Poesia portuguesa: conjecturas e balanços
Giorgio Agamben: a partir dos seus institutos poéticos
Paul Celan: no Rastro Perdido da Experiência
Metamorfose e jogo da linguagem na Poética de Zambrano
María Zambrano, O Homem e o Divino, p. 41.
Hamann diz: «Tudo o que o homem ouviu no começo, viu com os olhos [...] tocou com as suas mãos, era [...] palavra viva; pois Deus era a palavra. Com esta palavra na boca e no coração, a origem da linguagem foi tão natural, tão próxima e tão fácil como um jogo infantil.
Walter Benjamin, G.S., II, 1, "Sobre a Linguagem em geral e sobre a linguagem humana", p. 151.
O que pode ligar Hamann a María Zambrano? Que elos misteriosos são esses que iluminam a compreensão da poética de Zambrano e aproximam a concepção de Hamann a Zambrano? Se o jogo infantil se desenha no círculo mágico que ele próprio cria, revelando uma leveza e uma liberdade inéditas, a passagem citada alude precisamente a esse "espaço mágico" que a linguagem configura como um jogo de passagens e metamorfoses inesgotáveis. Só a linguagem entendida como Revelação, no sentido hamanniano[1], nos transporta para o espaço "irrespirável" do jogo. Esse é o lugar "estranho" - e quase inabitável - onde se dá o encontro com o pensamento de María Zambrano. Sem dúvida inquietante e perturbadora, a escrita da autora entranha-se na pele, arrasta o leitor, seduzindo-o, também, pela intensa carga poética da sua linguagem. Nela, as imagens convocam a clareza do pensamento, desafiando ao diálogo permanente. O pensamento de María Zambrano é, também e como Hamann, profundamente imagético e eivado do seu poder potenciador. Desta forma se fundam os lugares da linguagem, irrompendo como o fluxo da razão poética na sua escrita, imagens e conceitos entrelaçados que possibilitam a criação de novas topologias. A linguagem aparece como "desvendamento" ou desvelamento[2] do mundo, sinal e abertura, urgência do sentido. Neste umbral do pensamento e da poesia encontramo-nos suportados e, ao mesmo tempo, suspensos, adiados pela linguagem, pelo seu poder metamórfico. Vivificadora do pensamento filosófico, a poesia é a voz matricial que cava o seu sulco na sua linguagem. E, mais do que uma apresentação do mundo, a sua filosofia constitui-se como uma visão da linguagem, ou seja, o fio condutor que percorre toda a sua obra.
Posicionando-se de forma crítica face ao pensamento moderno e ao naufrágio da esperança moderna, o que ressalta é o profundo amor que María Zambrano devota às coisas, numa tarefa de devolver à matéria e a tudo o que nos rodeia a sua voz, a sua fala íntima, num recuo até ao contacto primitivo, arcaico. Trata-se, como compreenderemos ao longo desta comunicação, de habitar a linguagem, de construir nela a morada do pensamento e da vida, em simultâneo, distanciando-se de um ponto de vista estritamente objectivo e redutor do pensamento, para volver a um estado originário da palavra e do pensamento, em que a violência do gesto filosófico ainda não escavara a sua fractura. Porém, se habitar a linguagem ou procurar a clareira do bosque[3] é, sem dúvida, a vocação primordial do escritor, à qual ele não pode escapar, sabe, no entanto, que se submete ao perigo, abandonando-se às suas flutuações e detendo-se no limiar na escuridão, onde apenas tem acesso a fugidias sombras, questionando-se permanentemente sobre o que o espera. Nesse arrebatamento que lhe é próprio, assume a sua força, assim como as suas contradições e os limites. Ele conhece profundamente o modo como lhe resistem essas potências e tensões não domesticadas da linguagem, sabe que pode sucumbir à vertigem da luta com o anjo e arriscar-se à perda de si e ao embate com as resistências do pensamento e da linguagem. Como Zambrano o afirma[4], “a clareira do bosque é um centro onde nem sempre é possível entrar; da extrema, olha-se para ela e o aparecimento de algumas pegadas de animais não ajuda a dar esse passo. É outro reino que uma alma habita e guarda.” Tem-se dela um conjunto de indícios: pegadas de animais, o grito de um pássaro, um segredo que o bosque guarda, no seu silêncio. Todas as perguntas que se fazem, na veloz perseguição desse centro, se quedam inúteis. A procura revela-se, também ela, sem efeito. É preciso estar atento, aberto à escuta, suspender o conhecimento objectivo, suspender as imagens, os conceitos, para que a voz, a voz descontínua, sem tempo, o leve a um tal lugar sagrado. Onde a respiração leve da luz o conduza e lhe dê guarida, perto do coração animal.
Da mesma forma, escrever é, como o diz a autora, “descobrir um segredo e comunicá-lo”. E este segredo revela-se ao escritor visitando-o, na sua solidão incomensurável. Porém, “o segredo revelado” permanece no seu enigma, não se torna mais explícito[5], pelo facto de ser revelado. É, todavia, o destino do escritor, “aquele que tropeça primeiro na verdade”, mostrar aos outros, para que a decifração possa nascer desse enigma. Trata-se, assim, de um puro acto de fé e de fidelidade, nascido da solidão daquele que escreve.[6] Deste modo, é necessário percorrer um trilho oculto no corpo da linguagem e, ao mesmo tempo, necessário perceber o modo como a voz visita inesperadamente o pensamento. Aquele que escreve é, também, o que escuta a voz que o visita. Dá-lhe forma, configura-a. É, ainda, preciso acreditar que, um dia, a escrita há de encontrar a justeza da palavra, do modo de dizer, resgatando as coisas ao silêncio da matéria. E essa fidelidade, a mais elevada capacidade de resgatar o traço ou vestígio mínimo, reclama a purificação das paixões e da vaidade, desfiguradora da verdade[7]. Reclama uma pobreza essencial que convém às coisas, na sua autenticidade, um olhar que se pretende límpido e cristalino. E que é convocado pelas próprias coisas.
Profundamente alicerçada no pensamento de Ortega Y Gasset, de quem foi dedicada discípula, e admiradora do pensamento de Unamuno, Zambrano deve-lhes a sua ampla compreensão da modernidade filosófica. Já Ortega Y Gasset denunciava a arrogância do racionalismo: “Em lugar de situar-se perante o mundo e recebê-lo na mente tal como ele é, com as suas luzes e as suas sombras, suas serras e os seus vales, o espírito impõe-lhe um certo modo de ser, o que faz imperar e violenta, projectando sobre ele a sua subjectiva estrutura racional”[8]. Assim, o racionalismo, ao formar ideias das coisas, constrói ideais a que estas se devem ajustar, pela legislação do pensamento. Esta crítica de Ortega ao racionalismo marcou, desde cedo, o pensamento da jovem filósofa, pelo facto de o pensamento ter perdido de vista a unidade última do universo. Para María Zambrano, a realidade não era só o que o pensamento conseguira captar e definir, mas também essa outra coisa que escapa ao conhecimento, a inserção do homem no universo. O racionalismo nada pode contra as forças indomesticáveis da natureza, regidas pelas misteriosas leis da metamorfose e do devir, irredutíveis, como se sabe, à lógica.
Nómada incansável, na sua condição de exilada durante 45 anos, María Zambrano transcendeu o olhar próprio da mulher da sua época, confinada ao país conservador e profundamente católico que era a Espanha. Arte, literatura e poesia constituíram os seus grandes alimentos espirituais, desde a mais tenra idade, contribuindo para uma visão universal da cultura e do pensamento. Por outro lado, o contacto com a obra de Zubiri[9] e com a sua “penumbra tocada de alegria” (que dá título a um ensaio notável de María Fernanda Henriques), ensinou-lhe que o pensamento não pode existir desligado das coisas e fez com que a autora perseguisse a sua própria voz, reclamando a descoberta da unidade do mundo e da pertença recíproca das coisas entre si. De acordo com María Zambrano, com respeito à actividade filosófica propriamente dita, esta culmina numa contradição que faz perigar a coerência. Se, de facto, o filósofo é aquele que sente uma urgência de verdade, todavia essa urgência não parece habitar a vida. A verdade, tal como o racionalismo a defendeu, sustenta-se, sobretudo, num acto de ascese e de renúncia da vida. Nesta compreensão das formas íntimas da vida, Zambrano aproxima-se bastante da posição nietszcheana, defendendo a aceitação da vida em toda a sua contradição e da existência como padecimento, em lugar da ascese racionalista.
Esta redução (antes uma erosão) racionalista atinge o seu clímax com o cogito cartesiano, em que Descartes faz equivaler o sentir ao pensar. Uma irredutível estranheza entre a poesia e a filosofia parece estar no cerne da modernidade, como um abismo impossível de transpor. Inconciliáveis são a razão, capacidade lógica e objectiva de pensar, com o universo das emoções e do sonho, da poesia e da arte, ainda que Zambrano reconheça nestas últimas uma visão mais abrangente do mundo. A ligação primordial do homem com os deuses, esse trato arcaico e que garantia ao homem a possibilidade de ser olhado e reconhecido, aparece desfeita à luz da crueza do olhar da modernidade, como aparecem abalados, também, todos os pressupostos que permitiam a integração do homem na unidade cósmica. O desespero da condição moderna, na mais absoluta ausência do sagrado, mostra-nos que o homem moderno não sabe viver sem os deuses e essa é a sua grande tragédia. No mundo moderno não há lugar para a fé, mas o homem também ainda não aprendeu a viver sem ela, o que o atira para uma solidão irremediável.
O que pretendo é, precisamente, averiguar a razão de ser dessa intransponibilidade, da estranheza entre poesia e filosofia, por um lado e, por outro, "descobrir" a proposta zambraniana para a regeneração do pensamento, enquanto integrador da poesia, da emoção e da musicalidade da linguagem. Proposta que se encontrava, de resto, em Hamann e que está bem patente na sua crítica a Kant. A proposta de Zambrano é a de, precisamente, não rejeitar a poesia, para que todas as realidades se acolham, numa nova unidade. O caminho percorrido pelo poeta passa, não só por “sentir a ferida de cada amanhecer”[10], mas por ser ele próprio, poeta, uma ferida aberta ou uma fenda, o que significa também constituir-se como abertura para “a entrada da luz como uma ferida”[11] da linguagem e do real. Para Zambrano, esta abertura só é possível graças a um movimento de concentração do espírito, de atenção, como ela própria o defina, na sua obra De La Aurora: “a atenção é uma ferida sempre aberta. E da ferida tem a passividade, o ser chaga(…) o estar como uma cavidade vivente conformada para receber a realidade”. Mas esta capacidade de visão e de escuta do mais íntimo rumorejar da criatura só pode ter lugar pela abertura do coração, enquanto órgão capaz de (re)ligar a emoção e o espírito. Entranha entre as entranhas, ela ocupa um lugar privilegiado no reconhecimento, tanto da interioridade do corpo, como da exterioridade e relação com o mundo. O coração é o centro, tanto do animal, como do homem e, embora o homem não se detenha para o ouvir, é o incessante soar do seu coração que o sustenta e o mantém vivo, que suporta a unidade de ser existente que ele é. Porém, é a escuta silenciosa que o dá a ver na sua pulsação, como centro activo, submetido ao curso contínuo do tempo e da vida. Como o salienta Maria João Neves, a influência do sufismo e da teoria mística de Ibn Arabi[12] teve imensa importância na obra de Zambrano. A sua concepção de amor como a teoria do papel preponderante do coração, enquanto lugar primeiro do conhecimento, constituíram-se como dois eixos fundamentais da sua obra. Superando a aridez da consciência, o coração é capaz de submergir nas profundezas do humano e das criaturas, escutando-lhe o canto primordial. Trata-se de um nível de realidade a que a consciência não tem acesso, como ao sonho e ao verdadeiro conhecimento da luz[13], da música e do tempo.
Mais do que a visão, é a escuta e a sensibilidade que determinam os lugares do conhecimento. Metáfora que convoca o vitalismo e a organicidade do conhecimento, o coração remete para um conhecimento interiorizado da realidade, que lhe advém de um saber do tempo, onde ocorre a sua desformalização. A sucessão, enquanto critério, e suspende-se para dar lugar à dimensão da eternidade do instante[14]. Aí, nesse “lugar” ou “clareira do bosque” dá-se o encontro, unindo o conhecimento e a vida. O acontecimento da passagem, limiar onde se fundem a vida e o conhecimento, só pode ser compreendido a partir dessa unidade onde se enlaçam a carne e o espírito, na sua imanência. Ao privilegiar a via do coração, María Zambrano anuncia, desde logo, a primazia do pensamento poético ou aquilo a que ela chama a razão poética[15]. Aquilo a que María Zambrano aspira é a um saber que conjugue poesia, filosofia e a história. Maria Fernanda Henriques, no seu ensaio “A penumbra tocada de Alegria”[16], define o campo hermenêutico em que se inscreve o conceito de razão poética, subjacente à obra da autora como “o elemento sustentador dos escritos de María Zambrano”. O que importa, então, referir aqui, é precisamente, o lugar privilegiado que a poesia ocupa, para María Zambrano. O valor ontológico e existencial da poesia como um lugar de eleição para exprimir a relação entre ser e existir, é inestimável para a filósofa. Como o nota Maria Fernanda Henriques, a partir da leitura de Sentiers, “é a poesia que traz ao sentido e à linguagem o seu substrato originário e fundante”.[17] Esta protecção da poesia, relacionada com a figura paternal da língua, constitui-se como um “enraizamento estruturante”[18], no sentido em que descobre a pertença da linguagem e do sentido à cultura e tradição, às formas íntimas da linguagem.
Apenas o poeta detém o saber imoderado das coisas, pois só a ele lhe é dado um olhar encantado sobre o real. A sua lucidez (que tão paradoxalmente nasce do delírio) alcança a musicalidade que vibra no coração do mundo, desde a mais ínfima criatura ao mais elevado ser. Perseguido pelos deuses, mensageiro do divino, ele é tomado pelo arroubo e pelo delírio[19], que pode ser, também, a mais elevada forma de conhecimento. Do fundo do olhar dos deuses espreita a desmesura. Por isso, como nos diz a filósofa[20], “mergulhar no sonho é a origem da música e da poesia. Mergulhar no sonho é delirar. Há uma sabedoria do sonho, não reconhecida pela razão do homem acordado, adivinhação.” Longe do ruído e da fala, a linguagem poética nasce do silêncio e do sonho, desse trilho onírico que o homem percorre sem freio, na procura da voz genuína, nascida do segredo divino. E, ao invés da violência com que se instaura a questão filosófica, rasgando o coração das coisas, a poesia é um acto de amor, de escuta silenciosa. Porém, como ela própria o afirma, em “Pensamento e Poesia”[21], “Não se encontra o homem inteiramente na filosofia nem na poesia. Não se encontra a totalidade do humano em nenhuma dessas duas formas que inteiramente o reclamam. Este lamento percorre a maior parte da obra de Zambrano, que luta por religar essas duas formas de logos ou de pensamento. Enquanto que na poesia encontramos o homem concreto na sua individualidade, na filosofia, o homem na sua história universal, no seu querer ser. A poesia é encontro, dádiva, achado pela graça, resposta, embora se apresente como pergunta. A filosofia é busca, pergunta guiada por um método (…)”. María Zambrano pretende mostrar, nos textos que dedica a essa separação dicotómica, que não tem de resolver-se exactamente assim, mas que é possível e louvável encontrar uma forma mediadora que entrelace novamente filosofia e poesia. Nem sempre essa separação ocorreu, como há-de ver-se ao longo deste texto. A sua reconciliação é desejável por ser a única forma capaz de apaziguar o coração e acolher o homem na unidade originária.
Condenada pelas acusações de Platão, a poesia permaneceu, durante muito tempo, nos arrabaldes do pensamento. Na verdade, o que temiam os filósofos? A inquietação e o arroubo da linguagem, a sedução do efémero e a falsificação da realidade. O embate contra a sedução da poesia, enquanto intensificação da experiência, procura a solidificação do conhecimento, a sistematização e a ordem da cidade, que tão ciosamente procura Platão na República. O inquieto dorso da linguagem poética, prometendo na sua cavalgada o êxtase e a desmedida, perturbava os que apenas discerniam na ascese e na purificação das paixões a via de acesso à verdade. O ilusório canto da poesia desfazia a ordem vigente, pondo em causa a objectividade disciplinada dos que defendiam a polis. Perante a justiça, a poesia representa o engano, no sentido em que é mito, relegada para a categoria de “sombra de uma sombra”. Adormece e amolece a razão. Além disso, a entrega ao hedonismo e ao excesso dionisíaco, a transgressão poética, fazem perigar o bem comum, afirmando a liberdade individual e ilimitada. O que se estranha é o facto de Platão, que tão veementemente condenava a poesia, tenha recorrido frequentemente ao mito e à linguagem poética e metafórica para explicar o seu racionalismo.
Mendigo e amante da multiplicidade e da aparência, o poeta persegue a miragem, o fulgor do efémero. Isto é o que afirma Platão. Porém, com outra questão interpela-nos Zambrano, “acaso ao poeta não importa a unidade das coisas, a identidade da essência?”[22] Que fidelidade importa a cada um deles, filósofo e poeta? Parece que a poesia parece incorporar, por excelência, a abertura ao todo, à totalidade do real, preservando-lhe, no entanto, o mistério, enquanto que a filosofia luta e enfrenta essa totalidade como um problema a desvendar. Ao poeta o que importa é dar voz ao seu enamoramento pelas coisas e pelas criaturas. Afeiçoando-se às coisas e ao detalhe, seguindo os seus vestígios no labirinto do tempo, ele sente que lhe é impossível renunciar ao mundo e à sua multiplicidade, à modulação do canto. Colhendo o derradeiro fulgor do instante, o seu olhar melancólico luta por devolver a esperança ao mundo, revesti-lo de encanto. Pela fidelidade ao que já tem, pelo amor à matéria, ele não se lança na busca do invisível e das ideias, mas vive na espera da restituição originária, suspenso da linguagem e do rumor do mundo.
Este amor pela matéria esconde a mais dolorosa ferida na carne[23], a percepção agónica de que tudo se encontra votado à morte[24]. Por isso, ele é escravo, refém das coisas, não se encontrando em défice, como o filósofo. A sua alma vive prisioneira do delírio, pois é através dele que alcança a sua vida e a lucidez[25]. Ele consome-se, ardendo na chama da sua própria paixão, inebriado e escravo dela, quer delirar porque sabe que é nesse delírio que se encontra a pureza originária da palavra. Imerso no fluxo desse canto único e irrepetível, sabe que é “na música onde mais suavemente resplandece a unidade”[26], pois ela é o resultado de uma harmonia, composta pelos instantes fugazes. Esta unidade da música, ela própria efémera na sua natureza, é uma unidade de criação, atravessada pelo sonho. Com os sons dispersos e passageiros, tão voláteis quanto o vento que passa, constrói-se a unidade. O poeta, como o músico, dança com a metamorfose, capta o mais volátil instante, percorre o íntimo voo do tempo, tanto quanto humanamente lhe é possível. Esse tempo é o tempo nascente, “que brota sem figura nem aviso”, que “não alberga nenhum acontecimento”, mas que é um “tempo único, nascente em sua pureza fragante como um ser que nunca se converterá em objecto; divino”[27]. Entre a fantasmagoria e o sonho, a unidade criadora é-lhe dada, como um dom ou uma dádiva. Pois aquele que sonha mantém-se na periferia de todo o universo[28], imerge na vida e entra em consonância com o ritmo cósmico, passando a fazer parte de uma unidade verdadeira e longe das armadilhas do tempo contínuo.
A criação e o sonho enlaçam-se na poesia insinuando-se como a mais absoluta via de acesso ao conhecimento do eu, em María Zambrano. Se a vigília nos transporta à realidade e à dimensão da temporalidade contínua, assim que se entra no sonho e no seu espaço vazio, entra-se no absoluto[29], na total insubmissão às leis da temporalidade contínua. O que se verifica é a suspensão, a epoché do tempo sucessivo. Abolido o fluxo da continuidade, são também banidas as habituais correlações estabelecidas pela sucessividade. A vida dá-se, então, como abertura à dimensão mais autêntica do tempo e à criação, padecendo o homem da sua própria transcendência.
Vimos, assim, como a relação da linguagem com a música é fundamental, na concepção zambraniana. Não menos importante é a relação daquela com o tempo, especialmente no caso da poesia. Tal como aquele que dorme e sonha, o poeta acolhe-se numa unidade que é de outra ordem, visceral e autêntica. E nessa visceralidade palpita a vida verdadeira, no seu retorno às forças da criação. O poeta abandona-se ao fluxo da multiplicidade, fez-se abertura, fenda, nesse espaço aberto que rodeia toda a poesia e onde o poema lhe é ofertado como um dom. Por isso, pelo facto de não ser perseguida, a unidade do poema revela-se mais imediatamente. E o poema funde-se com a vida, com o quotidiano. A unidade desejada pelo filósofo nasce da violência, da ruptura com a origem, com a inocência. Ainda que em ambas, poesia e filosofia seja a admiração a origem do questionamento, a filosofia cedo segue um caminho bem diferente da poesia. O filósofo concebe a vida como uma perpétua vigilância[30], como uma suspeita, face ao poder da metáfora. Ele nunca abranda a sua vigília. Contrariamente à paixão e ao delírio do poeta, ele afasta de si o canto sedutor, quer escravizar e domesticar a palavra, tomar a decisão e responsabilizar-se por isso. Trata-se, assim, de uma abertura ética, face à responsabilidade humana. Daí também a acusação platónica da irresponsabilidade do poeta. A vigilância da razão e a lucidez são estranhas ao poeta. A luta com a razão e a linguagem, a exigência da luz do conhecimento são-lhe alheias. E, contrariamente ao poeta, o filósofo desdenha as aparências, o logro e as sombras, porque as sabe perecedouras. Desta melancolia escapa o filósofo pelo caminho seguro e sereno da razão. Esta, acerada como uma lâmina, repõe a ordem e a clareza do raciocínio, no mundo onde a esperança é ilusória. As palavras de Platão são de uma clareza inexcedível. Existe uma profunda contradição entre o homem que segue, na sua alma, a razão e aquele que segue a paixão. E aquilo que é mais irrenunciável à poesia é precisamente o aguilhão da dor, o sofrimento. Por isso, a poesia quer perpetuar a sua memória, que nutre a sua melancolia.
Para o filósofo, a paixão e o sofrimento são banidos do seu horizonte, dando lugar à tranquilidade da razão. Ora, a poesia ameaça a conquista da filosofia, esse trato fundamental com a esperança. Ameaça a pureza do logos e da justiça com o frenesim das paixões e o excesso imoral da carne. Pior do que isso, a poesia, tendo sido essa experiência intensificadora da carne, eternizou-a e fixou-a numa unidade. Esse foi o atrevimento maior do poeta, para o qual o filósofo olhou com horror. Não apenas uma perigosa irracionalidade, como a expressão da contestação do logos, a rebeldia da palavra afirmando-se como verdade.
No diálogo Fédon, Platão levou ao extremo a recusa do corpo e a afirmação da sabedoria como um combate implacável contra a tentação da carne. A alma vive prisioneira desse cárcere que é o corpo. Para se manter fiel à razão, o prisioneiro deve fazer-se inimigo da sedução da paixão e dos sentidos. A alma deve sofrer a renúncia ascética, num esforço sobre-humano. Eternidade, imortalidade e unidade são os fios da entretecedura em toda a busca filosófica, desenhando o mapa da apresentação platónica. A ideia da existência e da vida como naufrágio, porém, não é platónica, mas tem uma origem órfica. Platão não faz mais do que aquiescer, procurando-lhe o fundamento que a legitime.
A esperança já não se encontra neste mundo das aparências e da multiplicidade, no sulco da beleza que exalta o poeta, mas num mundo invisível que aparece como uma promessa para além da vida. Por um paradoxo, cujas terríveis consequências se irão arrastar até aos dias de hoje, devorando toda a tradição do pensamento, a filosofia apenas reconhecerá na razão o seu arquétipo. O homem é arrancado a si mesmo e à natureza, para conhecer a irreversível solidão do pensamento. E esta, nascida da rarefacção do pensamento, é alvo de uma reconquista, de uma luta árdua que ele trava contra o aguilhão da carne. A alegoria da Caverna, que justamente procura na força da metáfora a intensificação da escrita, assinala a despedida, o adeus do prisioneiro, forçado a libertar-se das cadeias que o retêm contra as sombras. A dialéctica platónica é a virtude suprema, e o homem é colocado no mais doloroso embaraço: o de não saber como andar ou o de ter de prosseguir contra todo o consolo, caminhando em terra de ninguém. Irredutivelmente estranho face a tudo, cego perante a luz que o fere de conhecimento abrupto, cego também para o mundo das sombras que lhe era familiar. O irreconhecimento dos seus iguais é tal que estão a ponto de matá-lo. Violência e aspereza, eis os acicates que movem o filósofo, uma hostilidade inóspita, já que a esperança está morta para ele. Já não depende dos deuses, mas vê-se inteiramente só.
Platão sabe que é impossível aniquilar a força mais pujante da poesia lírica grega: o amor. A par da catharsis e da destruição das paixões, pela criação de uma mística da razão reforçada na República, em prol da ordem e da justiça, e no Fédon, em nome da imortalidade da alma e do conhecimento, sabe, no entanto, que o amor é a questão verdadeira[31]. E que o amor “é coisa da carne; é ela a que deseja e agoniza no amor, a que por ele quer afirmar-se perante a morte.” Por si mesma, ela vive imersa, mergulhada na dispersão e na multiplicidade, mendiga da beleza sensível. Porém, a carne redime-se através do amor, o que a eleva à unidade. Platão não o nega e, por isso, consagrará ao tema do amor dois diálogos que são, eles próprios dois caminhos apontados; um, o da beleza; o outro, o da criação. O primeiro é objecto do diálogo Fedro, o segundo do Banquete. Só esses caminhos possibilitam à carne a sua redenção. Mais uma vez, a filosofia insinua-se como esperança salvadora, oferecendo alternativa à poesia. O desejo carnal será, assim, salvo pela filosofia. A poesia escrava da carne, submetida à paixão, não é capaz de, por ela própria, alcançar a unidade. Perder-se-ia, algures, nos meandros da dispersão. Pura contradição, ela atormenta o poeta, leva-o à irremediável aniquilação, pelo excesso que comporta, num processo autofágico.
Sabemos, nós, que a poesia se sustenta nesse convénio com a carne, que vai entrando no seu interior, apoderando-se dos seus segredos e tornando-a diáfana, espiritualizando-a. Essa é a redenção do poeta, cujo olhar se enamora perdidamente da beleza sensível e a faz esplendorosa. Desse saber das entranhas, errante, estranho à filosofia, ele é capaz de lhe alcançar o canto, a música e a imagem poética, numa unidade tecida pela lentidão do sonho. Não há falta no poeta, no seu coração, pois ele é servo humilde da multiplicidade esparsa, que lhe cai em sorte. Porém, nunca pode salvar o amor da dispersão.
Contrariamente procede o filósofo, angustiado, incompleto na sua natureza. Toda a teoria do amor platónico assenta na irremediável separação do corpo, no seu exílio. E se, por momentos, o clarão da beleza visível lhe acena, esse rasgão mais não faz do que apontar para a unidade da beleza, ideal. Para a filosofia, o amor só pode ser salvo desta forma da sua dispersão. Isso, a unidade do amor e a sua indestrutibilidade, o cristianismo há-de agradecer-lhe, de forma gloriosa. O rastro do platonismo na poesia mística é, sem dúvida, incomensurável. Mesmo no amor profano, a expressão do mesmo era platónica. Graças a Platão e ao platonismo, “o amor teve categoria intelectual e social e pôde amar-se sem ter sido um facto escandaloso”[32].
O amor exige a distância, a renúncia. A ausência é o sulco secreto da poesia mística, a verdadeira razão para que ele possa ser cantado. O perfume imaginado dos cabelos da amada, uma certa forma de sorrir e olhar, todos esses detalhes que movem o amante e o arrastam no desamparo, face à sua ausência, eis o que alimenta o poeta, o que o faz sonhar e o deixa escravo do desejo. Ao poeta não lhe são concedidos senão os traços fugidios e esquivos da amada, o indício da sua presença. Tudo aquilo que a rodeia se transforma, adquirindo a aura da sua presença: árvores, rios, flores, lugar. Tudo é metamorfoseado pela luz secreta do amor e do desejo. A distância agudiza-o e, mais do que isso, nutre-o. O objecto inalcançável nunca deixa o desejo consumir-se, mantém-no vivo.
A época em que a filosofia e a poesia mais se enlaçam é, sem dúvida, durante o Romantismo. Igualmente excessivas e velozes, tomadas pelo êxtase e pelo delírio, “não aspiram ao absoluto porque se crêem já dentro dele. Ambas se sentem como uma revelação transcendente”[33]. Ambas comungam da crença de que tocam o divino. Vista essa relação apaixonada com suspeita, hoje, no entanto, há que reconhecer-lhes a grandiosidade da criação. Victor Hugo, em França, mas também a incontornável geração alemã composta por Novalis e Hölderlin, onde a expressão dessa reconciliação alcançou o seu clímax.
Mas não é, ainda, a poesia, por si mesma, que pode servir de modelo ao pensamento de Zambrano, mas um cruzamento ou uma síntese entre o logos filosófico e o logos poético. Essa síntese resolve-se na palavra, sulcando os veios e as raízes mais fundas da tradição, nesse lugar do subsolo do pensamento e da linguagem onde todas as raízes se cruzam e se agarram à terra. Num texto sibilino, de Clareiras do Bosque, Zambrano fala da palavra, no seu modo mais fecundo, ligado ao saber da terra: “À maneira da semente esconde-se a palavra. Como uma raiz quando germina que, no máximo, levanta a terra levemente, mas revelando-a como casca. A raiz escondida, e até a semente perdida, fazem sentir o que as cobre como uma casca que há-de ser atravessada.”[34] Essa palavra que há-de germinar, desprender-se da sua casca e brotar do solo, nasce profundamente enraizada no solo da tradição, constitui-se como anúncio, tem uma natureza profética, que antecipa a aurora da linguagem. Nesse belíssimo texto, Zambrano fala da linguagem liberta como voo pleno, o voo que há também na dança e no canto, na descoberta da partilha entre os homens, a “festa da linguagem”. “O conhecimento puro, aquele que nasce da pura intimidade do ser, que, ao mesmo tempo o abre e o transcende, o “diálogo silencioso da alma consigo mesma” nasce, precisamente, da palavra única e indizível, a palavra liberta da linguagem”[35]. Escuta e diálogo entrelaçam-se, assim, para dar lugar ao regresso às coisas mesmas, o modelo que servirá de mote ao pensamento de María Zambrano, sem dúvida, um regresso pelos atalhos mais ocultos do bosque, onde a luz da aurora entra de mansinho, nas veias da escuridão, suspendendo a inexorável passagem do tempo, para aceder ao instante da eternidade, na clareira do bosque. Nela tudo se acolhe, tudo se reconhece, na claridade e no silêncio da alba que desponta.
Por Maria João Cantinho
Cortesia de PNETLiteratura
O common ground e a literatura
Os escritores convidados corresponderam a esta topografia imaginária que pressupõe o convívio entre heranças tão ricas quanto diversas. A começar pela “chair”, a escritora Ahdar Soueif, que partilha a literatura inglesa e egípcia, escrevendo em ambas as línguas - o Inglês e o Árabe - como quem partilha vários oceanos no mesmo mar. O mesmo se passou com os restantes escritores do painel principal. Foi o caso de Robin Yassin-Kassab, meio inglês meio sírio, e de Jamal Mahjoub, meio sudanês meio inglês. Já Inaam Kachachi, uma iraquiana que veio viver para Paris em 1979, deu a ver, ao longo das suas apaixonadas intervenções, como divide o seu mundo literário entre a imagem de um país que já não existe (o seu dos tempos pré-Saddam) e uma mundivivência cosmopolita e memorial.
A proposta “Our Shared Europe” do British Council está enraizada num conceito estimulante, o de ‘common ground’. Nas discussões de Berlim, este conceito surgiu como um espaço dissociado de alguns dos actuais estigmas ‘multicult’. Ao fim e ao cabo, o ‘common ground’ é um espaço aberto que escapa a origens e devires fixos e que tenderá a revelar cada vez mais uma Europa em que as identidades fechadas deram lugar a um novo tipo de uma mobilidade (no seu sentido mais lato: física, experimental, imaginária). O ‘common ground’ é uma espécie de ‘espaço público mediatizado’, na acepção de Dominique Wolton*, onde os mais diversos tipos expressivos, estéticos ou não, deverão ser enunciados com idênticas oportunidades e sem quaisquer constrangimentos.
Há década e meia, mais concretamente em 1996, o semiótico australiano A. Mchoul** caracterizou a noção de comunidade – ou de ‘being-in-common’ como então lhe chamou – de acordo com a ideia de uma história policentrada, livre de estruturas fixas e aliada a uma espacialidade dispersa e não centrada territorialmente. Dissociando-se de uma ideia de cultura baseada apenas na linearidade da história e na pertença geográfica, McHoul não estaria longe deste “common ground”. Afinal, o que se pretendeu no debate de Berlim foi confrontar novos tipos de literatura e de fusão criativa com um ‘being-in-common’ europeu necessariamente aberto e sobretudo vocacionado para fazer corresponder a diferença à normalidade mais evidente e rica do nosso tempo.
O benefício da diferença e a incorporação do ‘outro’ no ‘mesmo’, ao nível literário e do vivido, constituem os nortes da desafiadora proposta do British Council que, em breve, promoverá em Portugal uma iniciativa deste seu projecto “Our Shared Europe”.
**Dominique Wolton, As contradições do espaço público mediatizado em Revista de Comunicação e Linguagens, Nºs 21/22 (Org. Mário Mesquita), Edições Cosmos, Lisboa, pp. 167-188.
**A.McHoul, Semiotic Investigations -Towards na Effective Semiotics,Un.of Nebraska Press, Lincoln & London, 1996, pp. 47-53 e 57-64.
Por Luis Carmelo
Cortesia de PNETLiteratura
Retrato de Alberto de Lacerda
Lacerda e Amorim de Sousa foram amigos durante décadas. Conheceram-se em Londres, no café Sa Tortuga de King’s Road, creio que em 1960. (O encontro coincide com o regresso de Lacerda a Londres depois de uma temporada no Brasil.) E ficaram amigos para a vida.
O livro lê-se num ápice, tanto pela escrita fluente do autor como pelo sortilégio que emana da figura de Lacerda, alguém que, e são palavras de Eduardo Lourenço, «sob o silencioso desdém ou a fulgurante ironia poucos adivinhariam que Alberto de Lacerda era [...] um exilado de si mesmo, escolhido com infalível mirada pela musa exigente da pura melancolia e da liberdade.» (cf. Alberto de Lacerda. O Mundo de um Poeta, Lisboa: Gulbenkian, 1987) Amorim de Sousa tem a vantagem do happy few entre pares. Quando se conheceram, Lacerda tinha quase dez anos de Londres. A diferença de idade — Lacerda nasceu em 1928, Amorim de Sousa em 1937 — não foi obstáculo a um convívio que sobreviveu às naturais atribulações da vida literária.
Londres foi o ponto de encontro e despedida de ambos. Amorim de Sousa foi a última pessoa que viu Lacerda antes de morrer, no Chelsea and Westminster Hospital, a 26 de Agosto de 2007, um mês antes de completar 79 anos. Na véspera, tinha sido descoberto em coma pelo seu amigo John McEwen, crítico de arte, que o fora buscar para almoço. Um ataque de coração em simultâneo com um derrame apagaram subitamente o autor de Palácio (1961).
Amorim de Sousa faz justiça às peculiares idiossincrasias de Alberto de Lacerda. Acompanha o seu trajecto por Londres, o período americano (primeiro em Austin, depois em Boston), o regresso a uma Londres “desumanizada” e as graves dificuldades materiais dos últimos anos.
No momento em que a Assírio & Alvim e a Fundação Mário Soares dão à estampa os primeiros volumes da Colecção Alberto de Lacerda, sendo um deles O Pajem Formidável dos Indícios, colectânea inédita de poemas escritos entre Outubro de 1995 e Janeiro de 1997, neste momento, dizia eu, o retrato do poeta feito por Amorim de Sousa tem todas as condições para chamar a atenção para a obra de um poeta que foi sempre estrangeiro na sua própria terra.
Eduardo Pitta
Cortesia de PNETLiteratura
Al Berto: a dramaturgia do silêncio
Al berto está longe dessas oficinas almofadadas onde o arear da poética é um moldar quase solene da prata. Mas isso não significa que o tom filigrânico não ressurja no meio do impetuoso caudal: “tuas mãos de neve”, “luas incendiadas”, “os lábios incendeiam-se com vinho” – ou ainda – “cintilam peixes pelas paredes do quarto” – são disso óptimo exemplo. Imagens com figurações da intimidade, figuras de fogo, fisionomias do excesso.
Se aliarmos a disposição pioneira e “vitalista” de Al berto – tal como seria chamada no final dos anos noventa – a textos como os de “obsessividade íntima”[1] de Herberto Helder ou da “art brut”[2] de Joaquim Manuel Magalhães, entramos num mundo de metamorfoses e de abismos matéricos. Os exemplos de Mar-de-Leva (1980), que continuamos a revisitar desde o “Ponto de Mira” de há duas semanas, falam por si: “O sal tornou-se rubro e cospe flores…”, “na memória ficaram os sinais dos bosques ceifados…”, “para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora…”, “da água enfurecida irromperá o desasatre” – ou, num tom de glorificação trágica: “na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição”.
Esta glória semeada no coração do abismo dita uma outra característica de Al berto: o propósito dramatúrgico que envolve o relato como um água que se insinua, revolta, num aquário em permanente clímax. As vozes realmente interpelam, interrogam e contracenam com a densidade crua do Eu. Vozes de segunda e da primeira pessoas debatem-se no palco, ao mesmo tempo, sacrificial e narcísico que se vai enunciando: “onde estarão as tâmaras maduras das tuas palmeiras?”, “que murmúrio terão as pedras do teu silêncio?”, “sabes, as aves aquáticas…” ou “é tarde meu amor, estou longe de ti…”. Este relacionar íntimo e questionador parece indiferente à asserção que o corpo ininterruptamente veicula: “apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam”, “não consigo dormir com esta ferida” – ou – “levanto-me e saio para a rua”.
Seja como for, à moda de um coro que se levanta do silêncio de fundo, nos finais, a intemporalidade acena para superar a catástrofe. Esta estratégia de (verso de) ouro surge, de maneira clara, nas seis anáforas do final do poema 7 de Mar-de-Leva. As seis imagens que aí se desdobram são regidas pelas formas verbais “Acostam”, “Agitam-se”, “Se abandona”, “Pernoita”, “Cresce” e “Perdem” – e colocam em evidência o ‘não dito’ matricial dos poemas do livro: a perenidade que subjaz à transformação e que se imporá para além do tempo da história e das narrativas que o iludem. Daí, também, o apelo da infância como signo de pureza e perspicácia de um tempo que parece viver fora da respiração do tempo comum: “encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura”, “por onde andará o Cabecinha? E a Tia Clementina? E o Cisisnato?” – ou ainda, em jeito de ‘quête’ sem fim – “procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola”.
Por Luís Carmelo
Cortesia de PNETLiteratura
Sarau Poético
Ariel Dorfman é chileno e americano, anuncia que lerá a maior parte dos seus poemas em inglês, dispensando a jovem intérprete de vestido preto e bolinhas brancas que acompanhou Aridjis. Pede que o público guarde os aplausos para o final, a interrupção atrapalha o ritmo da leitura. Tem domínio de palco, lê com intensidade teatral os poemas traduzidos por Edith Grossman, a grande tradutora de obras do espanhol para o inglês tal como a última versão de Dom Quixote de la Mancha lançada no ano passado. Em um dos poemas, Dorfman ressuscita William Blake que entabula um diálogo com a bela Laura Bush, versos que expressam a raiva do poeta com relação à invasão do Iraque. Cathy Park Hong traz um novo sabor ao evento com seus poemos ritmados, lidos em inglês com um sotaque totalmente asiático, quase entoando um novo idioma. Impressiona com termos como “the beige population”, num protesto contra as tendências anti-imigração no país e a absorção hipócrita de raças de outras cores.
Antes da vez de Marlene van Niekerk, vinda da África do Sul, Inga Kuznetsova nos revela as limitações do seu inglês. Os russos na platéia já haviam corrigido a pronúncia errada do sobrenome de Inga pelo presidente da Poetry Society. A jovem chega ao palco com uma blusa de flores e o longo cabelo castanho preso por uma flor ao lado. Recita os poemas sem necessitar leitura, não hesita. Começa com uma ode por um dia perdido, “if this life really has a meaning, the rain will wash it away...”. Ainda fresca a lembrança da salutação ao sol, pedimos que não chova tão logo, quem não gostaria de um pouco de sentido para a vida e as chuvas da primavera são particularmente cruéis, levam tudo consigo, relegam-nos às flores. “All things exist without tricks...”, explica-nos o intérprete de Inga. Será?
Kátia Gerlach
Cortesia de PNETLiteratura
O silêncio dos intelectuais
Ora, eu tenho saudade do tempo em que escritores que o povo identificava como tais — Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, José Régio, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Natália Correia, José Cardoso Pires, Eduardo Prado Coelho, etc. —, coisa diferente de escritores que recebem prémios, mas, embora “laureados”, nós outros, seus pares, perguntamos, perplexos, “quem?”; tenho saudade do tempo, dizia, em que os escritores escreviam nos jornais textos de apoio ou agravo sobre assuntos de interesse colectivo.
Ainda me lembro, em Moçambique, nos anos 1960-70, de polémicas acesas por causa de Godard, Antonioni ou Mike Nichols, a pretexto da adaptação que este último fez de Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), de Edward Albee. As questões políticas, essas, faziam-se de viés (censura oblige). Mas em democracia a aparente apatia da intelligentzia não se percebe.
E discutir a Europa não é coisa de somenos! Queremos este modelo? O alargamento de 15 para 27 beneficiou? Sim ou não? E quem? Vamos acertar o passo (melhor dito: as cabeças) pela Europa desenvolvida e cosmopolita, ou queremos continuar neste marasmo melancólico de 1.ª República pós-moderna? »
Eduardo Pitta
Cortesia de PNETLiteratura
«Busboys and Poets é um café»
Busboys and Poets, na intersecção da Rua V com a Rua 14, junto ao corredor da Rua U, Washington, D. C. - uma área do Distrito de Columbia que tem sido um centro da cena cultural e activista com lugares como o Lincoln Theatre, o Howard Theatre, o Bens Chili Bowl, as Bohemian Caverns, o Jazz-Utopia. Era esta a grande zona urbana afro-americana dos EUA, até ter sido ultrapassada pelo Harlem nos anos 1920. A cantora de jazz Pearl Bailey chamou-lhe a Broadway Negra, e em 1968 foi palco de motins que se seguiram ao assassínio do Reverendo Martin Luther King. Hoje em dia, reabilitada e quase sem vestígios de incêndios e destruição, é uma zona residencial e de lojas muito agradável. Muito perto fica a Igreja de St. Augustine, onde as missas são acompanhadas por belíssimos espirituais negros cantados ao vivo.
Busboys and Poets é um café, restaurante, livraria, espaço de performance e local de reunião onde as pessoas podem discutir assuntos relacionados com a paz e a justiça social. Busboys and Poets orgulha-se de reflectir e respeitar a área histórica onde se insere, bem como a sua identidade, e de juntar uma clientela diversa, negra e branca, mais jovem e mais velha, em diálogo criativo e formativo. Fundado em 2005, a história de Busboys and Poets confunde-se com a do seu proprietário, Andy Shallal, um americano de origem iraquiana, que veio para os EUA em 1968, com 11 anos. O pai de Shallal era diplomata e traduziu os Rubayat de Omar Khayyam. Busboys and Poets não demorou a tornar-se uma imagem de marca em Washington, D. C., e conta já com quatro cafés, estando para abrir mais um em breve. Andy Shallal estudou Medicina na Howard University e na Universidade Católica, mas depressa se dedicou a abrir restaurantes e cafés com o irmão – Skewers, Cafe Luna e MiMi’s Peace Cafe. Vende entretanto a sua quota nestes cafés para se dedicar só ao Busboys and Poets, que em 2005 logo se torna lugar de referência em Washington, D. C., o “talk of the town”, aquilo de que toda a gente fala. Shallal reuniu-se, durante meses, à procura de raízes locais para o seu projecto, com líderes comunitários, homens de negócios, políticos, organizações episcopais, escolas e estações de rádio e outros organismos locais. Empenha os seus outros cafés para financiar este novo projecto, prometendo inserir o café na vizinhança. Shallal aprendera com os seus outros empreendimentos que, quanto mais um local está imerso e inserido na vida da comunidade circundante, mais essa comunidade muda. Activista e pacifista, os seus heróis são Martin Luther King e Gandhi. A estes se junta o Dalai Lama para formar o trio que preside a todos os eventos na sala de performances. O Dalai Lama aconselha: esperar, Gandhi: observar, Martin Luther King: sonhar – “Waiting”, “Watching”, “Dreaming”, dizem respectivamente cartazes por baixo dos retratos de cada um dos pensadores.
O nome do café, Busboys and Poets, é uma homenagem ao poeta e autor Langston Hughes, que trabalhou como copeiro (busboy) num hotel da vizinhança em 1930, quando começava a afirmar-se como poeta. Conta-se como Hughes, que à época era copeiro no Wardman Park Hotel em Washington, foi “descoberto” pelo poeta Vachel Lindsay. Lindsay estava a jantar neste hotel, quando um copeiro colocou algumas folhas de papel ao lado do seu prato. Apesar de incomodado, Lindsay pegou nos papéis, leu um poema intitulado “The Weary Blues” e o seu interesse ia crescendo à medida que lia. Chamou então o copeiro e perguntou-lhe: “Quem escreveu isto?”, ao que Hughes respondeu: “Fui eu”. Lindsay apresentou o jovem a editores que publicaram o autor de “Shakespeare in Harlem”, “The Dream Keeper”, “Not Without Laughter”, bem como do já referido poema “The Weary Blues”, que acabou por dar nome ao seu primeiro livro publicado em 1925. Hoje em dia uma mais-valia em qualquer área da cidade onde abra um novo café, o Busboys and Poets é um ponto de encontro inclusivo e vibrante que mistura o trabalho manual com o intelectual, frequentado por estudantes da Universidade de Howard, negros que querem reviver o passado da zona, e todos aqueles que se empenham na acção social. Shallal não receou, com a sua radical visão integradora, ser parte de um problema para ser parte também da sua solução, e o local é um cais de abrigo para escritores, pensadores, poetas, performers, que têm em comum pertencer a movimentos sociais e políticos progressistas. Shallal considera missão sua criar uma cultura de paz, num país em que, segundo ele, há um défice de paz. Uma espécie de Speaker’s Corner do Hyde Park em Londres, um lugar onde as pessoas possam dizer aquilo que pensam, mas mais ainda pensar em comum.
O dia de quase Verão leva-me ao Busboys and Poets da Rua V com a Rua 14 às 4 da tarde, para duas horas de poesia, “The World and Me Celebration and Reading”, em que as organizações Sol y Soul e Split this Rock entregarão os prémios aos vencedores do segundo Concurso Anual de Poesia Juvenil The World and Me. As convidadas especiais Naomi Ayala e Toni Asante Lightfoot lêem poemas, depois é a vez das crianças, adolescentes e jovens. Em seguida são entregues os três primeiros prémios e as menções honrosas, sempre acompanhados pelas palmas do público, que enche por completo a sala de performances do café, sempre sob a égide do Dalai Lama, de Gandhi e Martin Luther, eles ali continuam imperturbáveis mas aprovadores, “Waiting”, “Watching”, e “Dreaming”. Troco cartões de visita com dois jovens da Comissão das Artes e Humanidades do Governo do Distrito de Columbia, que trabalham na organização do evento. O público é numeroso, jovem, educado, liberal, classe-média e com grande percentagem de negros. Há brownies (bolo de chocolate) para todos. A poesia flui calma como o tempo lá fora - é simples, lida em voz alta, partilhada, aplaudida com entusiasmo e premiada. Um título fica na memória, “Broken Masterpiece”, assim como alguns versos, “Paint me like I am (...) but most of all / Paint me free”.
Ana Maria Delgado, Georgetown, 21 de Abril de 2009Cortesia de PNET