornou-se impotente devido à sua redução há alguns anos. No entanto os filmes coreanos ainda estão a competir contra os filmes de Hollywood. Até quando conseguirão? Ninguém o sabe.

Cortesia de Final Cut

Boaventura de Sousa Santos: Um MC cientista


Sempre teve mão para duas escritas, a científica e a poética. Mas está longe de ser um homem dividido. Antes, multiplicado por diferentes formas de expressão. O poeta Boaventura de Sousa Santos tem publicado regularmente, sobretudo no Brasil

scrita Inkz (com prefácio de Gilberto Gil) e Janela Presa no Andaime são alguns dos seus livros de poemas, a que em breve irá acrescentar Falta de Ar em Plena Estação. Mas o sociólogo revelou-se recentemente também um rapper, tendo editado no Brasil um livro de letras a que chamou Rap Global. Alguns rappers brasileiros já as musicaram, e ele gostaria que os portugueses fizessem o mesmo.

O RAP é uma outra forma de dar voz às suas preocupações sociais e políticas?
Sim, é isso mesmo. O que nos leva à relação entre a escrita literária e a científica.

Como passa de uma para a outra?
Automaticamente. Estou a trabalhar cientificamente e ao lado vão surgindo coisas que aproveito para a escrita literária. O processo criativo é muito caótico, não há horários nem ideias estanques. Claro que a escrita literária é mais dúctil, pode acontecer em qualquer lado. A científica obriga a um certo aparato, trabalho de campo, computador, alguns livros, etc.

E há relações possíveis entre essas duas escritas?
Um dos meus interesses é a tradução intercultural, no entanto, entre as várias escritas da mesma pessoa, por exemplo, não me parece que seja possível a tradução. A escrita científica tem o seu cânone, embora aceite transgressões. E cada sociólogo tem a sua maneira de escrever, com transgressões dentro de um certo limite e uma conceção de racionalidade que de alguma maneira o coloca no exterior das coisas. No caso da escrita literária, ela também tem os seus cânones, mas distintos.

É mais livre?
A luz interna, a imaginação, a individualidade e a subjetividade são constitutivas da criação e podem transformar um singular num singular concreto, segundo Hegel, isto é, num verdadeiro universal. Um Josef K. pode ser a experiência de um indivíduo mas é também a experiência de uma modernidade europeia no início do sec. XX. A escrita literária tem um registo que dá outra liberdade.

E o que o levou a escrever o seu Rap Global?
É tudo aquilo que não posso dizer cientificamente sobre a modernidade ocidental, a partir de uma perspetiva pós-colonial. Mas posso dizê-lo literariamente. Há uma série de paralelos entre a Gramática do Tempo, sobretudo nos capítulos sobre o pós-colonialismo, e o Queni N.S.L. Oeste [o pseudónimo usado no livro]. São coisas e formas de dizer blasfemas em relação às tradições ocidentais, de Nietzsche a Celan, que eu distorço ludicamente. Conheço bem a tradição ocidental e viro-a por dentro, contra si. O Nietzsche aparece como o criador de gado bravo de Salvaterra para produzir um efeito de desfamiliarização e de refamiliarização já que o touro vira o Untermensch que por vezes vence o Ubermensch.. Como é que poderia pôr isso num artigo científico? Por isso, usei este artifício que os brasileiros levaram a sério. Na ficha técnica do livro nem aparece o meu nome.

Quem é o rapper que criou?
É o aportuguesamento do grande rapper americano Kanye West, um dos meus grandes ídolos, a par de Jay-Z. Espero que ele não se chateie. Transformei-o num filho de um retornado a viver no Barreiro, a personagem d'A Casa do Rio, do Manuel Rui, grande escritor angolano e grande amigo meu, fomos colegas aqui em Coimbra.

O livro vai ser publicado em Portugal?
Já o mostrei à minha editora, a Afrontamento, e eles ficaram desconcertados. Mas disseram-me que vão publicá-lo. É muito transgressivo. O que tenho preparado agora para sair no Brasil, onde normalmente publico, é outro livro de poemas.

Porquê sempre no Brasil?
Sou mais bem recebido. Aqui é o silêncio.

Sofre da síndrome do Chico Buarque, que por ser bom músico não pode ser bom escritor?
Exatamente. E prejudica-me publicar livros de poesia. Muitos colegas acham que é um embaraço, um cientista social ser também poeta. Mas o que é transgressivo na modernidade ocidental tem de ser marginal. Como digo em A Crítica da Razão Indolente, uma das grandes revoluções da emancipação é pela estética. Penso que hoje temos de ir pelas representações menos poluídas da modernidade. E a arte e a estética foram as menos colonizadas, aquelas a que se deu mais liberdade. O rap acaba por ser a possibilidade de me dar uma dimensão estética e ao mesmo tempo política.

Que não aparece na sua poesia?
Nunca fui capaz de fazer poesia política ou de combate. Pelo contrário, na poesia não procuro nada disso. Sou muito influenciado por Herberto Helder, Ramos Rosa ou Alberto Pimenta, o grande poeta esquecido. Mas tudo o que sai do cânone poético português não é divulgado. E depois ninguém é capaz de imaginar que um cientista social seja um poeta razoável. Toleram-me, pelo silêncio.

Vai publicar algum livro de poesia?
Estou a terminar Falta de Ar em Plena Estação, um livro com dois autorretratos, um deles baseado numa obra do Pedro Cabrita Reis, e um longo poema chamado "Mãe". Tem um caráter mais autobiográfico. Mais tarde sairá um livro de poesia erótica que se vai chamar Volume 8, porque o projeto de investigação da emancipação social teve sete volumes.

O projeto Alice vai dar um bom livro de poemas?
Se o processo criativo continuar. O trabalho burocrático é que mata a poesia. Os livros científicos não faltarão, escritos pelos colaboradores que vou contratar e algum por mim próprio.

Cortesia de Jornal Letras Artes Ideias

Floriano Martins entrevista um poeta chamado Lêdo Ivo

De regresso ao Brasil, Lêdo me enviou seus livros e avançamos em nosso diálogo, sempre me inquietando o fato de que sendo autor tão reconhecido nos países vizinhos não gozasse do mesmo prestígio no Brasil. Em 2009 recebi convite da Casa das Américas, para ir a Cuba integrar o júri de seu famoso prêmio literário. Ao encontrar entre os livros inscritos a poesia de Lêdo Ivo, percebi a oportunidade que se abria, espécie de acaso objetivo que nos daria então a honra de premiá-lo através de um livro seu inscrito, Réquiem, livro este que inclusive vinha de duas belas edições no exterior, precisamente no México e na Itália.

Posteriormente o poeta ganharia também o Prêmio de Poesia do Mundo Latino Victor Sandoval (México, 2008) e Prêmio Rosalía de Castro (Espanha, 2010). Publicado em países como Espanha, Dinamarca, Itália e Estados Unidos, assim como, em países hispano-americanos, Chile, Venezuela, Peru e México. A seguir, uma breve conversa nossa sobre alguns aspectos de sua vida e da literatura brasileira.

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FM Há uma observação que fazes a respeito de tua avó materna, no sentido de que ela “era uma católica praticante: um catolicismo ortodoxo, jamais baianizado”. Sempre me pareceu que a literatura no Brasil foi profundamente prejudicada pela interferência católica. Bem entendido: do catolicismo adotado por nossos escritores e intelectuais. Figuras determinantes como Alceu Amoroso Lima e Mario de Andrade quando menos propiciaram um fio de alta tensão entre o que chamas de catolicismo ortodoxo e baianizado, reorientando a vocação poética de muitos de nossos escritores, interferindo na própria configuração cultural do país. Qual a extensão de um prejuízo dessa natureza, em teu entendimento?

LI Não creio que “a literatura no Brasil foi profundamente prejudicada pela interferência católica”. Como todos os países do Ocidente, o Brasil, como civilização, é uma criação do Cristianismo, cuja maior obra é a própria Europa. Foi o Cristianismo que colonizou a América, deixando marcas imperecíveis em sua educação, arquitetura, música, pintura, modo de viver e de morrer etc. Esse impacto civilizatório, destruindo em muitos casos civilizações milenares, como as maia, asteca, inca, modelou o sistema de educação e de produção literária e artística. O Brasil, desde o dia de sua “descoberta”, com a Primeira Missa, seguiu e segue esse caminho.

Cabe destacar que, no século xix, a inteligência brasileira em sua maioria seguiu o caminho do Positivismo, e recebeu influências de Darwin e Spencer, neutralizando poderosamente o selo católico da nossa civilização, a qual se caracterizava pelo fato de o catolicismo ser a religião oficial do país. Além do mais, cumpre sublinhar que essa nova direção literária e artística se disseminou no século xx. O grupo católico (Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Otávio de Faria, Tasso da Silveira e tantos outros) representa essa projeção de espiritualidade, numa literatura de forte conteúdo regionalista, paisagístico e de escassa interrogação existencial. Hoje, com a expansão dos evangélicos e das religiões e seitas africanas, a influência católica, quer a temporal, quer a espiritual, diminuiu sensivelmente, e são raros os escritores brasileiros aos quais se poderia considerar “católicos fervorosos” ou atuantes. Na imensa maioria, eles, como os pintores e músicos, são católicos históricos e tradicionais (herdeiros de tradições domésticas) “livres-pensadores” ou declaradamente ateus.

Deve ainda ser acentuado que a literatura não é um caminho único, e a comunidade literária se irradia em várias e numerosas famílias espirituais, tanto no plano estético como nos planos político e moral.

FM Bem, não podemos esquecer que o projeto modernista de nacionalizar o Brasil tinha forte conotação católica, cujos desdobramentos conduziram ao integralismo. Benjamin Moser, na biografia de Clarice Lispector, por exemplo, ao referir-se a Plínio Salgado, observa que “como muitos integralistas, Salgado era fortemente influenciado pelos escritores católicos que emergiram nos anos 1920, com suas sugestões de nacionalismo místico”. Havia então a presença da revista A Ordem, dirigida por Augusto Frederico Schmidt, em um ambiente onde se confundiam aspectos como a chamada escola introspectiva, nacionalismo místico, integralismo, em uma mesma sala frequentada por Tristão de Athayde, Mário de Andrade, o próprio Schmidt, Plínio Salgado, ambiente que em dado momento chegou a estar sob a coordenação impositiva da Agência Nacional e Lourival Fontes, o super-homem de Getúlio Vargas no comando do Departamento de Imprensa e Propaganda. Ainda me refiro ao Benjamin Moser, ao dizer que “a fé católica de muitos desses escritores levou alguns deles a se associar, em geral temporariamente, ao integralismo, e a defender certas propostas reacionárias, como a militância de Vinicius de Moraes em favor do cinema mudo”. Quando passamos à Geração de 45, o que muda nessa relação com o catolicismo?

LI Não creio que o projeto modernista de nacionalização do Brasil tenha tido “forte conotação católica” como você afirma. Esse projeto se inspirou em elementos indígenas e folclóricos, como o comprova o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade e a redescoberta do barroco mineiro por Mario de Andrade, o qual era, aliás, um católico tradicional. E a esses elementos de ancestralidade se acrescentou um tempero de vanguardismo europeu, especialmente o sentimento da velocidade haurido no futurismo de Marinetti. Observe-se que os modernistas de São Paulo ignoravam o Nordeste brasileiro e o viam de longe com olhos turísticos. E de “turistas aprendizes”, para usar aqui uma expressão afortunada de Mario de Andrade. Plínio Salgado, com os romances em que se utiliza de um processo de fragmentação da narrativa, e uso imoderado da elipse e do laconismo, é um seguidor e discípulo de Oswald. Como é um discípulo incômodo, dada a sua condição de criador do Integralismo (o chamado “fascismo caboclo”), a crítica e os estudiosos do Modernismo sempre esconderam essa evidência, omitindo seu nome ou menosprezando-o, com a exceção notável de Wilson Martins que, em sua monumental História da Inteligência Brasileira, chama a atenção para a importância seminal de O Estrangeiro no cenário da nossa ficção. Quanto a Vinicius de Moraes, ele foi uma descoberta de Otávio de Faria, que lhe dedicou parte do livro Dois Poetas (o outro é Augusto Frederico Schmidt). Otávio de Faria, autor de um incômodo e instigante ensaio Machiavel e o Brasil, em que denuncia as nossa misérias políticas, influenciou profundamente Vinicius de Moraes em sua primeira formação marcada pela sua simpatia pelo fascismo. Eram amigos íntimos e ocorreu entre ambos uma relação homossexual que foi apagada quando Vinicius se tornou um dos expoentes da esquerda e do comunismo de salão. O seu interesse pelo cinema mudo veio de Otávio de Faria, criador do Clube Chaplin, quando estudante da Faculdade Nacional de Direito. Nada teve a ver com o catolicismo. E há uma retificação que deve ser feita: Otávio de Faria nunca foi integralista. Ele foi fascista, assim como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade foram comunistas, e Rachel de Queiroz foi comunista e depois trotskista num tempo em que a intelectualidade em sua maior parte não acreditava na Democracia, considerando-a o regime da burguesia conservadora e infensa às grandes reformas políticas sociais e econômicas. E além do mais, o Brasil de 1930 até 1945 foi governado pelo estadista autoritário, centralizador e ditatorial Getúlio Vargas, e na Europa imperavam o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini, o franquismo do generalíssimo Franco e várias ditaduras sul-americanas dominavam a América.

Evidentemente que a inclinação dos escritores católicos ou de famílias tradicionalmente católicas era pelo fascismo e o integralismo. (“Deus, Pátria, Família”, era o lema do integralismo. Os integralistas envergavam uma camisa verde com um sigma que os distinguia, como os nazistas e fascistas).

Quando a Geração de 45 emerge, finda a Segunda Grande Guerra com a derrocada do nazismo e do fascismo, o debate político passa a um segundo plano. Pelo menos no seu início, essa geração será formalista e esteticista, preocupada com a “reconstrução” da poesia e da literatura brasileira. O nacionalismo modernista será substituído por um subjetivismo crescente e por um cosmopolitismo de natureza atualizadora. É o tempo da descoberta de Rilke, T. S. Eliot, Paul Valery, Mallarmé, Ezra Pound, Saint-John Perse, Ungaretti e outros, que substituíram as devoções modernistas. E estas eram Apollinaire, o futurista Marinetti e o Blaise Ceadrars que Oswald de Andrade praticamente depenou em seu Pau- Brasil. Uma coisa singular é que o Modernismo, teoricamente programado para proceder a uma atualização da literatura brasileira, foi um dos movimentos mais desatualizados e desinformados em relação às revoluções estéticas que então se operavam na Europa e nos Estados Unidos. No grande banquete dos ismos do século XX, alimentou-se de migalhas.

FM Estamos de acordo que “uma luz impostora ilumina todas as vidas”. Evidente que não significa com isto falsear a realidade de forma canalha, mas antes reconhecê-la como uma mescla de razões e desrazões, anseios e decepções, impulsos e repetições, essências e trivialidades. Como a poesia te descobre? O que sabias de ti quando começaste a escrever?

LI Ao longo de minha trajetória literária, tenho me manifestado talvez exaustivamente sobre a criação poética e a poesia. E decerto essas manifestações haverão de ser sempre fragmentárias e incompletas. Para mim, a poesia é uma manifestação da criatividade humana; uma arte – a arte de fazer versos; o uso supremo da linguagem, já que ela é uma magia verbal, um “idioma” específico dentro da linguagem não só a comum como também da linguagem literária da prosa; um testemunho da condição humana; uma celebração do Universo pelo homem. Dentro desse quadro imemorial, que proclama a necessidade humana de exprimir-se (inventando e documentando a passagem do tempo e a sua experiência pessoal), cumpre sublinhar, com a necessária ênfase, que a Poesia resulta de uma vocação individual e intransferível, que se realiza e se aprimora através do trabalho, da pesquisa, da experimentação e da capacidade de renovação diante da tradição. O poeta nasce poeta e se faz e é feito pela cultura que consegue incorporar ao seu ofício. E ele é apenas um elo no grande sistema poético do mundo, um grão de poeira numa tradição que vem do início do mundo e haverá de continuar enquanto este nosso planeta existir. Isto porque há algo, no mundo e sobre o mundo, que só a linguagem poética tem condições de exprimir. Há algo, no homem, do homem e para o homem, que só o poeta tem condições de dizer, através de e com a sua linguagem.

Quando comecei a escrever na adolescência, nada sabia de mim, a não ser que desejava ser um poeta e escritor, e colocar a minha poesia e a minha prosa a serviço dos homens, o que significa colocá-la a serviço da vida e até da mudança do mundo, já que a mim me doíam e me doem a miséria e a injustiça, a desesperança e a morte.

O importante é que o escritor ou poeta projete em sua obra a sua experiência, aquilo que Rubén Darío chama de “o tesouro pessoal”. E converta essa experiência numa linguagem inconfundível.

FM Quais, aos olhos de um poeta brasileiro, seriam as verdadeiras provas da realidade?

LI A realidade é sempre uma visão pessoal da realidade. Cada um de nós tem a sua, e trabalha com ela ou para ela. É, assim, uma representação, um modo de ver. Entendo que cada poeta, desde os mais exponenciais aos mais modestos e obscuros, projeta em seus poemas uma determinada visão da realidade, do mundo em que respiram, da vida que levam. Para mim, até o sonho e a “alienação poética” são realidades, pois se integram na vida pessoal do poeta e em sua produção. Direi que a visão que tenho do mundo é a minha realidade. É talvez ou decerto uma realidade pessoal, intransferível, mas nela cabem ou devem caber as realidades dos outros. Goethe diz que os homens são seres coletivos. Isto significa que não somos sozinhos nem estamos sós. Somos nós e os outros. Os outros de hoje e os outros de ontem.

FM Entendes que o cosmopolitismo da literatura brasileira é uma farsa? Como nos relacionamos com grandes centros canônicos e não com a grandeza natural da cultura em cada país, que outro Brasil tens descoberto à sombra dessa máscara?

LI Partamos do princípio e da evidência de que nós, escritores latino-americanos, somos seres divididos entre o nosso indigenismo e a nossa ibericidade. Como todos os países periféricos que constituem a América Ibérica (à qual o Brasil pertence), temos uma língua e uma etnia europeias (o espanhol, o português) e somos os herdeiros ou usufrutuários de uma cultura transplantada e da cultura autóctone. E a essas culturas se soma a cultura milenar que nos veio da África À cultura transplantada – literatura, música, arquitetura, educação, culinária, modo de viver e de morrer etc. – conferimos um selo nacional que é a nossa diferença decorrente do nosso indigenismo. O chamado “cosmopolitismo” de parte da literatura brasileira – como de resto a dos outros países como Cuba ou México, Chile ou Argentina – testemunha a nossa ligação transatlântica com a Europa, que, como centro inarredável de tradição e laboratório de experimentação e invenção, atrai a nossa atenção, nos abastece com o seu saber e a sua criatividade e contribui para o nosso aprimoramento. E se funde com o que temos de telúrico e nativo, do nosso chão. Atualmente, podemos vangloriar-nos de que a produção literária e artística na América Ibérica já atingiu um ostensivo grau de autonomia e independência, não pelo que recebemos ou imitamos, mas pelo que criamos e inventamos. A América Latina se tornou a pátria da imaginação e da criatividade, cada vez mais apreciada pelos estudiosos, críticos e leitores de uma Europa que atravessa um período da ostensiva exaustão, após tantos movimentos renovadores como o simbolismo, o surrealismo, o cubismo, o futurismo, o expressionismo e outros. A presença de escritores latino-americanos no fluxo editorial europeu, e ainda a sua presença nos festivais e congressos realizados na Europa, indica que cada vez mais estamos sendo reconhecidos pela nossa diferença e originalidade. Com a sua explosão imaginativa, a diversidade artística, o seu ímpeto testemunhal e documental, a sua diversidade artística e a sua originalidade manifesta, a literatura, hispano-americana é cada vez mais apreciada e aplaudida na Europa. Ostentamos, ainda, uma “irracionalidade” e uma “magicidade” que, pela sua dimensão onírica, primitiva e arcaica, é outra fonte de atração.

FM O tempo envelhece o criador ou a criatura?

LI Há poetas e escritores que dão o melhor de si mesmos na juventude ou na maturidade, e decaem ou se tornam repetitivos à medida que envelhecem. Outros há que se inovam e dão o melhor de si mesmos na idade madura e na velhice. É um quadro variado. O importante é que o poeta ou escritor descubra o momento em que deve silenciar, se é que ele deve silenciar em algum instante de sua vida.

FM Na pg. 132 do teu livro de ensaios O Ajudante de Mentiroso mencionas a tua insularidade como elemento responsável pelo que chamas de “talvez incômodo ar de estrangeiro no cenário das letras brasileiras”. Restringes a uma inveja crônica a relutância do meio literário em relação à tua obra e até mesmo à tua pessoa. O caso se explica assim mesmo, de maneira tão provinciana?

LI No meu caso pessoal, a minha “insularidade” decorre da circunstância de ser originário de Alagoas, no Nordeste brasileiro – uma região que se caracteriza pela sua beleza oceânica e litorânea, pela miséria clamorosa da maior parte de sua população. Acrescente-se a essas evidências a minha solidão, já que, antes de mim, minha terra natal só produziu dois escritores de projeção nacional, Graciliano Ramos e Jorge de Lima. A esses elementos, acresce o fato de ter seguido, no meu ofício literário e poético, um caminho que atesta irrefutavelmente a minha diferença em relação à minha geração e talvez ao próprio legado cultural do Brasil. Costumo dizer que os escritores são constituídos pelo talento (quando o têm) e pela inveja (sempre). Mas esta minha frase deve ser acolhida mais como uma boutade. Embora a vida literária seja um ostensivo domínio de competição e conflitos, e espelhe as virtudes e vícios da condição humana, é também o território de uma convivência harmoniosa. Ao longo do meu trajeto de escritor, muitas mãos, algumas gloriosas, se têm estendido para mim, apoiando-me e abrindo-me caminho. E, de minha parte, tenho procurado proceder da mesma maneira. Minha vida tem sido um estuário de amizades. E também de admiração. Sei admirar.

De qualquer modo, sinto-me um sobrevivente, já que atravessei vários movimentos poéticos sem aderir a eles – o que não foi o caso de grandes poetas empenhados em obter o aplauso ou a cumplicidade dos jovens – e assisti ao sumiço e naufrágio desses movimentos. Confesso que sou muito cioso de minha diferença, a qual se projeta no meu trabalho e na minha maneira de conceber a literatura e a poesia, e deve constituir o meu selo pessoal de poeta e escritor, o que me distingue dos meus queridos confrades.

FM Outro dilema curioso que encontramos na literatura brasileira diz respeito a este seu aspecto livresco – uma literatura “que só sabe respirar o ar abafado dos livros” –, como tão bem mencionas. O escritor brasileiro, em geral, rejeita a si mesmo como elemento constitutivo da relação – que só se realiza, por sinal, de maneira visceral – entre realidade e literatura. Há o prejuízo imediato da superficialidade e um outro, por efeito de decorrência, de ausência de diálogo com as grandes correntes internacionais. Apontamos aqui as resultantes – teu diagnóstico é perfeito, ao dizer que esta literatura “não pode fazer a leitura do mundo” –, porém, qual é a matriz em que se origina este desvio?

LI Um escritor deve ser livresco e antilivresco. Deve ser guiado pela evidência de que a literatura e a poesia são problemas de cultura e não de mera sensibilidade. Um poeta, a meu ver, deve ser o protagonista mais culto da comunidade literária, devendo conhecer um legado que vem de Homero a Dante, de Virgilio a Camões, de Quevedo a Shakespeare e se estende até os nossos dias. O conhecimento de outras línguas é para mim fundamental, já que a tradição cultural da língua portuguesa era insuficiente para as minhas necessidades de expressão e educação cultural. Já o espectro da língua espanhola é diferente. Você pode ser um grande poeta ou romancista em língua espanhola sem necessitar conhecer outras línguas, já que no passado hispânico há Cervantes e Quevedo, Lope de Vega e Garcilano de la Vega, Fray Luis de Leon e Rubén Dario, Góngora e Antonio Machado, e centenas de outras referências basilares.

Por outro lado, o escritor deve respirar o ar da vida, da convivência, o mundo dos outros, pois nele é que se abastece para a sua criação poética e literária. E cada poeta ou prosador faz a sua leitura do mundo – não uma leitura global e total do mundo, que é muito vasto e inapreensível. Lembro o verso magistral de José Martí: “Dos patrias tengo yo: Cuba y la noche”. Nós, poetas, temos sempre a nossa Cuba (o nosso Brasil, o nosso México, o nosso Chile) encravada em nossos corações. E temos a noite: o território das escuridões e constelações, dos sonhos e pesadelos, da interrogação existencial, da indagação cosmológica, da fusão amorosa, do amor e do ódio, de nossa condição humana.

FM Em 2002, quando Walter Galvani recebeu o Prêmio Casa das Américas, em entrevista concedida a Fabrício Carpinejar (Rascunho, junho de 2002), o romancista comentou haver sentido restrição da parte da mídia brasileira, que ele supõe tenha sido em relação ao regime cubano, observando que “a divulgação em si não foi à altura do prêmio, que tem prestígio e significado internacional”. Mais recentemente ganhaste o mesmo prêmio. Como há reagido à premiação a imprensa brasileira? Acreditas que este prêmio tenha perdido prestígio internacional?

LI O Brasil é um grande gueto literário e lingüístico. A literatura brasileira é completamente desconhecida no Exterior. Alguns poetas e novelistas são editados e apreciados, individualmente, na América Hispânica e em alguns países da Europa, mas esse conhecimento de criações artísticas individuais não chega a se configurar na presença de um país (ainda exótico) e de uma literatura. No plano interno o desconhecimento é ainda mais pungente. As tiragens dos nossos livros literários são quase sempre exíguas. Predomina no mercado o livro estrangeiro, especialmente o best-seller planetário, sinal inequívoco da colonização cultural e da dominação comercial por editores multinacionais. A atividade literária no Brasil é cosmética, decorativa, ornamental. Ser escritor no Brasil é uma coisa muito melancólica.

FM És um dos poucos autores brasileiros com trânsito livre nos países hispano-americanos. Transfiro para ti a pergunta que quase sempre me fazem, acerca do indigesto silêncio que marca as relações culturais do Brasil com esses países. Quais os motivos da pouca (ou nenhuma) atenção que nossos intelectuais, sobretudo eles, dão à poesia hispano-americana?

LI Não posso nem devo esconder que a minha condição de “poeta ibero-americano”, decorrente de minha presença em numerosos festivais de poesia e também de sucessivas traduções de minha poesia, em antologias poéticas ou em livros autônomos, muito me alegra. Esse trânsito, iniciado em 1980, quando Carlos Montemayor fez editar no México a antologia La Imaginária Ventana Abierta, e que hoje alcança a Espanha, onde a minha obra poética começou a ser traduzida de maneira intensiva, é realmente um trânsito pessoal. Várias causas podem ser atribuídas ao silêncio do Brasil. Menciono a circunstância de que a língua espanhola só agora, no governo Lula, começou a ser ensinada nas escolas. Até antes da Segunda Grande Guerra, os escritores brasileiros, quando sabiam francês, ensinada nos colégios, se voltavam para França. E quando só conheciam o português, contentavam-se com as traduções estrangeiras e as produções existentes no idioma nativo. O exílio de incontáveis professores e escritores brasileiros nos países da América Hispânica, durante a ditadura, instaurada em 1964, estimulou a curiosidade em torno das literaturas desses países. Mas o caminho da descoberta haverá de ser longo e demorado, e literaturas ricas e vigorosas de uma América que é hoje a pátria da imaginação e da poesia haverão de ser consumidas pelos escritores e leitores brasileiros. Cabe ainda sublinhar a inoperância dos mecanismos culturais destinados a promover a nossa literatura no Exterior, o que estabeleceria uma contrapartida proveitosa com as demais nações hispano-americanas.

É notório que a poesia produzida em grandes países do Ocidente está hoje esgotada e necessita de uma transfusão que a América ibero-americana tem condição de oferecer.

A repercussão escassa do Prêmio da Casa das Américas a um escritor brasileiro deve ser atribuída à visão provinciana que o Brasil tem do próprio Brasil, e que se irradia por todos os setores. O prestígio dos prêmios da Casa das Américas nos países hispano-americanos e na Espanha e em outros países da Europa é incontestável.

Quando fui distinguido com o Prêmio Literatura Brasileira da Casa das Américas, a repercussão nos países hispano-americanos e na Espanha foi confortadora. No Brasil, foi irrisória.

O insulamento cultural do Brasil é uma realidade incontestável. E precisamos de pontes, neste mundo cercado de outros lados.



[Fortaleza, Rio de Janeiro – Julho de 2010]

Por Floriano Martins

Cortesia de TRIPLOV

Entrevista a João Botelho sobre o «Filme do Desassossego»

Há um ano João Botelho ignorou os conselhos de amigos, familiares e colegas. Avançou para a adaptação ao cinema do "Livro do Desassossego", fingindo não ouvir todos os que lhe chamavam de louco. Quer que Fernando Pessoa lhe retribua um favor que fez há 29 anos e vai andar em digressão pelo país a mostrar o filme - "como uma estrela rock". Durante 42 dias ajudou o desconhecido Cláudio Silva a transformar-se em Bernardo Soares e filmou uma Lisboa que não existe mas todos conhecemos. Um trabalho arriscado? "Sim, mas as pessoas precisam de arriscar mais. Estou tranquilo, sei que fiz um bom filme."

Ia começar por pedir que contasse como lhe foi parar a casa uma arca com os manuscritos do Pessoa.



É "a arca" do Pessoa. Estava a preparar o "Conversa Acabada" que era para ser um documentário sobre a troca de correspondência entre Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro. Nessa altura a sobrinha-neta do Pessoa ainda não tinha começado a negociar o espólio do poeta com o Estado, tinha-o em casa. Falei com ela, expliquei-lhe o que estava a fazer e ela emprestou-me a arca.

Tinha lá tudo?

Os manuscritos todos, com as anotações, embrulhados em papel. Os óculos, a boquilha, tudo. Milhares de folhas soltas, correspondência não enviada, uma canção que parecia do Cole Porter, em inglês. Coisas inacreditáveis. Mexia naquilo tudo com pinças e devolvi inteirinho, tal como a recebi. Mas há tanta coisa lá ainda por publicar, ficções, contos, um mundo inteiro. Há textos deles sobre cinema, guiões, coisas inacreditáveis que não param de surgir. Suspeito que a arca do Pessoa tenha um fundo falso.

Já lá estava o "Livro do Desassossego". Deu por ele?

Havia na arca uma série de papéis e anotações dispersas, "LD" e coisas assim por lá escritas. O "Livro do Desassossego" é uma coisa fantástica, um puzzle, um labirinto sem fim. Por isso é que eu me atrevi a fazê-lo. Dá para montar aquilo com referências sensoriais, encontrar uma ordem cronológica, tudo. E depois tem outra coisa óptima, que me permitiu fazer este filme: é um texto muito musical que existe "para ser lido em voz alta ou para ser lido em voz baixa, desde que se oiça", como escreveu o Pessoa. Mesmo com o meu sotaque, que é do Alto Douro, aquilo lido em voz alta tem uma dimensão extra-sensorial.

Lembra-se da primeira vez que o leu?

Estava numa fase estranha da minha vida quando o li, mas percebi logo que o meu sofrimento era completamente ridículo ao pé daquilo.

Em que momento decidiu que queria adaptar este livro ao cinema?

Há coisa de um ano. Porque na altura em que fiz o filme "Conversa Acabada" ajudei um pouco o Pessoa a ser conhecido, agora achei que era altura de ele me ajudar a mim.

Disse nessa altura que estava "cheio de medo". Continua?

Continuo com algum medo. Estou a adaptar uma grande obra e não a posso diminuir, tenho medo de não estar à altura de um livro destes. Podem fazer-se 20 mil filmes a partir do "Livro do Desassossego". Não queria que o meu fosse voyeurista ou especulativo - queria fazer um filme seco. E que agradasse as pessoas, que estas tivessem algum prazer a ver e ouvir.

Como conseguiu transformar um livro de 500 páginas feito de fragmentos num filme de duas horas?

Foi uma escolha. O guião ficou definido à 10º tentativa e ainda durante a rodagem cortei texto.

Como escolhia o que ficava e o que saía?

Através das hipóteses de associações cinematográficas . Saber que uma cena tinha de ser diferente da anterior e mesmo assim ligar à seguinte. O cinema são associações e ideias. Podem dizer "ah isto não tem narrativa". Tem narrativa que nunca mais acaba. A narrativa não é uma coisa única e o cinema não são as histórias - é a maneira de as contar.

Existe a ideia de que uma história tem de ter conflito entre personagens. Como é que resolveu isso num livro onde só há diálogos interiores?

Há conflitos parcelares e o conflito supremo: eu e Deus. E há uma luta para ser um génio reconhecido. O conflito em chegar a Deus, a física da metafísica. Este filme no ideal era uma tela escura só com texto, mas o João César Monteiro já fez isso.

O protagonista, Cláudio Silva, destaca-se no filme. Onde o encontrou?

É um tipo maravilhoso, devo-lhe o filme. Reparei nele numa peça do Teatro Nacional D. Maria II, "Tanto Amor Desperdiçado do Shakespeare" onde ele brilhava.

O que viu nele?


Primeiro era bonito, parece o Gabriel García Bernal ou o Johnny Depp. Dei-lhe um conselho no início que ele cumpriu sublimemente: disse para tentar não pestanejar - é uma coisa que se diz dos filmes portugueses, que os actores pestanejam muito. Ora, durante o filme inteiro ele pestanejou uma única vez quando acendeu um cigarro. Tem sempre os olhos abertos, com as luzes dos holofotes ligados, ele aguentou aquilo tudo. É preciso uma concentração, uma dedicação fantásticas. Aliás, ele entrou tanto na personagem que teve problemas em sair.

Como assim?

Dias depois ainda parecia o Bernardo Soares, o cabelo, a barba. Ainda tinha os mesmos gestos, o mesmo olhar, a mesma atitude. Ele esteve muito tempo lá metido. Trabalhei muito com ele um mês antes de começar a filmar. O Bernardo Soares não podia estar metido no realismo, tinha de ser um personagem à parte, sem tiques, tinha de ser fluído. Ele foi magnífico.

A Lisboa do filme é a sua ou a do Bernardo Soares?

Espero que seja a dele, mas no fundo sei que é a minha. É a cidade que eu achava poder coincidir com o percurso do Bernardo Soares, um tipo que inventou as viagens todas sem nunca sair do mesmo lugar. O Bernardo Soares é uma tripe.

Cortesia de i

Entrevista a Alberto Manguel

Ensaísta, escritor de ficção – mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magnífica biblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside.

Os livros e a leitura sempre nortearam – e ainda norteiam – a vida de Alberto Manguel. Aprendeu a ler por volta dos três anos e nunca mais parou. Quando era adolescente, leu em voz alta, durante vários anos, para Jorge Luis Borges, que tinha ficado cego. Mais tarde, começou a escrever sobre livros, leituras e leitores – e o seu “Uma História da Leitura” (publicado em Portugal em 1999 pela Presença) tornou-se um best-seller mundial.

Nasceu em Buenos Aires em 1948, criou-se em Israel, fez o liceu na Argentina, viveu em sítios longínquos como Taiti. Nos anos 1980 mudou-se para Toronto, no Canadá, e tornou-se cidadão canadiano. De há 10 anos para cá, vive no Sul de França.

As suas primeiras línguas foram o inglês e o alemão e só mais tarde viria o espanhol, explicou Manguel em Lisboa, durante uma conversa pública na semana passada com Francisco José Viegas, no âmbito do Festival Silêncio. “Os meus pais quiseram que eu tivesse uma aia checa de língua alemã que me falasse inglês. Eles, por seu lado, falavam espanhol e francês – o que significa que eu não falei com os meus pais até aos oito anos...” Sentido de humor e simpatia irresistíveis.

O eclectismo de Manguel não se limita à geografia e à linguística. Eterno leitor de Homero ou Dante, adora novelas policiais e ficção científica e não alinha nas modas nem nos cânones estabelecidos. “Há grandes obras, que reconheço que são grandes obras, mas que a mim não me interessam.”

Gosta muito de ler na cama e está “sempre a ler”. Todos os dias, antes de tomar o pequeno almoço, lê um canto de "A Divina Comédia" (“é o meu yoga”). Fala dos 40 mil livros que compõem a sua imponente biblioteca, instalada numa ruína medieval restaurada, como se de 40 mil filhos se tratasse (ele próprio tem três, já crescidos).

O ebook, explicou ainda, não é mais do que “uma tábua de argila com mais memória”, acrescentando que – cúmulo da ironia –, depois de termos abandonado os rolos de pergaminho para adoptar o codex com as suas páginas encadernadas, muito mais prático de ler, voltamos... a fazer scroll às páginas nos ecrãs de computador...


Não usa telemóvel, nem Internet, não tem email. Não os acha úteis. Os amigos ofereceram-lhe um site pessoal nos seus 60 anos (alberto.manguel.com), que “ao que parece, funciona muito bem”. No fundo, a Internet é como uma grande biblioteca – e ele já tem a dele.

ENTREVISTA

A sua obra está praticamente toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paixão pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora?
Penso que somos animais leitores. Vimos ao mundo com uma certa consciência de nós próprios e do que nos rodeia e temos a impressão de que tudo nos conta histórias: a paisagem, o rosto dos outros, o céu, em tudo encontramos linguagem. Tentamos desentranhá-la, tentamos lê-la. Nesse sentido, não podemos existir enquanto seres humanos sem a leitura. Inventámos a linguagem escrita, a linguagem oral, para tentarmos comunicar essa experiência do mundo, para nos contarmos histórias e através delas, falar dessa experiência.
No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma infância um pouco particular: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplomático fez com que viajássemos muito e que eu não tivesse nenhum sitio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regressar à noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso alívio que o mesmo conto continuava na mesma página, com a mesma ilustração, dava-me uma certa segurança e um certo sentido do lar.

Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.

Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?

O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.

É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.

Estamos a ler de forma diferente?
Penso que o que está a acontecer, como acontece em tempos de crise, não é o facto de termos passado a ler de forma diferente, mas de estarmos a tornar-nos mais conscientes do que significa ler, ser leitor, do que é a literatura. Estamos a interrogar-nos sobre essa actividade simplesmente porque ela está ameaçada. Antes de o urso polar entrar na lista das espécies em perigo, ninguém falava dos ursos polares – não era um tema de conversa corrente [ri-se]. Surgiu porque os ursos polares estão em perigo. É porque os leitores sentem um perigo que começaram a reflectir sobre o que significa o acto de ler.

Alguém disse que quando ganhámos o elevador, perdemos as escadas [ri-se]. O que perdemos quando passamos do livro em papel para o ebook?
Eu não prescindiria do elevador nem das escadas. Se eu tivesse de passar seis meses no Pólo Norte, dava-me muito jeito levar um livro electrónico – se houvesse baterias que durassem seis meses. O problema não está na invenção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são promovidos por razões puramente económicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.
A indústria faz constantemente isso e é o que está a acontecer com os livros. Existe actualmente nos Estados Unidos um movimento para acabar com os livros em papel nas bibliotecas das universidades. São tontices: o problema não tem a ver com a electrónica nem com o livro impresso, tem a ver com um comerciante ganancioso que quer vender computadores.

Mas o editores não querem vender computadores, têm medo deste fenómeno.
Têm medo, mas cada vez mais, os contratos de edição incluem os direitos para o ebook. Não acho que isso seja um problema. Paulo Coelho, que não é uma pessoa conhecida pelas suas ideias filantrópicas, colocou todos os seus livros na Internet porque percebeu que as pessoas que liam os livros em formato electrónico iam a seguir comprar o verdadeiro livro.
O livro electrónico é mais uma forma de ler e tudo depende de como queremos ler. Se quiser apenas ler um texto, conhecer um texto, tanto me faz que seja num ecrã ou num livro electrónico. Mas se quiser ler como costumo ler – eu, Alberto Manguel –, fazendo anotações nas margens, passando da página 74 para a página 32 para depois ir espreitar a página 3, não posso fazer isso com um livro electrónico – ou talvez possa, mas é mais complicado. A mim o ebook não me é útil – mas percebo perfeitamente que o seja para outros.

Gostemos ou não, o futuro não será electrónico na mesma?
O futuro não – o presente. O futuro, esse, não sei como vai ser. O meu filho utiliza hoje a electrónica para tudo, para ouvir música, para falar ao telefone, para ler, para comprar bilhetes de avião – tudo passa pela electrónica. Mas também lê livros, também ouve CD de música e discos de vinil. Estamos num presente cuja tecnologia é electrónica – é absurdo negá-lo. Mas daqui a 10 ou 20 anos, vamos dizer: “Ainda usas um computador? Não tens um pffttt?” (não sei que nome iremos dar a tecnologia que virá a seguir).
Estamos a mudar de objectos quotidianos a um ritmo impressionante. Mas nada disso me assusta, faz parte da nossa realidade. O que me assusta é a nossa utilização desses instrumentos e a falta de liberdade com a que os utilizamos. Estamos a transformar-nos cada vez mais em meros consumidores. É essencial reflectirmos sobre isso, porque estamos a perder uma liberdade que define a nossa condição humana.
É muito importante sabermos por que usamos uma coisa. Eu não uso telemóvel, não uso a Internet, não tenho email, mas é uma escolha, não é uma resistência contra algo que me poderia servir. A mim, essas coisas não me servem. Percebo perfeitamente que um cirurgião, que pode ser chamado de urgência, precise do telemóvel, mas a ideia dessa presença constante, dessa comunicação constante, dessa urgência constante, é totalmente falsa. E nos aceitámo-la – mas espero que consigamos reagir. Já chega, já brincámos com todos esses brinquedos e agora vamos pensar um pouco para saber se realmente precisamos deles.

A Internet permite associar ideias, inclusive literárias, quase como se fosse por acaso. Não pensa que isso pode expandir a imaginação?
Essa é precisamente a forma como usamos uma biblioteca. Há mesmo uma biblioteca – que para mim é o arquétipo das bibliotecas –, que é a de Aby Warburg [historiador, 1866-1929]. Foi instalada em Hamburgo em inícios do século XX e é uma biblioteca “associativa” no sentido em que Warburg colocava os livros na ordem em que ele os associava. Ele desenvolveu, por exemplo, uma “lei do leitor”, e em particular uma “lei do bom vizinho”, segundo a qual a informação de que estamos a procura se encontra sempre no livro ao lado daquele que tirámos para consulta [ri-se]. A leitura é uma actividade associativa, sempre foi. Procuramos uma informação, lemos um livro e ao lado desse livro há outro e é assim que construímos as nossas bibliotecas e as nossas cronologias.
O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não significa que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que fazemos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma actividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação.
Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam às bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem de informação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aquilo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comentá-lo, associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo, memorizá-lo –, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.

Isso não é mais a culpa da escola do que da Internet?
A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.
Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível. Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.

Você é um leitor que escreve livros? É mais leitor do que escritor? Não devia, pelo contrário, ser mais escritor do que leitor, depois tantos livros escritos?
Eu comecei por ser leitor. No queria escrever. Depois, tornei-me um leitor que escrevia livros. Mas quando comecei a escrever ficção – um romance intitulado Notícias del Extranjero [que vai em breve ser editado em Portugal pela Teorema sob o título Novas chegaram de outro país] –, a situação mudou. É que, para escrever ficção – embora continuemos a escrever com esse fundo que acumulámos como leitor, com a visão do mundo que nos dão as nossas leituras – e criar um mundo fictício, temos de nos retirar da nossa biblioteca e passar a trabalhar sozinhos.
Não podemos escrever romances a partir de outros romances, porque acabaríamos por parodiar os romances que nos inspiraram. Enquanto o escritor de ensaios trabalha a partir de informação recebida e de uma reflexão acerca dessa informação, o escritor de ficção tem de estar só, num espaço em que se torne possível inventar o mundo praticamente de raiz – as personagens, o espaço, a história. No início, essa ideia metia-me muito medo; agora, é o que mais gosto de fazer.
Acho que a ficção é um instrumento excelente para dar forma a certas perguntas. O ensaio é útil, claro, mas é por vezes demasiado preciso. A ficção permite uma ambiguidade que pode ser mais útil para determinadas perguntas muito complexas. Por exemplo, o tema que me persegue desde o início é a relação entre verdade e ficção, mentira e ficção, mentira e verdade.
Um dia percebi que, desde as minhas primeiras leituras, o que me interessava era saber como distinguimos uma experiência que nos traduz o mundo de uma experiência que atraiçoa o mundo. Como distinguimos a ficção da mentira, a ficção da verdade? Não penso que nos seja possível termos uma visão verdadeira, total, do mundo. Acho que podemos ter acesso a um certo ponto de vista – e é esse ponto de vista que vai sendo definido através das histórias que contamos.

E isso tem a ver com a escrita ficcional?
Sim. Quando temos uma experiência do mundo, o nosso impulso é transpô-la em palavras para a perceber. Por vezes, encontramos nos escritos que lemos as palavras que nos parecem justas. Mas, doutras vezes, queremos ser nós próprios a nomear essa experiência. O problema é que, ao mesmo tempo, sabemos que a linguagem é imprecisa, que nunca chega para definir sequer as coisas mais simples. Então recorremos não apenas à linguagem, mas também à história que contamos através da linguagem. E assim, através dessa experiência que inventamos, criamos uma espécie de espelho da experiência que queremos contar.
Por exemplo, todos temos medo do desconhecido. Temos medo do que pode ser falso, da aparência das coisas. Mas como explicar esse medo? Inventando o conto do Capuchinho Vermelho. Dessa forma, sem necessariamente nomear esse medo, o conto transmite-no-lo através de uma experiência que sabemos ser fictícia, mas que no entanto conseguimos viver através da linguagem.

O seu amor pelas bibliotecas vem de onde? Da sua juventude, quando lia para Borges (que era uma espécie de biblioteca ambulante e anotada), da biblioteca da casa do seu pai em Buenos Aires, onde se escondia para ler?

Não. A minha relação começou quando tinha três, quatro anos. Por um lado, é uma relação fetichista – o objecto-livro apaixona-me – e por outro, é uma relação de conhecimento. O conhecimento do mundo vem-me, em primeiro lugar, dos livros.
Para Borges, o conhecimento do mundo também passava pelos livros, mas ele não tinha qualquer relação fetichista com os livros. Não estava interessado de todo em guardar livros – oferecia-os, tinha poucos livros. Eu ofereço muitos livros, mas compro livros para os oferecer. Por vezes, ofereço livros da minha biblioteca – mas o que nunca faço é emprestar livros, porque isso é um apelo ao roubo.

Disse que quando de leitor passou a escritor, teve de sair da sua biblioteca.
Não é bem isso, uma vez que escrevo na minha biblioteca. Há uma secção, com dois andares, onde também há livros, mas onde tenho o meu escritório, com os meus objectos dispostos de uma certa maneira. Sou muito picuinhas nesse sentido.
O que quis dizer é que, quando escrevo, preciso de esquecer-me daquilo que li. Posso ler certos livros; há autores que não me contagiam. Mas há outros que não posso ler de forma alguma – Borges, Calvino, Chesterton – porque são como aquelas melodias que nos ficam na cabeça e que passamos o dia a cantarolar. Tento ler textos mais neutros.

Mais distantes dos temas sobre os quais está a escrever?
Não necessariamente, apenas os que têm uma voz menos imponente. Há grandes escritores cuja voz é muito mais suave. Autores como Conrad, por exemplo, de quem gosto muito, ou Bioy Casares, cuja voz não é contagiosa.

A sua biblioteca parece ela própria como uma personagem de romance: imponente, secreta, maravilhosa. Contém 40 mil livros e está instalada num presbitério.
Sim. O presbitério, que era a casa do padre, está colado à igreja [da aldeia]. E tem um enorme jardim, onde havia um estábulo de pedra que tinha sido demolido há três séculos. Nós reconstruímo-lo e foi aí que instalei a biblioteca.

É caótica ou organizada?
É muito organizada. Sei exactamente onde está cada livro. A ordem principal é a da língua em que o livro foi escrito. Há uma secção de inglês, de castelhano, de italiano.... E dentro dessa ordem, a ordem alfabética. Mas depois há muitas excepções, com secções sobre a Bíblia, sobre mitologia, lendas do Judeu Errante, cozinha, romances policiais...

Não sente frustração quando pensa que há jóias literárias que lhe passam ao lado?
Não. Quando era adolescente, angustiava-me pensar que nunca iria poder ter nem ler todos os livros que queria. Mas essa angústia passa-nos e transforma-se numa espécie de alívio [ri-se]. É óbvio que não vou ler tudo o que é publicado, é óbvio que nem vou ter conhecimento de tudo aquilo que é publicado. Aliás, prefiro concentrar-me em certos livros.
O tipo de leitura que pratico agora, nesta idade – embora continue a ler algumas coisas novas – é a releitura. Por exemplo, há já mais de dois anos que leio um canto de Dante todas as manhãs, antes de tomar o pequeno almoço [ri-se] – com um comentário diferente, tomando notas. Já completei esse percurso umas dez vezes. É um tipo de leitura que faço por prazer – e que me parece infinito. Nunca vou conseguir saber o suficiente acerca da "Divina Comédia", mas felizmente, já não tenho aquela angústia. É como pensar em sítios que nunca visitarei, pessoas que nunca conhecerei. Que alívio! [ri-se]

Lê sobretudo ficção, ou também não ficção?
Leio principalmente ensaios – porque escrevo ensaios e portanto certos temas me interessam em particular. Também leio ficção, mas acho que, aí, preciso de uma certa distância cronológica, de sentir-me numa geração muito posterior ao texto. É-me difícil ler os meus contemporâneos. Há alguns autores actuais de quem gosto muito – entre os argentinos, Eduardo Berti, Edgardo Cozarinsky; em França, Pascal Quignard, Jean Echenoz; na Alemanha, Daniel Kehlmann; entre os americanos Cynthia Ozick (gosto mesmo muito dela), Richard Ford.
Mas não gosto de nenhum escritor daquela geração [norte-americana] de [Jonathan] Franzen, [Dave] Eggers. Parecem-me todos saídos da mesma máquina, com romancezitos bem montados que soam modernos e que toda a gente terá esquecido daqui a 10 ou 20 anos.

E os romances policiais, a ficção científica?
Gosto imenso. A ficção científica – e eu diria que o romance policial também – já não são os romances de género que foram no passado. Os escritores que acabei de nomear escrevem romances policiais; [Margaret] Atwood escreve ficção científica, Doris Lessing também.

Há umas gerações uma pessoa não erudita, mas culta, tinha a obrigação de ter lido certos livros. Hoje, essa ideia parece ter sido esquecida.

A questão é que deixámos cair a noção de “ser culto”. Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa pode perfeitamente admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas hoje é realmente espantoso ver o número de pessoas adultas que jogam jogos totalmente imbecis.

Há leitores que só querem ler coisas novas.
Mas essa é a tal política do supermercado. Não vamos ao supermercado comprar um produto do ano passado, mas coisas que ainda não passaram do prazo. É o mesmo com os livros: agora, têm um prazo de caducidade. Passadas três semanas, o que não foi vendido desaparece. É uma política muito perigosa.

Mas ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. “Os Lusíadas” de Camões, por exemplo.

Claro que continua. Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores – e muita gente – não o reconheçam. 
As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Querem aprender a pensar. Na Idade Média, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma.
Se me confiarem uma turma de crianças, comprometo-me a fazer com que elas leiam Camões com muitíssimo entusiasmo. É preciso dizer-lhes que são inteligentes e que vão conseguir ler essa obra. As crianças adoram palavras complicadas, termos difíceis, histórias onde não se percebe tudo. Mas a indústria não quer isso, quer tornar as coisas mais simples – e então fazem resumos, simplificam, publicam coisas idiotas para crianças e acabam por não publicar nada. Apenas jogos de vídeo.
A nova geração continua a ter gosto pela leitura. Para o ser humano, o instinto de sobrevivência não se resume à necessidade de comer e beber; também inclui a necessidade de pensar. E isso é verdade seja onde for – aconteceu nos campos de concentração, acontece nas favelas mais pobres, acontece nas situações mais extremas. Continuamos a pensar, a criar, a interrogarmo-nos. E temos de lutar por isso. Não somos cegos; podemos dizer que não.

Diz que se sente mais canadiano do que outra coisa. Porquê?
Ser canadiano foi uma escolha. Cheguei ao Canadá sem saber o que era o Canadá. Fui lá porque, por uma série de acasos, um dos meu livros foi publicado lá e teve muito êxito. Podia ter sido na China. Ora, no fundo, eu nunca tinha realmente vivido numa democracia. E de repente, cheguei a um país onde votar tinha significado, onde a voz de um indivíduo na sociedade tinha significado, onde existia uma responsabilidade cívica. Queria pertencer a esse país!
Para mais, cheguei lá em finais dos anos 1970, inícios dos anos 1980, no meio de um verdadeiro boom cultural. Queriam criar uma cultura canadiana, que até lá tinha sido simplesmente inglesa, britânica ou americana. Por isso, se uma pessoa quisesse montar uma peça de teatro, fazer um filme, escrever um livro, não havia qualquer problema. Foi assim que, eu, um estrangeiro, comecei a fazer rádio, televisão, todo o tipo de coisas. Isso nunca me tinha acontecido nem nunca me aconteceu depois em mais sítio algum.
Não acredito nas nacionalidades impostas. O facto de nascer num sítio é um puro acaso, não define nada. Enfim, se nos criarmos lá, se estudarmos lá, então sim. No meu caso, a Argentina foi importante por causa de minha educação secundária. Fui aluno do Colégio Nacional de Buenos Aires [liceu que depende da Universidade de Buenos Aires] e isso definiu-me. É uma parte de mim próprio que aceito. Mas o Canadá foi uma escolha. Por isso, continuo a declarar-me canadiano – apesar de haver lá agora um governo de direita imundo.

A leitura e a escrita vão desaparecer? Há quem pense que vamos regressar a uma espécie de tradição oral high-tech graças a computadores capazes de comunicar através da fala.
A tradição oral não tem nada de mau. O problema é quando a tradição não é oral, mas feita apenas de conversas que nunca chegam a ter lugar. Já eliminámos até os locais onde conversar. Ainda há alguns cafés, mas todos têm televisão, música. E mesmo esses estão a desaparecer.
Nós também iremos provavelmente desaparecer. Mas se sobrevivermos como seres humanos – o que não é seguro – fá-lo-emos com a linguagem escrita, com a linguagem falada e com a linguagem lida. Vamos sobreviver com os nossos livros. Se desaparecermos, os livros também desaparecerão. E no fundo, isso talvez seja uma coisa óptima para o planeta – para as árvores, para as formigas, para os ursos polares...


Cortesia de O Público

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