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Ouvir literatura portuguesa em qualquer lugar

É mais fácil aceder à substância de um livro através da audição do que da leitura. Esta ideia pode resumir o projecto O Livro. Teresa Henriques, Joana Mendonça e Diogo Henriques querem assim combater a exclusão a que a literatura está sujeita na sociedade.

"As pessoas têm cada vez menos tempo para ler, mas não queremos atingir só esse público, pretendemos também chegar aos idosos, às crianças e aos... preguiçosos!", aponta a equipa que concorreu e faz parte dos dez candidatos da iniciativa Faz - Ideias de Origem Portuguesa, da Fundação Gulbenkian, em conjunto com a Fundação Talento.

Cada equipa de concorrentes deve ser constituída por portugueses na diáspora e residentes no país. A ideia de O Livro vem do outro lado do Atlântico, dos EUA, pela mão de Teresa Henriques, de 32 anos, escultora. "A oportunidade de ser escultora nos EUA é muito maior do que alguma vez será em Portugal", justifica.

Quanto ao projecto, este surgiu de uma vivência ainda em território nacional: "Vi os meus avós na última fase da vida deles, quando começaram a perder as capacidades físicas, a ficaram reféns da televisão".

A escultora a viver em Nova Iorque há três anos recorda que os avós eram duas pessoas que gostavam imenso da cultura portuguesa, "literatura, música, teatro", e perderam esses interesses. "Então, lembrei-me de fazer uma biblioteca falada, através da rádio".

Com a ajuda de Joana Mendonça e de Duarte Henriques, decidiu tornar o projecto mais abrangente. "Queremos criar um programa em que os idosos vão contar histórias às crianças", por exemplo. Mas não só. "Seria uma mais-valia para os doentes que estão nos hospitais ou para os cegos", embora salvaguardem a importância do braille, ou ainda para as pessoas analfabetas, que teriam assim uma "abismal melhoria na sua qualidade de vida".

A equipa acredita que o projecto vai valorizar a cultura de um "país que é conhecido mundialmente pelos seus escritores". Tudo isso através da rádio que "chega a todos, mesmo as famílias portuguesas mais pobres têm uma aparelhagem pequena". Teresa lembra o hábito que muitas pessoas têm de "rezar o terço" acompanhando a rádio. "Podia acontecer a mesma coisa com a nossa biblioteca falada!"

O objectivo é criar um programa de rádio, onde os livros podem ser lidos, capítulo a capítulo, a uma hora específica, como as antigas radionovelas. Autores como Eça de Queirós, Saramago ou Fernando Pessoa, entre outros, podem ser divulgadas. E é aqui que reside uma das principais dificuldades do grupo: convencer as rádios nacionais a introduzirem este tipo de emissão na programação diária ou semanal. É um programa que não se adequa a qualquer rádio. "Uma rádio juvenil nunca irá aceitar a nossa proposta", a aposta direcciona-se mais para uma rádio com um público-alvo "mais maduro, que saiba dar valor a um bom livro", avalia Teresa.

Para este programa funcionar, a família Henriques quer contar com o apoio das universidades. Estudantes formados em áreas de dicção e línguas podem "dar voz" à literatura portuguesa. Estudantes de multimédia e audiovisuais poderiam ocupar-se da edição do programa radiofónico.

Outro ponto do projecto, explica Joana Mendonça, de 31 anos, economista que trabalha na área da inclusão social, é o livre acesso desta biblioteca na Internet. "Existirá uma plataforma online onde os livros estarão disponíveis, as pessoas fazem download e vão ouvindo". Aqui entra a experiência de Diogo Henriques, de 27 anos, engenheiro informático. "Queremos uma coisa simples, que permita o acesso a qualquer pessoa, jovem ou menos jovem, português ou estrangeiro".

E deste projecto pode nascer outro, o do aluguer dos "livros em áudio", em cafés, nas praias, jardins ou praças públicas. Deste modo, nem os turistas ficam de fora. Para eles, estão pensadas gravações em inglês e francês.

Cortesia de O Público

Fernando Pessoa sonhou ser super-Camões

Fernando Pessoa sonhou ser super-Camões. Não o foi e se ele não o foi é porque essa empresa é impossível.

O mostrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”
“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que a minha alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!

Fernando Pessoa

Camões, diz Eduardo Lourenço, fez mais do que pintar-nos. Deu-nos o palco do mundo, celebrou nele a nossa aventura descobridora e simbólica em tais termos que não parece ter-nos deixado outra alternativa como entidade colectiva do que refazer sem fim a viagem do Gama ou ficar de braços cruzados na praia deserta do Restelo, a lamentarmo-nos do que fomos e já não somos, assistindo à aventura dos outros.

Foi o que Pessoa quis dizer, quando escreveu que depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia os portugueses ficaram sem emprego. Mas enganou-se. Quem nos desempregou não foram as Descobertas foi o cantor delas. Pessoa bem o sabia que teve de se empregar no desemprego.

Camões e o seu poema “Os Lusíadas” falam-nos da História de Portugal, Transformam factos históricos numa epopeia onde a História do nosso povo anda de mãos dadas com os desígnios e a vontade dos deuses.
O poema estrutura-se com base na viagem de Vasco da Gama. Viagem que une o Oriente ao Ocidente. Viagem que uniu mares e, assim, aproximou continentes, culturas e civilizações.
A descoberta da passagem do Cabo das Tormentas teve o poder histórico e simbólico de ousar confrontar o gigante Adamastor, de atrever-se a ir ver os segredos escondidos / Da natureza e do húmido elemento, / A nenhum grande humano concedidos / De nobre ou de imortal merecimento,...

“Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse (…) ?, pergunta o mostrengo, pela voz de Pessoa.

A “gente ousada” descobriu mundo. Alargou, geograficamente os domínios terrestres, roubando aos deuses o que antes estava sob a sua autoridade — Adamastor era “capitão do mar, por onde andava a armada de Neptuno”, o deus dos oceanos.

Da ocidental praia lusitana, barões ilustres, levaram a Terra até os céus. Ou, se preferirem, descobriram que os céus estavam aqui na Terra. No final da viagem que os levou à Índia, os marinheiros gozam do prazer físico em encontro amoroso com belas ninfas.

Na obra de Camões confluem e convivem homens e deuses, espaço conhecido e espaço mítico, factos históricos e destino cósmico.

E o poeta, relatando acontecimentos, transforma-os em mitos, em feitos que se fixam num tempo que ultrapassa o da História. Os feitos dos portugueses não ficaram ali, nos anos quatrocentos e quinhentos ou nos de toda a História que os precedeu, eles projectam-se constantemente no futuro.

Somos o que somos, porque fomos. Somos, não o que historicamente fomos, senão o que Camões quis que nós fôssemos.

Camões deu-nos o nosso bilhete de identidade e fez o nosso registo espiritual — deu-nos a alma, a alma que faz com que, cada um de nós, tal como o homem do leme, diga: “Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu.

Sabemos quem fomos, sabemos quem somos. Temos consciência da nossa identidade: somos portugueses.

No tempo, no passado, ficou o que já passou. O que passou no tempo de Camões, Os Lusíadas trouxeram-no para o futuro e chegou até nós em imagem de glória e fama, imagem de grandeza, que alimenta continuamente o nosso ser e faz com que continuemos a ser, tal como ele lembrava ao rei:
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pilouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo![4]

O poder desta alma, que o poeta nos deu, é a força de união entre todos nós portugueses, hoje e sempre, os que vivem na metrópole ou os que estão dispersos pelo mundo. Na Venezuela, como em Freixo-de-Espada-à-Cinta ou no Machico, somos portugueses. Somos portugueses e temos saudade. Saudade da nossa terra, uma saudade regionalista, mas uma saudade que alimenta o sentimento de um apego a uma tradição histórica, a um inconsciente colectivo, ao espírito de uma língua.

Armas e barões assinalados, da ocidental praia lusitana chegaram aos confins da África e dobraram o Cabo das Tormentas, fazendo dele o Cabo da Boa Esperança.

Unindo o Oceno Atlântico ao Índico, mudaram a face da Terra, mudaram a visão planetária do universo. Para nos darmos conta da importância deste feito, pensemos só o que seria do planeta hoje se, em vez de terem sido os portugueses a ir de cá para lá, a ir do ocidente até ao oriente, tivessem sido os chineses, por exemplo, a descobrir essa passagem.

Em 1420 os chineses chegaram a Quíloa, na costa oriental de África. Não foram mais longe. Coube ao povo luso a façanha histórica de levar a Europa para a Índia e para as longínquas terras da Ásia.

A partir de então, o Atlântico vai transformar-se no centro do planeta e a Europa, passará a ser o centro donde irradia civilização e cultura para todo o mundo. O mapa-mundo adquire uma forma nova: à direita, a Àsia e à esquerda, o Novo Mundo, a América. Ásia e América ficam relegados para os cantos, o centro é ocupado pelo Atlântico. Portugal ocupa um lugar central e, por ele e com ele, também a Europa.

Lisboa é a capital do Império. Um Império que difundiu fé e cultura.
Foi o povo luso quem produziu este mudança. Foi Camões quem a fixou na História e na memória. Ao transformar aqueles acontecimentos em mito, o poeta criou a nossa alma, a alma portuguesa.

Camões conheceu e viveu esta obra de Portugal, ele conheceu os novos mundos que Portugal deu ao mundo, mas viu e sentiu o processo histórico de dissolução que já estava em marcha. Nele há ainda, no entanto, memória e esperança, memória do que viu e conheceu e esperança de que esse império possa regressar ao seu período de auge.

Ele, que foi o criador do mito, vive ainda a realidade de uma fé que crê que Portugal pode tornar a ser Portugal, ou seja a nação que fez os feitos que ele narra.

Fernando Pessoa, na “Mensagem” fala-nos também de Portugal e do seu Império. Fá-lo, séculos mais tarde numa época em que a dissolução do Império já é uma realidade. Em Pessoa, existe a memória de uma imagem de Portugal: a imagem mítica que Camões soube criar. Pessoa faz reviver a alma da nação portuguesa, crê nela e espera o aparecimento de um Supra-Camões, capaz de dar ânimo e alento a essa alma.

O que em Camões era esperança de reconstrução, de ressurgimento do prestígio imperial, em Pessoa assume a forma de sonho, de utopia.

Pessoa, decepcionado com a realidade histórica, mas acreditando numa “Nova Renascença”, alimenta a utopia. Utopia de um império: um império de cultura.

Camões realça a aventura, o risco: a viagem. Para Pessoa a viagem será uma viagem sem limites geográficos, antes uma aventura de espírito. O império de “Os Lusíadas” é um império territorial, o império de “Mensagem” é o império da língua portuguesa.

Em “Os Lusíadas” glorifica-se o passado, enquanto que na “Mensagem” se glorifica o futuro.

Tal como já fizemos o passado, façamos também agora o futuro.

Tinha razão Fernando Pessoa quando dizia “A minha pátria é a língua portuguesa”. A Pátria está na língua, porque ela é o veículo que nos leva aos valores que se identificam com ela, os valores que nos fizeram a nós, povo português.

O carpinteiro precisa da serra para das árvores fazer móveis, o ferreiro precisa da forja. Nós precisamos da língua. Com ela, queremos fazer móveis e queremos moldar o ferro. Queremos continuar a ser — que os nossos filhos continuem a ser — “o homem português”, esse homem que teve de descobrir o caminho marítimo para a Índia e o caminho marítimo ou aéreo para a Venezuela, por exemplo.

Se perdermos a nossa língua, ficamos como o carpinteiro que perde a sua serra ou o ferreiro que perde a sua forja. Deixamos de fazer móveis. Deixamos de moldar o ferro.
Com a língua de Camões sejamos obreiros da construção do futuro.

No tempo do poeta, levámos as caravelas e as naus até à longínquea China e Japão, até às Américas. Infelizmente, lá dentro foi a Europa do poder militar e político.

Continuemos esta obra, mas levando agora cultura, vida.

Amigos, tal como o poeta, digo:

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor falta cumprir-se Portugal!

Por Francisco Nuno Ramos

Encerrou a última fábrica de máquinas de escrever do mundo

Os anos 1950 fizeram da máquina de escrever um símbolo da independência na Índia, onde estes ruidosos instrumentos continuaram a ser produzidos até aos dias de hoje. Mas esta história de resistência chegou ao fim: a última fábrica que continuava a fazê-las chegar ao mercado capitulou face à supremacia dos computadores.

A Godrej & Boyce, a multinacional com sede em Bombaim que ainda apostava na produção de máquinas de escrever, decidiu pôr um ponto final numa cronologia com quase século e meio (a primeira máquina de escrever comercial foi fabricada em 1867, nos Estados Unidos), aceitando finalmente a obsolescência deste instrumento de trabalho.

A última década foi fatal para a máquina de escrever. Nos anos 1990, já a época dourada no Ocidente tinha acabado, a Godrej & Boyce conseguia vender cerca de 50 mil máquinas anualmente. No entanto, o declínio progressivo das vendas culminou com um mínimo histórico no ano passado: saíram menos de 800.

“No início dos anos 2000, os computadores passaram a dominar. Todos os fabricantes de máquinas de escrever de escritório pararam a produção, excepto nós”, observou o director executivo da empresa, Millind Dukle, ao diário indiano Business Standard. E eles resistiram até agora, Abril de 2011.

“Não estamos a receber muitas encomendas. Até 2009, costumávamos produzir 10 a 12 mil máquinas por ano”, contabilizou Dukle. Na despedida, sobram as duas centenas que ainda se encontram em armazém, a maioria das quais em árabe. “Esta pode ser a última oportunidade para os amantes da máquina de escrever”, sublinhou o responsável.

As máquinas vão passar definitivamente para os antiquários e museus, aonde chegaram anos antes do fim de linha. Desde logo, nos dedicados a alguns dos escritores mais relevantes do século passado: Faulkner, Hemingway, Burroughs, Kerouac. Este último, por exemplo, escreveu Pela Estrada Fora num único rolo de papel, para não ter que trocar as folhas da máquina e interromper a narrativa.

As histórias são muitas, os nomes reconhecíveis também – ainda hoje Cormac McCarthy escreve à máquina. Contudo, a história deste instrumento, que começou a ser desenvolvido no início do século XVIII, não se reduz a notáveis. Os escritórios eram o território natural das máquinas de escrever, que desempenhavam o actual papel quotidiano dos computadores: banais e indispensáveis.

Cortesia de O Público

Livraria Bertrand do Chiado é a mais antiga do mundo

Desde que abriu em 1732, a Livraria Bertrand do Chiado nunca deixou de funcionar. É por isso que entrou para o Guiness como a livraria mais antiga do mundo ainda em actividade.

A Livraria Bertrand do Chiado foi reconhecida pelo Guiness como a livraria mais antiga do mundo ainda em actividade. O atestado, certificado pelo Guiness Book of Records, está exposto desde ontem à noite no interior da loja.

A livraria Bertrand do Chiado está em funcionamento desde 1732 e o processo de candidatura a livraria mais antiga do mundo obedeceu “a uma rigorosa prestação de provas”. Foi necessário confirmar que a actividade da livraria não foi interrompida ao longo destes anos e para isso contribuíram o historiador contemporâneo e colaborador da LisbonWalker, José Antunes; o sociólogo Miguel Cabrita; Ana Salvado, que no momento da candidatura era subdirectora do Instituto Nacional para a Reabilitação; o escritor, historiador e crítico de arte José Augusto-França, entre outros.

A primeira Bertrand, fundada por Pedro Faure em 1732, abriu portas na Rua Direita do Loreto, em Lisboa. Mais tarde, em 1755, quando já era o genro de Faure, Pierre Bertrand que dirigia a livraria foi instalar-se junto da Capela de Nossa Senhora das Necessidades por causa do Grande Terramoto. Dezoito anos depois, em 1773, a Bertrand voltou a abrir as portas na já reconstruída baixa pombalina. No texto de José António Saraiva, “Bertrand – a história de uma editora” é-nos dito pelo historiador que a Bertrand teve 11 nomes e conheceu quatro moradas.

Esta novidade, de a Livraria Bertrand do Chiado ser a mais antiga do mundo, foi dada ontem durante um jantar que juntou livreiros, editores, autores e jornalistas na loja do Chiado. Um espaço ao lado da livraria, o número 15 da Rua Anchieta, foi recentemente recuperado e passará agora a chamar-se a Sala do Autor onde se realizarão lançamentos de livros e tertúlias como a "Ler No Chiado". Foi nessa sala que José Fontana, que foi durante 16 anos empregado da Bertrand do Chiado, primeiro como livreiro e depois como gerente, se suicidou por estar doente com tuberculose. Personagem real que inspirou o romance “Na próxima semana, talvez”, de Alberto Nessi, e que já está à venda nas livrarias.

A rede de livrarias Bertrand apresentou ontem também um “Manifesto” que Paulo Oliveira, do Conselho de Administração, definiu como “um compromisso com o livro e com o leitor”. O escritor valter hugo mãe e o editor Diogo Madre Deus (editor da Cavalo de Ferro, fundou em 2005 com Romana Petri, a Cavallo di Ferro editore, com sede em Roma) leram durante a cerimónia o manifesto “Somos Livros”: “Somos a tinta fresca em folha áspera. A capa dura. Aquilo que procura. Somos a História. Desde sempre. O terramoto de 55 e a revolução de 74. Somos todos os nomes. As pessoas do Pessoa. Alexandre Herculano e Ramalho Ortigão.”

Conta-se que nas salas da livraria, ninguém ousava invadir o cantinho de Aquilino Ribeiro e ainda não há muito era possível encontrar naqueles corredores Fernando Namora ou José Cardoso Pires. A Bertrand Livreiros é o nome de uma rede com 53 livrarias espalhadas pelo país e integra formalmente o Grupo Porto Editora desde 30 de Junho do ano passado.

Cortesia de O Público

Poesia portuguesa: conjecturas e balanços

Na conferência que António Carlos Cortez proferiu no Centro Nacional de Cultura, no quadro do balanço literário da primeira década do século, ficaram claramente definidas três grandes tendências que animam a mais recente poesia que se escreve em Portugal. Por um lado, uma reacção ao realismo mecânico e excessivamente denotativo que foi moda nos primeiros anos da década; por outro lado, alguma recuperação da poesia entendida como puro trabalho de oficina ao nível da linguagem; por outro lado ainda a poesia como formato essencialmente rítmico (e com recuperação de alguma tradição lírica).

Dir-se-ia estarmos (de novo) virados para uma dominante estésica que reclama – ainda que sem manifestos ou apologias – um reatar da poiesis (a linguagem gerando-se a si própria), uma certa ‘desinstrumentalização’ face ao real e uma atitude de pesquisa em torno da proporção e da cadência. Como se o imediatismo ‘sem derrame’ tivesse ancorado noutras paragens. Como se a ideia de uma janela figurada que diria o real de modo pouco autotélico se tivesse convertido, de novo, no espírito prospectivo de laboratório e, portanto, de prazer construtivo.

Estes dados iniciais merecem um confronto com a perspectiva que, há uma década atrás, tentava projectar os caminhos da nossa poesia. Recorro ao que considero ser uma obra matricial deste tipo de conjectura, mais concretamente o texto de Fernando Guimarães de 2002, Em Direcção ao Fim do Século (publicado em A Poesia Portuguesa Contemporânea pela Quasi). Nesse texto, o autor referia três pistas para o que já então se designava, com alguma euforia, por “novíssima” poesia portuguesa. Correspondiam essas três pistas ao vitalismo, ao microrrealismo e ao revivalismo.
A primeira das três pistas, o vitalismo, foi perspectivada a partir de uma análise bastante objectiva. A ponderação dava ênfase à superação da antinomia des-construção vs. construção, tentando ilustrar a falência do movimento que, ao longo da modernidade, sempre ligara vanguardas e oficinas construtivas. Reagindo a este permanente intelectualizar da palavra poética, uma espécie de arte rude estaria a convocar o que Fernando Guimarães considerava ser a “tendência para privilegiar o que se possa revelar como instintivo, vital, marcadamente emocional”.

A segunda das pistas foi buscar a sua designação a Guilherme Merquior. O microrrealismo seria um contraponto à dominante simbólica e/ou à imagem de teor romântico. Esta tendência seria caracterizada pelo ímpeto descritivo e pelo cariz denotativo com que o real poético indexicalizaria o real do vivido. Como se a ordem indexical substituísse a icónica, recorrendo aos termos de C. Peirce.

A terceira das pistas referida no texto publicado em 2002 era porventura a mais óbvia: “…uma terceira opção que poderíamos situar na passagem do Modernismo para o Pós-Modernismo diria respeito à substituição de um espírito de vanguarda por um sentido totalmente diferente, o do revivalismo.”. Tínhamos aqui um modo paródico generalizado que pressupunha um horizonte de reactualizações muito aberto, ou seja, sem programa. Como se o devir evocatório passasse a integrar – como um dado intrínseco – a substância dos enunciados do presente.

Sendo sucinto e colocando de lado todos os mecanicismos, poderia conluir-se que a novidade se centra no ressurgir da perspectiva oficinal enfatizada por António Carlos Cortez, constituindo o pendor evocatório o factor de persistência entre as pistas fornecidas por Fernando Guimarães em 2002. De referir que o ‘novo’ é sempre uma força de expressão, quando não uma miragem. Ou seja, algum ‘regresso’ à fábrica oficinal pressupõe a revisitação de correntes do início dos anos sessenta (atenuando o intertexto mais próximo da ‘arte rude’ dos anos setenta), enquanto a evocação repõe inevitavelmente uma continuidade lírica que a conjectura de Guimarães não previra e que deve entender-se, como referiu Cortez, como reacção aos “realismos mecânicos” que, na sua obsessão ‘anti-derrame’, geraram amiúde – no início do século – uma poética de ‘palavra de ordem’ ou do mais elementar ‘topoi’.

Luís Carmelo

Cortesia de PNETLiteratura

Giorgio Agamben: a partir dos seus institutos poéticos

Por esta razão, talvez, nem a poesia nem a filosofia, nem o verso nem a prosa possa jamais levar a cabo por si a própria empresa milenar. Talvez apenas uma palavra na qual a pura prosa da filosofia interviesse, a certa altura, rompendo o verso da palavra poética e na qual o verso da poesia interviesse, por sua vez, dobrando em anel a prosa da filosofia seria a verdadeira palavra humana.

(Giorgio Agamben)

Realizando uma abordagem diretamente a partir do poema, o pensamento de Giorgio Agamben consegue iluminar, como poucos, aspectos da inteligência material poemática inerentes à dinâmica rítmico-semântico-sintática, tal qual um dia, entre nós, foi requisitado, entre outros, por Haroldo de Campos, Augusto de Campos (ambos vindos na esteira de Ezra Pound) e, mais recentemente, Roberto Corrêa dos Santos, que escreveu:



[1. Investimentos teóricos sobre o poema, apesar da longevidade desse objeto, não chegam a formar corpus relevante. 2. Predominaram estudos sobre os processos de composição técnica e retórica, exames pautados em modelos clássicos relativos ao gênero e seus constituintes. 3. Investigações diversas visaram a circunscrever certo número de caracteres, por modos humanistas e abrangentes, do fenômeno entendido por lírico, em diferença àqueles formadores dos também homogeneizados épico e dramático. 4. Bem pouco restou para o esboço da possível corporeidade de uma, diga-se assim, teoria do poema. 5. As mais valiosas propostas situam-se ainda no âmbito do chamado formalismo russo. 6. Nesse ambiente epistêmico traçam-se parte das melhores proposições reflexivas, bem como das melhores análises, ultrapassando-se aspectos consabidos. 7. Pesquisas quanto à inteligência do poema em seu caráter rítmico-semântico-sintático e dedicadas à sua estratégia de leitura tornaram-se exceções. 8. Movimento científico de igual porte vem a ser reposto nos anos 60 por meio do empenho da semiologia e da semântica estrutural. 9. Conhecer o poema descreve-se como uma vontade a levantar-se e a tombar de tempos em tempos por razões relacionadas ao resistente modo-de-existir disso a chamar-se poema. 10. Por sua singular (im)permeabilidade ao factum e por sua condição de manter-se firme historicamente em sua radicalizante insistência formal e temática, suas modificações mantêm-se quase imperceptíveis. 11. Os hábitos fixados para quem dele se aproxime acarretam processos receptivos duros.[1]



Efetivar, portanto, um investimento teórico a partir do poema, que, diminuindo sua aspereza, flagre, potencializando-os, alguns atos pensantes a regê-lo em sua materialidade através de procedimentos que a organizam, é uma tarefa considerável para que possamos fruir as intensidades poéticas, evidenciando-as, quando possível, como uma dinâmica do poema que, ela mesma pensada, dá o que pensar.

Como já dito no primeiro capítulo, a partir do século XIX, uma das maiores dificuldades da teoria literária é conseguir estabelecer uma diferença entre poema e prosa, já que, em um movimento de mão dupla, tanto o primeiro incorporou a segunda, como esta, aquele, misturando-se. Em muitos casos, através da radicalização do uso das imagens, dos ritmos, dos metros, das invenções sintáticas, das significações ou daquilo que Pound chamou de “melopeia”, “fanopeia” e “logopeia”, ambos já assimilaram uma “linguagem carregada de sentido ao máximo grau possível”[2], conseguindo uma maior condensação da forma verbal como requer, para o poeta americano, as exigências da poesia.

Transertões[3], um curioso ensaio de Augusto de Campos, oferece amostras sensíveis neste sentido. Nele, a preocupação não é negar o caráter da prosa euclidiana em nome do poético ali presente, mas de demonstrar como estruturas poéticas demarcam a diferença de uma prosa que incorpora diversos aspectos historicamente considerados poéticos, ajudando a criar a força desta escrita então híbrida em todos os aspectos. O poeta-crítico destaca a presença maciça do controle do ritmo pela artesania métrica do verso embutido na prosa, exemplificando-a com centenas de frases metrificadas (pelo menos 500 decassílabos significativos, com predominância dos sáficos e heroicos, acrescidos de mais de 200 dodecassílabos, dentre os quais muitos alexandrinos, como, por exemplo, “estrídulo tropel de cascos sobre pedras”, e versos livres) e padrões heterométricos que se irmanam a um completo domínio sonoro do encadeamento das palavras na frase.

Fora isso, ainda acentua diversas passagens com densas aliterações, sibilações, paranomásias, onomatopeias e figuras de linguagem como metáforas, metonímias e antíteses. Se uma prosa como, dentre outras, a de Euclides, absorve elementos poéticos, criando uma indiscernibilidade entre os gêneros, e se os poetas inventaram tanto o verso livre quanto o poema em prosa e o em constelação, como estabelecer a diferença entre poema e prosa? Essa pergunta não vela, obviamente, um desejo de refluxo que afaste o poema da escrita de ficção, ensaística ou outra prosaica de modo geral, mas expõe a tentativa de conquista de mais um elemento de compreensão da escrita, que nos leve a uma ampliação das possibilidades da própria escrita, da leitura e do pensamento.

Visando prolongar uma reflexão que passa por Everardo, o Alemão, Niccolo Tibino, Brunetto Latini e Dante, chegando à frase de Valèry apropriada por Jackobson, que diz ser o poema “a hesitação prolongada entre o som e o sentido”, os conceitos utilizados por Agamben para determinar o enjambement e a cesura como as únicas possibilidades de distinção entre o verso e a prosa estão em inteira consonância com seus arquissemas gerais. Nos quatro textos que definem “institutos poéticos” decisivos[4], todos ligados a limites e terminações, como o enjambement, a versura, o fim do poema, a cesura e a rima, tais termos são: hesitação, não-coincidência, deslocamento, cisma, disjunção, antagonismo, oposição, contraste, não correspondência, desacordo, descolamento, divergência, tensão, pausa, intervalo, parada, interrupção. Aproveitando o que escreveu Sophia de Mello Breyner Andressen, os “institutos poéticos” buscam mostrar que “há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema”[5].

A posição tomada pelo italiano não pode aceitar, como elemento primordial para o pensamento do poema – e, consequentemente, do próprio pensamento –, uma compreensão habitual para a qual, no enjambement, quando a pausa fônica que estaria ao fim de um verso passa a estar no seguinte, ou seja, quando o verso anterior, adentrando o próximo, ganha uma elasticidade que o estende para além de sua pausa métrica, esta “se torna a rigor inoperante e até inexistente se não está assinalada pela rima”[6]. Nesse caso, há a crença de que, sem a rima, a continuação fônica que estabelece o enjambement elimina e neutraliza a pausa métrica em nome da unidade do ritmo – em nome, poderia ser dito, do alongamento de um verso até a depressão da voz no interior do subsequente, fazendo com que a exclusão da pausa final prevista confunda o verso com a prosa em um “ponto de coincidência” ou em uma “bodas mística do som e do sentido”[7]. O enjambement, então, estaria a serviço da penetração da prosa no poema. Não que isto não seja passível de ocorrer nem que não seja até mesmo predominante em nosso tempo, mas a possibilidade agambeniana nos revela, com uma acurácia muito maior, o ponto de força que singulariza tal instituto como a diferença do poético: a hesitação e os termos afins não podem acatar a resolução da unicidade prosaica, mas, sim, manter os traços tensivos pelos quais, com o abismo do silencioso burburinho do enjambement, ritmo e sentido, ou verso e sintaxe, entram em um antagonismo essencial a favor do mostrar-se do poema em sua diferença.

O entendimento do verso provém de seu habitar, pelo menos virtualmente, em um cisma, de seu morar, ainda que virtual, em uma incongruência. Para Agamben, o discurso eminentemente prosaico é o que em hipótese alguma acata tal possibilidade do enjambement, enquanto poético é aquele que, pelo menos potencialmente, reside neste traço distintivo. Visto, ao lado da cesura, como a única garantia de uma diferença entre o verso e a prosa, o enjambement é formulado como a disjunção entre o limite métrico e o sintático, como um íntimo desacordo entre o ritmo sonoro e o sentido, como a oposição entre a segmentação métrica e a semântica, como o contraste entre a série semiótica e a série semântica. Uma simultaneidade das duas segmentações em desencaixe, das duas séries em derrapagem desigual, das duas intensidades em curto-circuito, dos dois tônus em cisalhamento, dos dois fluxos em movimentações tortuosas compõe as linhas de fuga do poema.

O enjambement leva o fim do verso a governar a linha, a gerir o sulco pelo qual o poema semeia sua beleza e pensamento desde seu princípio, provindo, daí, sua importância decisiva. Tornando-se seu núcleo constitutivo e ponto nevrálgico, o enjambement é o acontecimento que faz o verso nascer enquanto a singularidade que é. O verso só se torna o que é em seu fim, quando, na interrupção, ganha seu distintivo. No fim do verso, flagra-se um tempo de parada sonora e um lugar de interrupção plástica que podem condizer ou não com uma cessação sintática da oração, que é passível de continuar. Por exemplo, o poema Introdução à Arte das Montanhas, de Leonardo Fróes:



Um animal passeia nas montanhas.

Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego

mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.

De tanto andar fazendo esforço se torna

um organismo em movimento reagindo a passadas,

e só. Não sente fome nem saudade nem sede,

confia apenas nos instintos que o destino conduz.

Puxado sempre para cima, o animal é um ímã,

numa escala de formiga, que as montanhas atraem.

Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.

Sente-se disperso entre as nuvens,

acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,

ainda, que agora tem de aprender a descer. [8]

O poema começa (e se realiza quase todo ele) com um verso sem enjambement, já que nele o limite métrico e o sintático coincidem plenamente, ou seja, o sentido que nele começa e continua a ser esboçado finda ao término do verso, suas interrupções sonora e plástica combinam com a cessação sintática:

Um animal passeia nas montanhas.

Ao fim deste verso, tem-se a totalidade do que ele está dizendo desde seu princípio; a pontuação lhe dá um limite, fazendo com que nenhum sentido reste para além dele. Coincidindo, tanto a série semiótica quanto a segmentação semântica são simultaneamente interrompidas. Todas as possibilidades de sentido inauguradas pelo começo do verso e continuadas pela linha estão presentes em “Um animal passeia nas montanhas”. Claro que várias indeterminações de sentido permanecem nele (que animal é esse, que tipo de passeio é esse, que montanha é essa, o que vai acontecer a esse animal que passeia nas montanhas, como ele passeia...?), mas todas elas moram dentro do limite do verso, como potências dele. O enjambement está presente ali em um grau zero, como possibilidade (“Um animal passeia/ nas montanhas” ou “Um animal/ passeia nas montanhas”, para dar dois exemplos) que o poeta preferiu não cumprir.


Por Alberto Pucheu

Cortesia de PNETLiteratura

Seminário de Literatura e Ambiente: "Falas da Terra” no Século XXI What do we see green?


o IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da FCSH-UNL e o Programa Gulbenkian Ambiente da Fundação Calouste Gulbenkian apresentam, no dia 7 de Junho, na sala 3 da Gulbenkian, o Seminário de Literatura e Ambiente: "Falas da Terra” no Século XXI What do we see green?

Constituído por duplas de escritores e leitores (investigadores de várias áreas disciplinares), o programa procura perceber como os escritores reflectem sobre os grandes problemas ambientais da actualidade e sobre a potencial função dos textos literários enquanto catalisadores de uma nova consciência ambiental.

Entre outras, são analisadas obras de Álvaro Magalhães, Gonçalo M. Tavares, Joana Bértholo, Rui Cardoso Martins, Mário de Carvalho, e valter hugo mãe, que ali debaterão com os respectivos “leitores”, nomeadamente: Carlos Nogueira, José Eduardo Ferreira, Carlos Augusto Ribeiro, Ana Isabel Queiroz, Natália Constâncio, Adolfo Luxúria Canibal.

Às conversas entre escritores e investigadores juntam-se as participações de um elenco de académicos portugueses e estrangeiros, entre eles Ana Paula Guimarães, Cármen Flys Junquera, José Manuel Pedrosa e Tonia Payne, intervenções enquadradas pelo ecocriticismo - prática disciplinar que estabelece pontes entre a literatura e o ambiente, buscando exemplos na criação universal, desde a tradicional oral à ficção científica.

O seminário encerrará com o lançamento do livro homónimo, título que reúne as leituras e reflexões dos vários intervenientes.


Cortesia de Naturlink

Poeta Luís Felício vence Prémio Edmundo Bettencourt

Luís Felício é o vencedor do Prémio Edmundo Bettencourt – Poesia 2011. “O cânone contínuo” foi o texto poético eleito unanimemente pelo júri que considerou “muito bem conseguida a contiguidade entre os poemas, configurando estes como que um longo poema narrativo”, foi hoje anunciado na Feira do Livro do Funchal.

Luís Felício é estudante de Filosofia, tem 28 anos e é natural de Lisboa. Actualmente vive na Polónia onde ensina português em regime de voluntariado. O anúncio da atribuição do Prémio foi comunicado ao vencedor via telefone pela comissão científica do prémio, tendo este declarado estar “bastante satisfeito» com a distinção, a mais importante que já lhe foi atribuída. E mostrou-se honrado pelo patrono da distinção, Edmundo Bettencourt, um poeta madeirense que muito aprecia.

Este ano apresentaram-se a concurso 316 originais, submetidos à apreciação de um júri constituído por professores da Universidade da Madeira e presidida pela directora do Departamento de Cultura da Câmara Municipal do Funchal, Teresa Brazão. Além do prémio monetário de cinco mil euros, dada a excepcional qualidade do texto vencedor, o município promotor do certame decidiu financiar a sua edição.

O Prémio Edmundo Bettencourt foi instituído pela Câmara Municipal do Funchal com o objectivo de incentivar a criatividade e descobrir novos talentos, premiando a cada ano as modalidades de romance, poesia e conto. Na edição do ano passado foi distinguida a escritora madeirense Ana Cristina Pereira com o conto “A outra”.

Cortesia de O Público

O R.A.P. como literatura?

O Estadão publicou uma notícia/comentário sobre as letras de canções como material que nem sempre é visto por académicos como de dom literário. Escreveu Lucas Nobile: “E a conversa piora quando o assunto se trata das criações (sub)urbanas feitas nas periferias. Aos desavisados seria bom lembrar que a poesia já surgiu cantada, lá atrás, com os menestréis. Aos conservadores, basta avisar que já está mais do que na hora de o rap ser encarado como música e que, no começo de maio, será lançado mais um disco assertivo da crescente qualidade do gênero: Nó na Orelha, de um maluco, no melhor sentido da palavra, conhecido como Criolo Doido.”

Festa do Livro 2011

A Festa do Livro do Funchal, que decorre de 20 a 29 de Maio, receberá nomes como Lídia Jorge, Nuno Markl, Pedro Vieira, José Luís Peixoto, Francisco José Viegas, Eduardo Pitta, Valter Hugo Mãe, Patrícia Reis, Mário Zambujal e Helena Marques. Conheça o programa, os autores, os lançamentos e todas as notícias sobre o evento em Festa do Livro.

Cortesia de CFP

Mostra Alves Redol, Manuel da Fonseca e o ciclo histórico do Neo-Realismo português

No centenário do nascimento dos dois escritores, a mostra bibliográfica pretende situar a obra de ambos no contexto histórico em que a corrente neo-realista configurou um ciclo de pertinência (1937-1959) de uma opção realista na literatura e na arte, não obstante as soluções de mediação estética diversas. Ora, justamente, o autor de Glória, uma Aldeia do Ribatejo e do romance Gaibéus, com forte influência etnográfica inicial, surge na linha de um realismo documental que forma dicotomia com o autor dos poemas de Rosa dos Ventos ou dos contos de Aldeia Nova, cujo realismo é marcadamente lírico.

Alves Redol (1911-1969) e Manuel da Fonseca (1911-1991) iriam posteriormente evoluir: o primeiro para a sua obra clássica, abandonada a tendência para a recolha de campo, a partir do romance A Barca dos Sete Lemes, em 1958, a Muro Branco, de 1966; o segundo, abandonada a tematização alentejana, deu lugar aos temas citadinos de Um Anjo no Trapézio, de 1968, ou de Tempo de Solidão, em 1969.

O cabeçalho do artigo mostra-nos os dois autores, em fotografia (pormenor) de cerca de 1940, da Col. de António da Mota Redol.

Patente até 2 de Julho, na Sala de Referência da Biblioteca Nacional. Entrada livre.

Cortesia de BN

Filo-Café: Arte, Cultura e Agricultura

Vai realizar-se em Britiande (a 5 kms de Lamego, na estrada de Lamego para Moimenta da Beira) o Filo-Café «Arte, Cultura e Agricultura» no Restaurante Castiço, a 21 de maio de 2011.

«Pretendemos sensibilizar os artistas para a sua ascendência agricultora, os lavradores para a arte como estímulo do desenvolvimento do cérebro, e chamar a atenção para a (agri)cultura, enquanto motivo da nossa sobrevivência em Gaia.

Inscrições abertas nas áreas da música, artes plásticas, letras, botânica e outras.

Tempo de actuação: 10 minutos.

Os trabalhos apresentados serão publicados no TriploV (www.triplov.com), estando conformes com as normas.»

Texto decifrável mais antigo da Europa

Foi encontrado numa antiga lixeira de Peloponeso, na Grécia, aquele que é considerado o texto decifrável mais antigo da Europa.

Michael Cosmopoulos, investigador norte-americano, da Universidade de Missouri, garante que a placa de argila cozida, encontrada durante as escavações realizadas numa antiga lixeira situada na colina de Iklena, a 300 quilómetros de Atenas, na Grécia, tem mais de três mil anos, representando, pelo menos, mais um século do que as descobertas feitas até agora.

“Esta placa sugere que a escrita é muito mais antiga do que aquilo que se acreditava até ao momento”, explicou o investigador à AFP.

Ao que tudo indica, a placa terá sido um documento financeiro, proveniente de uma antiga cidade do período micénico. “Num dos lados da peça podem-se ver nomes e números, e do outro lado um verbo relativo à confecção”, acrescentou Michael Cosmopoulos.

As escavações, sob a supervisão da Escola de Arqueologia de Atenas, começaram em 2006 e desde então ja revelaram algumas descobertas, como uma enorme estrutura com grandes muralhas datada dos anos 1550-1440 a.C. Segundo Cosmopoulos, o local foi destruído provavelmente no ano 1400 a.C., antes de ter sido invadido pelo reino de Pilos, cujo rei, Nestor, é mencionado na Ilíada.

Cortesia de O Público

Dia Mundial do Livro 2011


Comemora-se no dia 23 de Abril o Dia Mundial do Livro. O cartaz da DGLB é da autoria de João Vaz de Carvalho. Nesta data, é lançado o Passatempo "Voluntários da Leitura".

O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril, dia de São Jorge. Esta data foi escolhida para honrar a velha tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge e recebem em troca um livro.

Todos os anos, a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas assinala este dia com a publicação de um cartaz que distribui por bibliotecas, livrarias e outros espaços culturais. Com ele, pretende-se chamar a atenção para a importância do livro e da leitura como forma de melhorar os índices de literacia das diferentes camadas da população.

O cartaz deste ano é da autoria do artista plástico e ilustrador João Vaz de Carvalho. Premiado nacional e internacionalmente, editado em vários países, é hoje reconhecido como um dos mais prestigiados artistas do sector.

Nesta data, é habitual promover-se também um passatempo que de alguma forma se relacione com uma iniciativa ou efeméride do ano em causa.

Para 2011, a DGLB está a promover o passatempo “Voluntários da Leitura”, incentivando o voluntariado a nível de projectos concebidos para populações em situação de isolamento ou de exclusão social. Pretende-se, assim, chamar a atenção para a importância do livro e da leitura, mostrando que eles melhoram significativamente as condições de vida das populações.

Havendo já alguns projectos de voluntariado em leitura a decorrer no país, sobretudo em hospitais, estabelecimentos prisionais e lares de terceira idade, muitos haverá ainda por criar. A ideia é motivar os cidadãos para o voluntariado, cruzando este acto de solidariedade com a importância que a leitura pode ter na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Ao mesmo tempo, com este passatempo novos projectos podem ser dados a conhecer às Câmaras Municipais, para que possam aproveitar sinergias e eventualmente promover a articulação entre os voluntários e os destinatários. O que se pede a cada Biblioteca Municipal, para além da divulgação da iniciativa junto de potenciais candidatos, é que seleccione os dois projectos que considere mais originais, mas ao mesmo tempo exequíveis, no contexto das populações em situação de isolamento ou de exclusão de cada Concelho.

Cortesia de DGLB

O mercado livreiro português está desinteressante e sem vivacidade

O mercado livreiro português está desinteressante e sem vivacidade. Toda a gente com quem falo, bons e maus leitores, todos eles já repararam que a literatura morre pelos cantos, as estantes enchem-se como pastilhas elásticas literárias… as poucas livrarias que resistem herculeamente nalgumas terras vivem a crise provocada pela falta criteriosa do bom gosto literário, poucos vão às livrarias hoje em dia, um espaço em vias de extinção, que apenas consegue sobreviver nas grandes superfícies comerciais, fazendo-se seguir por “rankings” forjados, os denominados “menus literários”. As livrarias verdadeiramente boas fecham, e as que ainda não o fizeram, rebentam pelas costuras com “livros chiclete”, como por vezes lhes chamo, por nos fazerem engolir a saliva, fazendo crer que mastigamos comida de verdade.

Não há espaço, meus amigos escritores, a verdade é que não há espaço para todos nós. As livrarias estão a morrer e nós, escritores, somos uma raça em vias da extinção. É uma realidade, o computador Orwelliano já está aí.

Dizia-vos, não sobre o fim da literatura, como no título infeliz desta rubrica, pois a literatura existirá sempre (apesar de o ser em formas pouco convencionais ou interessantes, que delineiam aplasticidade de estar no objecto literário – no seu termo mais pejorativo, é claro), dizia-vos então que as livrarias estão a morrer… essas sim…

Mas comecemos pelos mais pequenos: sabe, quem trabalha com crianças, como as modas literárias estão escandalosamente estúpidas, por se ligarem a objectos vendíveis que prolongam a leitura numa mera passerellede modas. “O Clube das Chaves”, os “Cinco”, até mesmo o “Harry Potter”, já passaram de moda, poucos são os adolescentes que – sob o plano da leitura implementado nas escolas – ainda lêem estes livros. Apelidados agora de “secas”, os livros de aventura de outrora foram definitivamente trocados por um nauseante e estúpido grupo de “chupa-cabras”, vampiros que esvoaçam as leituras dos mais pequenos, pousam nos telhados não entrando na casa da interpretação e da imaginação, e ensinam a ler como se chupassem um naco de carne preso entre os dentes.

Um livro para adolescência que não tenha um filme, não presta. Cada vez mais para haver imaginação é necessário uma espécie de complemento alimentício, como em certos iogurtes, uma espécie de 2 em 1…. primeiro surge o livro, de seguida o filme do livro, depois a música do filme do livro… o livro já não é um fim em si, mas o início de uma corrente que justifica apenas estarmos presos às modas. As livrarias entendem isso e borram as montras com as mesmas capas que justificam a ida ao cinema. Mas o que me dá maior regozijo é precisamente o de constatar que a moda passa mais depressa naqueles livros que justificam sempre o filme. Cada vez mais constato que o filme tira a áurea imortal ao livro e torna-o mais fútil do que nunca… e mais não digo.

Por Carlos Vaz

Cortesia de Textualino

81ª edição da Feira do Livro de Lisboa

A APEL, como entidade organizadora da 81ª edição da Feira do Livro de Lisboa informa que a mesma decorrerá, tal como nos anos anteriores, no Parque Eduardo VII, de 28 de Abril a 15 de Maio de 2011.

Num processo de continuidade, será dado, uma vez mais, lugar de relevo ao livro, seus autores e outros intervenientes, fazendo deste espaço um local privilegiado para todos aqueles que procuram incrementar os seus hábitos de leitura.
A Feira do Livro continua a ser um importante marco no calendário de todos os lisboetas que, tradicionalmente fazem deste espaço o local de eleição para as suas compras de livros, a preços muito oportunos. Por seu turno, a APEL continua a ter como propósito fundamental organizar um evento que pressupõe a promoção e difusão do livro em língua portuguesa, fomentar os hábitos de leitura dos portugueses e melhorar o seu nível de literacia.

Cortesia de APEL

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