O Abade Brandão

O Abade Brandão, homem que era
De muito siso, prudente e sagaz,
Guardou uma ideia no pensamento
E com o fervor dos homens justos
Não cessava de orar a Deus
Por si e por todos da sua linhagem
Pelos mortos e pelos vivos
Pois de todos ele era amigo.
Por uma coisa que desejava
Ele rezava vezes sem conto:
Que Deus lhe mostrasse o Paraíso
Onde foi Adão o primeiro a assentar-se
E é nossa herança
De que fomos os deserdados.
Pois ele cria que ali morava a suma glória
De que nos fala a vera escrita
E queria ver aquele lugar
Que de direito lhe pertencia
Não fora Adão e o seu pecado
Nos apartarem, a ele e a nós.
E a Deus rogava sem se cansar
Que o deixasse ver muito bem visto.
Queria saber antes ainda da sua morte.
[...]

Benedeit (séc. XII)

CITAÇÃO - Eugénio de Andrade

As palavras são a nossa condenação. Com palavras se ama, com palavras se odeia. E, suprema irrisão, ama-se e odeia-se com as mesmas palavras!

Fernando Echevarría recebe Grande Prémio de Poesia da APE

"Lugar de Estudo", de Fernando Echevarría, é o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores(APE)/CTT, anunciou hoje a associação em comunicado. O autor recebe assim pela segunda vez o prémio da APE.

O júri, constituído por Armando Silva Carvalho, Maria João Reynaud e Sérgio Sousa, decidiu, por unanimidade atribuir este prémio ao autor editado pela Afrontamento.

No mesmo comunicado, o júri indica que a obra "representa um momento singularmente alto de Poesia Portuguesa Contemporânea. Os cerca 270 poemas inéditos que o compõem são a expressão vigorosa de uma arte poética que o título resume. A poesia é, para este autor, um lugar de Estudo e de, aperfeiçoamento do trabalho poético, o qual é também
o lugar da língua.”

Fernando Echevarría recebeu também o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen pelo conjunto da sua obra.

O prémio, que consiste em 5000 euros, será entregue em data a anunciar.

Cortesia de O Público

Poetas do Mundo - Lucian Blaga

POEMAS

AOS LEITORES

Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim
[ com colméias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre
[ as grades
e esperam que eu fale. ... Por onde começar?
Creiam em mim, creiam em mim,
sobre seja o que for pode-se falar quanto se
[ queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria
[ desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me
passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.



de Îm Marea Trecere (A Grande Travessia), 1924


DE PROFUNDIS

Mais um ano, um dia, um instante —
e as vias que via adiante
Somem, de sob meu passo errante.
Mais um ano, um sonho, outro sono —
e sob a terra serei dono
dos ossos que dormem em torno.



de Poezii (Poemas)


MELANCOLIA

Um vento só seca suas lágrimas frias
nas janelas. Chove.
Tristezas vagas me assolam, porém toda
a dor,
que sinto, não sinto, em mim,
no coração,
no peito,
mas sim nas gotas de chuva que escorrem.
E enxertado com minha vida o mundo imenso
com seu outono e sua noite
dói em mim como uma chaga.
Para os montes passam nuvens com úberes
[ cheios.
E chove.



de Poemele Luminii (Os Poemas da Luz), 1919


NA GRANDE TRAVESSIA

O sol no zênite sustém a balança do dia.
O céu se concede às águas embaixo.
Com olhos ajuizados as bestas na travessia
Observam sem medo suas sombras no leito.
A folhagem se arca profundamente
na direção de toda uma lenda.

Nada, do que é, tenta ser diferente.
Somente meu sangue grita pelos campos
atrás de sua infância longínqua,
como um velho cervo
atrás de sua corça perdida na morte.

Talvez tenha perecido sob os rochedos.
Talvez tenha mergulhado na terra.
Em vão espero notícias suas,
somente ressoam as cavernas,
riachos buscam as profundezas.

Sangue sem resposta,
ah, houvesse silêncio, quão bem se ouviria
a corça calcando a morte.

Ainda mais longe cambaleio pela trilha —
e, como um assassino que sela com um lenço
uma boca vencida,
fecho com o punho todas as fontes.
Que se calem para sempre
para sempre.



de Îm Marea Trecere (A Grande Travessia), 1924


A LUZ DE ONTEM

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
um céu passado, a véspera extinta. Meu rosto
vai tão baixo, que antes nos céus ia posto!

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
auroras idas, que jorravam, inflamadas
fontes — hoje com águas presas derrotadas.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro
a grande hora que em mim restou sem figura
como em um cântaro morto um fim de abertura.

Procuro, não sei o que procuro. Sob estrelas de
[ ontem,
sob as que passaram, procuro
a luz apagada que ainda enalteço.



de La cumpăna apelor (No Divisor de Águas), 1933



A SAUDADE

Sedento bebo teu perfume e seguro teu rosto
com ambas as mãos, como quem segura
na alma um milagre.
Queima-nos a proximidade, olhos nos olhos,
[ como estamos.
E contudo me sussurras: "Tenho tanta saudade
[ de ti!"
Falas tão misteriosa e desejosa, como se eu
[ estivesse
exilado em outro mundo.

Mulher.
que mares levas no peito, e quem és?
Canta ainda uma vez mais tua saudade,
por que te ouça
e os instantes me pareçam botões prenhes
de que florescessem de fato... eternidades.



de Poemele Luminii (Os Poemas da Luz), 1919

PEQUENA BIOGRAFIA

Lucian Blaga poeta, filósofo, tradutor, dramaturgo e diplomata, nasceu em 1895 in Lancrăm, na Roménia. È um dos principais nomes da literatura Romena do século XX. Escreveu quase quarenta livros, mais de uma dezena dos quais de filosofia. Seu primeiro livro de poesia, Os Poemas da Luz, foi publicado em 1919. Seguiu-se Os Passos do Profeta, de 1921. A sua principal obra filosófica está reunido em três trilogias: Trilogia do Conhecimento, de 1943; Trilogia da Cultura, de1944; e Trilogia dos Valores, de 1946. Foi embaixador da Romênia em Portugal, entre 1938 e 1939. Em 1948, já na vigência do regime pró-soviético na Roménia, foi demitido de sua posição de professor universitário e "arrumado" como bibliotecário do instituto histórico. Até 1960, só publicou traduções, sendo proibidos títulos de sua própria lavra. Morreu em 1961, marginalizado e perseguido pelo regime ditatorial Romeno.
Micaela Ghitescu traduziu para português parte da obra poética da Lucian Blaga, integrando a antologia intitulada Nas Cortes da Saudade, escrito durante a estadia do poeta em Portugal e publicada em maio de 1999 pela Editora Minerva de Coimbra.

Cortesia de Um Buraco na Sombra

BIO - Ana Daniel

Ana Daniel, pseudónimo de Maria de Lourdes d’ Assunção Sousa, nasceu em Lisboa, a sua cidade de sempre. Entregou-se à poesia aos quinze anos, com trabalhos publicados em jornais e revistas nacionais e do então Ultramar. Ganhou prémios juvenis. Assinava por esse tempo com Ana Arlési.

Mas foi aos vinte anos que deu à sua escrita o rumo e a intensidade que o tempo guardou – e aumentou. O Prémio do Concurso de Manuscritos de Poesia, em 1969, da antiga Secretaria de Estado da Informação e Turismo, foi o reconhecimento desse percurso, feito nos intervalos de uma vida familiar absorvente, com os momentos livres guardados para Robert Browning, Rosalía de Castro, Sebastião da Gama, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Emily Dickynson, e para a própria poesia, que ia acumulando.

A obra recolhida em Momento Vivo, o seu primeiro livro, em 1971, é ainda a palavra entre a estranheza e o irreparável. A que agora publica é já a solidão com corpo e alma. Entre as duas, perdas, ausências, a afastarem-na da infância de Campo de Ourique, da adolescência de Salreu, donde trouxe segredos como o de Ricoco, a remeterem-na para um estado de alma onde é fácil ler, no lirismo da saudade, a revolta e o inconformismo.

Contra a impossibilidade de regresso, a viagem e o aconchego da memória, a que se dá nas madrugadas de Sintra, onde vive há 60 anos, até à alvorada, de que tem mil retratos. Porque nenhuma, como gosta de dizer, é igual. Como, de resto, nenhum dos seus poemas, alguns de quando escrevia nas costas dos pacotes de açúcar, que foi guardando sem urgência para, se fosse caso disso, os libertar um dia das gavetas. Onde ficaram ainda muitos.

Lançamento da antologia de Poesia Soviética Russa

A antologia "Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)", editada recentemente, integra 107 poemas de 30 autores russos, seleccionados, traduzidos e anotados pelo poeta José Sampaio Marinho.

A época que José Sampaio Marinho viveu na ex-União Soviética 'foi determinante' para a escolha os poetas, escreve no prefácio o jornalista José Milhazes, que foi seu amigo.

José Sampaio Marinho faleceu em 1998, na Póvoa de Varzim, vítima de cancro no pulmão, mas antes entregou a José Milhazes os poemas traduzidos, considerando este ser sua incumbência encontrar uma editora, como afirma no prefácio.

No texto, Milhazes salienta 'a qualidade das traduções', conservando 'não só o conteúdo, mas a riqueza rítmica dos originais russos'.

Estão representados nesta antologia, entre outros, Serguei Essénine, Boris Pasternak, Leonid Martínov, Nikolai Rúbtsov,Vladimir Sokolov, ou poetas que na década de 1980 'não tinham sido reabilitados', como Òssip Madelchtam, Anna Akhmatova e Marina Tsvetéeva.

Há também poetas revolucionários como Vladimir Maiakovski, mas em que prevalece a sua 'qualidade poética'.

Referindo-se ao trabalho do amigo, Milhazes conta: 'Paralelamente, nas horas extras depois do 'trabalho oficial', Sampaio, quase sempre acompanhado do seu uísque com gelo e água gaseificada, de cigarro praticamente sempre aceso, traduzia poemas de autores soviéticos e russos, que, de vez em quando, recitava na presença dos amigos mais próximos'.

José Sampaio Marinho, tradutor da editora Arcádia, foi amigo do poeta Ruy Belo, colaborou com o escritor Vitorino Nemésio e trabalhou na ex-Emissora Nacional.

Após o 25 de Abril de 1974, foi convidado pela editora soviética Progresso a ir trabalhar para a Moscovo, onde residiu durante 15 anos, regressando a Portugal, onde foi professor do ensino secundário.

Deixou editados, além de muitas traduções, que fez do russo para português de textos vários - romances, ensaios, e poesia - quatro livros de poesia de sua autoria. Um deles, 'Nuvens choram - Poemas', reúne todos os poemas escritos entre 1952 e 1956.

Referindo-se a 'Poesia soviética russa (séculos XIX-XX)', publicado pela Editora Labirinto com o apoio da Câmara de Fafe, José Milhazes atesta: 'Na generalidade, os russos afirmam que há poetas seus tão nacionais que é impossível a tradução dos seus versos para línguas estrangeiras. Um deles é o poeta lírico Serguei Iessénime, mas José Sampaio Marinho ousou fazer o impossível e conseguiu'.

Cortesia de DNArtes

Benfeita inaugura Casa Memória Simões Dias

O passado domingo, dia 18 de Julho, foi um verdadeiro dia de festa para a população da Benfeita, pois, após duas décadas de reivindicação, a freguesia viu finalmente recuperada a casa onde nasceu o poeta José Simões, que agora passará a ser a Casa Memória, albergando também uma Loja Aldeias do Xisto.

O dia incluiu ainda a inauguração de uma exposição de pintura, em homenagem a Simões Dias, que se encontra patente na sua Casa Memória. De autoria de vários artistas do Porto, os quadros foram criados a partir do tema “Levanta-me do pó nas asas cândidas”.

José Simões Dias foi um poeta natural da Benfeita, formado em Teologia e autor de várias obras, como é o caso do romance “O Pecado”, tendo sido também deputado e colaborador em diversos periódicos literários. Viveu entre 1844 e 1899, tendo recebido várias distinções e prémios diversos.

A Casa da Memória passa, também, a acolher a Loja Aldeias do Xisto da Benfeita, espaço que vai funcionar segunda a sexta-feira, das 14h00 às 1800. Aos fins-de-semana quem a quiser visitar terá que contactar a Junta de Freguesia local. Neste espaço, como explicou Rui Simão, podem-se encontrar essencialmente três tipos de produtos, nomeadamente, produtos locais, quer sejam bens alimentares ou de artesanato, aos quais se juntam os produtos de autor, como é o caso da cerâmica, por exemplo, e os denominados produtos de fusão, isto é, produtos desenvolvidos por artesãos que não estejam no território mas que contactam com outros artesãos que pertençam ao território.

O representante da ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, recordou ainda que esta é a décima loja da rede, contando ainda com duas fora do território, uma das quais a funcionar em Lisboa e outra que abrirá no próximo mês de Agosto, em Barcelona.

Alfredo Martins, presidente da Junta de Freguesia da Benfeita, considerou o dia como «um momento marcante na história de vida desta aldeia», pois, sustentou, referindo-se e à inauguração da loja, «concretizamos hoje um passo decisivo na nossa integração total na Rede Aldeias do Xisto».

O presidente da Junta da Benfeita agradeceu ainda o empenho do presidente da Câmara Municipal de Arganil, uma vez que «há já duas décadas que a população ansiava que este edifício tivesse este destino e o Ricardo Pereira Alves foi sensível a isso desde o seu primeiro mandato», sublinhou.

Também Carlos da Capela, em representação da Editorial Moura Pinto, declarou que «este é um momento histórico para a aldeia», uma vez «que se trata da revitalização de um espaço que tem muita memória e que vai ser o coração da aldeia e onde se irá sentir o seu pulsar».

Por seu turno, o presidente da Câmara de Arganil lembrou que o poeta Simões Dias «foi uma das personalidades mais marcantes do concelho» e a Loja Aldeias do Xisto representa, na sua óptica, «a afirmação e consolidação dos produtos genuinamente locais e que podem ser um factor decisivo em termos de desenvolvimento económico, sobretudo local».

Ricardo Pereira Alves afirmou ainda que este projecto da Rede das Aldeias do Xisto «já é uma referência do turismo ao nível nacional», enquanto a Benfeita «já é hoje identificada por todos como um destino turístico de qualidade e que afirma e consolida a sua posição em termos de turismo no concelho e em termos regionais». E, por todas estas razões, o edil de Arganil sublinhou que «hoje é um dia importante, porque fazemos a simbiose entre a afirmação dos produtos locais, mas também da vocação turística da Benfeita e da Casa Memória Simões Dias».

Cortesia de Diário de Coimbra

Poesia na voz de Amália encanta bibliotecária russa

“Que significa cativar?” perguntou o principezinho à raposa. “Significa criar laços, que é uma coisa de que toda a gente se esqueceu.” Amália Rodrigues faria este mês 90 anos. No dia 1 ou no dia 23 – como ela própria disse, ligaram tão pouca importância ao acontecimento que nem se deram ao trabalho de anotar a data exacta. Mas os laços que criou, a poesia da voz e na voz de Amália perduram, longos, no tempo e no espaço.

Natália Rumiantseva, bibliotecária em São Petersburgo, deixou-se cativar por essa poesia. Natália não se identifica com a música pop ou rock, diz. E, na sua busca por outras sonoridades, encontrou um dia um CD de Amália, e foi uma revelação. “Talvez para os Portugueses seja normal, nascem dentro desta cultura, mas eu descobri esta música há relativamente pouco tempo; quando a ouvi pela primeira vez pareceu-me tão próxima, e mesmo sem saber a língua senti que a compreendia. E, mais tarde, vi que estava certa.”

Em 2006 visitou Lisboa, “para ouvir o fado onde ele tinha nascido”. Sem saber que andava literalmente pelos caminhos de Amália, subiu uma vez a Rua de São Bento. “De repente oiço a voz de Amália, viro-me e vejo uma porta, era um fim de tarde de Agosto e a porta estava aberta, e vejo o retrato de Amália! Que encontro! Fado”, diz Natália, séria e simplesmente, no rosto a expressão de quem sente verdadeiramente o significado daquela palavra.

E conta, com emoção e gratidão, como foi recebida por Estrela Carvas, amiga e confidente de Amália, que hoje vela pela Casa-Museu. “Eu ainda não falava português, ela falava um pouco de inglês. Sensibilizou-me muito a maneira como me recebeu, tão simples e com tão grande amizade, e, com tão grande amor por Amália, me levou em visita guiada pela casa. Numa parede vi referências à passagem de Amália por vários cantos do mundo, mas nada da Rússia. Mas Estrela Carvas disse-me que ela cá tinha estado. Depois, encontrei o livro Amália – Uma biografia, de Vítor Pavão dos Santos, e, na lista das tournées, a informação de que Amália deu, em Maio de 1969, vários concertos na então União Soviética.

“E eu pensei – eu sou bibliotecária, agora regresso a São Petersburgo, pesquiso nos arquivos dos jornais e revistas da época, recolho informação e escrevo cá um destes artigos! Mas, imagine, no princípio não encontrei nada. Mas não desisti. E assim começou a minha investigação.” Entretanto, começou a estudar português, na Faculdade de Filologia da Universidade Estatal de São Petersburgo, para compreender melhor a cultura que sentia tão próxima. “Quanto mais conheço a arte de Amália, mais me impressionam a sua profundidade e beleza. Eu estudei muito a literatura clássica Russa, e, para mim, a arte de Amália está ao mesmo nível. Ela tem essa nobreza de alma que transparece na nossa grande literatura”.

Teve ainda a ideia de procurar pessoas que estiveram presentes naqueles concertos. “A própria Amália disse que Fado é lamento, pranto, e isto está-nos muito próximo. Há fados alegres e fados muitos tristes, sobre a solidão, o medo, mesmo o amor à Pátria. Agora, vivemos em tempo de paz” - Natália fica silenciosa um momento - “mas então, tínhamos passado por uma guerra horrível, quanta dor e sofrimento, em geral todo o século XX parece um pesadelo, a Primeira Guerra Mundial, a Revolução terrível, a Guerra Civil, depois repressão, a Segunda Guerra Mundial, outra vez repressão – horror. E, para além disso, era impossível falar abertamente do próprio sofrimento, chorar abertamente. É um paradoxo da nossa vida.” E por isso se interroga - o que terão as pessoas sentido ao ouvir esta cantora? Como foi o seu encontro com o fado? “A língua era desconhecida, mas aquilo que ela cantava não era possível esconder. O fado fala do que é também o nosso destino, da história da nossa vida.”

Natália tem vindo a construir, com grande sensibilidade, um arquivo-testemunho da arte de Amália, com todo o material que tem encontrado ao longo da sua pesquisa: o programa dos espectáculos na URSS, referências em jornais e revistas da época, uma entrevista que fez a Helena Golubeva - uma das maiores especialistas em língua portuguesa na Rússia, que esteve presente num dos concertos há quarenta anos… Aos poucos, vai traduzindo poemas-fado e artigos sobre Amália em Russo, e partilhando esse material na internet. Um exemplo do requinte com que o faz: na página dedicada à tournée por Leninegrado, o pormenor vai ao ponto de incluir a descrição do estado do tempo nos dias dos concertos.

Natália gostava que na Casa-Museu de Amália aparecessem registos da passagem pela Rússia, e de traduzir, um dia, o livro Amália – Uma biografia em Russo. Mas, mais importante, diz, “é o caminho – fado é caminho”: e continuará a sua viagem de descoberta pela cultura portuguesa, velando para que os laços que Amália criou se tornem realidade para cada vez mais pessoas.

por A. L. Simões Gamboa

Quero

Quero o cinzeiro antigo
E a caixa de Pandora
E a cor de fumo do vestido que vesti
No dia em que fui contigo espreitar a hora…

Quero dar passos atrás, sorrindo de querer
Coisas sem sentido
Nos restos do tempo, nas sombras da hora…
Quero
Que os ramos sacudam na minha janela
Toadas de tudo, toadas de nada
Flor amarela da minha alvorada.

Quero pingos de amor
Migalhas confetti e chuvas de cor
Sem tempo contado…
Quero o despertar contigo a meu lado
Quero chuva, quero vento, quero sol
Trancada em fita de laço
Tão longe do mundo – só no teu abraço!

Ana Daniel

The Disquieting Muses de Sylvia Plath


Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poderá ou quererá corresponder.

THE DISQUIETING MUSES

Mother, mother, what ill-bred aunt
Or what disfigured and unsightly
Cousin did you so unwisely keep
Unasked to my christening, that she
Sent these ladies in her stead
With heads like darning-eggs to nod
And nod and nod at foot and head
And at the left side of my crib?

Mother, who made to order stories
Of Mixie Blackshort the heroic bear,
Mother, whose witches always, always
Got baked into gingerbread, I wonder
Whether you saw them, whether you said
Words to rid me of those three ladies
Nodding by night around my bed,
Mouthless, eyeless, with stitched bald head.

In the hurricane, when father's twelve
Study windows bellied in
Like bubbles about to break, you fed
My brother and me cookies and Ovaltine
And helped the two of us to choir:
'Thor is angry; boom boom boom!
Thor is angry: we don't care!'
But those ladies broke the panes.

When on tiptoe the schoolgirls danced,
Blinking flashlights like fireflies
And singing the glowworm song, I could
Not lift a foot in the twinkle-dress
But, heavy-footed, stood aside
In the shadow cast by my dismal-headed
Godmothers, and you cried and cried:
And the shadow stretched, the lights went out.

Mother, you sent me to piano lessons
And praised my arabesques and trills
Although each teacher found my touch
Oddly wooden in spite of scales
And the hours of practicing, my ear
Tone-deaf and yes, unteachable.
I learned, I learned, I learned elsewhere,
From muses unhired by you, dear mother.

I woke one day to see you, mother,
Floating above me in bluest air
On a green balloon bright with a million
Flowers and bluebirds that never were
Never, never, found anywhere.
But the little planet bobbed away
Like a soap-bubble as you called: Come here!
And I faced my traveling companions.

Day now, night now, at head, side, feet,
They stand their vigil in gowns of stone,
Faces blank as the day I was born.
Their shadows long in the setting sun
That never brightens or goes down.
And this is the kingdom you bore me to,
Mother, mother. But no frown of mine
Will betray the company I keep.


AS MUSAS INQUIETANTES


Mãe, mãe, que tia maldosa
Ou desfigurada e hedionda
Prima insensatamente tu não
Convidaste para o meu baptizado
E em seu lugar mandou estas damas
De cabeça a lembrar ovos de passajar,
Acenar à cabeça e aos pés da cama
E ao lado esquerdo da minha alcofinha?

Mãe, tu que a nosso pedido inventavas histórias
Do Mixie Blackshort, o ursinho valente,
Mãe, onde as bruxas acabavam sempre
No forno em biscoitos, já não sei agora
Se as vias ou se tu proferias
Palavras para me livrares daquelas três damas
A acenar à noite junto à minha cama,
Sem bocas nem olhos, cabeças peladas todas cosipadas.

No furacão, quando as doze janelas
Do estúdio do pai inflaram para dentro
Como bolhas quase a rebentar, tu deste
A mim e ao mano Ovaltine e biscoitos
E ajudaste-nos a cantarolar:
“Thor está zangado; bum bum bum!
Thor está zangado, mas não vamos ligar!
Mas aquelas damas partiram os vidros.

Quando as meninas bailavam em pontas
Agitando luzinhas como vaga-lumes
Cantando a cantiga do pirilampo, eu,
Escondida a um canto, não erguia os pés,
Pregados ao chão, de tutu a brilhar
Na sombra lançada pelas cabeças lúgubres
Das minhas madrinhas, e tu a chorar:
E a sombra alongou-se e a luz apagou-se.

Mãe, mandaste-me ter lições de piano
E elogiavas os meus arabescos
Mas os professores achavam-me os dedos
Hirtos como paus apesar das escalas
E das horas passadas a praticar,
E o ouvido embotado, um caso desesperado,
E eu aprendi, oh sim, aprendi, mas noutro lugar,
Com as musas, mãe querida, que não contrataste.

Um dia acordei e ali estavas, mãe,
A pairar no ar do mais puro azul
Num verde balão a luzir com um milhão
De flores e pássaros que nunca existiram
Nunca, nunca, nunca, em nenhum lugar.
Mas o planeta desfez-se no ar,
Bola de sabão, quando tu disseste: Vem cá!
E as companheiras de viagem então enfrentei.

E agora, dia e noite, à cabeceira, ao lado e aos pés,
Montam-me vigília com vestes de pedra,
Os rostos vazios de quando eu nasci.
Sombras alongadas no sol poente
Que nunca se apaga nem nunca se acende.
E é este o reino a que me trouxeste,
Mãe, mãe. Mas em meu semblante nada
Trairá as que me acompanham.

tradução de Ana Maria Chaves

Cortesia de PNET Literatura

Revista TRIPLOV n.º5


O número 5 da revista TRIPLOV - de Artes, Religiões e Ciências - conta com a participação de vários autores como Fernando de Castro Branco, João Garção, Adelto Gonçalves, Richard Khaitzine, Jhanainna Silva Pereira Jezzini, Pedro Sevylla de Juana, Graciete Nobre, entre outros e inclui ainda as intervenções do IX COLÓQUIO INTERNACIONAL «DISCURSOS E PRÁTICAS ALQUÍMICAS» bem como os artigos Poesia e Ciência de Alice Macedo Campos e a poesia de Maria Costa em Mais interior que um coração.

REVISTA TRIPLOV N.º5

Festival Provincial de Poesia de Namibe

O Conselho Provincial da Juventude do Namibe (CPJN) promove no dia 24 do corrente mês, nesta cidade, um festival provincial sobre a poesia para incentivar os jovens ao gosto pela leitura e clamação de poemas.

De acordo com o secretário provincial do CPJN, António Vidigal, em declarações hoje à Angop, espera a participação de cerca de 10 jovens, criteriosamente seleccionados a partir dos institutos médios e escolas profissionais da cidade do Namibe.

O evento contará com a participação especial de alguns poetas consagrados do mercado nacional, nomeadamente Fido Nil, conhecido por “Poeta que Chora”, e o escritor Paulo Catorio.

António Vidigal realçou que a presença destas figuras ao festival servirá de motivação dos jovens, na sua entrega no mundo de poesia e na literatura em geral.

O festival, segundo António Vidigal, vai contar com a representação da coordenação provincial de língua portuguesa do Ministério de Educação, com vista a avaliar o grau de expressão e maturidade dos participantes no campo literário.

Acrescentou que o evento, o primeiro do género, servirá ainda de antecâmara para as próximas realizações com carácter competitivo, onde as obras vencedoras, conduzirão os autores a sua participação nos eventos nacionais no mundo de literatura.

O festival contará com o apoio do Governo da província do Namibe e do Conselho Nacional da Juventude.

Cortesia de AngolaPress

Tolentino Mendonça é o único poeta português presente no Mediterranea

O Pe. José Tolentino Mendonça é o único poeta português presente no “Mediterranea”, Festival Intercontinental da Literatura e da Arte, que decorre na Itália.

O “Mediterranea”, evento anual que se concentra nos meses de Junho e Julho, mas que inclui actividades durante todo o ano, escolheu para a sua sétima edição o tema “Roma «pátria comum»”, sublinhando o papel da cidade como espaço histórico e actual de encontro e intercâmbio de culturas, civilizações, etnias e religiões.

Realizando-se na capital italiana e nas regiões circundantes, o festival propõe sessões e espectáculos de poesia, música, dança, teatro, cinema, vídeo, moda e artes visuais.

As escolhas dos organizadores dão atenção especial aos povos não ocidentais, minorias étnicas, universo feminino e novas gerações, privilegiando temas como o ambiente, a interculturalidade e a difusão da poesia.

Pelo festival passaram artistas e autores de Itália, Albânia, Bahrein, Bósnia, Brasil, China, Egipto, Filipinas, França, Grécia, Índia, Irão, Iraque, Israel, Kosovo, Líbano, Marrocos, Nigéria, Noruega, Holanda, Palestina, Sérvia, Síria, Somália, Espanha, Tunísia e Turquia.

O cruzamento das dimensões privilegiadas pelo festival contou com uma expressão privilegiada no Encontro Internacional de Poesia, que decorreu esta sexta- feira, 16 de julho, em Roma, com a participação de Shahrnush Parsipur (Irão), Latif Al Saadi (Iraque), Mihai Mircea Butcovan (Roménia), Gezim Hajdari (Albânia), Clara Janés (Espanha), Ndjock Ngana (Camarões), Jacqueline Risset (França), Marcia Theóphilo (Brasil), Andrea Di Consoli e Daniela Ripetti Pacchini, além do P. José Tolentino Mendonça, que é o director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

Os autores vão dizer poesias da sua autoria na língua original, que serão lidos em italiano por artistas convidados pela organização.

Cortesia de RM/SNPC

Língua Portuguesa convidada de honra da Feira do Livro de Belgrado de 2011

A Língua Portuguesa vai ser a convidada de honra da Feira do Livro de Belgrado de 2011. A iniciativa lusófona das embaixadas de Portugal, Brasil e Angola em Belgrado foi oficialmente aceite pelo Ministério da Cultura da Sérvia. No ano passado, o grego foi a língua convidada enquanto em 2010 esse lugar de honra caberá ao idioma sueco. A Feira do Livro de Belgrado realiza-se no último trimestre de cada ano.

Cortesia de IC

Entrevista a Alberto Manguel

Ensaísta, escritor de ficção – mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magnífica biblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside.

Os livros e a leitura sempre nortearam – e ainda norteiam – a vida de Alberto Manguel. Aprendeu a ler por volta dos três anos e nunca mais parou. Quando era adolescente, leu em voz alta, durante vários anos, para Jorge Luis Borges, que tinha ficado cego. Mais tarde, começou a escrever sobre livros, leituras e leitores – e o seu “Uma História da Leitura” (publicado em Portugal em 1999 pela Presença) tornou-se um best-seller mundial.

Nasceu em Buenos Aires em 1948, criou-se em Israel, fez o liceu na Argentina, viveu em sítios longínquos como Taiti. Nos anos 1980 mudou-se para Toronto, no Canadá, e tornou-se cidadão canadiano. De há 10 anos para cá, vive no Sul de França.

As suas primeiras línguas foram o inglês e o alemão e só mais tarde viria o espanhol, explicou Manguel em Lisboa, durante uma conversa pública na semana passada com Francisco José Viegas, no âmbito do Festival Silêncio. “Os meus pais quiseram que eu tivesse uma aia checa de língua alemã que me falasse inglês. Eles, por seu lado, falavam espanhol e francês – o que significa que eu não falei com os meus pais até aos oito anos...” Sentido de humor e simpatia irresistíveis.

O eclectismo de Manguel não se limita à geografia e à linguística. Eterno leitor de Homero ou Dante, adora novelas policiais e ficção científica e não alinha nas modas nem nos cânones estabelecidos. “Há grandes obras, que reconheço que são grandes obras, mas que a mim não me interessam.”

Gosta muito de ler na cama e está “sempre a ler”. Todos os dias, antes de tomar o pequeno almoço, lê um canto de "A Divina Comédia" (“é o meu yoga”). Fala dos 40 mil livros que compõem a sua imponente biblioteca, instalada numa ruína medieval restaurada, como se de 40 mil filhos se tratasse (ele próprio tem três, já crescidos).

O ebook, explicou ainda, não é mais do que “uma tábua de argila com mais memória”, acrescentando que – cúmulo da ironia –, depois de termos abandonado os rolos de pergaminho para adoptar o codex com as suas páginas encadernadas, muito mais prático de ler, voltamos... a fazer scroll às páginas nos ecrãs de computador...


Não usa telemóvel, nem Internet, não tem email. Não os acha úteis. Os amigos ofereceram-lhe um site pessoal nos seus 60 anos (alberto.manguel.com), que “ao que parece, funciona muito bem”. No fundo, a Internet é como uma grande biblioteca – e ele já tem a dele.

ENTREVISTA

A sua obra está praticamente toda ela dedicada ao lado maravilhoso da leitura, do acto de ler. A sua paixão pela leitura vem de onde? Nasce-se leitor ou uma pessoa torna-se leitora?
Penso que somos animais leitores. Vimos ao mundo com uma certa consciência de nós próprios e do que nos rodeia e temos a impressão de que tudo nos conta histórias: a paisagem, o rosto dos outros, o céu, em tudo encontramos linguagem. Tentamos desentranhá-la, tentamos lê-la. Nesse sentido, não podemos existir enquanto seres humanos sem a leitura. Inventámos a linguagem escrita, a linguagem oral, para tentarmos comunicar essa experiência do mundo, para nos contarmos histórias e através delas, falar dessa experiência.
No meu caso, o conhecimento do mundo passou sempre pelos livros. Tive uma infância um pouco particular: o facto de o meu pai pertencer ao corpo diplomático fez com que viajássemos muito e que eu não tivesse nenhum sitio onde me sentisse em casa. A minha casa estava nos livros. Regressar à noite aos livros que conhecia, abri-los e constatar com imenso alívio que o mesmo conto continuava na mesma página, com a mesma ilustração, dava-me uma certa segurança e um certo sentido do lar.

Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.

Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?

O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.

É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.

Estamos a ler de forma diferente?
Penso que o que está a acontecer, como acontece em tempos de crise, não é o facto de termos passado a ler de forma diferente, mas de estarmos a tornar-nos mais conscientes do que significa ler, ser leitor, do que é a literatura. Estamos a interrogar-nos sobre essa actividade simplesmente porque ela está ameaçada. Antes de o urso polar entrar na lista das espécies em perigo, ninguém falava dos ursos polares – não era um tema de conversa corrente [ri-se]. Surgiu porque os ursos polares estão em perigo. É porque os leitores sentem um perigo que começaram a reflectir sobre o que significa o acto de ler.

Alguém disse que quando ganhámos o elevador, perdemos as escadas [ri-se]. O que perdemos quando passamos do livro em papel para o ebook?
Eu não prescindiria do elevador nem das escadas. Se eu tivesse de passar seis meses no Pólo Norte, dava-me muito jeito levar um livro electrónico – se houvesse baterias que durassem seis meses. O problema não está na invenção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são promovidos por razões puramente económicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.
A indústria faz constantemente isso e é o que está a acontecer com os livros. Existe actualmente nos Estados Unidos um movimento para acabar com os livros em papel nas bibliotecas das universidades. São tontices: o problema não tem a ver com a electrónica nem com o livro impresso, tem a ver com um comerciante ganancioso que quer vender computadores.

Mas o editores não querem vender computadores, têm medo deste fenómeno.
Têm medo, mas cada vez mais, os contratos de edição incluem os direitos para o ebook. Não acho que isso seja um problema. Paulo Coelho, que não é uma pessoa conhecida pelas suas ideias filantrópicas, colocou todos os seus livros na Internet porque percebeu que as pessoas que liam os livros em formato electrónico iam a seguir comprar o verdadeiro livro.
O livro electrónico é mais uma forma de ler e tudo depende de como queremos ler. Se quiser apenas ler um texto, conhecer um texto, tanto me faz que seja num ecrã ou num livro electrónico. Mas se quiser ler como costumo ler – eu, Alberto Manguel –, fazendo anotações nas margens, passando da página 74 para a página 32 para depois ir espreitar a página 3, não posso fazer isso com um livro electrónico – ou talvez possa, mas é mais complicado. A mim o ebook não me é útil – mas percebo perfeitamente que o seja para outros.

Gostemos ou não, o futuro não será electrónico na mesma?
O futuro não – o presente. O futuro, esse, não sei como vai ser. O meu filho utiliza hoje a electrónica para tudo, para ouvir música, para falar ao telefone, para ler, para comprar bilhetes de avião – tudo passa pela electrónica. Mas também lê livros, também ouve CD de música e discos de vinil. Estamos num presente cuja tecnologia é electrónica – é absurdo negá-lo. Mas daqui a 10 ou 20 anos, vamos dizer: “Ainda usas um computador? Não tens um pffttt?” (não sei que nome iremos dar a tecnologia que virá a seguir).
Estamos a mudar de objectos quotidianos a um ritmo impressionante. Mas nada disso me assusta, faz parte da nossa realidade. O que me assusta é a nossa utilização desses instrumentos e a falta de liberdade com a que os utilizamos. Estamos a transformar-nos cada vez mais em meros consumidores. É essencial reflectirmos sobre isso, porque estamos a perder uma liberdade que define a nossa condição humana.
É muito importante sabermos por que usamos uma coisa. Eu não uso telemóvel, não uso a Internet, não tenho email, mas é uma escolha, não é uma resistência contra algo que me poderia servir. A mim, essas coisas não me servem. Percebo perfeitamente que um cirurgião, que pode ser chamado de urgência, precise do telemóvel, mas a ideia dessa presença constante, dessa comunicação constante, dessa urgência constante, é totalmente falsa. E nos aceitámo-la – mas espero que consigamos reagir. Já chega, já brincámos com todos esses brinquedos e agora vamos pensar um pouco para saber se realmente precisamos deles.

A Internet permite associar ideias, inclusive literárias, quase como se fosse por acaso. Não pensa que isso pode expandir a imaginação?
Essa é precisamente a forma como usamos uma biblioteca. Há mesmo uma biblioteca – que para mim é o arquétipo das bibliotecas –, que é a de Aby Warburg [historiador, 1866-1929]. Foi instalada em Hamburgo em inícios do século XX e é uma biblioteca “associativa” no sentido em que Warburg colocava os livros na ordem em que ele os associava. Ele desenvolveu, por exemplo, uma “lei do leitor”, e em particular uma “lei do bom vizinho”, segundo a qual a informação de que estamos a procura se encontra sempre no livro ao lado daquele que tirámos para consulta [ri-se]. A leitura é uma actividade associativa, sempre foi. Procuramos uma informação, lemos um livro e ao lado desse livro há outro e é assim que construímos as nossas bibliotecas e as nossas cronologias.
O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não significa que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que fazemos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma actividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação.
Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam às bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem de informação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aquilo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comentá-lo, associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo, memorizá-lo –, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.

Isso não é mais a culpa da escola do que da Internet?
A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.
Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível. Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.

Você é um leitor que escreve livros? É mais leitor do que escritor? Não devia, pelo contrário, ser mais escritor do que leitor, depois tantos livros escritos?
Eu comecei por ser leitor. No queria escrever. Depois, tornei-me um leitor que escrevia livros. Mas quando comecei a escrever ficção – um romance intitulado Notícias del Extranjero [que vai em breve ser editado em Portugal pela Teorema sob o título Novas chegaram de outro país] –, a situação mudou. É que, para escrever ficção – embora continuemos a escrever com esse fundo que acumulámos como leitor, com a visão do mundo que nos dão as nossas leituras – e criar um mundo fictício, temos de nos retirar da nossa biblioteca e passar a trabalhar sozinhos.
Não podemos escrever romances a partir de outros romances, porque acabaríamos por parodiar os romances que nos inspiraram. Enquanto o escritor de ensaios trabalha a partir de informação recebida e de uma reflexão acerca dessa informação, o escritor de ficção tem de estar só, num espaço em que se torne possível inventar o mundo praticamente de raiz – as personagens, o espaço, a história. No início, essa ideia metia-me muito medo; agora, é o que mais gosto de fazer.
Acho que a ficção é um instrumento excelente para dar forma a certas perguntas. O ensaio é útil, claro, mas é por vezes demasiado preciso. A ficção permite uma ambiguidade que pode ser mais útil para determinadas perguntas muito complexas. Por exemplo, o tema que me persegue desde o início é a relação entre verdade e ficção, mentira e ficção, mentira e verdade.
Um dia percebi que, desde as minhas primeiras leituras, o que me interessava era saber como distinguimos uma experiência que nos traduz o mundo de uma experiência que atraiçoa o mundo. Como distinguimos a ficção da mentira, a ficção da verdade? Não penso que nos seja possível termos uma visão verdadeira, total, do mundo. Acho que podemos ter acesso a um certo ponto de vista – e é esse ponto de vista que vai sendo definido através das histórias que contamos.

E isso tem a ver com a escrita ficcional?
Sim. Quando temos uma experiência do mundo, o nosso impulso é transpô-la em palavras para a perceber. Por vezes, encontramos nos escritos que lemos as palavras que nos parecem justas. Mas, doutras vezes, queremos ser nós próprios a nomear essa experiência. O problema é que, ao mesmo tempo, sabemos que a linguagem é imprecisa, que nunca chega para definir sequer as coisas mais simples. Então recorremos não apenas à linguagem, mas também à história que contamos através da linguagem. E assim, através dessa experiência que inventamos, criamos uma espécie de espelho da experiência que queremos contar.
Por exemplo, todos temos medo do desconhecido. Temos medo do que pode ser falso, da aparência das coisas. Mas como explicar esse medo? Inventando o conto do Capuchinho Vermelho. Dessa forma, sem necessariamente nomear esse medo, o conto transmite-no-lo através de uma experiência que sabemos ser fictícia, mas que no entanto conseguimos viver através da linguagem.

O seu amor pelas bibliotecas vem de onde? Da sua juventude, quando lia para Borges (que era uma espécie de biblioteca ambulante e anotada), da biblioteca da casa do seu pai em Buenos Aires, onde se escondia para ler?

Não. A minha relação começou quando tinha três, quatro anos. Por um lado, é uma relação fetichista – o objecto-livro apaixona-me – e por outro, é uma relação de conhecimento. O conhecimento do mundo vem-me, em primeiro lugar, dos livros.
Para Borges, o conhecimento do mundo também passava pelos livros, mas ele não tinha qualquer relação fetichista com os livros. Não estava interessado de todo em guardar livros – oferecia-os, tinha poucos livros. Eu ofereço muitos livros, mas compro livros para os oferecer. Por vezes, ofereço livros da minha biblioteca – mas o que nunca faço é emprestar livros, porque isso é um apelo ao roubo.

Disse que quando de leitor passou a escritor, teve de sair da sua biblioteca.
Não é bem isso, uma vez que escrevo na minha biblioteca. Há uma secção, com dois andares, onde também há livros, mas onde tenho o meu escritório, com os meus objectos dispostos de uma certa maneira. Sou muito picuinhas nesse sentido.
O que quis dizer é que, quando escrevo, preciso de esquecer-me daquilo que li. Posso ler certos livros; há autores que não me contagiam. Mas há outros que não posso ler de forma alguma – Borges, Calvino, Chesterton – porque são como aquelas melodias que nos ficam na cabeça e que passamos o dia a cantarolar. Tento ler textos mais neutros.

Mais distantes dos temas sobre os quais está a escrever?
Não necessariamente, apenas os que têm uma voz menos imponente. Há grandes escritores cuja voz é muito mais suave. Autores como Conrad, por exemplo, de quem gosto muito, ou Bioy Casares, cuja voz não é contagiosa.

A sua biblioteca parece ela própria como uma personagem de romance: imponente, secreta, maravilhosa. Contém 40 mil livros e está instalada num presbitério.
Sim. O presbitério, que era a casa do padre, está colado à igreja [da aldeia]. E tem um enorme jardim, onde havia um estábulo de pedra que tinha sido demolido há três séculos. Nós reconstruímo-lo e foi aí que instalei a biblioteca.

É caótica ou organizada?
É muito organizada. Sei exactamente onde está cada livro. A ordem principal é a da língua em que o livro foi escrito. Há uma secção de inglês, de castelhano, de italiano.... E dentro dessa ordem, a ordem alfabética. Mas depois há muitas excepções, com secções sobre a Bíblia, sobre mitologia, lendas do Judeu Errante, cozinha, romances policiais...

Não sente frustração quando pensa que há jóias literárias que lhe passam ao lado?
Não. Quando era adolescente, angustiava-me pensar que nunca iria poder ter nem ler todos os livros que queria. Mas essa angústia passa-nos e transforma-se numa espécie de alívio [ri-se]. É óbvio que não vou ler tudo o que é publicado, é óbvio que nem vou ter conhecimento de tudo aquilo que é publicado. Aliás, prefiro concentrar-me em certos livros.
O tipo de leitura que pratico agora, nesta idade – embora continue a ler algumas coisas novas – é a releitura. Por exemplo, há já mais de dois anos que leio um canto de Dante todas as manhãs, antes de tomar o pequeno almoço [ri-se] – com um comentário diferente, tomando notas. Já completei esse percurso umas dez vezes. É um tipo de leitura que faço por prazer – e que me parece infinito. Nunca vou conseguir saber o suficiente acerca da "Divina Comédia", mas felizmente, já não tenho aquela angústia. É como pensar em sítios que nunca visitarei, pessoas que nunca conhecerei. Que alívio! [ri-se]

Lê sobretudo ficção, ou também não ficção?
Leio principalmente ensaios – porque escrevo ensaios e portanto certos temas me interessam em particular. Também leio ficção, mas acho que, aí, preciso de uma certa distância cronológica, de sentir-me numa geração muito posterior ao texto. É-me difícil ler os meus contemporâneos. Há alguns autores actuais de quem gosto muito – entre os argentinos, Eduardo Berti, Edgardo Cozarinsky; em França, Pascal Quignard, Jean Echenoz; na Alemanha, Daniel Kehlmann; entre os americanos Cynthia Ozick (gosto mesmo muito dela), Richard Ford.
Mas não gosto de nenhum escritor daquela geração [norte-americana] de [Jonathan] Franzen, [Dave] Eggers. Parecem-me todos saídos da mesma máquina, com romancezitos bem montados que soam modernos e que toda a gente terá esquecido daqui a 10 ou 20 anos.

E os romances policiais, a ficção científica?
Gosto imenso. A ficção científica – e eu diria que o romance policial também – já não são os romances de género que foram no passado. Os escritores que acabei de nomear escrevem romances policiais; [Margaret] Atwood escreve ficção científica, Doris Lessing também.

Há umas gerações uma pessoa não erudita, mas culta, tinha a obrigação de ter lido certos livros. Hoje, essa ideia parece ter sido esquecida.

A questão é que deixámos cair a noção de “ser culto”. Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa pode perfeitamente admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas hoje é realmente espantoso ver o número de pessoas adultas que jogam jogos totalmente imbecis.

Há leitores que só querem ler coisas novas.
Mas essa é a tal política do supermercado. Não vamos ao supermercado comprar um produto do ano passado, mas coisas que ainda não passaram do prazo. É o mesmo com os livros: agora, têm um prazo de caducidade. Passadas três semanas, o que não foi vendido desaparece. É uma política muito perigosa.

Mas ler os clássicos na escola continua a fazer sentido. “Os Lusíadas” de Camões, por exemplo.

Claro que continua. Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram cem gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores – e muita gente – não o reconheçam. 
As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Querem aprender a pensar. Na Idade Média, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma.
Se me confiarem uma turma de crianças, comprometo-me a fazer com que elas leiam Camões com muitíssimo entusiasmo. É preciso dizer-lhes que são inteligentes e que vão conseguir ler essa obra. As crianças adoram palavras complicadas, termos difíceis, histórias onde não se percebe tudo. Mas a indústria não quer isso, quer tornar as coisas mais simples – e então fazem resumos, simplificam, publicam coisas idiotas para crianças e acabam por não publicar nada. Apenas jogos de vídeo.
A nova geração continua a ter gosto pela leitura. Para o ser humano, o instinto de sobrevivência não se resume à necessidade de comer e beber; também inclui a necessidade de pensar. E isso é verdade seja onde for – aconteceu nos campos de concentração, acontece nas favelas mais pobres, acontece nas situações mais extremas. Continuamos a pensar, a criar, a interrogarmo-nos. E temos de lutar por isso. Não somos cegos; podemos dizer que não.

Diz que se sente mais canadiano do que outra coisa. Porquê?
Ser canadiano foi uma escolha. Cheguei ao Canadá sem saber o que era o Canadá. Fui lá porque, por uma série de acasos, um dos meu livros foi publicado lá e teve muito êxito. Podia ter sido na China. Ora, no fundo, eu nunca tinha realmente vivido numa democracia. E de repente, cheguei a um país onde votar tinha significado, onde a voz de um indivíduo na sociedade tinha significado, onde existia uma responsabilidade cívica. Queria pertencer a esse país!
Para mais, cheguei lá em finais dos anos 1970, inícios dos anos 1980, no meio de um verdadeiro boom cultural. Queriam criar uma cultura canadiana, que até lá tinha sido simplesmente inglesa, britânica ou americana. Por isso, se uma pessoa quisesse montar uma peça de teatro, fazer um filme, escrever um livro, não havia qualquer problema. Foi assim que, eu, um estrangeiro, comecei a fazer rádio, televisão, todo o tipo de coisas. Isso nunca me tinha acontecido nem nunca me aconteceu depois em mais sítio algum.
Não acredito nas nacionalidades impostas. O facto de nascer num sítio é um puro acaso, não define nada. Enfim, se nos criarmos lá, se estudarmos lá, então sim. No meu caso, a Argentina foi importante por causa de minha educação secundária. Fui aluno do Colégio Nacional de Buenos Aires [liceu que depende da Universidade de Buenos Aires] e isso definiu-me. É uma parte de mim próprio que aceito. Mas o Canadá foi uma escolha. Por isso, continuo a declarar-me canadiano – apesar de haver lá agora um governo de direita imundo.

A leitura e a escrita vão desaparecer? Há quem pense que vamos regressar a uma espécie de tradição oral high-tech graças a computadores capazes de comunicar através da fala.
A tradição oral não tem nada de mau. O problema é quando a tradição não é oral, mas feita apenas de conversas que nunca chegam a ter lugar. Já eliminámos até os locais onde conversar. Ainda há alguns cafés, mas todos têm televisão, música. E mesmo esses estão a desaparecer.
Nós também iremos provavelmente desaparecer. Mas se sobrevivermos como seres humanos – o que não é seguro – fá-lo-emos com a linguagem escrita, com a linguagem falada e com a linguagem lida. Vamos sobreviver com os nossos livros. Se desaparecermos, os livros também desaparecerão. E no fundo, isso talvez seja uma coisa óptima para o planeta – para as árvores, para as formigas, para os ursos polares...


Cortesia de O Público

Angusti Folia é a nova obra poética de Filipe de Fiúza

O poeta Filipe de Fiúza lança a sua segunda obra poética Angusti Folia - Versus Diarium.

Angusti Folia – Versus Diarium aparece na sequência da poesia diária do autor. O texto anda em volta de um diálogo de mundividências poéticas entre duas personagens incógnitas que se desconhecem mas encontram numa contextualização surrealmente romântica.

(...)
E és tu porque sabes ser-me
Assassinando tranquilamente o estro de bem
Ainda aí estás na ilusão esperável do depois
(...)


Entre a angústia da loucura e a folia da lucidez, no entremeio do exercício poético das palavras, são reveladas respostas do sonho, da vida e da existência de ambas as personagens. O sentido essencial do texto é a arte subtil das coisas porque é ela que origina a fuga das coisas para os acontecimentos do tempo e porque é afinal sempre possível a descoberta íntima do que são.

Obra de Ferreira Gullar publicada pela Babel

A obra do poeta brasileiro Ferreira Gullar, distinguido com o Prémio Camões 2010, será publicada em Portugal pela Babel, anunciou o grupo editorial em comunicado. O projecto de edição da obra de Gullar terá início já este mês, com Poema Sujo, escrito em 1975, durante a ditadura militar no Brasil, quando o autor estava exilado em Buenos Aires, e publicado no ano seguinte pela editora Civilização Brasileira.

Com publicação simultânea no Brasil, pela editora José Olympio, segue-se, em Setembro, um novo livro de poemas do autor, intitulado Em Alguma Parte Alguma - o primeiro deste género literário desde Muitas Vozes, de 1999. Cidades Inventadas, uma compilação de ficções escritas ao longo de várias décadas, originalmente publicada em 1997, e o livro de memórias Rabo de Foguete - Os Anos do Exílio serão igualmente dados à estampa ainda este ano.

Em 2011, a Babel prevê editar outros títulos do autor, não só de poesia, como também de literatura infantil, ensaio e ficção.

Cortesia de DN

Palavras de José Régio na abertura do novo espectáculo «Fado, História de Um Povo» de Filipe La Féria

"O fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro." As palavras do poeta José Régio ouvem-se logo na abertura de Fado, História de Um Povo, o novo espectáculo de Filipe La Féria que se estreia na próxima sexta-feira, dia 9, no Casino Estoril.

Este era um sonho antigo de La Féria. "Quando me convidaram a fazer o Passa por Mim no Rossio, o que eu queria era fazer a história do fado, não era a história da revista", contou ontem, em conferência de imprensa. A oportunidade surgiu agora com o convite de Mário Assis Ferreira, administrador da Estoril Sol, para criar um espectáculo "genuíno" para o Salão Preto e Prata do Casino Estoril. O resultado é uma "megaprodução imprópria para tempos de crise", como é costume em La Féria, mas que, promete, será "bastante diferente" das anteriores produções.

A história do fado será contada cronologicamente - desde o regresso da corte portuguesa do Brasil, trazendo a influência da modinha e do lundum, passando pela lenda da Severa, pelas casas de fado, pelo 25 de Abril, até aos nossos dias. E haverá também quadros dedicados a "algumas figuras extraordinárias", como Amália, Hermínia Silva, Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha e outros. Há outros quadros mais simbólicos, como aquele que é dedicado ao "anjo da morte" e a toda a melancolia que está associada ao fado. E isto tudo em menos de uma hora e meia.

"Quis fazer um espectáculo que falasse de Portugal e da alma portuguesa", diz La Féria. Porque o fado se confunde com a história do povo português. Mas deixa o aviso: "Não será um espectáculo revivalista nem será uma sucessão de fados. É um musical, com músicas originais, algumas das quais da minha autoria. As pessoas não podem vir à espera de ouvir os fados conhecidos. Haverá alguns fados incontornáveis e haverá homenagens, mas não haverá imitações", garante.

Henrique Feist, um dos intérpretes principais, a par de Alexandra e Gonçalo Salgueiro, revela que a história do fado será contada "de forma artística e não documental". E cita uma das letras escritas por La Féria: "Quantas vezes morreste Portugal, quantas vezes voltaste a nascer." "É isto mesmo, mais do que a história do fado, este é um retrato de Portugal", diz.

Num Salão Preto e Prata mais "austero" do que é costume e com uma plateia que reduz o número de mesas para jantar, sobem ao palco 80 intérpretes: bailarinos, orquestra conduzida por Mário Rui e um grupo de actores e cantores, entre os quais Liana, Gonçalo Salgueiro, Sofia Cruz e Inês Santos. Até quando? Mário Assis Ferreira antevê o sucesso e garante que o casino vai cantar o fado "no mínimo" durante um ano.

Cortesia de DNArtes

E não te esqueças, meu coração

E não te esqueças, meu coração,
que as coisas humanas apenas
mudanças incertas são.

Arquíloco (séc. VIII A.C.)

Filme «Bright Star» sobre a vida do poeta John Keats



Em alguns dos melhores filmes da neozelandesa Jane Campion, a arte é mais do que uma forma de expressão, é a forma como personagens transpõem barreiras físicas ou emocionais.

No mais recente filme da diretora, "Brilho de uma Paixão", está o poeta inglês do século 19 John Keats (Ben Whishaw, de "O Perfume"), o último dos românticos, que morreu jovem, aos 25 anos e teve um único amor na vida, Fanny Brawne (Abbie Cornish, de "Um Bom Ano").

Um amor tão poético quanto etéreo e platônico. Seria muito fácil transformar a história do casal num amontoado de clichês, com um poeta romântico morrendo no final sem que a paixão realmente se consumasse.

Em "Brilho de uma Paixão", que estreia nesta sexta-feira, o talento de Jane Campion permite-lhe evitar as armadilhas do lugar comum e transforma a história de Keats e Fanny numa elegia ao amor e à poesia.

Nos trabalhos anteriores, como em "O Piano", que levou a Palma de Ouro em Cannes em 1993, a relação de uma mulher muda (Holly Hunter) com o seu instrumento é a sua forma de se comunicar com o mundo. Em "Um Anjo em Minha Mesa" (1990), a protagonista Janet Frame (Kerry Fox) encontra a salvação para seus problemas mentais na literatura e se torna uma das maiores escritoras da Nova Zelândia.

A primeira coisa que a cineasta fez foi varrer a poeira do tempo que costuma pesar sobre filmes de época. A segunda foi baixar o tom declamatório e meloso comum a tantos filmes românticos e criar um drama delicado sobre duas almas gêmeas à frente de seu tempo que foram felizes enquanto puderam.

Fanny é a filha da senhoria da casa onde mora Keats. Os dois vivem um romance por três anos, no qual a poesia dele tem um papel central.

É a arte, novamente, expressando sentimentos e estabelecendo a comunicação entre personagens. "Confesso que não acho seus poemas fáceis", diz ela.

"Um poema deve ser compreendido pelos sentidos", explica ele. Talvez seja essa mesma percepção que se aplica a "Brilho de uma Paixão", cujo título original "Bright Star" ('estrela cintilante') vem de um dos mais famosos poemas de Keats.

"Brilho de uma Paixão" é uma festa para os olhos com a fotografia de Greig Fraser, que tem em seus créditos o segmento dirigido por Jane Campion na obra coletiva "Cada um com seu Cinema".

BELEZA DE IMAGENS; BELEZA VERBAL

A trilha sonora é minimalista e assinada por Mark Bradshaw, composta de poucos acordes que nunca são invasivos, mas refletem o que parece estar acontecendo dentro da cabeça dos personagens. A diretora busca uma beleza de imagens que corresponda à beleza verbal da obra do poeta.

Keats parece estar em busca de uma musa que não apenas inspire os seus poemas, mas também os leia, compreenda e discuta. Aos poucos, Fanny é capaz de assumir essa posição.

Os dois nunca sabem, na verdade, o que fazer com o desejo carnal, que parecem sublimar em suas artes. Ela gosta de costurar, mas não apenas vestidinhos ou roupinhas simples. Fanny é o que hoje em dia se chamaria de estilista. Ela cria, obedecendo a uma necessidade de expressão muito grande presa dentro de si numa época muito conservadora.

O relacionamento entre Fanny e Keats poderia ser menos complicado não houvesse entre eles Brown (Paul Schneider, de "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford"). Melhor amigo de Keats, ele se preocupa com a obra do poeta e teme que o outro esteja desperdiçando sua genialidade com uma paixão fadada ao fracasso. O conflito entre Fanny e Brown, que também é poeta, tem ao centro as atenções de Keats.

Keats não pode se casar com Fanny porque não tem dinheiro. Por isso, seu amor é sublimado nas cartas e poemas - que, junto com uma biografia do poeta, escrita por Andrew Motion, serviram de base para o roteiro, assinado pela diretora. A paixão entre os dois poderia explodir, não fossem as amarras das convenções sociais da época.

Campion filma a história com um ritmo de tempo presente, não com um olhar do nosso presente observando o passado. Os movimentos de câmera, closes e outras imagens são um sopro de ar fresco sobre o peso do tempo que poderia cair numa história de um amor tão singelo como o de Fanny e Keats.

O que pudesse ser o empecilho para o filme - mostrar um poema sendo escrito - se torna a forma que Keats, como personagem, encontra para transpor as barreiras que limitam a sua vida, a sua paixão. Durante os créditos finais, enquanto são recitados alguns dos versos mais famosos do poeta, é fácil compreender o que seduziu a diretora a contar a sua história de amor.

Cortesia de O Globo

Lembrar Guerra Junqueiro 160 anos depois do seu nascimento

A Universidade Católica (UC), no Porto, através da Escola de Artes, apresentou um novo testemunho assente na vida e obra do poeta Guerra Junqueiro. O autor de a “Velhice do padre eterno” está agora imortalizado em “À volta de Junqueiro: vida, obra, pensamento”.

O trabalho conta com testemunhos escritos por 28 figuras da sociedade portuguesa, entre as quais se destacam Mário Soares, Manuel Clemente, Eduardo Lourenço e Nuno Júdice, entre outros. O trabalho de investigação assume-se ?como um retrato daquele que é considerado o poeta da República?, abordando as suas múltiplas facetas ? pensador, político ou coleccionador de arte. A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do projecto ?Revisitar/Descobrir Guerra Junqueiro?, coordenado por Henrique Manuel Pereira da UC. O livro ?contém declarações inéditas, assumindo-se como um raro momento de reflexão interdisciplinar e intergeracional?

Numa altura em que se assinala o 160º aniversário do nascimento do autor, e em paralelo ao centenário da República, a UC apostou, em parceria com o município de Freixo de Espada à Cinta ? onde o autor nasceu, a 17 de Setembro ?, numa série de iniciativas em homenagem a Guerra Junqueiro, considerado, pelos estudiosos, um dos mais polémicos e relevantes poetas da literatura portuguesa.

No entanto, o trabalho de investigação não fica só pela componente literária, já que a UC lançou uma obra fonográfica em duplo CD. A par do disco, está a ser preparado um documentário e uma fotobiografia do escritor.

Segundo Henrique Manuel Pereira, este trabalho pretende tratar Guerra Junqueiro na pluralidade do seu trabalho. ?Não foi preciso grande esforço para fazer emergir o grande pensador que foi o autor. Guerra Junqueiro, nos últimos 20 anos de vida, trabalhou num sistema filosófico denominado ?Unidade do Ser??, sintetizou o estudioso da UC.

Para Setembro próximo, está agendado o lançamento da obra de Guerra Junqueiro “A lágrima”.

Cortesia e JN

Vinícius de Moraes homenageado no Sesc São Gonçalo

O poeta Vinícius de Moraes será o grande homenageado em mais uma edição do evento Uma Noite Na Taverna, que reúne poesia, teatro, dança e música. O encontro acontece, nesta sexta-feira (9), no Sesc São Gonçalo.

Considerado um dos eventos culturais mais respeitados da região, Uma Noite na Taverna é comandado pelos poetas tavernistas Rodrigo Santos e Rômulo Narducci.

A reunião cultural vai apresentar os poetas convidados Pakkatto e Suzane Moares - com a performance poética Vermelho-sangue. Na dança: Camila Mira e Monique Ribeiro; na música: Gilbert T e banda, que aproveita para lançar o CD “Eu Não Vou Morrer Hoje”. No teatro: Tiago Azevedo e Andréia Bernadete com a esquete “E Por Falar em Pierrot”, de Gabriela Slovick. Direção de Sérgio Santal e produção de Carolina Dias. A artista plástica Bianca Tupinambá inaugura a exposição “Namorados”.

O evento está marcado para 19h, no Sesc São Gonçalo (Av. Presidente Kennedy, 755, Estrela do Norte). Entrada gratuita.

Cortesia de São Gonçalo Online

Caldas da Rainha: Poesia no Céu de Vidro

Amanhã, dia 10 de Julho, pelas 21h30, no Céu de Vidro, no Parque D. Carlos I vai realizar-se uma sessão cultural que inclui poesia nacional pelo Grupo de Canto Sénior e ainda a actuação do Grupo Musical da Casa de Pessoal do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha.

Trata-se de uma iniciativa do o Centro Hospitalar Oeste Norte, do Museu do Hospital e das Caldas e de José Correia, antigo professor de dança da Casa da Cultura. As entradas são gratuitas.

Cortesia de Gazeta das Caldas

Poetas do Mundo - Mario Benedetti

POEMAS


Nuevo canal interoceánico

Te propongo construir
un nuevo canal
sin exclusas
ni excusas
que comunique por fin
tu mirada
atlántica
con mi natural pacífico.


Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


Botella Al Mar

El mar es un azar
Vicente Huidobro



Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.


Desganas

Si cuarenta mil niños sucumben diariamente
en el purgatorio del hambre y de la sed
si la tortura de los pobres cuerpos
envilece una a una a las almas
y si el poder se ufana de sus cuarentenas
o si los pobres de solemnidad
son cada vez menos solemnes y más pobres
ya es bastante grave
que un solo hombre
o una sola mujer
contemplen distraídos el horizonte neutro

pero en cambio es atroz
sencillamente atroz
si es la humanidad la que se encoge de hombros.


TRANSGRESIONES

Todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones
por ejemplo inventar el buen
amor
aprender
en los cuerpos y en tu cuerpo
oír la noche y no decir
amen
trazar
cada uno el mapa de su audacia
aun que nos olvidemos
de olvidar
seguro
que el recuerdo nos olvida
obedecer a ciegas deja
cíego
crecemos
solamente en la osadía
sólo cuando transgredo alguna
orden
el futuro
se vuelve respírable
todo mandato es minucioso
y cruel
me gustan
las frugales transgresiones


TRANSGRESSÕES

Todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões
por exemplo inventar o bom
amor
aprender
nos corpos e em seu corpo
ouvir a noite e não dizer
amem
traçar
cada um o mapa de sua audácia
mesmo que nos esqueçamos
de esquecer
é certo
que a recordação nos esquece
obedecer cegamente deixa
cego
crescemos
somente na ousadia
só quando transgrido alguma
ordem
o futuro
se torna respirável
todo mandato é minucioso
e cruel
eu gosto
das frugais transgressões

Tradução: Astolfo Lima Sandy



PEQUENA BIOGRAFIA

Mario Benedetti nasceu em 1920 em Tacuarembó, Uruguai. Em 1960, com a publicação de La tregua, alcança reconhecimento internacional, com mais de uma centena de edições traduzidas em 19 idiomas e levada ao cinema, ao teatro, ao rádio e à televisão. Em 1973 teve que abandonar o seu país por razões políticas; viveu na Argentina, em Cuba, no Peru e em Espanha. A sua vasta produção literária abrange todos os géneros, incluindo famosas letras de canções. A poesia de Benedetti renova a linguagem dos sentimentos, diz com uma voz original aquilo que todos sentimos.

Mario Benedetti faleceu aos 88 anos em Montevideo, no dia 18 de Outubro de 2009


Cortesia de Um Buraco na Sombra

27º Festival de Almada: A poesia está no palco


Vinte e sete anos depois da sua criação o Festival de Almada aposta na poesia, dando à palavra o centro do palco. Entre 4 e 18 de Julho, Almada, Lisboa e o Porto recebem 30 produções que procuram responder ao primado do teatro: um actor a dizer um texto frente a um espectador.

Estão já longe os tempos do Beco dos Tanoeiros e de um festival feito por um homem que tinha começado a fazer teatro com a utópica esperança de ver os trabalhadores da Lisnave a subirem a Avenida 25 de Abril, de marmitas vazias, para se virem alimentar ao velho, e hoje antigo, Teatro de Almada. Cedo Joaquim Benite percebeu que essa defesa de um teatro capaz de mobilizar as massas era pouco condizente com as condições em que as pessoas viviam. O que se lhes dizia, e como se lhes dizia, continua a estar na base de uma pesquisa que, hoje, através de encontros, debates e colóquios, se expande por diferentes olhares, antagónicos por vezes, complementares noutras mas capaz de abrir pistas para o que está a ser mostrado, produzindo um diálogo com o que existiu e o que ainda está por vir.

Vinte e sete anos depois de um festival que começou com cinco grupos amadores com sede em Almada, estamos perante um monumento histórico e um acontecimento incontornável não apenas no calendário do teatro em Portugal mas do próprio Teatro em Portugal. Não serão precisas aspas para ter o director - o mesmo desde o início, "situação rara na Europa" - a dizê-lo por si mesmo. A história do festival conta também a história de um país que aprendeu a programar atempadamente, a trazer espectáculos de encenadores que nos habituáramos a conhecer de apelido - Strehler, Besson, Brook, Bondy, Lavaudant, entre outros - mas que Almada nos ensinou o seu primeiro nome - Giorgio, Bruno, Peter, Luc, George -, a cruzar companhias e criadores nacionais "que nunca se viam ou ouviam, e até se hostilizavam".

Joaquim Benite recorda uma frase de Jorge Silva Melo (este ano no Festival com duas peças: "Um precipício no mar", de Simon Stephens, e "Fala da Criada de Noialles...", do próprio Silva Melo, Culturgest, de 15 a 18), onde este dizia que "o festival é o sítio mais civilizado de Portugal". Benite orgulha-se de ter criado "um lugar onde se encontram diferentes linhas estéticas mas que discutem, com maturidade, sobre as suas diferenças, sem se agredirem, e de forma flexível, num nível que não é o da confrontação sectária".

Talvez esta ideia se prenda com um informalismo que faz do festival uma partilha de uma "ideia de cosmopolitismo como plano para o desenvolvimento da cultura". Benite diz que o que distingue o Festival de Almada de outros - e não se faz rogado na utilização do epíteto "um dos mais interessantes da Europa", usada por Matthias Langhoff (que regressa com "Cabaret Hamlet", dias 14 e 15, CCB) -, "é o facto de ser feito por uma companhia de teatro, não ter fins comerciais e ligar a inovação à tradição sem criar rupturas".

Cumplicidades

Este ano são 30 produções, sendo 14 estrangeiras, num total de 88 sessões divididas por 16 espaços. Vão ser apresentados espectáculos da vanguarda russa (a companhia Knam, com duas peças: "O Amor", a 8, e "Matar Shakespeare", a 10, no Fórum Romeu Correia, em Almada) e contos de tradicionais de Cuba ("Era uma vez um crocodilo verde", de Coralia Rodriguez, dia 7, Escola D. António da Costa, Almada, e dia 8 no Instituto Fraco-Português), vai haver fado coreografado ("Aldina Duarte por Olga Roriz", a 9, 10, 16 e 17, no S. Luiz, Lisboa) e muitos corpos nus vindos do Canadá ("Um pouco de ternura, bordel de merda", de Dave St Pierre, a 13, no palco da António da Costa).

E depois aquilo a que Benite chama de "reposições", mas que são "oportunidades para ver teatro português que poucos viram". Companhias como o Ensemble ("O Avarento", a 8), o Teatro dos Aloés (que regressa à sua peça-fundadora, "Uma Lição dos Aloés", do sul-africano Athol Fugard, a 4), ambas na António da Costa, os Artistas Unidos, as encenadoras Solveig Nordlund ("La Musica", a 5 e 6, no Fórum Romeu Correia), Cristina Carvalhal ("Uma Família Portuguesa", a 10, na António da Costa), Mónica Calle [ver texto nestas páginas] ou a descoberta Daniel Gorjão ("Um dia dancei Só um dia", no Teatro Municipal de Almada, de 7 a 18), saído do projecto "Emergentes", em conjunto com o Teatro Nacional D. Maria II.

"O critério predominante são as co-produções e as estreias", diz Benite, em resposta às diferenças de tratamento entre a programação nacional e a internacional. "Claro que gostava de ter estreado mundialmente 'Ode Marítima' [ver texto nestas páginas], mas tenho que encontrar, tal como o Festival de Avignon faz, o equivalente à 'Ode Marítima' em Portugal".

"A nossa participação é muito reduzida, mas há uma vontade das companhias de se apresentarem aqui, e essa é outra das características do festival", diz o seu director. "Defendo a ideia de que a economia não se reduz aos números e os rsultados estão à vista. Surgem de encontros a partir dos pequenos pontos de contacto que são aproveitados em resultados de produção".

Nesse sentido, quando questionado sobre as redes que hoje fazem o essencial dos festivais e dos calendários de programação, diz que "ao contrário de outros festivais, as parcerias em Almada não são burocráticas nem impostas, mas nasceram de cumplicidades e amizades. Estas sinergias não se estabelecem por decreto", assume.

Contas feitas, e fornecidas pelo festival, são 575 mil euros que se dividem assim: 34 por cento do Ministério da Cultura, através da Direcção-Geral das Artes, o mesmo valor da Câmara Municipal de Almada, 24 por cento de patrocinadores e parcerias, e 8 por cento de receitas próprias.

Benite diz ainda que 65 por cento das verbas são gastas nos espectáculos - na sua compra e produção - e o restante na organização e promoção. "Essas receitas próprias só o são assim [com este valor, 8 por cento] por limitações das próprias salas", diz o director. "Vendemos 600 assinaturas, mas podíamos vender o dobro se as salas tivessem mais capacidade." Porque, pelos vistos, público nunca foi um problema.

O público, diz Benite, "cria pressões". "Ao longo dos anos fomos trabalhando para um público que se foi formando no festival, tal como eu me fui formando. Muitas vezes penso que o meu gosto evoluiu como evoluiu o próprio festival". E chegou, já, a acontecer espectadores virem dizer-lhe que um ou outro espectáculo não deveria ter sido apresentado.

"Todas as pressões que existem encaro-as da mesma forma e tiro delas o melhor partido. Não acho que o festival deva criar situações de desconforto para o espectador, mas deve trabalhar para alargar a dicussão". O gosto do programador é, aqui, deixado para segundo plano. "Se programasse só o que gosto, o festival seria mais pequeno". Mas já a ética, essa, diz Benite, "cola-se não à estética, mas ao papel ético que o teatro deve ter".

Devir poético

"A transposição do real não é coisa que me interesse muito, o que me interessa é a transmissão poética. Na minha realidade interessa-me fazer e apresentar espectáculos interventivos, e que tenham preocupações de carácter geral sobre o comportamento humano, não apenas no plano político, mas em todas as suas dimensões e, em particular, nas que determinam a vida das pessoas. Não temos essa tendência moderna de fazer da inovação e da pesquisa formal o centro da pesquisa teatral", diz. "O meu problema é o da inclusão, não é o da exclusão".

É aqui que esta filosofia de vida - neste que é um projecto conduzido por um perfil pessoal "marxista" que age sobre os outros a partir do confronto ideológico -, que, este ano, "o devir poético" toma forma.

Aos 27 anos Almada procura uma linha que tem na poesia, e não tanto na palavra, uma das linhas-mestras enquanto condição "sine qua non do teatro": "O importante é que no teatro exista uma leitura poética das coisas". Este ano, e para além de "Ode Marítima", estará presente a poesia de Constatinos Kavafy ("Yourcenar/Kavafy", de Jean-Claude Feugnet, com Charlotte Rampling - a 16 no S. João, Porto, a 17 e 18 no D. Maria, Lisboa), mais Pessoa ("Um jantar muito original", de Alexandre Riener, dia 11, D. Maria), Camões ("As 10 canções de Luís de Camões", por Luís Miguel Cintra, dia 11, Fórum Romeu Correia), e a homenagem a Maria Barroso, antiga actriz e "diseuse" - "porque o Festival orgulha-se de homenagear as pessoas que são importantes para a história do teatro em Portugal e, muitas vezes injustamente, são esquecidas" -, que participa num recital, encenado pelo próprio Benite, e que inclui ainda Eunice Muñoz e Carmen Dolores (dia 10, Teatro Municipal de Almada).

"Se não houver acto poético não há teatro", insiste. "O teatro não é publicidade. É a palavra a ser dita por um actor." E cita Claude Régy, o encenador de "Ode Marítima", que diz que para o teatro poder continuar deve afastar-se o mais possível do espectáculo.

"O importante é o que se constrói com o universo com que se trabalha. A mesma matéria com que trabalha o Régy, nas mãos de outro encenador, pode ser uma grande porcaria". Essa pesquisa que, eventualmente, estará relacionada com essa dúvida do que apresentar já não aos trabalhadores da Lisnave "mas a um público que vê mais coisas" e, por isso, "exige mais", está na base de um festival que, 26 anos depois, regressa com a mesma dúvida: "como continuar a dar à palavra o lugar central do teatro".

Cortesia de O Público

Hip-Hop: Entrevista a XL, o poeta solitário

XL, o Poeta Solitário, é uma das principais figuras do Hip Hop na cidade de Leiria, contando com três registos a solo, um em parceria com o DJ Alpha, e outro como elemento do colectivo Preachers of Poetry (P.O.P), juntamente com os seus primos Preacher e Bit Killa. Anualmente faz ainda parte da organização do festival “4 Vertentes”, principal evento do Hip Hop Leiriense.

H2T – Será que podes partilhar connosco alguma informação sobre o início do movimento em Leiria?

XL - O meu primo Preacher levantou a primeira pedra do Hip Hop em Leiria em 1993, com o seu primeiro grupo chamado Killanders gravou uma faixa chamada “África Minha” para uma colectânea chamada “Nova Independência”. Em 1998, os Central Squad participaram no concurso “Projecto Vida” da Antena 3, com o José Mariño, com um tema chamado “D.R.O.G.A.”. A desagregação dos Central Squad deu origem aos actuais Código Lusitano e AfroSkuad, Steryoo associou-se ao grupo Isópanós e o Bit Killa juntou-se aos Preachers Of Poetry comigo e com o Preacher.

H2T – Nessa altura, num meio mais pequeno, não era muito fácil ter contacto com a Cultura. O que é que te fez despertar para o movimento?

XL - Foi um desafio que um vizinho meu me fez na altura. Comecei a escrever devagarinho e, quando dei por mim, já estava nas entranhas do movimento, agora já não posso voltar atrás (risos).

H2T – Poeta Solitário porquê?

XL - O Poeta Solitário é uma espécie de heterónimo, é aquele cujos poemas são interpretados do avesso, é aquele activista que vai sozinho para a luta sem esperar por ninguém.

H2T - Para além do teu percurso a solo, fazes parte da formação dos “Preachers of Poetry” juntamente com os teus primos Bit Killa e Preacher. Será que no vosso caso se pode dizer que o MCing está nos genes?

XL - Penso que sim... (risos)

H2T – O teu primeiro trabalho foi um EP com o DJ Alpha, o qual apresentaste em diversos palcos. Recordas algum deles com particular nostalgia?

XL - Recordo os palcos de Pombal, Gaia e Viseu, na tour Hip Hop Stars 2005. Actuar e conviver com os maiores nomes do Hip Hop tuga e francês deu-me a responsabilidade de escrever melhor e de me apresentar o mais profissional possível. Foi algo que me enriqueceu no meu percurso. Tenho pena de ter deixado para trás a minha participação nos dois temas que se fizeram para o “Portugal Em Chamas”, mas eu não estava disponível na altura.

H2T – A tua ligação ao Último Piso foi uma coisa temporária?

XL - O Dréz tinha se mostrado disponível para um projecto comigo, que por motivos pessoais da parte dele não chegou a ver a luz do dia, mas mantemos a amizade e o respeito.

H2T – Recentemente disponibilizaste para compra um pack dos teus últimos dois álbuns: Zona Cêntrico (2010) e Sem Preconceitos (2008). O que te fez tomar essa decisão?

XL - São os meus últimos trabalhos, anexei-os num pack porque sinto que os discos se completam.

H2T - Na faixa “Edição de Rua”, do álbum “Zona Cêntrico” afirmas que “ninguém compra rap interventivo”. Achas que o objectivo primordial do Hip Hop se está a perder?

XL - Haverá sempre o verdadeiro movimento e a outra face que não representa a sério. O objectivo primordial do Hip Hop nunca se vai perder, mas infelizmente também se faz Hip Hop absurdo. Dou mais valor a uma letra desenvolvida, pensada e repensada do que a uma letra fútil, vazia… Infelizmente a maioria das pessoas contentam-se com letras com pouco conteúdo.

H2T – Na introdução de “É Sempre Tarde Demais” declaras que o movimento cresce de dia para dia na tua cidade e no resto da Zona Centro. Quais os nomes do Hip Hop Leiriense que destacas actualmente em cada uma das quatro vertentes?

XL - A nível de MCs: Código Lusitano, AfroSkuad, Preacher, Bit Killa, Friman, Dinin, Cirudja, Dark, MDS, Browils, Mind, Dude, Barros, Xtigas, Happy, Snipez, Garras, LC, Rato, d0b, Dem P, DNT, MIC D, Proz, Rimer, Isópanós, e tens muita coisa em Pombal, Caldas, Coimbra, Aveiro e Marinha Grande, nomes como SBT2, Markez 236, Urbisom, CDR Family, Strata G, Slyser, etc... A nível de DJ e beatmaking, o Kooltuga, DJs Leat, Sasi, Sweat, etc. A nível de breakdance: Visão Perfeita, Popy, Brigada 39, 4Roots, etc. A nível de Graffiti: 2 Clowns, Toups, Corvos... Há muita oferta!

H2T – Fazes parte da organização do festival “4 Vertentes”, principal festival de Hip Hop em Leiria. Em que é que consiste habitualmente esse festival?

XL - Aproximar pessoas da nossa cultura e aproximar pessoas que praticam as 4 Vertentes da Cultura Hip Hop. Este encontro dá a conhecer os artistas da Zona Centro e de outros pontos do país e esclarece as massas sobre qual é a verdadeira mensagem e utilidade do Hip Hop.

H2T – Reparei que na 3ª edição houve algum espaço para o beatbox. Sendo assim, será que não seria mais justo dar ao festival o nome “5 Vertentes”?

XL - Isso é uma pergunta para pioneiros do Hip Hop como Afrika Bambaataa ou KRS-One no Temple Of Hip Hop. Eu sempre ouvi dizer que eram 4 (risos).

H2T - Já existem planos para uma 4ª edição do festival? Será que podes adiantar alguma data?

XL - Sim, o nosso encontro está online em myspace.com/4vertentes. Este ano será no dia 29 de Julho no Mercado de Sant'Ana em Leiria ás 21h30 e a entrada é livre.

H2T – O que é que achas que falta à Zona Centro para destronar o Algarve, o Minho ou o Alentejo, na corrida pela 3ª posição do campeonato do Hip Hop nacional?

XL – Posso-te dizer que a Zona Centro não quer destronar ninguém porque temos o nosso lugar e as nossas oportunidades, nós fazemos e sempre fizemos parte do Hip Hop nacional. Tenho amigos em todos os pontos do país e nos países da lusofonia (Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Macau, São Tomé e Príncipe e Timor) que também fazem Hip Hop tuga.

Muito obrigado ao H2T por se dedicar ao Hip Hop e por me dar a oportunidade de partilhar a minha história.

Cortesia de H2T

Fundação Eugénio de Andrade em iminente extinção

A Fundação Eugénio de Andrade é “inviável” e deverá ser extinta. Quem o defende é a direcção da própria instituição, criada em 1992, alegando “razões de ordem jurídica, financeiras e logísticas” para o seu encerramento. Em seu lugar, é proposta a criação de uma Casa da Poesia, com o nome do poeta.

Arnaldo Saraiva, presidente da fundação, disse à Lusa já ter apelado ao Governo e à Câmara Municipal do Porto para que “assumam as suas responsabilidades” no que se refere à casa e ao espólio do poeta. Perante o que afirma ser a inviabilidade da fundação, o responsável indicou que solicitou em Dezembro a sua extinção. Desde então, aguarda uma resposta da Presidência do Conselho de Ministros, tendo, entretanto, reunido já com a autarquia do Porto, proprietária do imóvel e do espólio, doado por Eugénio de Andrade à cidade do Porto.

A proposta da direcção da fundação prevê o seu encerramento e a criação da “Casa da Poesia”, com o nome de Eugénio de Andrade, mas que teria de funcionar “em condições mais favoráveis, sem sustos permanentes e sem equívocos entre o privado e o público e entre o comercial e o cultural”, disse Arnaldo Saraiva.

“Tal como existe uma Casa da Música ou uma Casa das Artes, poderia também existir uma Casa da Poesia, uma espécie de casa museu que desenvolva uma acção relacionada com Eugénio de Andrade, com a poesia portuguesa ou estrangeira e que fosse acessível a estudiosos”, sustentou.

Caso o pedido de extinção seja aceite, “caberá à câmara decidir sobre o futuro da casa. Nós já exprimimos o nosso ponto de vista, mas a autarquia ainda não se quis pronunciar”, acrescentou.

A casa, na Rua do Passeio Alegre, na zona da Foz, pertence à autarquia, que a cedeu por um período de 60 anos, e o espólio artístico e literário pertence à cidade do Porto, de acordo com o testamento do poeta.

A perda de subsídios atribuídos por diferentes instituições, ao longo dos anos, e a insolvência das distribuidoras com que a fundação trabalhou (Diglivro, ECL e Quasi) arrastaram a instituição para “uma situação financeira insustentável”. “Várias vezes recorremos a dinheiro de amigos para pagar despesas como a luz, o telefone ou a internet”, frisou Arnaldo Saraiva.

Há ainda uma questão jurídica que envolve o legatário do poeta, que reside no último andar do edifício, relacionada com o direito de edição e de outras decisões que afectam a publicação e a divulgação da obra do poeta. Há juristas que defendem que esse direito cabe ao legatário do poeta, outros apontam para os estatutos da fundação (artigo 4.º, parágrafo 3), em que está expresso o mesmo direito.

A Fundação Eugénio de Andrade está sedeada na casa onde o poeta, que faleceu em 2005, e os seus herdeiros passaram então a residir.

A proposta da extinção da instituição foi apoiada por cinco dos seis membros da direcção, apenas Miguel Moura (filho do legatário) votou contra.

Cortesia de O Público

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